de Utilidade Pública Federal - Portaria no. 3935
de Utilidade Pública Estadual (RJ) - nº2464
de Utilidade Pública Municipal (RJ) - nº3048
detentora do Prêmio Estácio de Sá 2002

Sergio Vasconcelos


 


Entrevista, em Maio de 1990, com Sérgio Vasconcelos, veterano radialista, que trabalhou na Rádio Sociedade e é ex-diretor das rádios Tupi, Guanabara e Nacional.

RR - Se você pensa no Roquette-Pinto, qual a primeira coisa que lhe ocorre?

SV - Emoção: um homem tão extraordinário nas suas manifestações que deixa uma memória que não morre mais. Ele era pitoresco, ele era um gênio, ele era um homem paciente, ele era um homem guerreiro - esse contraste. Quando conheci o Dr. Roquette, em 1928, se não me engano, eu era jovem demais. Eu tinha revistas de discos, que eu assinava, e bolei, no jornal O País, para fazer uma seção de "máquinas falantes", que era como chamava na ocasião, e o velho Alves de Souza, diretor do O País, ofereceu a mim e ao meu futuro cunhado, uma página do jornal, onde nós comentávamos as gravações que chegavam, porque não havia indústria de discos no Brasil; a Carmem Miranda não tinha gravado os seus discos brasileiros, nem coisa nenhuma. Então, esse negócio progrediu tanto, com a publicidade, que eu resolvi fundar uma revista com ele. Meu futuro cunhado foi levar um irmão doente pra Europa, passou um ano, e trouxe uma biblioteca sobre música comprada nos sebos do Sena, fantástica. Essa biblioteca ficou no escritório da empresa que nós fundamos. A revista era bimensal, foi um sucesso, e nós estávamos tranqüilamente enriquecendo, quando chegou a revolução de 30 e espatifou tudo. Nosso escritório era no prédio do Jornal do Brasil, que, como era governista, foi todo quebrado na ocasião e a nossa sede também. E, com isso, dois anos depois, a revista morreu, porque nós não tínhamos condições - queimou tudo: meus livros, a biblioteca, nenhuma coisa se salvou. E daí é que eu fui para a Paulo Christopher então ser gerente da loja, porque me chamaram. Fiquei nos discos e comecei a abastecer a casa daquilo que eu imaginava que seria a mercadoria melhor, e, com a convivência com aquilo e com os livros de música, eu comecei a me interessar muito por música clássica. Fiquei interessadíssimo. Lia muito, morava em Santa Teresa numa casa muito pitoresca, um silêncio de noite. Um belo dia - eu ouvia muito a Rádio Sociedade, cujo equipamento, Marcone, era de uma nitidez primorosa e aquilo com o disco resultava muito bem -, então, eu fui: "Por que não divulgar o que eu já sei sobre isso, sobre uma sinfonia de Beethoven, sobre uma ópera, sobre uma coisa qualquer de música clássica, sobre a vida desse s artistas, sobre tudo isso? Quando eu fui à Radio Sociedade, cujo o som eu sabia que era muito bom, fui ao gerente, ao Seu Mesquita, na rua da Carioca, 45 - um sobrado, aquele corredor enorme até o morro. E o Seu Mesquita: "Não, tem que falar com o Dr. Roquette". O Dr. Roquette, nessa época, estava suportando a introdução da publicidade na Rádio Sociedade, que ele amava e que ele preservava, enquanto as outras - a Rádio Clube, a Rádio Educadora - já estavam se abastardando, ele não, ele não deixava, mas a casa não estava mais se agüentava, e era dele, ele que sustentava aquilo. E o que ele resolveu, ele resolveu aturar. Até o dia em que ele ouviu o Francisco Alves cantar uma música de carnaval que se chamava "Eu quero uma Mulher bem Nua". Ele telefonou: "Seu Mesquita, diga a este moço que eu também gosto muito de mulher nua mas não digo a ninguém. Tira esse homem fora daí!" - "Mas, Dr. Roquette, é o Francisco Alves..."- " Negativo.. acabou". Isso foi uma das coisas gozadas que eu soube dele, antes de conhece-lo, porque o Mesquita me contou. Aí, eu fui falar com o Dr. Roquette. Ele usava casaco branco até os pés. Me apresentei e expliquei a ele: "Dr. Roquette eu estou habilitado a divulgar meus conhecimentos, porque eu trago os melhores discos da praça, que não são meus, são da minha loja. Basta que eu me refira à loja no fim do concerto - esses discos foram fornecidos pela Casa Paulo Coelho - basta isso, porque eu queria fazer concertos semanais de música erudita. Ele olhou pra minha cara, viu que eu era muito moço - "Bom, meu filho, se você não vai dizer bobagem, então pode ir..." Comecei a trabalhar. No fim de 1 mês, 4 concertos já realizados, ele me chamou, todo alegre, que eu tava muito bem, e como eu tinha aprendido aquilo tudo, eu disse: "Bons livros, Dr. Roquette, livros que vieram de Paris, o sebo de Paris. E depois as gravações viam em álbuns com muita literatura. Fora discos avulsos que não haviam problemas, bastava que você estivesse com a vida do compositor na mão. Gostou, tempos depois veio a Roquette Pinto, ele me chamou pra ajuda-lo.

RR - Como eram as instalações da Rádio Sociedade?

SV - Era muito interessante, porque, na frente, era um sobrado cumprido, até no morro - encostava lá no morro. Na frente estava o gerente, era o Seu Mesquita, velho ranzinza; lá dentro, estava o René Cavé, que depois passou pra Rádio Ministério da Educação. Ele era o auxiliar geral do Mesquita: era um rapazinho muito simpático. O resto da equipe tem o episódio com o médico muito engraçado. Lá ele começou a esboçar a idéia do Instituto do Cinema Educativo. Chamou Humberto Mauro e começou a pagar do bolso dele o Humberto Mauro - enquanto a gente não se transferia pra Praça da Republica, pra fundar o Instituto Nacional do Cinema Educativo. O Mauro, o auxiliar do Mauro era um operário fantástico, de uma habilidade enorme, o Iraci. Então, ele importou material, não sei como, importou um projetor de cinema, e, lá, fez as primeiras experiências dele. Nessa ocasião ele fez uma experiência de gravações, disco de metal, riscado, enfim, começou a gravar voz, foi curiosíssimo - às vezes Dr. Roquette perdia um dia inteiro naquilo. Chegou a gravar muita coisa naqueles discos de metal.

RR - Só não estou entendendo uma coisa, isso na Rádio Sociedade?

SV - Tudo lá, no sobrado da rua da Carioca. No fundo do estúdio da Rádio Sociedade, ele pôs lá o cinema dele, e fazia experiência.

RR - Como era o estúdio?
SV -Um estúdio no fim, encostado no morro, estavam lá os toaletes e o Estúdio. Nesse estúdio ele fazia as projeções dele, experimentais, já com a idéia do cinema educativo. Ele já tinha apresentado ao Capanema. Capanema, em 37, na reforma do Ministério da Educação, era o ministro, foi ele quem fez a reforma no Ministério da Educação. E convidou o Dr.Roquette, já tinham conversado, naturalmente, convidou-o para dirigir o Instituto de Cinema Educativo.

RR - E o programa Ópera Completa, como surgiu a idéia?
SV - Não era "Òpera Completa": era "Música Geral", musica clássica em geral. Cada programa era um concerto, e quando veio a "Ópera Completa", gravada, o programa se estendia por 3 horas. Uma ópera completa no ar, até hoje a MEC faz.

RR - É o programa mais antigo do rádio brasileiro.

SV - Eu acho extraordinário. Então, a ópera completa me dava um trabalho enorme. Precisava de um auxiliar, precisava de dois pratos, porque quando terminava um disco 78, entrava o outro - eram 20 discos, era uma coisa tremenda. Não era Ópera Completa, o nome, era um programa de musica erudita.

RR - Mas a primeira ópera completa foi o senhor?
SV - Foi o Rigoleto. O primeiro Rigoleto que foi gravado pelo Metropolitan em Nova Iorque.

RR - Mas a primeira transmissão de uma ópera completa foi sua ?
SV - SV - Foi o Rigoleto. O primeiro Rigoleto que foi gravado pelo Metropolitan em Nova Iorque. Quando eu passei a "Ópera Completa" no ar foi telegrama, foi carta, foi uma coisa, o programa foi um sucesso tremendo. Tinha um bom técnico. O famoso Matheus. Esse era um funcionário fac-tótum. Tudo era com o Mateus . Tem uns episódios dele, de admirar.

RR - Conte, por favor.
SV - O Dr. Roquette tinha uma casa em Petrópolis, e convidava todo mundo, os amigos dele, eu inclusive, para ir almoçar com ele, domingo. E o Matheus, numa dessas idas, com a filha dele a Beatriz - que era uma moça muito bonita na época, ainda é -, na hora de voltar com o carro, ele largou a chave na fechadura, e, pum!, bateu a porta, e aí, voltou pra casa, a pé - "Dona Beatriz, aconteceu isso, o carro ta lá, eu não posso quebrar o vidro, não posso mexer no carro." - " Não, Matheus, você vai até o Rio, buscar a chave, porque meu pai tem outra." E o Matheus desceu de trem, e, de madrugada, chegou na casa do Dr. Roquette. Que o Dr. Roquette, não desculpava nada. Não tinha isso, não. Eu, quando comecei a conviver com ele, cheguei atrasado num encontro na Avenida Rio Branco. Quando eu falei: "Dr. Roquette, o senhor me desculpe..", silencio total. Ia pro lugar que a gente tinha que ir, mas nenhuma palavra. No fim, então, ele relaxava e entrava a primeira palavra, e voltava a intimidade toda. Mas ele não desculpava. Tanto que, até hoje, sou extremamente pontual - foi com ele que aprendi. Imagina o Mateus, chegar de madrugada, aos pulos, parecia um gafanhoto, nervoso, apavorado, batendo de madrugada na casa do Dr. Roquette. "Dr. Roquette...", e nada: silêncio total. Aí, ele ouviu a voz do Dr. Roquette - "Entre..." Aí, ele entrou, 'tava aberta, não 'tava fechada, não. E olhe a beleza de frase - "O médico, quando esquece o bisturi na barriga do doente, e o banqueiro esquece a chave dentro do cofre, não merecem confiança. Não lhe conheço mais, e não lhe quero mais aqui". No dia seguinte, o Dr. Roquette tinha que ir ao laboratório, e o Mateus foi buscar o carro, voltou com o carro e, de manhã, ele tava lá. O Dr. Roquette passava pelo próprio carro dele e ia pegar um ônibus, e o Matheus ia com o carro, atrás do ônibus - essa história levou uma semana. Aí, o Mateus falou com a Beatriz, que teve um trabalho danado pra convencer o pai.

RR - A respeito da Rádio Roquette-Pinto, qual a sua participação,?
SV - Inaugurar a Rádio Roquette-Pinto, ajudando o Dr. Roquette, mediante aos 200 mil reis que ele me dava por mês. Era muito pouco, eu nem queria, mas ele fazia questão de me dar o dinheiro.

RR - Como começou?

SV - Começou com uma freqüência quase fora do dial lá 1300, 1280, se não me engano - lá onde estava a Guanabara, que era a mais afastada das estações do Rio.

RR - Mas ela estava ligada a idéia de rádio escola.

SV - Depois é que ele conseguiu fazer a rádio escola, porque o que ele queria era por no ar a rádio, para o governo do Estado se conscientizar de que tinha uma emissora. Mas, no principio, não tinha como, porque a verba não vinha e o processo não terminava. Mas ele resolveu tocar pra frente, porque dizia: "É preciso fazer. Depois é que aperfeiçoa".

RR - A respeito do Instituto Nacional de Cinema Educativo?

SV - Bom eu estava naquele sossego no meu trabalho diário da Paulo Christopher, quando me telefona Dr. Roquette, eu tava uns 4 anos na (Paulo Christopher), tava bem, tava ganhando bem, era gerente da loja, a loja tava próspera. Ele me telefona: "Meu filho, você quer ser meu secretário no Instituto de Cinema Educativo?" - eu não sabia o que era instituto de cinema, eu estava um pouco afastado. - "Dr. Roquette, o que é isso? É uma função publica?" - " É, você vai ser superintendente, pra cuidar da repartição, que eu não entendo nada de repartição...". Ele tinha sido diretor do Museu Nacional, anos e anos, mas devia ter lá um outro "Sergio", que cuidava das coisas. Então: "Dr. Roquette eu não conheço nada de serviço publico" - "Não, meu filho, eu conheço você e preciso alguém de confiança que dirija a repartição." - "Bom, Dr. Roquette, se o senhor me distingue com isso, eu não me nego, depende de quanto o Sr. vai me pagar." - "Chefe de seção é o seu salário." - "O Sr. faz uma idéia?" - "Não. Faz o seguinte: vai ao Drummond, no Ministério da Educação, que é seu amigo..." O Drummond, que era o chefe do gabinete do Capanema, não era meu amigo: era meu ouvinte, e comentava que eu fazia coisas ótimas na rádio. "Vai ao Drummond que você vai ter uma idéia de quanto é" - "Olha, Dr.Roquette, vou pensar, mas a questão é que eu ganho muito bem aqui." Naquele tempo o meu salário era $ 5.000 e o cinema educativo pagava 2800. "Eu não posso te pagar isso meu filho, mas eu preciso de você". Olha que enrascada: o que fazer com essa proposta? E era tão bom trabalhar com o Dr. Roquette! E a Rádio Jornal do Brasil, estava sendo inaugurada, e eu estava com aquela discoteca primorosa, ali da Paulo Cristopher, entregando discos para formar a discoteca da Rádio Jornal do Brasil. Mas eles se embrulhavam com os discos, não sabiam guardar direito, nada, e eu era técnico no assunto, prateleiras numeradas. Então o Dr. Peridouré, diretor da Radio Jornal do Brasil, Aníbal Freire também mandaram me chamar, e eles me propuseram então fazer a programação com discoteca, arrumar a discoteca e ser o diretor artístico da Rádio Jornal do Brasil. "Quanto é que o vocês vão me pagar?" - " Sr. Vasconcelos, $4.000, tá bem?" - "Bom, por 4.500 eu aceito". Então, $4.500 com $2.800, mudou toda a coisa, e foi o que aconteceu: eu fui pro Instituto Nacional de Cinema Educativo, montei a sede, comprei os móveis. Fiz tudo com maior carinho, como se fosse a minha casa: tinha carpete, corredores forrados, até minha mulher entrou nessa historia... Enfim, fiz ali uma casa, fiz ali um lar, para o Dr. Roquette: uma biblioteca muito bem arrumada. Fiz aquele conforto para ele. Ele chegava com prazer, cheirava, não tinha cheiro de nada, nem um cigarro no chão, nem pó nos móveis, porque eu levava aquilo como se fosse a minha casa. Foi um sucesso, e as repartições caminhavam que eram uma beleza.

RR - OSr. acompanhou a feitura de algum dos primeiros filmes do INCE, os filmes do Humberto Mauro?

SV - Acompanhei sim. Aqueles documentários.... A grande obra do Mauro foi O Descobrimento do Brasil, com música de Villa-Lobos. Aquilo foi um acontecimento - depois dali saíram as grandes suítes de Villa-Lobos, as 4 suítes do Descobrimento do Brasil, que foi a uma obra fundamental dele, muito aplaudida inclusive.

RR - E o sr. conheceu o Villa-Lobos? Ele freqüentava o INCE?
SV - Olha, antes de conhecer o Dr. Roquette, eu li Rondônia, não li toda, mas tudo que tinha de lá dentro eu sabia, porque eu tinha uma memória terrível naquela época, memória visual e memória musical - essa, então, nem se fala. Eu fui fundador da Sinfônica Brasileira. Entre aqueles vultos que eu admirava e que circulavam pelos corredores do Instituto Nacional de Cinema Educativo, a figura de Villa-Lobos foi a que mais me interessou. Como grande músico, era um homem que eu estava acabando de conhecer e que tinha sido muito amigo da minha irmã, em Nova York - porque ela ajudou muito o Villa lá, nas coisas que ele precisou fazer lá. Então, eu fui ver o que é que ele estava fazendo, ele ia freqüentemente lá. Ele levou partituras que dava pra um filme de seis horas, ele compôs música exagerada, porque a prolixidade do Villa-Lobos é um fenômeno: esse homem fez música a vida dele inteira. Se você enxugasse a obra dele, ficaria formidável. A Mindinha Villa-Lobos, que era muito minha amiga, nunca concordou com isso, mas eu sempre achei que o Wagner deveria ser encurtado, e o Villa enxugado, quer dizer, jogadas fora aquelas coisas de juventude dele, que são Prometeus, e outros bichos desses aí, que são coisas de mal gosto. Porque o Villa era torrencial, e foi torrencial na obra do Descobrimento. Havia música para o filme que não acabava nunca: ele teve que cortar tudo, porque o filme, era de uma hora e meia, duas horas. E ele usou muito o material trazido pelo dr.Roquette, com habilidade enorme nas suítes do Descobrimento do Brasil.

RR - Lembra de mais algum fato pitoresco?

SV - Um dia ele comprou dois terrenos na Barra da Tijuca, e resolveu fazer uns piqueniques lá. Levou o Mauro, de calção de banho, ele, de calção de banho, um cocar na cabeça de todos, e com os nomes - ele dava nomes indígenas a todos. E o Mauro que tocava piston, dava apenas doglinianos de boas vindas. Quando você chegava, tinha o massagista do Dr. Roquette, um homem branco feito leite. Agora, pensa bem, Mateus fininho, com aquele calção largo, balançando, o Mauro, que até na roupa de banho era relaxado, o Dr. Roquette com aquele negócio na cabeça, de roupa de banho, Beatriz com aquele negócio na cabeça, mulher bonita como o Diabo, no meio daquela gente feiosa toda e outras pessoas que ele convidava. Um dia uma senhora me encontra, amiga dele, na cidade: "Sérgio vem cá! o que que houve com o Dr. Roquette? Parece que ele tá maluco, tá tocando corneta na praia". Agora, imagine eu ter que explicar isso. Eu chamei ela no canto e disse: "Não diga isso, o Dr. Roquette é uma pessoa pitoresca, você sabe disso. Ele quer fazer seus piquiniques. Sabe o que ele dava pra a gente beber, naquele sol desgraçado? Suco de uva, pra fermentar bem. E a filha, que paixão que ele tinha pela Beatriz! Ela ia para a praia, e o Mauro: "Mas a Tiza é uma belezaaa!" - "Eu é que fiz", respondia.

RR - Como você descreveria o tipo físico dele?
SV - Ele, coitado, sofria muito. Em todo o tempo que eu conheci o Dr. Roquette a artrose tava comendo ele. Então, ele vivia na aspirina. Imagino o que ele sofria, lombar, servical: ele andava com um pouco de dificuldade, e não se queixava - o engraçado é que ele não se queixava. A gente sabia que ele tava sofrendo, mas ele não se queixava não. Fora isso, o físico do Dr. Roquette, o andar dele, quando eu o conheci, já era um andar de uma pessoa idosa, um andar premido pela doença. Mas ele era um homem bonito, tinha traços muito bonitos, o olhar dele, os olhos, o feitio do rosto, o equilíbrio da face, era um homem muito bonito, alias, dizem que quando moço foi muito bonito, tem um retrato dele muito bom e muito bonito. O resto é aquilo, roupa larga: ele tinha outras, mas não usava, era sempre a mesma coisa, sempre aquela roupa preta - Beatriz quase morria de desgosto. Mas a inteligência daquele homem. Na Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, houve um período em que ele se deu o trabalho de levar o microfone para a casa dele e, de manhã, ele levantava, chupava o café - porque se ouvia ele chupando o café e o ruído dos jornais que estavam ao redor dele. Ele fazia aquilo com a maior simplicidade, não tinha nenhuma técnica. Ele abria o jornal e, , nada de política não, quando o jornal pegava uma coisa cientifica, interessante, explorava aquele terreno, fazia um comentário e explicava tudo. Ele atendia o telefone, dava o telefone pro ouvinte, e o ouvinte consultava ele, porque a biblioteca dele ficava em casa, para esclarecer o ouvinte. Depois quando o Dr. Roquette cansou, quem foi substitui-lo foi o Paulo Roberto da Radio Nacional, o famoso Paulo Roberto, que fez também um serviço muito bom, mas não era aquela simplicidade dele. As explicações dele eram tremendamente fantásticas, que coisas que ele dizia, que pesquisa! Eu aprendi com ele a pesquisar: se aparecia um Alexandre Nevisk, do Prokofiev, eu ia nas enciclopédias saber quem era esse Alexandre Nevisk, antes de apresentar o programa.
Tá aí a figura do meu querido mestre, que pessoa admirável, eu fico tão emocionado quando falo dele, é isso

 

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