de Utilidade Pública Federal - Portaria no. 3935
de Utilidade Pública Estadual (RJ) - nº2464
de Utilidade Pública Municipal (RJ) - nº3048
detentora do Prêmio Estácio de Sá 2002

 

Solange Leobons

Entrevista realizada em janeiro de 2009 por Renato Rocha e Adriana Ribeiro. Transcrição Renata Mello.

A professora Solange Gerardin Poirot Leobons concluiu o curso de Formação de Professores em 1957. Trabalhou na Secretaria de Educação do Estado, como Especialista em Educação, e, em 1972, foi para o Serviço de Radiodifusão Educativa (SRE) junto ao nascente Projeto Minerva, que dirigiu por quase sete anos. Essa experiência rendeu a Solange muitos outros trabalhos na área de Tecolonogias Educacionais, além de um mestrado onde ela pôde analisar os erros e acertos do Projeto Minerva, tema de nossa entrevista.

 

AO – Você é uma das principais responsáveis pelo trabalho feito no Projeto Minerva na Rádio Ministério da Educação. Como você foi para lá?
Eu trabalhava na Secretaria de Educação do Estado com as professoras Arlete Pacheco e Marlene Blois. Aí, em 1972, deu-se uma brecha e a Marlene me convidou. Eu tinha a mesma formação da Marlene, ou seja, fizemos a Faculdade juntas, de letras. O trabalho era justamente verificar os scripts, acompanhar a evolução da produção, porque se estava pretendendo fazer um curso novo, curso supletivo: até então o Minerva usava as produções da Fundação Anchieta ou da FEPLAN do Rio Grande do Sul.
AO – As produções radiofônicas da FEPLAN (Fundação Educacional Padre landell de Moura)?
Exatamente. Eu não tinha nenhuma formação em rádio: depois é que fiz o mestrado e escolhi como área de concentração a radiodifusão. Eu tinha formação em letras, nós tínhamos vários livros escritos, eu e a Marlene, sobre Português, Português para professores etc. A coordenadora era a Helena Theodoro.
AO – Que foi a Primeira coordenadora do Minerva? Foi ela quem implantou o Minerva na Rádio Mec?
Foi. E o diretor era o Avelino, que era paraense. Houve um desacerto qualquer entre os programas e as expectativas do MEC. O curso ia ser veiculado pelo MEC e a Helena mandou os primeiros scripts. Parece que a Helena estava viajando, a coisa correu à revelia dela e os programas não satisfizeram. O Avelino era muito amigo do Jarbas Passarinho, que era o Ministro na época. Ele ficou muito aflito, porque os programas não estavam satisfazendo as expectativas dele.
AO – Não satisfaziam em termos radiofônicos, ou em termos de conteúdo?
Em termos de conteúdo, porque era uma simplificação tola de linguagem. Aí, o MEC achou que um programa educativo, mesmo para pessoas que estavam fazendo o segundo segmento, de 2º grau, hoje ensino fundamental, precisaria de uma qualidade maior.
AO – Nesse momento, em 1972, qual era a mecânica de trabalho? Aulas com rádio, com folhetos que eram distribuídos?
A dinâmica não mudou muito, não. Eram coordenadores locais e a equipe central, que avaliava os programas da Fundação Anchieta e da FEPLAN, porque o SRE não tinha produção própria. Nós apenas éramos veiculadores. Avaliávamos, entre aspas, porque era uma programação já pronta.. E nesse momento o Serviço de Radiodifusão Educativa era no prédio da Rádio, e nós estávamos na Gomes Freire fazendo esse trabalho.
AO – O SRE não funcionava no prédio do Ministério?
Não, nessa época, não: depois foi para o Ministério. E aí entra o Avelino um dia pela porta e diz que a Helena estava dispensada, ficaria como redatora e que eu passaria a assumir a função. Neguei de todo jeito, era recém chegada, tinha poucos meses e tinha o compromisso de botar um projeto novo no ar dia 23 de agosto de 1972.
AO – A intenção de fazer esse projeto ser produzido na Rádio foi por quê exatamente?
Porque tínhamos uma equipe de redatores de bom nível. A nossa responsabilidade era acompanhar o conteúdo. Eu acompanhava as aulas de português, eu tinha formação para isso, então eu fui para isso. Aí eu passei à Coordenadora, com essa responsabilidade toda.. Comecei e em poucos meses colocamos um programa no ar.
AO – Quem é que fazia esse material bruto?
Vou chegar lá. Eu tinha que formar uma equipe de professores conceituados, para as matérias de 5ª a 8ª séries. Então eu chamei o Arno Wehling para História; o Domício Proença Filho, para Língua Portuguesa; Benirá Azem para dar os conteúdos; Matemática, Jairo Bezerra; Educação Artística, Maria de Lurdes Mader eu chamei pessoas da área específica – o que não acontecia com o conteúdo que estava sendo feito anteriormente. Então essa equipe, junto com a equipe de redatores, foi quem produziu.
AO – Quem era a equipe de redatores?
Você está querendo saber a mecânica. Eu escolhi os especialistas de conteúdo, e na equipe também coloquei pessoas que tinham formação nessa área. Marlene ficou com Português, porque aí eu estava com a coordenação; veio uma pessoa para Ciências, que agora não me lembro o nome. E os redatores eram os redatores da casa. Eu não opinei, porque isso não era a minha área. AO – Eram redatores da Rádio MEC?
É, era o Roberto Braga, o Célio Auser... o Domício Proença Filho fez as aulas de Português, porque ele só aceitou se ele mesmo produzisse as aulas.
AO – Eles eram contratados ou prestadores de serviço?
Eu acho que todos eram contratados, mas eram redatores que já estavam lá, não fui eu quem os indicou. Mas aí o Ministro resolveu chamar o Avelino, que eu fosse com ele, trouxe a equipe de Brasília, e aí disse que ele queria que todas as aulas produzidas fossem para Brasília, para serem examinadas lá. Todo mundo concordou, mas eu disse: “Ministro, com licença, eu quero discordar do senhor. Esse é um programa que precisa ir ao ar em 23 de agosto. Como nós vamos botar no ar uma produção que vai para Brasília, tem réplica, tem tréplica? Porque o conteudista não vai aceitar.” Aí ele disse: “Sem o MEC de Brasília avaliar (que era a equipe do Jarbas), não deixo o programa no ar.” Aí eu disse: “Mas não há um órgão do MEC no Rio de Janeiro que possa fazer esse serviço?” Aí ele disse: “Há, o INEP – Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos.” Então como se dava a mecânica? Vou pegar o exemplo do Português: Domício fazia um conteúdo, esse conteúdo era examinado, ia para a conteudista do INEP, que olhava esse conteúdo. Se ela desse o ok, voltava para nós e ia para o redator. O redator então fazia o script, e voltava para o INEP para avaliar.
AO – E quando ele ia para o rádio, como ele era processado? Quem já estava lá?
Floriano Faissal, já estava lá, a Denise Faissal era uma das produtoras na época, e o Ghiarone também já estava.

AO – Ghiarone era o diretor de broadcast.
Ele era o coordenador. Ele tinha uma função paralela à minha – a minha, de educação, e a dele, radiofônica..

AO – Com os locutores da casa?
Com os locutores da casa: Cid Moreira e Sergio Chapelin. E ai conseguiu-se chegar em um acordo. Ah, tinha também uma parte de formação profissional que era uma pessoa da Fundação Getúlio Vargas.
AO – Depois que o programa estava pronto, montado também era avaliado?
Não, o que o MEC queria era garantir o conteúdo. Eles não tinham especialista em rádio, então, quem avaliava éramos nós. A equipe avaliava se havia alguma falha, se tinha tido algum erro de pronúncia. Tinha muito a questão da crase, porque o pessoal lá era viciado em “AA”, quanto tinha crase eles diziam “AA”, então foi uma coisa que nós lutamos bastante para que eles dissessem A.
AO – Quem dirigia os programas?
Era o Floriano Faissal, e nós acompanhávamos e nunca deixamos de estar junto para ver se tinha algum erro de concordância, como esse da crase, que era um vício da maioria dos locutores.
AO – Houve alguma discussão prévia sobre tempo das aulas, tempo de escuta?
Houve. As aulas eram de 15 minutos, 7 laudas e meia. E eram duas aulas de cada vez. Por exemplo, um dia tinha Português e História, outro dia Matemática e Ciências. Não passava de duas aulas, e depois teve Educação Artística e Informação Profissional, do José Cavalieri. Então, tendo o texto feito pelo especialista, o conteudista, e tendo o programa de rádio, era preciso que tivesse material de apoio para o aluno. Fizemos uma concorrência e a Abril imprimiu os fascículos. Nós da equipe do Minerva, essa equipe de professores que nós tínhamos lá, acompanhávamos toda a produção. Cansamos de ir à São Paulo, eu, Marlene e outras para examinar se o conteúdo, se a disposição estava de acordo com as expectativas. Isso posto, programa pronto, fascículo pronto, os fascículos eram dados gratuitamente. Só na última veiculação, que foi em 1979, é que já não havia mais dinheiro. Então esses fascículos eram enviados para os coordenadores locais, que redistribuíam.
AO – Eles iam no mesmo pacote que as fitas?
Não. O fascículo a Abril mandava diretamente; as fitas, nós mandávamos para os estados e para os territórios.
AO – As fitas eram copiadas na Rádio MEC?
Na própria Rádio e eram enviadas para as repetidoras locais. E era aí que falhavam muito, não havia possibilidade de um controle. Isso é parte da minha tese, eu verifiquei isso muitas vezes.
AO – Como surgiu essa portaria 408 (com a obrigatoriedade de veiculação de programas educativos por todas as emissoras no Brasil)? Essa portaria já existia nessa época?
Já existia. A portaria saiu e para isso o Minerva foi criado: sábados e domingos, programação cultural; e durante a semana, cursos. Como nós não tínhamos produção, já que a portaria é anterior ao curso, nós usamos primeiro a produção da Fundação Padre Anchieta e da FEPLAN.
AO – E a coisa funcionou com essa mecânica.
Com essa mecânica, e nós conseguimos colocar o programa no ar no dia 23 de agosto de 1972.
AO – E a avaliação, como é que foi? Sua primeira avaliação sobre a utilidade da programação educativa pelo rádio?
A avaliação de programas radiofônicos é uma coisa bastante complicada e não existe um sistema consolidado a respeito disso, até hoje. Eu tenho que explicar a tese para poder explicar isso. Eu peguei um modelo teórico para a televisão que é do Tiffïn, e adaptei para o rádio. Como eu sabia que era impossível avaliar o sistema, eu procurei avaliar o sub-sistema. Eu não chamava de ‘avaliação’, chamava de ‘análise’.
AO – A primeira análise foi feita quando?
Foi quando acabou a veiculação, acho que o curso durou um ano e meio.
AO – E nos pontos de ecuta, os alunos faziam as provas?
Os alunos faziam as provas nas recepções organizadas. Porque nós tínhamos dois sistemas. Um sistema de recepção organizada, quer dizer, um teleposto, onde tinha um orientador de aprendizagem, que não era um professor. Ele acabava a aula, e nos fascículos tinha uns exercícios, com uma chave de correção. Então, eles discutiam aquele conteúdo e a chave de correção. Nada com muita profundidade, porque eles não tinham formação.
AO – Os cursos eram de 5ª a 8ª série ?
De 5ª a 8ª como os cursos supletivos, porque eram cursos supletivos de 1º grau. Era um curso para suprir quem não tinha feito regularmente esses 4 anos, então era muito condensado. Os alunos de recepção organizada iam ao teleposto, assistiam as aulas, levavam os fascículos para casa, estudavam e, periodicamente, nós enviávamos as provas e eles eram avaliados. Os de recepção diversificada, que ouviam sozinhos, ou em grupos, esses se submetiam ao “exame de madureza” local. O estado de São Paulo pela primeira vez terminou com os cursos supletivos locais – era Sophia Nicolau, a coordenadora –, e todos os alunos do antigo madureza, quer dizer, do supletivo, foram submetidos à prova do Minerva e tiveram ótimos resultados. Diga-se de passagem que é um Estado com professores capacitados, podendo dar assistência, diferente de um território. Nos territórios, os fascículos eram usados para fazer o vestibular de faculdade. Eram disputadíssimos, os fascículos. Lá tinha aqueles problemas da cheia do rio, que os fascículos não chegavam, não havia possibilidade. Então, para uma avaliação palpável, nós temos a do Estado de São Paulo. Se você me perguntar: e o Rio de Janeiro? O Rio de Janeiro eu não considero uma boa avaliação porque a coordenadora desligava o rádio. Cansamos de ir a telepostos com o rádio no fim da sala, sinal que o rádio só era ligado quando chegava a equipe do Minerva e o professor passava conteúdo no quadro. Deu muita briga, fomos muito à Secretaria de Educação... então, no Rio, não temos uma avaliação condizente.

AO – Essa avaliação de São Paulo, ela diz o quê? Ela diz que sim, as pessoas tiveram progressos?
Tiveram progresso, conseguiram ser aprovados nos exames. Porque aí todos iam fazer os exames do supletivo de São Paulo, com as mesmas dificuldades, em todo o Brasil, que aparecem até hoje. As grandes dificuldades que tem em matemática, porque eles têm muita dificuldade. Então foi a melhor em termos de análise.
Outra coisa que a gente descobriu é que as emissoras não cumpriam a portaria. Transmitiam hoje uma aula de português, amanhã não transmitiam a de matemática. Então, não tinha uma continuidade. É um curso, portanto, tem que ter uma continuidade. E não tinha essa continuidade.
AO – O fato de São Paulo ter monitores mais qualificados foi capital?
Foi, porque se o aluno tem uma dificuldade e o monitor também, como fazer? Temos uma experiência: o Minerva produziu um curso para o Mobral, e quando nós chegamos num teleposto, a moça estava com o script e disse: “Olha, a senhora desculpe, mas eu não sei cantar essas musiquinhas.” Eram as vinhetas musicais. Então, tudo isso mostra que há uma série de variáveis intermitentes nisso, impossíveis de serem controladas por uma equipe situada no Rio de Janeiro. Por isso, eu falo que a melhor solução é delegar, descentralizar e diversificar. Delegar a portaria; descentralizar para os Estados terem a sua própria produção; e diversificar de acordo com a necessidade daquele Estado.

AO – O que é delegar a portaria?
Ela ser jogada nacionalmente, com esses problemas que eu estou falando. Não cobriam o horário, não verificavam o horário, diziam que não tinha condição de verificar a chegada do sinal. O PRONTEL, que era o órgão encarregado, superior ao SRE, não fiscalizava. E era melhor que tivesse uma produção local, que atendesse as características regionais e pudesse ser fiscalizada.
AO –Você está dizendo, a respeito de São Paulo, que o coordenador estando próximo ao aluno é mais eficiente, que assim a educação a distância funciona?
Não, eu estou dizendo é que a radiodifusão funciona se fiscalizada. Eu não estou colocando defeito na radiodifusão. A radiodifusão pode funcionar, os cursos a distância, as universidades abertas estão aí provando isso. Mas é preciso que alguém fiscalize essa programação.
AO – Mas fiscalizar e avaliar não é muito próximo uma coisa da outra?
Não, avaliar é julgar: é bom, é mal, esse programa foi bom ou foi mal; analisar é ver isso tudo que a gente está vendo. Eu acho que nenhum sistema de rádio educativo no Brasil tem um sistema de avaliação até hoje. Eles têm sistema de análise de conteúdo, análise da recepção, como funciona, etc, mas não têm um sistema de avaliação.
AO – Nessa experiência do Minerva vocês levaram em conta a experiência anterior de programas como o Colégio do Ar, Universidade no ar?
Sim, a Universidade Aberta, tudo isso se conhecia. Eu não tive muito tempo, porque, a não ser a Marlene, que já estava, a maioria da equipe chegou comigo. Mas nós conhecíamos, inclusive temos um projeto de avaliação dos cursos a distância feito pela UERJ, pelo Arnaldo Niskier na coordenação.
AO – Você acha que em termos de educação no rádio, as aulas feitas pelo Minerva acrescentaram alguma coisa? Inovou em alguma coisa?
Inovou e deu oportunidade a pessoas que não tinham oportunidades, porque não tinham escolas, não tinham cursos supletivos. Nós temos uma experiência aqui com as Irmãs Clarissas: eram 11 irmãzinhas Clarissas. Uma vez uma me entra dentro do Minerva e: “Professora nós só temos da 1ª a 4ª série, somos enclausuradas, não podemos sair do convento para frequentar a escola, a senhora não podia colocar o projeto Minerva?”. Então nós colocamos o Minerva lá e a equipe do Minerva ia para fazer as avaliações. Foi um sucesso, todas elas. O quê que havia? O empenho delas, o desejo. Tinha gente que estudava por fascículos nos territórios, e passava para universidade. Quer dizer, os conteúdos eram eficientes? Eram. Os programas radiofônicos eram eficientes? Eram. O programa de matemática é que, você sabe, sempre é discutido. Porque você dá uma equação de 2º grau – 2 que multiplica não sei o que ao quadrado -– , quando acaba de dizer essa sequência, perdeu. Porque o aluno, quando está ouvindo o rádio, o fascículo está fechado ­– porque ele é discutido depois da aula, não é dentro da dinâmica. Então, 2 que multiplica não sei o que... já perdeu. Já se tentou fazer cortina de silêncio; já se chamou aquele violonista, acho que era o Manoel da Conceição, mas quando ele tocava o violão, qual era o efeito no aluno? Era o som que chegava a ele. Então, nós procuramos levar muito a sério, mas há problemas. O San George conta uma experiência. Uma vez, dirigindo o carro, ouviu: “2 que multiplica não sei que lá.... Acabamos de ouvir uma aula produzida pelo professor San George”. Ele disse que parou o carro e voltou para a Fundação Anchieta, porque, ele disse: “Ninguém é capaz de pegar uma equação dessa maneira.”. Acho que a radiodifusão ainda tem problemas, mas ajudou muita gente. Nós temos o caso dos puxadores de sisal do Rio Grande do Norte. É muito interessante porque eles tinham um contrato de trabalho para fazer aquela puxada do sisal, então eles botaram duas cláusulas: que eles pudessem levar a bicicleta e pudessem ouvir o programa de rádio.
AO – E o que aconteceu com eles?
Eles tiveram bom resultado. Foi a primeira experiência e eles tiveram bom resultado.
AO – E as enfermeiras?
As enfermeiras também, nos hospitais, nos plantões. Não as formadas: as ajudantes de enfermagem. Porque as enfermeiras, na maioria dos Estados, têm faculdade. Motorista de táxi ... tínhamos muitos motoristas de táxi.

AO – Existem cartas desses alunos guardadas?
Quem guardava essas coisas era o seu Mario Dias, que cuidava do nosso arquivo. Ele é a memória viva. Quando eu saí do Minerva, deixei 200 pastas de arquivo. Ele me telefonava e perguntava: “Professora onde é que está aquilo assim?” “Na pasta tal, seu Mario.”, quer dizer, dois obsessivos. Porque a minha saída do Minerva foi abrupta.
AO – Vocês modificaram alguma coisa na linguagem radiofônica depois da primeira experiência?
Sempre modificava alguma coisinha, não propriamente uma coisa só radiofônica. Sentava o conteudista com o redator, e dizia: “Não podia dizer isso de uma outra maneira?”
AO – Vocês usavam radioteatro ou outros recursos?
Não usávamos; nós preferíamos o formato aula. Porque achávamos que a experiência da TVE com o Projeto Conquista, que era uma novelinha, não tinha dado certo. Então o que acontecia? Era um casal de namorados, uma Malhação (programa jovem da TV Globo), mais ou menos, só que, de vez em quando, no meio da Malhação entrava o conteúdo de Matemática. Ora, quem estava interessado no namoro não prestava atenção; e quem estava interessado no conteúdo de Matemática tinha que agüentar o namoro. Então nós fugimos desse formato. Conversamos com alguns ex-alunos, e eles diziam que não se sentiam prestigiados com o Teatro do Projeto Conquista, porque eles achavam que era uma brincadeira, então eles queriam aula, mas aula radiofônica. Tanto que a gente não deixava abrir o fascículo, quer dizer, essa era a orientação. Dizíamos: “Hoje nós vamos ter aula de Português número 6, e História número tal, e aí -– tá na hora do ‘Projeto Minerva’ ”, eles ligavam o rádio e fechavam o fascículo. Quando terminava, o monitor então verificava com eles as dúvidas – estou voltando para a mecânica – para fazer a avaliação que estava na própria proposta de aula. Então eles gostam desse formato, isso eu posso te garantir.
AO – Se o módulo durava ano e meio, e você ficou de 72 a 79, você fez pelo menos quatro módulos. Quando acabava o módulo essa análise servia para quê?
O que atrapalhava era o fato de não haver uma continuidade na transmissão. Porque ou eles simplesmente não cumpriam a portaria ou simplesmente baixavam a potência do rádio. Então você está ouvindo um conteúdo, baixando a potência do rádio e não tendo fiscalização, porque o PRONTEL dizia que não podia fiscalizar, é mais ou menos como os aviões, a mesma história, ninguém pode fiscalizar, era a mesma coisa. Então esses problemas que eu fui sentindo e foi por isso que eu quis estudar os sistemas.
AO – Então o problema era menos da produção de conteúdo e mais da fiscalização do sistema?
É. A produção formato aula era eficiente, o tempo era suficiente, a não ser em Matemática – Matemática é sempre uma dificuldade.
AO – Tinha problema também da recepção?
Pois é isso que eu estou dizendo: baixavam a potência do rádio, não se entendia. Então, eu acho que o que precisava era fiscalizar melhor e descentralizar, no sentido de fazer uma programação mais adequada às características locais. Não que se tirasse o cunho nacional,, mas também se botasse alguma coisa de regional. Em Educação Artística nós conseguimos isso com a Maria de Lurdes Mader. Ela conseguia dizer: “Vamos fazer com o barro local, com a mistura de terra local, faz aquelas garrafinhas de cor.” Então, ela fazia uma programação voltada para o artesanato local. Mas por quê? Porque o conteúdo de educação artística é um conteúdo mais livre. Então ela pode adaptar essa realidade. Por isso que eu acho que descentralizando e analisando pelo programa do IRDEB (Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia) , as falhas do IRDEB são outras, mas você consegue uma programação mais adequada.
AO – Por que, apesar de toda sua dedicação, você resolveu sair? Como foi a sua saída?
Eu resolvi sair porque, quando terminou o primeiro curso completo, as quatro etapas, eles ansiavam para fazer um supletivo de segundo grau. Bom, então vamos fazer um supletivo de 2º grau, já que nós estamos tendo sucesso com o de 1º grau, vamos fazer de 2º grau. Aí o Heitor – nessa época tinha o curso supletivo da Abril, Telecurso de 2º grau – disse: “Não vou produzir de novo, vamos usar o Telecurso de 2º grau.” E eu achei que isso era um retrocesso, porque a gente estava voltando à fase de usar programação dos outros. Fui voto vencido, ele não aceitou e eu sou cabeçuda, disse: “vou me embora.” Aí fiz minha carta de demissão e mandei para ele. E o Heitor, o que ele fez? Ele fez o convênio com a Fundação Roberto Marinho.
AO – Você hoje faria a mesma coisa que você fez no Minerva? Você acredita no que fez?
Eu acredito
AO – Apoiaria a implantação novamente de um programa radiofônico?
Com uma avaliação bem cuidada, com planejamento, hoje nós temos recursos que nos permitem avaliar, julgar. Nós tentamos fazer um teste via rádio para ver como chegava o sinal no Projeto Seringueiro, para ver se as pessoas, quando fizeram o Mobral, tinham sido alfabetizadas.
AO – Fale um pouco sobre o Projeto Seringueiro.
Vamos acabar de falar sobre o Minerva. No Minerva eu identifiquei algumas coisas e quis aprofundar.

AO – Essas coisas são?
Delegação, a descentralização da portaria e a diversificação do programa. Poderia ter uma parte nacional, mas deveria ter uma parte local. Bom, então, esse foi o Projeto Minerva, acho que é uma coisa valiosa que nós não temos no Brasil, de dimensões continentais, possibilidades de se atender todo mundo. Eu acho que nós temos que usar os recursos a distância, e a radiodifusão pela cobertura nacional. Ter uma programação que leve educação para os mais necessitados – ou porque estão fora de zonas centrais, ou porque são deficientes físicos etc. Então eu acho que a radiodifusão até na alfabetização ela pode dar conta .
AO - Fale do Projeto Seringueiro, então.
Nós fomos procuradas na época da ditadura. Foram para o Serviço de Radiodifusão 11 coronéis, e um deles teve a idéia de fazer uma programação para Amazônia. Eles tinham uma tentativa com o Mobral que não tinha dado certo, que era uma programação profissionalizante. Eles queriam ensinar ao seringueiro a fazer a coagulação imediata do látex. Como? Como faz o seringueiro normalmente? Ele sangra a seringueira às 5 da manhã e a tarde ele volta tirando o látex coagulado. Bom, isso é um esforço enorme, o homem fica no campo o dia inteiro para recolher o látex. Então eles tinham descoberto que existe uma semente que se chama cernambi virgem prensado que, colocada, o látex coagula imediatamente. Então com isso bastava uma jornada. E ai nós pensamos: esse seringueiro vai ficar fazendo o quê? Ele vai na meia jornada, coagula o látex, retira na mesma hora e na parte da tarde está livre. Então nós pensamos em propor alguma coisa que eles pudessem fazer. Uma pequena roça, uma plantação, uma criação de galinha, coisas assim, essa foi a nossa proposta para o Projeto Seringueiro.
AO – Essa é uma questão bastante regionas e descolhecida por quem vive na cidade. Vocês viajaram para a região para estudar?
Não, nós pedimos que enviassem dois sociólogos que fossem morar na comunidade para sentir os problemas locais. Um era o Saulo, que foi Secretário de Educação de Alagoas. Eles foram contra, eles foram inteiramente contra. Ai já começou a primeira dificuldade. Disseram: “Vocês tem que dar continuidade de primeira a quarta série porque eles já são alfabetizados”. Eu, com meu jeito malcriado, perguntei para eles: “São alfabetizados?”. “ Sim, são alfabetizados pelo Mobral”. Eu disse: “Então nós queremos verificar.” E aí nós fizemos um teste radiofônico, foi uma experiência, acho, pioneira. Pelo rádio nós fazíamos as perguntas e o aluno tinha que responder um material escrito sobre cernambi virgem prensado. E aí eles eram analfabetos, nós fizemos o teste radiofônico, quando você fazia a pergunta pelo rádio ele respondia, quando você dava a cartilha, não. Porque, justamente, eles tinham feito uma cartilha e os alunos não conseguiam ler a cartilha e eles não entendiam porque, porque diziam que os alunos eram alfabetizados. De alfabetização eu entendo, eu e a Marlene temos cartilhas publicadas. Então, eu disse para o coronel: “Coronel essas pessoas não estão alfabetizadas. Se nós fizermos essas perguntas através do rádio eles vão responder”, e respondiam.
AO – Eles não sabiam escrever?
Não, era marcar com X. Tudo eles sabiam responder, mas eles não eram alfabetizados, então por isso eles não dominavam a cartilha. Por isso entrou o rádio como apoio. E aí começou o problema com os seringalistas. Disseram: “Essa gente vai criar galinha, vai ter ovo, como nós vamos dominá-los”. Então foi esse o problema, até eu sair.

AO – Vocês chegaram a fazer os programas e chegaram a veicular?
Eu não estava mais, aí entrou a Aparecida, que era a coordenadora.
AO – Então você fez apenas o trabalho inicial, o primeiro estudo?
É, eu fiz o estudo da implantação. Eu identifiquei o problema, eu busquei a causa, eu busquei uma solução para eles, mas eu não pude ter um apoio sociológico, que eles não concordaram. Tolice da gente pensar que eles iriam concordar com essa proposta. Depois daí ficou com a Aparecida, ela não tinha formação nessa área, não sei o que deu não, não sei quanto tempo durou, nada disso eu sei dizer para vocês.
AO – E depois a senhora chegou a trabalhar com educação via radio, teleducação ou educação a distância?
Eu trabalhei no SENAC, na Mariz e Barros, com Saulo Ramos. Nós produzimos as fitas para formação profissional, eu, a Marlene e o Ronaldo, nós fazíamos os scripts dos programas, o conteúdo era fornecido por eles. Eram cursos profissionalizantes de gráfico, torneiro mecânico. Tenho outros trabalhos no Centro de Tecnologia Educacional, onde fui Diretora de Divisão e de Produção de Programas. Nós produzimos programas de alfabetização, eu supervisionava também a equipe: era a diretora da produção. Tenho uma experiência num sindicato para formar motorista de empilhadeira, utilizando o rádio como uma das formas de dar o conteúdo e a parte prática na empilhadeira. Tenho algumas experiências. Tenho muita vontade de participar de um projeto de alfabetização via rádio, aliás o Zé Zuca sempre me fala isso: “Vamos tentar.” Nós não tentamos fazer isso. Ele foi meu aluno, ele fez a parte pedagógica no Bennett, num curso que eu criei aos sábados. AO – Houve alguma investida sua em relação à alfabetização, para esse enorme contingente de ouvintes cegos? O Minerva pensou alguma coisa nesse sentido?
Não. Eu tenho uma experiência, mas aí é na área de artes. Uma aluna nossa do Bennett que fez a monografia de final de curso sobre o Instituto Benjamin Constant e levando eles a exposição e eles aprendendo a forma dos objetos, que hoje isso já é comum, eles já fazem muito isso com a mão.
AO – Considerando o computador, a internet, a televisão, qual o diferencial do rádio para as outras mídias?
Eu acho que embora todo mundo tenha uma televisão, o rádio é o companheiro de todas as horas, todo mundo tem um radinho, seja o pu­xador de sisal, seja o enfermeiro no hospital, seja o motorista de táxi, pessoas que trabalham em fá­bricas.Eu acho que o rádio tem o seu lugar sempre.
Eu acho que precisava-se estudar um pouco essa questão de quantidade de conteúdo com programa radiofônico. Porque sete laudas e meia de conteúdo de uma vez, eu acho que é muito conteúdo. Eu acho que a gente precisava perder essa mania conteudista que a gente tem. Eu sou professora de Português, me pergunta se eu sei todas as figuras de linguagem? Então, há coisas que eu acho que não são essenciais, por exemplo, uma sociologia, filosofia, cidadania são mais essenciais do que isso, então, eu acho que a gente devia ter um pouco mais de humildade, de ver o que uma pessoa precisa necessariamente para viver com dignidade.
AO – Então, o que você propõe seria uma revisão curricular?
Que fosse aquele currículo mínimo, que já é assim exigido, mas acontece que um especialista, ele quer dar todo o conteúdo de uma vez. Para que serve saber as capitais dos países? São coisas que não precisa. Consulta a internet ou consulta um mapa.
AO – Quer dizer que se o Projeto Minerva fosse feito hoje, novamente, você sugeriria uma revisão de conteúdo?
Uma revisão de conteúdo, quer dizer, a criação de um grupo interdisciplinar, que realmente tivesse experiência com ensino. Que tivesse experiência com ensino superior para ver que conteúdos são necessários. Por exemplo, na Matemática: nós sabemos que a Matemática que cai no vestibular é matemática ensinada na 7ª série, que é base para o 2º grau e para o vestibular. Então isso não podia deixar de ter. Então esse tipo de coisa é que precisava fazer, antes de chegar a grandes produções. Porque diminuiria o custo. Às vezes o programa pode durar 10 minutos, e não 15. Porque você também ter 15 minutos de atenção dirigida com essa televisão de mosaico, que a gente tem um mosaico aqui, outro aqui, isso tudo não faz de nós hoje leitores. Quantas pessoas hoje sentam e lêem um livro?
AO – E seria preciso uma adaptação de linguagem também, para esse novo estudante que tem uma maneira de receber conteúdos diferentes.
É, conteúdos diferentes. Nós tínhamos que pensar assim, o estudante era esse, a ocasião era essa.. Como o estudo sociológico que a gente queria fazer do seringueiro. Saber qual conteúdo não pode faltar e como nós podemos trabalhar esse conteúdo de maneira adequada para ser recebido. Por exemplo, Português. O Domício não dá classificação das orações coordenadas adversativas e depois as subordinadas. Ele ensina todas e depois ele vai trabalhando cada uma. Essa é uma abordagem que talvez seja melhor para quem tem uma visão mais ampla, uma visão mais global, e depois você vem com os pedacinhos. Eu acho que isso deu muito certo nas aulas de português, eu gosto. O prólogo, ele tinha sempre um prólogo, era interessante, eu acho que há essa possibilidade. Acho que não deve ser nada jocoso. A Globo está cheia de programas jocosos, mas não é isso. Para uma pessoa que se sente diminuída você fazer da hora de estudo uma brincadeira não funciona. Agora, eu tinha muita vontade de fazer essa experiência com a alfabetização, eu acho que era interessante pegar essa possibilidade de alfabetizar pelo rádio.
AO – Você ainda ouve rádio?
Ouço.
AO – Como vai a sua visão panorâmica do rádio de hoje?
Olha hoje eu ouço muito música, porque os outros programas eu não acompanho, eu ligo o rádio para ouvir música..
AO – Você não sente falta de radioteatro, literaturas, essas coisas?
Sinto, radioteatro, discussões de assuntos, isso falta. Campanhas educativas.
AO – Cidadania?
Cidadania. Isso era a aula de moral e cívica, isso podem fazer no rádio, mas não fazem, porque é muito comercial. Eu acho que a gente não pode estagnar um veículo.
AO – Eu gostaria que você falasse sobre o Ghiarone, o trabalho dele, a importância do trabalho dele.
Eu acho que para nós foi uma felicidade termos o Ghiarone e depois a continuidade com a Regina Salles, porque nós delimitávamos o nosso campo de trabalho. Uma vez o Luiz Antonio, do PRONTEL, disse que deveria haver um coordenador só. Aí eu disse: “Então me tira, porque eu não posso coordenar uma área que eu não entendo”. O Ghiarone foi fundamental nesses cursos. Sem ele não teria tido. Porque não adiantava ter o conteudista, se eles também não arranjassem os redatores, os redatores não cumprissem os prazos, então foi um esforço conjunto, foi realmente uma equipe interdisciplinar, cada um com seu chefe. Havia muito respeito de um pelo trabalho do outro.

 

 

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