de Utilidade Pública Federal - Portaria no. 3935
de Utilidade Pública Estadual (RJ) - nº2464
de Utilidade Pública Municipal (RJ) - nº3048
detentora do Prêmio Estácio de Sá 2002

 

 

Sergio Viotti

 

Eu nasci em São Paulo e vim para o Rio de Janeiro em 1945, para fazer o Itamarati. Depois encontrei pessoas de teatro - graças a Deus! - e elas me colocaram na ativa. Eu era muito amigo de Heitor Helimonda, e, através do Heitor, eu conheci muitos músicos. Conheci o Edino Krieger, o Guerra-Peixe, Koellreutter, Ilara Gomes Grosso, Iberê, conheci aquela turma toda. E todos eles tocavam na Rádio MEC. René Cavé tomava conta deles todos e também da gente de teatro. O Rêne era um homem encantador.
Eu estudei piano até os 14 anos de idade, e sei ler música. Então, quando os meus amigos músicos iam dar concerto na Rádio MEC, eu ia junto para virar a página - ainda era naquele estúdio que não existe mais, depois a Rádio fez um outro, compridão. Eu tinha dezessete anos e achava isto uma coisa fora do comum. Imagina: eu, Sérgio Viotti, na Rádio MEC, virando página para Heitor, para Maria Abreu, pra Laís de Souza Brasil, entende ? Eu ficava louco ! Eu nunca pensei que fosse trabalhar em rádio, mas surgiu a possibilidade de ir para a BBC, e, eu não tive duvida: fiz correndo meus exames de admissão, esperei um ano e fui para a Inglaterra, onde fiz rádio na BBC durante quase nove anos. Ai, voltei para o Brasil, para São Paulo, onde tinham acabado de fundar a Rádio Eldorado. E eu achava que, voltando para o Brasil, nunca ia fazer rádio, porque o rádio que eu fazia na BBC não tinha nada a ver com o rádio comercial. A Rádio MEC tinha um elenco fixo de radioteatro, e eu conhecia o diretor da rádio, que na época era o Avelino Henrique, no tempo do Passarinho. Um dia ele me telefona, e diz -Escuta aqui, eu tenho este elenco. A gente não podia usar para fazer rádioteatro ? Como eu morava em São Paulo e trabalhava na TV 2 , passei a vir ao Rio de 15 em 15 dias, numa Segunda-feira. E a cada Segunda-feira a gente gravava duas peças. Graças a deus eram todos bons atores. O Zé (Magalhães Graça) eu conheci a vida inteira, porque o Zé era um extraordinário pianista e a gente estava sempre junto. Ele era muito bom ator e trabalhava como ator em teatro. Acabou desistindo da sua carreira como pianista, porque ele tinha pânico de público. Ele podia sentar aqui com a gente e tocar piano horas a fio, se ele entrasse num teatro ele esquecia... A Agnes Fontoura também era uma pessoa maravilhosa, uma atriz esplêndida. E a grande maioria dublava, o que dá uma tarimba enorme. Então eles recebiam a peça com antecedência e eu chegava lá na segunda, fazíamos uma leitura, fazíamos uma 2º leitura e gravávamos. E esse era o processo de criação das peças. Se fosse uma coisa muito complicada: mais uma leitura. Naquele época, a Rádio não tinha um estúdio próprio para rádioteatro, não. A gente tinha que se virar, porque não tinha muita coisa, não. Para fazer uma porta que abre e fecha, era uma coisa complicadíssima. Até para conseguir uma maçaneta era complicado. Para nós conseguirmos um caixote de madeira com areia e umas pedras dentro, para fazer passadas ao ar livre, era difícil. Mas nós acabávamos conseguindo: a gente conseguia tudo. É verdade também que eu nunca tentei fazer peças extremamente complicadas do ponto de vista de produção, porque a gente também não tinha muito tempo. Em 72, o Avelino teve um problema. Alguém ia sair e, por acaso, nesta época eu tinha saído da televisão e queria voltar a fazer teatro aqui, no Rio, e não tinha aquele compromisso de estar em São Paulo e vir ao Rio. Aí o Avelino disse: " Por favor, venha ser diretor artístico da Rádio, comigo".
Como eu trabalhava em rádio desde 58, e aquilo não tinha nenhum segredo para mim, eu aceitei. Mas as condições eram as piores possíveis e imagináveis! Você tinha a impressão de que era o Titanic depois que afundou! Basta dizer que havia um corredor com toda a biblioteca empilhada num canto, havia janelas com cortinas e livros empilhados atrás das cortinas - não me pergunte por que! - eles estavam usando o local da biblioteca para outra coisa. A discoteca era praticamente inexistente... Sabe quantos funcionários eu tinha? 62 !!! 62 produtores !! e tinha duas máquinas de escrever. E um dos meus funcionários era Carlos Drumond de Andrade ! Um dia eu entrei na Rádio e vi o Carlos chegando e abrindo o livro de ponto, e fiquei desorientado e perguntei o que ele estava fazendo ali. Ele responde: " Eu vim assinar o livro de ponto. "
E eu digo : "O que ?! Você vem aqui para assinar o livro de ponto? Primeiro, nós é que devíamos levar o livro para a sua casa, ficar de joelhos para você assinar, e pagar a você por cada autógrafo ! E nunca mais apareça aqui ! E você não vai perder o emprego, não." Coisas do Brasil, né? Existe um ditado na Inglaterra, que diz: "Se você jamais foi um homem da BBC, você sempre será um homem da BBC", quer dizer, é um estigma, uma coisa que fica gravada a fogo na sua pele. Eu acredito que, para quem gosta da Rádio MEC, para quem a Rádio MEC significou ou significa alguma coisa - quer você goste como funcionário, quer você goste como ouvinte, é igual. Uma vez amante da Rádio MEC, para sempre amante da Rádio MEC."

(Depoimento gravado e transcrito por Murillo Saroldi, com a colaboração de Livia Rosa)

 

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