de Utilidade Pública Federal - Portaria no. 3935
de Utilidade Pública Estadual (RJ) - nº2464
de Utilidade Pública Municipal (RJ) - nº3048
detentora do Prêmio Estácio de Sá 2002
A SOARMEC DISCOS

Entrevista Steve Spencer


Cada país tem uma maneira de lidar com as concessões de canais para veículos de comunicação. Uns são mais liberais, outros nem tanto; alguns constróem redes de teleducação, e outros deixam a programação por conta do mercado. Para aprender um pouco sobre o sistema de rádios públicas dos EUA, entrevistamos o radialista norte-americano Steve Spencer (foto), que trabalhou em emissoras de Nova York e em rádios públicas na Universidade de Maryland e no estado de Missouri, onde dirigiu a KOPMF (FM), e depois a WYSO. Atualmente, Steve está no Brasil para estudar a implantação de sistemas de redes de rádio. Outras fontes: NPR (www.npr.org) e CPB (www.cpb.org)

 

AO - Como você se interessou por rádio, como você começou a trabalhar em rádio e quais as suas primeiras emissoras?
SS - Eu não me lembro um momento da minha vida sem rádio. Na verdade eu sou, provavelmente, da primeira geração da televisão. Mas o rádio ainda tinha grande impacto especialmente na década de 60. Eu me lembro que grandes eventos do mundo ( nos Estados Unidos a Guerra do Vietnam, o movimento pelos direitos civis, etc, e também, a corrida espacial, com os russos, muitos eventos) eu fui ouvir na rádio...

AO - O rádio era então um veículo importante para esses momentos polêmicos?
SS - Na verdade, quando eu era menino, o veículo mais importante já era a televisão, mas o rádio era parte da minha vida o tempo todo. Porque ainda na década de 60, até o começo da década de 80, a AM era muito forte, tinha muitos ouvintes para a música, especialmente em 60, quase 70, por causa da maneira de propagação das ondas de AM - à noite é possível ouvir as estações à grandes distâncias. Ainda tenho em alguma caixa na minha casa nos EUA o primeiro rádio com transistores onde eu, toda noite, em baixo do travesseiro, escutava as estações. Eu morei em Nova York e me lembro das estações de Saint Louis, Chigago, Texas, e muitos outros lugares à grandes distâncias. Era uma revelação para mim ouvir estações e cidades tão distantes. E isso se ampliou para o mundo, porque em 1969 eu comecei a usar um rádio que pertencia a dois tios meus, um rádio com válvulas (vacuum tube), um Stromberg Carlson, um rádio fabricado em 1936 ou 39. Os meus tios me disseram que os tubos (ou válvulas) nunca precisaram ser trocados. A Rádio tem Am e Ondas Curtas. Eu tenho um rádio que até hoje funciona bem, o som é muito claro, e nunca precisei mudar os tubos. Ele tem 65 anos, provavelmente todo o material é original. Me assombra porque com esse rádio eu fiz contato com os países do mundo inteiro, especialmente naquela época, durante a guerra fria, a radio Moscou, vários outros países pequenos do entorno da União Soviética.

Muito interessante para mim era a Rádio Tirana em Albânia. Porque a Albânia detesta os russos, detesta os chineses, detesta todo mundo, as transmissões deles eram muito engraçadas mas muito interessantes. Por que motivo eles queriam falar o que falavam para o mundo? É interessante. É estranho porque, no Brasil a informação quente seria, por exemplo, ganhar a Copa do Mundo; nos Estados Unidos, a chegada do homem à Lua; mas a Rádio Tirana estava falando sobre o crescimento da produção de sapatos.

Ouvia também a BBC, Rádio Austrália, NHK, no Japão, era super interessante para mim.
Hoje em dia eu uso muito menos as ondas curtas, porque agora temos a internet. Ainda é mais fácil usar o rádio de ondas curtas porque temos maior mobilidade, mas a cada ano a internet está se equiparando em facilidade ao rádio.

Rádio sempre foi muito importante na minha vida, mas eu nunca sonhei em trabalhar no rádio. Quase no fim da década de 70 eu comecei a escrever artigos para um Jornal Comunitário em Nova York, eu era crítico de teatro, e fiz isso durante uns dois anos. Ainda na época da máquina de escrever, não elétrica. Em 1979 eu comecei a estudar na Universidade e não queria pegar ônibus para o escritório do Jornal, então pensei em escrever para o jornal da Universidade. Eu fui ao Jornal, entrei e saí imediatamente. Me pareceu muito amador. Então eu pensei que eu poderia fazer minhas críticas na estação de rádio que tinha perto (WVHC, 88,7 FM, hoje WHU). Eu entrei no escritório da Rádio - um escritório grande e comprido, e no fim desse escritório comprido estava o diretor. Meu primeiro diretor de rádio. Ele tinha a cara muito séria e eu não quis falar com ele. Em todas as outras mesas tinham pessoas com caras mais simpáticas, e muito próximo a ele estava o Diretor de programação, que estava falando ao telefone. À esquerda tinha uma mulher muito baixinha, que se mostrou receptiva. Eu fui à mesa dela, me apresentei, e disse: eu quero ser o seu novo crítico de teatro. Ela se virou para mim e disse, "nós nunca tivemos um crítico de teatro aqui, é uma boa idéia". Assim eu ganhei o meu primeiro trabalho no rádio. Nesta estação eu trabalhei por 6 anos aproximadamente. Trabalhei lá em quase todas as funções possíveis para alguém dentro de uma rádio: jornalista, editor, engenheiro, produtor - produzi um programa de artes em Nova York por dois anos. Naquela época nos Estados Unidos e Canadá - provavelmente Austrália também - nós tínhamos a música chamada new wave. Bandas como Talking Heads, Elvis Costello, Blondie, The Clash, muitos outros mas, nesse momento, nenhuma estação de Rádio de Nova York tocava essa música. Nós tocávamos. Nós tínhamos um programa de rádio chamado The Post Punk Progressive Pop Party - P5.

O meu chefe na rádio, Jeff Craws, se tornou um grande amigo depois.

Em 1985 eu parei o meu trabalho na Rádio porque me mudei para o Rio de Janeiro, e morei aqui cerca de um ano. Voltando à Nova York não fui para o Rádio imediatamente. Do início da minha carreira no rádio em 1979 até agora sempre tive envolvimento com o rádio, mas não o tempo todo. Especialmente entre 1987 até 1991. Eu fiz várias outras coisas, incluindo rádio, mas independente, e depois me mudei para Washington D.C., no estado do Maryland Em 1992 retornei à minha primeira estação de Rádio, porque meu chefe teve um ataque cardíaco e, depois de vários outros problemas, entrou em coma e nunca mais ressuscitou. Eu recebi um telefonema da estação pedindo minha ajuda. Fiquei cerca de um ano e meio trabalhando lá. Depois eu passei a trabalhar em uma estação de Rádio Pública, do Sistema da rede NPR, no estado do Maryland, numa área muito rural que nós chamamos de eastern shore of Maryland, a estação WESM, na Universidade do Maryland. Fiquei lá cerca de um ano e meio, quase dois. Depois disso me mudei para o estado do Misouri, onde fui o diretor geral da KOPM FM. Também fiquei lá uns dois anos e pouco. Depois disso meu último trabalho nos estados Unidos foi também no sistema NPR, foi com a WYSO, também como diretor, onde fiquei uns 5 anos e meio.

AO - Faça, por favor, a distinção entre rádio pública, rádio independente, rádio educativa e rádio privada...
SS - ARádio Pública pode ser do governo, como é a BBC. Tecnicamente é uma rádio do Governo. Eles são independentes do governo, mas é uma rádio do governo. Mas nós (nos EUA) não temos rádio do governo. Existe, mas só para o exterior - ondas curtas ou internet - que é a Voice of America. Mas para os ouvintes domésticos não existe. Quando nós falamos de Rádio Pública falamos de um sistema composto por rádios universitárias, a maioria, cerca de 67%, rádios comunitárias, provavelmente 30%, e rádios municipais, ou de bibliotecas.

As estações são parte do Sistema NPR (National Public Radio), mas a NPR não tem estações. A maioria do financiamento do nosso sistema vem de dinheiro dos ouvintes. Mas cada estação é diferente. Nós temos uma estatística nacional que aponta que provavelmente 1 em 10 ouvintes contribuem com dinheiro para uma estação local.

Nós também recebemos um financiamento do governo de uma corporação que é quase independente, chama-se The Corporation for Public Broadcasting. Aproximadamente 20 a 25% do financiamento nacional para a rádio Pública vem do CPB, mas isso difere de estação para estação. Por exemplo, as grandes estações como a WNIC, em NY City, ou a WBIZ, em Chicago, provavelmente precisam muito menos do dinheiro do CPB, num total de 2, 3 ou 4% do financiamento anual deles. A WYSO precisa de 20%. Mas a idéia é que todos possam ir baixando o total de financiamento do CPB. Quanto mais contribuições de sócios e anúncios menos financiamento da Corporação.

Anúncios são permitidos, mas no nosso sistema, 20% das freqüências de FM (que começa em 88,1 e vai até 107,9), de 88,1 até 91,9, são rádios que não tem comerciais. O Departamento de Governo, The Federal Communications Comission, destina 20% das estações para a transmissão Noncomercial Education.

Isso foi criado na década de 40, muito anos antes das pessoas terem rádios com FM. Originalmente as estações NCE eram para Universidades, para professores darem conferências no ar, e para a música clássica, porque era o começo da era do LP. Mas no fim da década de 70 a FM cresceu muito, e no começo de 80 a FM ultrapassa a AM.

Em 1967 Congresso Nacional aprovou um ato chamado The Public Broadcasting Act of 1967, e criou o sistema. E cada estação que parte do NPR é voluntária. Originalmente eram quase 80 estações, atualmente o número é superior a 600 estações. Há estações de vários tamanhos. Provavelmente nos EUA 98% do país tem áreas com uma ou mais de uma estação do NPR.

Nós temos muitas estações públicas mas nem todas são parte do NPR. Podemos chegar a 1300 estações NCE fora do sistema NPR, como rádios comunitárias, ou College Radio (rádios de Universidades). Outras que cresceram enormemente foram as Rádios Católicas (Christian Radio) . Todas essas são NCE e funcionam na mesma faixa de freqüência. A idéia original não era bem esse perfil. Mas todas essas são não comerciais. Para essas rádios é possível transmitir um tipo de propaganda, mas não podem dizer que é propaganda.

AO - Como tem aqui Apoio Cultural?
SS - Nós temos underwriting anouncer. Existem diferenças entre comerciais, propagandas e underwriting. A maioria dos ouvintes acredita estar ouvindo um comercial, eles nos dizem eu ouvi seu comercial. Não é um comercial mas eles pensam que é. Porque até 1984 os anúncios eram como você falou, apoio cultural: "a realização desse programa foi possível graças à Fundação Ford", por exemplo. Depois de 1984 o Congresso Nacional mudou essas leis, e agora nós temos underwriting. Nós podemos falar "esse programa foi possível graças à Fundação Ford..." , dar o slogan da Fundação, dizer que serviços oferecem e anunciar um telefone, página na internet ou e-mail de contato. Mas as diferenças entre isso e propaganda é que não se pode dar preços por exemplo. Não podemos dizer sem juros, não podemos dizer de graça. E também não permitem usar comparativos ou superlativos, é melhor do que, nunca esteve tão bom, etc. Não se pode também fazer chamadas imperativas (call to action) do tipo "ligue agora". Só informações, só isso. Também existem outras regras. Posso dizer "Clear Channel Comunications", grande estação nos Estados Unidos "apresenta U2, no show do Madinson Square Garden, neste Sábado, 3 de setembro, as 20 horas..." tudo bem, pode, mas se você tem o mesmo anúncio com as músicas do U2 de fundo, não pode. Porque as músicas são consideradas promocionais.

AO - Mas é tudo muito específico, sutil...
SS - É muito difícil até para os profissionais entenderem, quanto mais para os ouvintes. È muito difícil para nós entendermos, e todo dia, todo dia, existe um debate dos profissionais das rádios públicas com as pessoas do departamento de desenvolvimento de financiamento. "É possível usar essa frase? Desse jeito?" Tudo é negociado. Nós temos uma lista de internet para os profissionais de rádios públicas e todo dia temos questões a esse respeito.

AO-A programação também é regulamentada por um sistema? Vocês têm um per-centual mínimo de tipos de programas obrigatórios (informativos, educativos, etc) ?
SS - Não. Cada estação pode decidir o que é bom para seus ouvintes.

AO - Inclusive religião?
SS - Não se você recebe financiamento do CPB (Public Corporation Broadcasting) porque o dinheiro do CPB é do governo e nos Estados Unidos nós temos a separação da Igreja do Estado. Se você aceita financiamento do governo e você faz isso você precisa devolver o dinheiro. Algumas estações são propriedades de universidades religiosas, por exemplo a Universidade dos Jesuítas. Todo domingo eles transmitem a missa diretamente da Igreja do Campus. E não é programação religiosa porque eles dizem que é um serviço para seus ouvintes que não podem ir à missa. Isso gerou um debate e o CPB considerou legal.

AO - Mesmo com esse sistema tão cheio de limitações, qual o percentual de financiamento conseguido com publicidade?
SS - Se você estuda só uma estação não é o perfil nacional. Porque as situações mudam muito de estação para a estação, há estações maiores que não precisam de dinheiro do governo. A WYSO por exemplo recebe do governo o equivalente a 20% de suas despesas. 56% dos ouvintes, 1% de eventos e o restante dos anúncios. Algumas estações vendem produtos. O sistema recentemente tem feitos experiências com outros tipos de parcerias para gerar fundos. Por exemplo nós temos um programa da rede pública muito popular que se chama Car Talk - feito dois irmãos da Cidade de Boston, em Massachutes, há 20 anos no ar. Eles dão informações sobre problemas com carros e etc, mas a maioria dos ouvintes ouve o programa porque eles são muito engraçados. Eles tem um sistema de contribuição divulgado na página deles na internet, onde sugerem que seus ouvintes doem seus carros velhos para a estação local. Porque no sistema de impostos nacional é possível conseguir dedução na taxa de imposto quando você contribui para caridade (computadores, roupas, etc). Todas as estações públicas no sistema NPR estão na categoria do sistema de impostos 501c3 - organizações com dedução de taxa (tax deductable organization).
O contribuinte tem à sua disposição uma listagem com as organizações para as quais podem ser feitas doações com dedução do imposto de renda, e escolhem para quem farão suas doações. Normalmente a maioria das rádios públicas faz campanhas para arrecadação de dinheiro. Duas vezes por ano geralmente, algumas mais. Para incentivar o ouvinte a contribuir normalmente nós temos algum produto. Um livro, ou CDs, ou coffe-mugs (canecas de café). Muitas pessoas tem em suas casas um tipo de caneca de café para viagem, porque fazem o café em suas casas e vão para a rua com eles. E muitas estações de rádio fabricam essas canecas para viagem. Ou sacolas com o símbolo da rádio. Nós experimentamos também outras maneiras de aumentar nossa arrecadação, especialmente usando a internet.

AO - Como funciona o sistema de concessão dos canais?
SS - Para todos é igual, você tem sua licença pela FCC. Mas com a desregulação, não há mais obrigações e o governo não está mais permitido a se envolver nas questões de conteúdo. A época de desregulação do rádio e da TV teve seu início no governo Reagan, em 83, 84. Quando eu era menino todas as estações de rádio tinham obrigação de transmitir um pouco de programações com notícias e informações. Na verdade muitas estações, especialmente as comerciais, transmitiam esses programas, por exemplo, todo domingo, entre quatro e seis horas. Mas tinham obrigações! Cada estação tinha, pelo menos, um funcionário para notícias. Depois da desregulação não. Não é possível para o FCC decidir que tipo de programações uma rádio deve ter.

Uma outra coisa decorrente das desregulações foi um ato do Congresso Nacional, uma lei que o Congresso Nacional aprovou chamada de Public Telecomunications Act of 1996. A lei para muitas pessoas, e é minha opinião também, foi horrível. Sem exagero. Porque a lei permitiu a consolidação da propriedade das estações. Antigamente nós tínhamos propriedade para o que chamávamos de estação mãe e pai, estações pequenas. Mas agora praticamente não existem mais estações assim. Clear Channel Communications, por exemplo, tem mais de 1200 estações no país. Outra corporação, a Radio1, tem 800 estações. Eu não acho isso bom para a democracia, nem para a diversificação de idéias, músicas, etc.

Nós temos um outro grande problema nos EUA com os conservadores (facção política). Especialmente em relação à notícias e informações. É quase como o livro de George Orwells, 1984. Porque nós temos, especialmente no AM, estações que transmitem 24 horas por dia programações com idéias dos conservadores. Sean Hannity e Bill O´reilly, por exemplo, são muito populares. Eles vão para o rádio e ficam falando sobre a mídia liberal. Que mídia liberal? Não existe. Mas eles continuam dizendo isso e quando você fala com as pessoas na rua eles dizem, "ah, a mídia liberal...", onde? Não existe.

AO - Seriam vocês (as rádios de universidades etc) a tal mídia liberal para as pessoas?

S - Eu acho que sim! Muitas décadas antes do Reagan nós tínhamos a doutrina chamada The Fairness Doctrine ( a doutrina do justo). A idéia desta doutrina era "nós (governo) estamos dando a você esta licença (concessão de faixa de onda por ex.), e você não precisa pagar nada por isso", grandes corporações como o Clear Channel não pagam por suas licenças, a idéia é que o ar pertence ao povo, mas elas são limitadas, nós temos a FCC para regular essa coisas.

O Contrato de concessão é por , acho eu, 10 anos. O governo tem um sistema para transmitir ao público ( a notice of propose rule maker). Nós temos propostas de novas regras, que estão sendo apresentadas ao público. Pode ser que o FCC, reagindo às mudanças depois do ato 1996 de telecomunicações, mude algumas coisas, inclusive o período de contratos para 5 anos. Pode ser. E com vários períodos dentro para relatórios de atualização. Mas não sei se eles mudam, não. No passado eles te davam uma licença e você podia fazer o que quisesse mas havia a idéia de que se estava tratando de uma propriedade do povo americano, então ao concessionário era pedido que fizesse um pouco pelo povo, não muito, só um pouco. Então, por exemplo, se você for divulgar as idéias dos conservadores, você tem a obrigação de divulgar a outra opinião. Você tem que fazer algo para indicar que nem todo mundo pensa do mesmo jeito.

Mas na época do Reagan veio a idéia de que o governo não pode ter envolvimento com o conteúdo. O mercado deve decidir. A idéia do fairness doctrine era " nós entendemos que se você é um proprietário de mídia e você é um conservador , e você quer pôr as idéias conservadoras no ar, ok, é uma imprensa livre", a fairness doctrine reconhece isso e diz, " mas nós não queremos que você faça isso. Nós queremos que você reconheça que você tem uma obrigação para com a sociedade, um mínimo de obrigação." Agora não há mais isso.

A maioria, acho que todas as estações de rádios públicas, especialmente no sistema NPR, continuam a operar as estações como se a doutrina justa (fairness doctrine) ainda existisse. Porque é justo, porque você tem a confiança do público na estação. Eles confiam na gente, então você tem que fazer a coisa certa.


AO - Como funciona a questão da propriedade das rádios, como uma só corporação pode ter várias?
SS - Tomemos as idéias dos conservadores, por exemplo "o mercado decide tudo". Eu não discordo em geral dessa idéia mas eu acho que ela foi levada muito longe, porque o mercado não pode fazer tudo, algumas vezes você tem que tomar as rédeas do mercado. Em contrapartida nós também temos leis nos EUA que indicam que não pode haver monopólio. Por exemplo: a Microsoft tem muitos problemas com isso porque as pessoas não podem competir com eles.

Wallmart é enorme. Uma empresa com este tamanho pode comprar e vender as coisas a um preço muito barato. A pequena lojinha não pode competir. Mesma coisa com o rádio. È possível para o Clear Channel, ou outra corporação que tenha até oito estações de rádio em cada cidade, consolidar operações, funções de engenheiros, etc. É mais fácil para eles operarem oito estações em um mercado, e muito mais difícil para mim operar uma. Eu pago mais, etc, etc. Comparativamente é difícil.

No estado do Wioming ou Montana, o Clear Channel em uma determinada cidade tem todas as estações, TODAS. A cidade é muito pequena e todas as estações são do Clear Channel. À noite elas funcionam com automação. Mas passou perto da cidade um trem de cargas, descarrilou, e um de seus carros tinha produtos químicos perigosos para as pessoas. A polícia precisava transmitir uma mensagem pedindo que as pessoas não saíssem de casa. E não havia ninguém com quem falar nas estações de rádio. Eles tentaram ligar para as estações e ninguém respondia. Depois desse ocorrido, o Clear Channel consertou a situação e cada engenheiro e cada chefe de estação têm seu celular, e os policiais têm o telefone deles. Pelo menos isso.

Existem outros casos, por exemplo, na minha estação (WYSO) nós temos um sistema para mim, meu engenheiro e meu diretor de programação acessarmos o sistema de automação da rádio em casa. Então eu posso acessar o que está no ar de casa. Por exemplo, Deus queira que não ocorra novamente outro 11 de setembro, mas, se ocorrer, eu posso acessar o satélite e mudar a minha programação. Mas o sistema NPR criou uma maneira deles também acessarem, você pode fornecer a eles o acesso à suas ondas. Se eles acessarem com uma senha específica o aparelho de sua estação muda a programação, sem que você precise fazer nada.

AO - como foi a cobertura do atentado de 11 de setembro nas rádios americanas?
SS - Até 11 de setembro a maioria das estações comerciais não tinha ninguém cuidando de noticiário. E quando dois aviões batem nos prédios é de mau gosto continuar transmitindo músicas. Mas eles não tinham o que colocar no ar. Aquele dia toda a cidade nos EUA, todas as estações comerciais, tinham apenas dois tipos de programação: o áudio da CNN ou o áudio da rede ABC. O áudio das estações de TV. Porque eles não tinham nada. Não tinham infra-estrutura, não tinham comentaristas locais.

Para ouvintes de rádio quando a pessoa fala "como vocês podem ver na tela..." , o ouvinte pensa "eu não posso ver nada companheiro!". Os ouvintes que não costumavam mudar de estação começaram a procurar outras. Alguns ouvintes de rádio em carro tem botões programados para as estações que costumam ouvir e não ouvem outras. Rádios públicas existem há 30 anos, mas em 11 de setembro milhões de pessoas descobriram as estações públicas, pois eram as únicas estações que estavam transmitindo notícias sobre o ocorrido por profissionais de rádio. Neste dia, e depois, ganhamos milhões de ouvintes. Depois de umas semanas as pessoas acabam voltando para suas estações usuais, mas muitas ficaram ouvintes das públicas.

AO - Em que o rádio por satélite poderá alterar a programação das rádios públicas?

SP - Há 10 anos eu me lembro que em um congresso de Rádios Públicas um engenheiro importante do sistema estava falando que em breve nós teremos rádio por satélite. Um Rádio satélite nacional, com mais de 100 estações e dizia "vocês precisam parar de pensar na sua estação como só uma estação. Vocês precisam pensar seu trabalho como de gerente de conteúdo. Vocês não estão dirigindo uma estação de rádio, vocês são gerentes de conteúdo.".

A convergência da tecnologia ainda é muito cara para muitas pessoas, mas em países da Europa, no Estados Unidos, etc, não é. E um dia o computador, a TV, o rádio... todos serão um só parelho. Mas eu me lembro que a pessoa estava falando que um mundo com escolhas infinitas é tão bom quanto um sem escolhas. Porque não interessa o quão maravilhosa é a internet. Existe 24 horas por dia, mas o ser humano precisa dormir, comer... não mudamos tanto como seres humanos, nós não temos a capacidade de absorver tudo isso.

Mas a boa notícia para a Rádio Pública, nos EUA especialmente, é que os ouvintes tem confiança em nossas estações. Eles confiam em nós para dizer a verdade, confiam em nosso jornalismo, na qualidade de nosso jornalismo, estão confiando que nós fazemos a coisa certa. O palestrante disse "usem essa confiança e trabalhem no sentido de entender seu conteúdo e criar um espaço para conteúdo nos sites da internet. Você faz o trabalho para os ouvintes. Eles já confiam em você, então se eles vão em seu site eles sabem que apenas terão coisas boas, e você fez isso por eles".

Várias estações tem programações no rádio, como sempre, mas existem estações como a KCRW, em Santa Mônica, Califórnia e várias outras, normalmente as grandes estações, que têm conteúdo para ouvir só na internet, exclusivo. Nós temos em nosso sistema muitas programações nacionais, do NPR, de outra rede nacional PRI, e produtores independentes. Muitas estações, muitas programações regionais, muito conteúdo. É impossível para uma única estação transmitir tudo. Mas é possível para você ter streams na internet. Nós chamamos stream programm. Por exemplo: KCRW no ar tem notícias, informações e músicas. Mas no site da internet você tem três opções: você pode ouvir o que está no ar, ou o stream só para notícias, 24 horas, ou música 24 horas. Hoje em dia isso ainda é experimental. Nós não sabemos ao certo o impacto que teremos.

Muita gente está pensando em como descobrir a maneira de prover programações nas estações on demand (segundo a demanda) . Especialmente porque algumas pessoas pensam o rádio por satélite como uma grande competição para nós finalmente. Agora não, mas aos poucos. Porque há 30 anos atrás muitas redes de TV não pensavam na questão da Tv à cabo ou satélite. NBC, ABC, CBS, não pensaram muito sobre isso. Hoje em dia 65% da população norte americana tem televisão à cabo, ou satélite. Agora eles não mais assistem televisão comercial como antes. Eles assistem canais à cabo como HBO, Cinemax, e outros. Ainda durante o período do cabo, há uns dez anos, as pessoas assistiam a TV à cabo mas continuavam assistindo a TV comercial. Agora não, a maioria do povo está assistindo TV paga. As grandes redes não viram isso acontecendo, e não se prepararam.

Por exemplo: séries de TV. Normalmente nos EUA as séries duram anos. Normalmente elas se renovam em setembro e vão até maio. E durante o verão temos reprises. É como o sistema da escola. Mas as TVs do cabo não são assim. Eles tem séries que começam em qualquer época do ano, etc, etc. Este ano, pela primeira vez, as três grandes redes de TV aberta começaram a introduzir programações no verão. Porque eles sabem que precisam fazer isso, ou não vão poder competir. E também muitas séries usando as do cabo: Sex and the city, por exemplo. O mercado para esse tipo de série é interessante porque começa no cabo e vai para a TV aberta. É um mundo novo.

Rádio satélite é muito novo. Todas as estações estão pensando o que será que isso significará? Porque na década de 50 nós costumávamos transmitir por TV comédias, novelas e jogos. Então o rádio muda, porque o que se fazia em rádio foi para a TV. É possível que, se o rádio satélite faça muito sucesso, tenhamos rádios baratos (aparelhos, mensalidades), e a cara do rádio mude. Porque se você tem programações nacionais em satélite e a maioria dos ouvintes tem rádio por satélite, pode ser uma volta ao início de tudo.

Nos Estados Unidos, há muitos anos, todas as estações são locais. O NPR foi a primeira rede nacional distribuindo programação por satélite. Cresce um sistema nos EUA de regulação e tecnologia. Nós não temos estações locais na verdade, nós temos pontos de distribuição para programações nacionais com pouca ou nenhuma programação local.

Há cerca de 20 anos a audiência das estações comerciais vem caindo, cada ano cai mais um pouco. Provavelmente por duas ou três razões principais. Uma é que há de 18 a 22 minutos por hora de comerciais, e as pessoas não querem mais isso. É demais. Também, especialmente com a desregulação, as programações tem se tornado muito parecidas e as pessoas querem ouvir outros tipos de programa. Se as estações comerciais não começarem a mudar acontecerá com elas o mesmo que com a televisão em relação à TV à cabo. Agora começaram a fazer algumas mudanças. Por exemplo: Clear Channel tem prometido que cada estação não irá transmitir mais do que 15 ou 18 minutos de comerciais por hora.

Quando eu era menino nós precisávamos do rádio para conhecer as músicas, ou o LP, o transporte de LPs era difícil, mas depois veio a época do K7, seguido do CD e agora o MP3, com músicas baixadas da internet, o ouvinte não precisa da rádio para selecionar sua música. Eu não preciso escutar uma estação de rádio e esperar para ver se ela vai tocar minha canção favorita.

Eu estava lendo um artigo semana passada sobre o tipo de tecnologia do rádio por satélite, por que no rádio por satélite você tem mais do que 100 estações, mas aparentemente os novos aparelhos que estão sendo fabricados tem um sistema onde você pode teclar os nomes de seus artistas favoritos, e cada vez que uma estação toque seu artista favorito, o rádio automaticamente muda de estação. Na verdade isso é reativo. Não tem importância o quanto interessante você ache que um programa é. Não importa o quanto você ache que será importante para ouvintes aquele programa. Pode ser que seja realmente, e pode ser que eles ouçam. Mas se eles demostrarem que não estão interessados você não vai fazê-los ouvir tal programa. Especialmente nestes dias quando eles tem muitas opções, eles não precisam de você. É muito sério, porque eu acredito que, especialmente nas rádios públicas, nós temos obrigações de transmitir programas mais educativos, etc. Mas temos que reconhecer como as pessoas usam o rádio. Você não pode fazer um programa que vá contra o modo como os ouvintes usam o rádio. Por exemplo: há alguns anos muitas estações de rádios públicas tinham vários tipos de programações. Algumas horas para jazz, algumas horas para música clássica, algumas horas para notícia, algumas horas... "diversificação é bacana!". Não, não é. Porque as pessoas não usam mais o rádio desta forma. Não é mais a década de 30, nem de 40, nem de 50. Ninguém lê grades de rádio. Você não fazer um ouvinte pensar como um radialista.

AO - Como é que os ouvintes participam na escolha da programação de uma rádio?
SS - Não diretamente...

AO - As rádios públicas fazem pesquisa de audiência?

S - Várias. Por exemplo, para a maioria do povo, o rádio é parte da vida, ok, mas não é "a vida": "Eu tenho trabalho, eu tenho família, eu vou cozinhar feijão hoje à noite, etc, etc...". A maioria do povo não quer ter que se preocupar ainda com o que vão pôr no rádio. " É seu trabalho, você é que decide o que vai pôr no rádio! Eu trabalho num banco... dirijo um taxi... eu não quero decidir o que tem que ser irradiado. Você é o profissional, você faça seu trabalho! Se eu gostar eu escuto, se eu não gostar não escuto. É assim que funciona". Para nós por exemplo, é estatístico, uma em cada 10 pessoas dão dinheiro para alguma rádio pública. Bom, então eu conheço você, sei seu nome, endereço, etc, é possível para mim mandar um questionário para saber se você gosta das programações, etc, etc. Agora, como você vai computar os outros 90%. A maioria dos ouvintes não liga, não escreve, você não tem a menor idéia de quem são eles. E essa é a esmagadora maioria dos ouvintes. Se eu apenas reagir aos 10% que me dão dinheiro, não terei um quadro realista dos ouvintes. Nós temos várias maneiras de conseguir dados de ouvintes. Temos duas ou três grandes companhias nos EUA, a mais famosa é Orbitron. Eles tem um site na internet (orbitron.com). A Orbitron tem um acordo com as rádios públicas e é possível conseguir os dados deles por 1/20 do valor pago pela estações comerciais. Mas nós temos também restrições. Podemos saber de alguns dados que não podemos divulgar. Por exemplo o ranking das rádios públicas. Não podemos dizer nossa estação é a primeira, a segunda, etc. E nos dados do rádio público você não vê o das outras estações públicas. Porque se você vai pagar tão pouco as estações comerciais não querem que nós venhamos a competir com eles.

Nós temos várias outras opções para dados. A Orbitron tem uma classificação para ouvintes que chamam de P1, é a pessoa que ouve a sua estação mais do que qualquer outra. Normalmente os ouvintes de rádio tem sua estação preferida e uma segunda e terceira para outras coisas. Normalmente os ouvintes não escutam só uma estação. Eu quero entender por exemplo para a WYSO, quando os ouvintes P1 não estão ouvindo a WYSO quais outras estações eles ouvem? Porque se eu souber isso, eu devo saber o que nós não estamos fazendo. Na primeira pesquisa que eu fiz eu consegui descobrir que quando os ouvintes da WYSO não estavam ouvindo a estação, a maioria estava ouvindo uma estação Am , conservadora, que tinha notícias e informações todo o dia, especialmente durante as manhãs e durante a tarde. Drive time (hora de trânsito). Porque isso? Porque provavelmente eles transmitem informações sobre o tráfego e a temperatura. Regularmente nós temos estações nos EUA que informam a temperatura e tráfego a cada oito minutos, ou seja, 1:08, 1:18; 1:28..... Eu e meu diretor de programações mudamos os programas. Começamos a dar mais informações sobre temperatura e tráfego, regularmente. Quando o ouvinte lembrasse estaria lá. Nós não fazíamos de oito em oito minutos, mas fazíamos de 15 em 15. E avisamos isto aos nossos ouvintes. Porque rádio não é televisão. Hoje em dia as pessoas com TV tem o hábito de mudar de canal constantemente. Mas rádio é repetição. E se você não falar várias vezes o que você vai fazer, e então fazer... eu não ligo se você publica um guia. Ninguém lê. Não ninguém, mas não é significativo. Os ouvintes não lêem guias para saber de suas programações no rádio. A regra do rádio é ligar, se a programação for boa, o ouvinte fica, se não, vão embora.


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