de Utilidade Pública Federal - Portaria no. 3935
de Utilidade Pública Estadual (RJ) - nº2464
de Utilidade Pública Municipal (RJ) - nº3048
detentora do Prêmio Estácio de Sá 2002

 

Nelson Tolipan


Renato Rocha: Nelson Tolipan, como você se tornou radialista?

Nelson Tolipan: Foi um fato curioso. Eu fui convidado a fazer um programa chamado "Clube Juvenil Tody", na Mayrink Veiga, em 1948. Foi um grande aprendizado, porque eu ali era sonoplasta, fazia contra-regra, era radioator, fazia um pouco de tudo. Aprendi realmente muito quando garoto, na Mayrink Veiga, e pude conviver com os grandes nomes do Rádio, passavam por mim nomes que hoje estão na mitologia do Rádio: Edu da Gaita, Dorival, Haroldo Barbosa, essa gente toda eu via em ação, quer dizer, o aprendizado prático ao microfone e o convívio com esses grandes, ainda quando garoto. Dali passamos para a Rádio Nacional, então tudo isso continuou, porque nós sabemos quem estava na Rádio Nacional nesse tempo, a família Faissal, os grandes maestros, Lyrio Panicali, Radamés Gnattali, os grandes mesmo. Por exemplo, um dos ensaiadores foi Rodolfo Mayer, isso seria em 49 ou 50, ser ensaiado por Rodolfo Mayer era qualquer coisa de tremer, então veio bastante prática daí. Como mais tarde veio a carreira paralela do magistério, que eu exerci por 30 anos, e você tem, obviamente, muita afinidade do magistério com a rádio, uma coisa auxiliou a outra, durante anos.

RR: Dava aulas de que?

NT: Inglês. Dirigi o IBEU, fiz curso fora, então houve um casamento do rádio com o magistério por muito tempo. Como eu comecei no rádio especificamente com o jazz? Foi uma coisa curiosa, todo mundo detesta o rádio do vizinho: "tá muito alto", pois eu comecei com o rádio alto do vizinho. Naquele tempo havia, às 6 horas, o "Boa Noite para Você", com aquele tom majestoso da época: "Boa Noite para Você" (empostado), bem da época, era o Luís Jatobá ou Carlos Frias. Era uma crônica das seis horas, e o fundo musical era "Moonlight Serenade", com o Glenn Miller, e eu encantado com aquilo. Como o meu pai me apoiava muito, em tudo o que era manifestação artística, ele comprava os discos, e eu continuei ouvindo e fazendo a minha discoteca. E daí me encaminhei para a música americana como um todo, meu primeiro programa aqui na Rádio MEC foi: "A Música Norte Americana", e depois especificamente o "Jazz" e "As Big Bands".

RR: Em que ano foi o seu primeiro programa aqui na Rádio?

NT: Em 1985.

RR: No nosso arquivo existe uma foto antiga sua com a Geny Marcondes, acho que com o Tude de Souza, o que foi isso?

NT: Uma coisa muito importante, de muito sucesso. Eu dirigi um lugar chamado "Centro Social de Trabalho" do MEC, na Rua Paissandu, numa casa muito bonita, que pertencia aos Guinle inclusive. E eu tive uma idéia, que era promover um ciclo de palestras sobre o Rádio, uma coisa muito específica, uma palestra sobre produção, uma palestra para os operadores, e assim por diante. Foram dez palestras, Geny Marcondes fez uma das palestras, e quem dirigia a Rádio era o Fernando Tude de Souza, numa transição para o Murilo Miranda, existe uma foto também com o Murilo Miranda. Então as fotos naturalmente foram tiradas nesse período. O "Centro Social do Trabalho" lotava, gente em pé, o que mostra que hoje em dia precisamos de outros cursos assim.

RR: Antes de assumir como profissional na Rádio MEC, você já conhecia e era ouvinte da Rádio. Como era, como é que você sentia? Qual era a atmosfera da Rádio naquele tempo, qual a importância que você sentia, como era o alcance dela?

NT: Uma importância muito grande, em duas áreas: na música clássica, ela atingia o seu público da maneira que devia atingir, no mundo do jazz, é claro, nós tínhamos o Paulo Santos, e eu era ouvinte, já quando garoto vim buscar cópias de discos tiradas pelo Paulo Santos. Além disso eu tenho um outro vínculo muito querido com a Rádio, porque ainda muito jovem eu me lembro de estar sentado no Estúdio Sinfônico, muito comportadinho, escutando a Florita Tolipan cantando, irmã de meu pai, numa audição, num programa que, para minha grande felicidade, muitos anos depois, eu encontrei a gravação, que está ainda na Discoteca da Rádio. Então meus elos com a Rádio MEC são muito grandes: profissionais e afetivos.

RR: A respeito da tua estréia aqui: como era a periodicidade, a minutagem do Programa?

NT: "A Música Norte Americana" começou com duas vezes por semana, o prefixo era "Rapsody in Blue", tema que todo mundo gosta, e, como diz o próprio nome do programa, havia uma abrangência muito grande, era o jazz e muito mais. Cantores muito famosos da época, Samy Davis Jr., uma injustiçada chamada Doris Day, porque existe Doris Day inclusive que canta blues, parece mentira mas a "Namoradinha da América" não é conhecida em toda a sua extensão, ela tem gravações sérias, então era bem abrangente. Depois me foi perguntado se eu faria o jazz, eu disse que sim, e surgiu o "Momento de Jazz", o prefixo obviamente mudou, a gravação que é até hoje é de Beny Carter, e eu tinha um outro programa chamado "As Big Bands", com o prefixo de Verny Alexander, tocando alguma coisa de bem característico das Big Bands.

RR: O Paulo Santos não estava mais na casa?

NT: Havia três produtores de jazz: Maurício Quadrio, Paulo Santos e eu, nós nos revezávamos com o jazz, tínhamos os dias certos para cada um. Depois eles pararam, tanto o Maurício Quadrio quanto o Paulo Santos, e eu assumi o jazz duas vezes por semana, quando então a direção me pediu para fazer a série completa de segunda à sexta.

RR: Fala sobre a equipe, como era feito, se era você sozinho, como é que você encontrou a discoteca?

NT: A equipe era a seguinte: a produção era do Nelson Tolipan, a apresentação do Nelson Tolipan (risos) e assim por diante, tudo, a pesquisa do Nelson Tolipan. Só, evidentemente, eu não fazia a parte do operador, mas tudo o mais, e a discoteca também.

RR: Até hoje?

NT: Até hoje, é tudo trazido, porque eu sou, e acredito que a imensa maioria nessa Rádio - eu acho que é um dos fortes da Rádio - eu sou produtor e ouvinte ao mesmo tempo, adoro o que faço, e eu acho que esse é um dos fulcros da Rádio. Aqui todos me dão a impressão de gostar do que fazem, eu adoro o que faço, e inclusive peço sempre ao operador, enquanto o disco está sendo tocado, gravado, para que aumente o volume para mim, no estúdio. E noto em todos os meus colegas produtores a mesma vivacidade, o mesmo amor que eles põem no trabalho, acho que esse é um dos segredos da Rádio MEC.

RR: Depois da Música Americana, você passou a fazer?

NT: O Jazz, que começou e continua como "Momento de Jazz".

RR: "Momento de Jazz" estréia quando?

NT: Em 86, e meses depois, intercalado com "As Big Bands". Há coisa de um ano é que houve a fusão de "As Big Bands" com "Momento de Jazz", eu apresento só "Momento de Jazz", e no dia que tem o destaque para as Big Bands eu apresento: " 'Momento de Jazz', hoje destacando as Big Bands".

RR: Como é o formato do Programa?

NT: Eu dou vários formatos, porque acho que a diversidade é importantíssima, em tudo. Eu posso apresentar um só artista, um só intérprete, muitas vezes e freqüentemente dois, meia hora para cada um, às vezes o Programa é altamente variado, um pouco de tudo. Mas o importante é a oportunidade que a Rádio dá, sendo iminentemente cultural, eu posso fazer o que eu não sei se poderia em outra rádio comercial, que é falar do período da gravação. Ser didático sem o ranço didático, eu posso comentar sobre o compositor, o intérprete, essa é uma das vantagens de uma Rádio cultural e, apesar de eu ser professor, eu procuro evitar aquela idéia de uma aula, num sentido pejorativo de didatismo.

RR: Você, durante muito tempo, fazia roteiro. Você ainda faz roteiro?

NT: Eu escrevia, realmente, o Programa inteiro, e houve uma semana em que eu estava excepcionalmente atarefado. Então eu pensei: "Ora, eu sou professor há muitos anos, estou habituado a ter 30, 40 na minha frente, eu vou improvisar, eu tenho a obrigação de saber improvisar." Entrei tranqüilamente no estúdio: "Eu vou improvisar, ótimo", saí do estúdio com os dois olhos abertos, enormes, dizendo (enfático): "Não gostei! O tal do professor com 30 na frente não sou eu!" Então eu me impus a tarefa de improvisar, até encontrar o meu ponto natural. Não escrevi mais, encontrei o ponto natural, e hoje eu falo ao microfone como converso com você.

RR: Quem começou a fazer programas de jazz na Rádio foi o Paulo Santos, na década de 50. Esse programa de jazz, junto com o "Ópera Completa" e o "Música e Músicos do Brasil", são dos programas mais longevos - eu acredito que o Paulo Santos fez da década de 50 até 80 e poucos, quando ele saiu da Rádio. E você mantém a chama acesa, do discurso sobre o jazz, de jazzista. Eu queria que você fizesse uma resenha, nesses quase quinze anos de programa, das condições, da infra-estrutura da Rádio, e como você viu a evolução? Como você encontrou a Rádio em 86, as modificações que ela foi sofrendo, e como você vê a Rádio hoje?

NT: A Rádio, evidentemente, sempre foi uma Rádio cultural, feita por profissionais. Eu costumo dizer que eu tenho um hobby profissionalizado, que eu acho que é o que quase todos que trabalham aqui têm, é um hobby profissionalizado, altamente profissionalizado. Não podemos nunca nos esquecer disso: profissionalizado. E a Rádio, quando eu cheguei, tinha já, já e ainda, esse espírito de muita união, acredito que muito diferente de uma rádio iminentemente comercial. Quer dizer, havia no ar, pairando, essa idéia de união, essa simpatia de um para com o outro, a comunicação aqui dentro sempre foi muito boa, evidentemente haverá um senão ou outro, como em qualquer lugar. Mas, de uma maneira geral, a parte de comunicação sempre foi muito boa. E os que trabalham aqui diariamente, estão muito mais capacitados a desenvolver esse assunto do que eu, que tenho muita pesquisa fora, muito preparo fora, e gravo aqui. Mas o que eu sinto é isso, esse espírito perdurou praticamente até hoje, lamentavelmente nós precisaríamos de mais produtores, mais pessoal, mas isso depende de uma série de fatores que fogem à minha alçada. Mas eu acho que o todo da Rádio é muito importante, tão importante quanto o trabalho em si, e que todo é esse? É um todo que fica como substrato, que fica no ar, de união, de empenho, de amizade, essas palavras todas são muito características da Rádio MEC.

RR: Tem algum tipo de programa que você gostaria de realizar aqui na Rádio, além desses?

NT: Pouco a pouco, eu vou realizando quase tudo o que imagino, não mencionei os programas ao vivo, eu trago muitos conjuntos que tocam, já passaram por aqui, sob pena de eu esquecer alguns: Paschoal Meirelles, Vera do Canto e Mello - que não é bem de jazz, mas acabou cantando jazz - muita gente mesmo: Nico Assumpção, Osmar Milito, a Rio Jazz Orchestra, e em breve vem a de Vítor Santos. Esse é outro lado do Programa, que eu acho muito importante: valorizar o músico brasileiro. E tive aqui, também, nomes internacionais, tive Eliane Elias, tive um pianista da Sara Vaughan, tive aqui a Toxico Aquioxi, que aliás disse que a verdadeira pronúncia do seu nome é Tóxico, que não ficaria tão bem aqui, não é? Então esse lado de música ao vivo é muito importante, valorizando o músico.

Fábio Pimentel: Você, aqui na Rádio, em termos de quantidade de programação, talvez seja o que grava mais, tem um programa praticamente diário. Como é a pesquisa para fazer essa quantidade de programação?

NT: Eu acho que isso é um conjunto de dois fatores: do que está acumulado em mim, por gostar disso há muito tempo, e eu já lia sobre isso sem ter programa, não só livros como assinaturas de revistas; e a pesquisa, a velha pesquisa, constante. Então, ora eu não tenho nada preparado, venho e falo, ora eu tenho que realmente buscar uma biografia, uma data, uma pesquisa típica. Agora, como você disse: a periodicidade é forte, então você tem que estar constantemente ativo nesse sentido, usando o seu conhecimento anterior e buscando. Isso são 24 horas, muitas vezes você de pijama tem uma idéia: "Vou fazer isso!", você se levanta e não agüenta de curiosidade e vai buscar a informação.

RR: O que você acha do advento da SOARMEC?

NT: Importantíssima, como Sociedade de Amigos Ouvintes da Rádio MEC, como entidade, mas importantíssima também porque ela vai além de uma sociedade burocrática, ela é uma sociedade de empenho, de muita busca - eu acho que vocês fazem a mesma coisa das 24 horas, de pijama ou camisola, devem ter idéias, e no dia seguinte vão executá-las, ou quando for viável. Então, como Sociedade, como uma entidade, é uma maravilha, mas é visível e sensível esse empenho de vocês, essa busca de retratos históricos, livros históricos, e promover eventos, isso tudo é muito importante realmente, ela funciona.

 

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