de Utilidade Pública Federal - Portaria no. 3935
de Utilidade Pública Estadual (RJ) - nº2464
de Utilidade Pública Municipal (RJ) - nº3048
detentora do Prêmio Estácio de Sá 2002

 

Luiz Carlos Saroldi

Amigo Ouvinte - Saroldi, como foi o seu começo radiofônico?

Luiz Carlos Saroldi - Acho que havia um rádio próximo do meu berço. Era naquele tempo do rádio Capelinha, nos anos 30. Lá em casa se ouvia muito rádio - com a família inteira em volta, claro. Aquelas vozes, aquelas músicas, o falar carioca, chegavam por ali. Mas eu nunca pensei em trabalhar em rádio. Mas certa vez, ainda no curso cientifico do Instituto La-Fayete, foram convidar jovens atores para participar de um programa na Rádio Nacional, escrito pelo produtor Mario Faccini, cunhado do Almirante. Isso em 1949/50, por aí. Fui selecionado para ir nesse grupo e vi de perto alguns dos grandes nomes da Nacional, além daquele estúdio maravilhoso de radioteatro. O programa foi dirigido pelo Restier Junior, um velho homem de teatro conquistado pelo rádio. O programa era ao vivo, não se podia errar. Então, foi uma amostra do que era o profissionalismo da Rádio Nacional, com sonoplastia e anúncios, tudo entrando na hora certa. Mas apesar de deslumbrado com aquele clima, meu interesse maior continuou no teatro. Em 52 tranquei a faculdade para viajar como profissional com a companhia Carlos Couto-Aurora Aboim, trabalhando como ator e assistente de direção. Apesar da qualidade do repertório e das boas críticas, foram três ou quatro meses de "mambembar" pelo nordeste - o dinheiro não dava para as despesas. Na volta eu percebi que não podia viver de teatro e estudar ao mesmo tempo. Então, retomei a faculdade e comecei a buscar um espaço no rádio.
Fiz um teste para locutor na Rádio Jornal do Brasil. Me deram um período de experiência, abrindo a rádio às seis da manhã. Mas tudo ainda era muito rígido na JB. As pessoas falavam com a voz impostada, e foi difícil me enquadrar. Na época a Rádio era dirigida pelo Oswaldo Éboli, o Vadeco, do Bando da Lua, tendo como assistente da direção o dr. Nascimento Brito, que começava na empresa. Fiquei umas duas semanas, e como eu não mudava e nem a Rádio mudava, desisti. Pouco depois, saiu um anúncio no jornal dizendo que a Rádio MEC ia promover um curso de rádio para professores, advogados e estudantes. Eu me inscrevi. As aulas eram no estúdio sinfônico, transformado em auditório. Havia um número grande de participantes. E foi muito interessante, porque, além dos locutores e produtores da própria Rádio, como Edino Krieger, Paulo Santos, Geny Marcondes e outros, conheci profissionais do nível de César Ladeira e do professor José Oiticica, catedrático de português do Pedro II. O curso foi muito bem organizado por dona Neusa Feital, incluindo prática ao microfone para os interessados. Fernando Tude de Souza era o diretor da rádio na época, se não estou enganado. Mas dali não saiu mais que isso.
Passa-se algum tempo e um dia reaparece a JB em minha vida. Agora por intermédio do Ivan Meira, ex-locutor e produtor da Rádio MEC que havia se passado para lá. A então PRF 4 continuava tentando se modernizar, mas não sabia bem o que fazer. As grandes emissoras eram 'ecléticas' - faziam de tudo A Nacional e a Tupi, por exemplo, competiam no futebol, no jornalismo, nas novelas, nos programas de auditório e nos grandes e pequenos musicais. Poucas emissoras eram especializadas - segmentadas, como se diz hoje. A Rádio JB não tinha futebol, mas transmitia as corridas do Jóquei e valorizava a música erudita bem mais do que a popular. De repente surge lá a idéia, não sei de quem, de fazer um programa radiofonizado, aos sábados à noite, com adaptações de contos; aí precisaram formar um pequeno elenco, de jovens atores. O Allan Lima era um deles. Lembro também de uma moça, Carmem Barbosa, a Vilma Torres, que era minha colega da faculdade e mais alguns. Claro que não tínhamos contrato, mas recebíamos cachê para participar. Foi bom, mas a iniciativa não durou muito tempo.

AO - Isso em que ano?

LCS - Por volta de 54/55. Bem, eu continuei fazendo as minhas coisas,. enquanto o rádio evoluía, tentando conviver com a chegada da TV. A Rádio Tamoio subia de audiência, com seu esquema "música, exclusivamente música", amparada em uma equipe de Bacharéis do Disco. Tentei um teste por lá mas não deu pé. Até que em 59 a JB se decidiu a buscar de fato o seu caminho no rádio moderno. O responsável pela Rádio era agora o dr. Nascimento Brito, tendo como diretor artístico o jornalista e produtor Kosinski de Cavalcanti, que tinha sido da Rádio Eldorado e da Tamoio, e teve a preocupação de contratar uma equipe renovada. Levou, entre outros, Fernando Veiga e Dymas Joseph, e este indicou meu nome ao Kosinski. O novo diretor precisava de alguém que produzisse a simulação de um concerto ao vivo, com palmas, evidentemente gravadas. Devia ter um tema, um prólogo, uma bossa qualquer. O Dymas me chamou e eu apresentei um esboço. O Kosinski gostou tanto que me propôs um acúmulo de funções: ser assistente dele e programador - coisa que eu não tinha feito até então - trabalhando com música popular. Eu aceitei porque o salário cresceu, e aí foi o meu batismo profissional, realmente. Mas o Kosinski não ficou muito tempo.

AO - Em que ano estamos?

LCS - Estamos no ano de 1959, exatamente. O jornal havia modificado sua feição gráfica, modernizada pelo Odilo Costa Filho, em 1956, com o Amílcar de Castro, o Jânio de Freitas e o Reinaldo Jardim - que fazia o suplemento literário e tinha sido redator da Rádio JB. Com a saída do Kosinski, quem entrou pra direção foi o Reinaldo Jardim - que além de poeta, gostava muito de rádio. Ele deu toda liberdade à equipe e trouxe novas idéias. Aí então se definiu a linha da JB como "música e informação". Alternava notícias, prestação de serviços e utilidade pública com música selecionada. E era selecionada mesmo: nem Roberto Carlos cantava lá - pra você ter uma idéia dos preconceitos da época. Além de programar, eu também escrevia. Um desses programas era o Trailer Musical, só musica do cinema. Nele comecei a brincar com o texto, quebrar a monótonia do "vamos ouvir... acabaram de ouvir". Contava historinha, fazia humor com os personagens do filme, e isso agradava. Ainda na época do Kosinski foi lançado o Encontro na Discoteca, um programa apresentado pelo Paulo Santos. Ele entrava pela discoteca com o microfone na mão e conversava com os programadores, cada um mostrava alguma coisa interessante em matéria de disco, executado na hora. Isso deu um novo dinamismo pra Rádio JB, que tomou sua feição definitiva com as idéias do Reinaldo Jardim. Ele criou o Serviço de Utilidade Pública e também inventou um chamariz para medir a audiência, O Garoto Assobiador. Era um rapaz que assoviava um tema duas ou três vezes por dia no meio da programação, e o ouvinte tinha que escrever acertando as horas em que tinha ouvido o assobiador. Os acertadores ganhavam discos. Outra invenção do Jardim foi o miniprograma Música Também é Notícia, com 10 edições diárias, do qual fui o primeiro produtor. Apesar da canseira foi uma fase muito estimulante, que me deu um "banho de rádio", porque até então eu só contava com aquele curso da Rádio MEC. Na JB aprendi a escrever programas de vários tipos, redigir chamadas e selecionar discos, coisa que eu nunca tinha feito. Esse período durou três anos, até que em 62 saí de lá para fazer publicidade.

AO - A JB tinha um gosto musical bem marcado. E entre outras coisas ela teve uma participação importante na bossa nova. Fale um pouco desse período.

LCS - Esse período da JB coincide com o nascimento da bossa nova, que ela ajudou a partejar, na verdade. Porque a preocupação com o repertório musical da JB não admitia gravações de som antigo, deficiente, ou acompanhamento pobre. A vestimenta musical de bom gosto era uma preocupação da direção e dos homens da discoteca - o Dymas Joseph, o Fernando Veiga, que tinham grande experiência nisso. Então a bossa nova surgiu trazendo um som diferente, a batida do João Gilberto, embora com pequeno acompanhamento, violão em destaque. Me lembro de uma mesa redonda dos programadores com o Reinaldo Jardim e o Edino Krieger em que discutimos aquela novidade e concluímos que valia a pena abrir espaço na JB para a bossa nova, e aí começamos a garimpar cada disco que chegava. Ainda no Encontro na Discoteca entrevistamos o produtor da etiqueta Festa Irineu Garcia, que foi nos levar o LP Canção do Amor Demais, com Elizete Cardoso, música de Tom e Vinicius. Me lembro até hoje dessa conversa: Irineu Garcia se tornou uma figura por quem tenho uma grande admiração.

AO - Ele era produtor de discos?

LCS - Era funcionário público, tinha um cargo no MEC, mas só pensava em música e poesia. Ele começou registrando poetas dizendo seus versos. Depois o selo Festa abriu o leque na literatura falada, chegando a gravar uma radiofonização de O Pequeno Príncipe, com Paulo Autran como narrador. Em seguida o Irineu enveredou pela música, lançando um disco de modinhas cantadas por Lenita Bruno até chegar ao Canção do Amor Demais. Penso que essa posição da JB com relação à bossa nova indica como a emissora foi importante. Apesar de ser comercial, ela tinha a preocupação de oferecer o melhor a seus ouvintes. Tinha também um tom descontraído, marcado pelas vinhetas especiais gravadas pelo conjunto Os Cariocas, e uma equipe de locutores do melhor nível - vozes como as de Jorge da Silva, Eliakim Araújo, Sergio Chapelin, Maravilha Rodrigues, Orlando de Souza, William Mendonça, tantos outros. Nela existia uma certa aura, tanto que o número de órfãos da JB é hoje muito grande, não só aqui no Rio, mas por todo o Brasil.

AO - Qual era o alcance da JB? Qual era o Ibope?

LCS - Nessa época, na virada dos anos 60, a JB com sua nova programação alcançou o quarto e o quinto lugares no Ibope, onde praticamente estacionou. Tínhamos a Nacional, que ainda resistia no 1º lugar, mas assediada pela Tamoio, com o esquema 'música exclusivamente música'. Em compensação, a JB tinha o grosso da audiência nas classes A e B, de maior poder aquisitivo, e uma carteira de patrocinadores de primeiro nível, incluindo companhias de aviação e uns dez bancos. Então ela chegou a ser das primeiras em faturamento. Música Também é Noticia, que o Reinaldo Jardim inventou e eu produzi, teve outros patrocinadores e outros produtores que me sucederam, mas durou muito tempo. Assim como o sucesso de Pergunte ao João, produzido pelo João Evangelista, e apresentado pelo Majestade (apelido do locutor Jorge da Silva) e Maravilha Rodrigues. O alcance era bastante razoável - tinha transmissor de 50 kws, novo, bem posicionado, e que chegava a cobrir todo o Rio de Janeiro e alcançava São Paulo à noite, principalmente. Aliás, ela chegava bem na cobertura noturna da região Sul, por vezes penetrando no Uruguai e Argentina. Anos mais tarde, através das cartas dos ouvintes do Noturno, eu constatei que o alcance era muito maior do que se pensava, que ela chegava também em Jequié e outras cidades do nordeste. O crítico Zuza Homem de Mello me revelou certa vez que sintonizava exclusivamente a Rádio JB quando descia para o litoral paulista. Ele se encantava com o estilo, com a programação musical e as nossas produções.

AO - Saroldi então você diz que essa experiência durou 3 anos, e depois você se retirou para a publicidade, questão de grana?

LCS - Foi: grana e um certo desentendimento. Um dia eu botei no ar em Música Também é Notícia Elza Soares cantando Maria, Maria, Mariá, do Billy Branco. O chefe da discoteca achou que fugia do nível da programação. Discordei, mas como não conseguimos chegar a um acordo, entreguei a produção do programa, o que representava um baque no meu salário. Aí, vim a saber que havia uma vaga de redator na Standard Propaganda. Fui e passei no teste, e o salário compensava a saída da JB. A experiência com publicidade me deu um outro aprendizado: o lado das agências, o contato com a parte comercial, a Standard tinha grandes anunciantes naquela época. Eu escrevia anúncio para rádio, televisão, imprensa. Bem, aí chegam os anos turbulentos de 1960, com o parlamentarismo, agitações, as reformas de Jango, e de repente eu era um dos redatores da campanha pelo plebiscito que trouxe de volta o presidencialismo. Mas depois de abril de 64 pedi demissão da Standard. Passei a ser free lance de publicidade em vários lugares e a dirigir teatro na então Universidade do Estado da Guanabara. Mas o clima político também não me permitiu seguir adiante. Sobrevivi algum tempo numa espécie de marginalidade, escrevendo teatro e redigindo publicidade. Até que, por volta de 72, o Célio Alzer me chamou para dividir uma quantidade de programas que ele produzia para o Projeto Minerva, e comecei com uma série para Mossoró - uma experiência de ação comunitária pelo rádio.

AO - Que lembranças você tem do clima da Rádio nesse momento?

LCS - Aquele início também me levou a radiofonizar a série Quem Conta um Conto. O Allan Lima era o diretor da Rádio. Eu escrevia, entregava os scripts e alguém produzia. Eu não gostava muito do resultado, nem o Allan. Aí ele pensou que eu poderia dirigir o radioteatro, e levou meu nome ao superintendente, que era o Avelino. No dia marcado para assinar o contrato, o Avelino voltou atrás, sem maiores explicações, deixando o Allan contrafeito. Comecei a somar com outras coisas e descobri que o meu nome não era bem visto nos meios oficiais, talvez pelo que eu havia escrito em matéria de teatro. Com isso, eu não entrei para a Rádio MEC naquele momento. Tive depois uma temporada meteórica e desastrosa em certa fase da TV Rio, até que apareceu uma oportunidade de voltar à JB - ela estava se mudando do prédio antigo da Avenida Rio Branco, onde eu havia trabalhado, para a Avenida Brasil, a sede nova. Havia uma vaga entre os produtores e o Fernando Veiga me ofereceu o lugar. A situação da tevê era altamente complicada, não pagavam de maneira nenhuma - era uma loucura aquilo lá! Então, entrei com uma ação no ministério do Trabalho pra receber o período que tinha ficado na TV Rio e fui para a JB, como programador e produtor, isso em outubro de 74.

AO - Quem dirigia a Rádio JB?

LCS - Era o Carlos Lemos, jornalista encarregado do projeto da TV JB, então acumulando com a direção da Rádio. Fernando Veiga tinha um cargo equivalente ao de gerente e o Cleber Pereira ocupava a coordenação. Ali reencontrei amigos como Célio Alzer, o Ney Hamilton, o Elmo Rocha. O clima era muito bom, mas era outra época, não a do edifício antigo, simpático, da Rio Branco, e sim na sede moderna e um tanto fria da Avenida Brasil. Vivia-se também aquele clima de repressão, de cuidado com a divulgação de notícias. Mas me deram uma incumbência boa: de participar do programa Noturno, que era produzido em rodízio pelo Simon Curi e pelo Alberto Carlos Carvalho, tendo Eliakim Araújo na apresentação. Como o Eliakim tinha assumido o horário da manhã, eles tinham que escrever o programa e separar os discos de véspera. Fernando Veiga sugeriu que o Noturno ficasse mais jornalístico, incluindo entrevistas sobre cultura, uma espécie de talk show, digamos assim. O Eliakim continuaria como mestre de cerimônias, mas as entrevistas seriam feitas por mim, durante o dia, quando as pessoas podiam passar pela Rádio.
Como o Noturno ia ao ar de segunda a sexta, e na terça entrava o Especial JB, aos cuidados do Simon, a produção era dividida por três, dois dias para o Simon Cury, dois para o Beto, mais dois para mim - que ainda fornecia as entrevistas gravadas e editadas para os outros programas. O problema maior eram as férias do Eliakim. Nessas ocasiões tínhamos de improvisar com um locutor disponível. Mas a substituição era difícil, porque o Eliakim já identificava o programa - o Noturno começou em 72, estávamos em 74/75. Em uma dessas ocasiões Fernando Veiga chegou pra mim e disse: "Olha, eu acho que você podia, além de entrevistar, apresentar o programa nas férias do Eliakim, pra gente ver como é que fica. Acho que você pode descomplicar esse problema." Concordei, mas os primeiros dias foram constrangedores: eu não pegava a embocadura, até que comecei a brincar e a me soltar diante do microfone, e a coisa passou a funcionar. Claro que o Eliakim, quando voltou, não gostou nada de ser deslocado do Noturno. Mas ele já era a principal voz da JB, ocupando as manhãs da Rádio. Além de apresentar as duas primeiras edições de O Jornal do Brasil Informa, ele tinha um programa matinal de entrevistas, mais gravações de comerciais. Passado o mal-estar inicial, a idéia vingou e eu fiquei, de 76 em diante, produzindo e apresentando o Noturno..

AO - Era ao vivo?

LCS - Era gravado à noite, o que dava maior atualidade às informações. Mas houve época em que passamos a fazer ao vivo, o que possibilitava a participação do ouvinte pelo telefone. Na verdade, muitas coisas boas me aconteceram na época do Noturno, embora eu não tivesse criado o programa. Com a saída do Simon Curi fui encarregado pela direção de produzir também o Especial JB, talvez o programa de maior prestígio da emissora.- a biografia semanal de um grande artista, com chamada no jornal e, no dia seguinte, a transcrição da entrevista no Caderno B. Com o Beto Carvalho se voltando para outro setor, eu fiquei sozinho nessa produção - tinha apenas um assistente, e a participação do Ney Hamilton nas entrevistas. O Noturno tinha uma hora de duração e era como se eu tivesse uma cadeira de pista ou de calçada, num bar, onde passasse todo mundo importante. Quem fosse lançar um disco, uma peça ou se apresentar em show chegava para falar de seu trabalho. Dentro em breve entrava também por literatura e artes plásticas, cinema ou balé, enfim, toda a produção cultural da cidade. Essa fase foi muito enriquecedora do ponto de vista pessoal e profissional, até que mudanças da programação da JB levaram à entrada das transmissões de futebol e isso começou a colidir com o horário do Noturno.

AO - Sobre a experiência do Noturno, quanto tempo?

LCS - O Noturno nasceu em 72, eu cheguei em outubro de 74 e produzi até 83, mais ou menos. Em 80 fui premiado pelo Museu da Imagem e do Som com o Golfinho de Ouro em Rádio. Pouco depois houve a oportunidade de uma experiência nova em uma oficina de produção radiofônica, na Rádio MEC. Você e Marlene Blois me propuseram trabalharmos em conjunto com os funcionários da casa, com apoio do diretor Heitor Salles. Os objetivos eram promover o aperfeiçoamento profissional dos radialistas e rediscutir a linguagem do veículo, estimulando idéias de novos programas. Dali saíram frutos muito valiosos. Talentos se mostraram, como Zé Zuca e Mário Negreiros, por exemplo, e o formato do programa SOS Língua Portuguesa. Mas o principal foi o espaço aberto para a troca de informações, o intercâmbio entre as pessoas, arejando as cabeças e as formas de fazer rádio. Daí nasceu um convite do Heitor Salles para que eu assumisse a direção da MEC FM. Aceitei, até porque tinha diminuído minha carga de trabalho na JB. Mas foi uma experiência que durou pouco porque a direção da JB, quando soube disso, fez uma proposta - a mim e ao Antonio Hernandez, que também trabalhava nas duas emissoras - para darmos exclusividade ao Sistema JB. Nessa altura estava acabando o futebol e a rádio buscava nova formulação, mais jornalismo, all news, outras atrações. Defendi a idéia de voltarmos a ocupar o horário de fim de noite, tentando recuperar a audiência do Noturno que havia se dispersado. Sugeri um programa maior, com outro título, e uma feição um pouco diferente, com dois apresentadores: o Mauricio Figueiredo e eu, nos revezando pra poder dar conta da programação. O título mudou para Arte Final Variedades. Os ouvintes aprovaram, porque era feito ao vivo, não mais gravado. Para substituir o Especial JB ia ao ar às terças-feiras, também ao vivo, outra atração: As 10 mais da sua vida, série que chegou a 219 convidados na JB e depois prosseguiu até o número 394 na Rádio MEC. Era uma pesquisa sobre a memória musical dos brasileiros, e mais tarde se transformou no tema de minha dissertação de mestrado na UFRJ.

AO - Os telefonemas iam ao ar?

LCS - Não: o assistente de produção - primeiro o Jorge Martins, depois o David Trompowski, e até o Sérvio Túlio exerceu essa função - pegava as sugestões, opiniões e pedidos dos ouvintes e passava ao apresentador. De repente, artistas iam lá; uma noite, apareceram o Perry Salles e a Vera Fischer, na pausa de uma excursão teatral que estavam fazendo. Uma noite surgiu João Gilberto, infelizmente depois que eu saí. Nessa época foi contratado para superintendente do Sistema JB o Geraldo Leite, da Eldorado de São Paulo, que me convidou para coordenador da Rádio em todos os horários. Eu coordenava o horário noturno, e passei a responder pelo diurno também. Me lembro que no prazo de dois meses colocamos no ar 14 programas novos na Rádio. Escalando João Maximo, Tarik de Souza, Jota Carlos e Ana Maria Badaró, entre outros, para produzir e apresentar novas atrações. E com isso nós dinamizamos a Rádio. Mas aí esbarramos em um obstáculo que era o declínio do AM, no sentido de faturamento publicitário. As agências e os clientes diretos privilegiavam a faixa FM - que estava subindo de audiência - ou investindo em televisão. Então chegou o dia em que a Rádio resolveu reduzir os seus quadros. E, com isso, foi dissolvida a minha equipe, que funcionava como um departamento cultural - nós tínhamos um grupo de produção paralelo ao jornalismo, mas entrosado com ele, gerando entrevistas e programas. Mas todo esse esforço se chocou com a realidade econômica. Tive no entanto, ainda nesse período, o prazer de participar de outros projetos radiofônicos, um deles convidado pela BBC de Londres para roteirizar e coordenar a pesquisa da série O Rádio no Brasil, comemorativa dos 50 anos do Serviço Brasileiro da BBC. O outro foi a descoberta da vitalidade e importância da peça radiofônica na Alemanha, participando de seminários sobre o assunto e escrevendo textos sobre temas brasileiros produzidos pela emissora WDR, de Colônia.

AO - Fale um pouco mais dessa questão da decadência da AM e ascensão das FMs.

LCS - Bem, no Rio, a transmissão em FM foi explorada primeiro pela Rádio Imprensa, mas como música de elevador e sonorização de ambientes. No começo da década de 1970 surgiram a Eldorado, a Tupi e a JB, em 73, quando são lançados os novos aparelhos de som com faixa de freqüência modulada e som estéreo. Essas emissoras se apresentavam voltadas para a classe A e caracterizadas por uma programação musical sofisticada, com o mínimo de conversa. A JB/FM transmitia o dia inteiro grandes orquestras, grandes orquestrações populares internacionais, e de 20 às 23 horas entravam então os Clássicos em FM, uma programação especial, a cargo do Antonio Hernandez e do Edino Krieger, que editavam um boletim distribuído gratuitamente com o mês inteiro da programação. Os grandes anunciantes interessados na classe A, como companhias de aviação, fabricantes de bebidas etc. patrocinavam esses programas. Por paradoxal que pareça, até a redemocratização do país contribuiu para piorar as coisas, trazendo concessões de emissoras a políticos, religiões pentecostais e outras, menos interessadas na linguagem radiofônica. Aí, toda a faixa AM ficou muito poluída, o que transformou a JB em um corpo estranho - uma rádio que visava qualidade, tinha produções culturais, mantinha uma equipe jornalística numerosa, e que não conseguia sair do vermelho no fim do mês. Então, chegou o momento do castelo cair ou ter suas pretensões reduzidas. A redução não foi suficiente, até que a Rádio foi vendida.

AO - A Rádio Cidade surge como?

LCS - O Sistema de Rádio JB percebeu que tinha uma boa FM voltada para classe A, e uma AM voltada mais ou menos na mesma direção, embora deficitária.. E que precisava de uma rádio capaz de alcançar outro público, mais diversificado. Devia ser em FM, tanto por ser um modelo de instalação mais econômica quanto por representar um mercado em ascensão.Daí descobriram estar à venda uma emissora de Niterói, muito modesta, na qual puseram o nome fantasia de Rádio Cidade, e que foi instalada no prédio do JB, junto com as outras. Nesse ponto, é bom esclarecer um fato meio controverso, já que, segundo tenho visto e lido nos últimos tempos, não faltam "pais" para filhos bonitos e de sucesso. Mas quem, na verdade, sugeriu e implantou o modelo de locução e programação da Rádio Cidade foi o Carlos Towsend, sobrinho da Condessa Pereira Carneiro. Esse rapaz tinha estudado rádio nos EUA e voltara empolgado com o estilo das rádios norte-americanas. Existiam duas propostas: a de uma emissora convencional, parecida com as outras, porém mais popular; e o modelo que o Towsend propunha, de 5 ou 6 apresentadores-operadores, podendo improvisar sobre os textos, fazer humor, e com uma serie de bossas, além da novidade da programação musical voltada para o gênero discoteca. Era o formato pra conquistar a audiência jovem, que estava afastada do rádio, pois a faixa FM só pensava no público acima dos 30 anos. A direção calculava que a Rádio Cidade levaria pelo menos três meses para chegar ao primeiro lugar e ela chegou no primeiro mês - o Ibope se surpreendeu quando flagrou os motoristas ouvindo uma rádio que eles não sabiam qual era, a quem pertencia. Só então o Sistema JB promoveu campanha publicitária e a Cidade foi um acontecimento, sem dúvida nenhuma. A JB passou a ganhar em duas frentes: na classe A madura, na JB FM, e também na juventude das classes A/B/C, com a Rádio Cidade. Com isso, as grifes e as butiques começaram a anunciar na rádio. Podia-se lamentar o pouco espaço da mpb na programação da Cidade. Mas reconheço que o Carlos Towsend apostou na novidade da época, o gênero discoteca, e dirigia os comunicadores com pulso firme. Era um modelo novo que o jovem adotou, porque era dançante e irreverente - características ausentes do rádio da época.

AO - Retomando, então. Você sai da JB e vai para onde?

LCS - Eu saí em 92 da JB e em 93 fui para a Rádio Nacional - o que me interessava muito por causa do livro Rádio Nacional o Brasil em Sintonia, que eu tinha escrito com a Sonia Virginia Moreira e que tinha ganho em 84 um premio da FUNARTE. Eu continuava interessado em compreender o fenômeno da Rádio Nacional e ampliar a obra, atualizando observações - e o fato de vê-la por dentro foi muito importante. No fim desse mesmo ano, o Jorge Guilherme veio para a Rádio MEC e me convidou, e eu fiquei durante algum tempo produzindo programas, prestando serviços para a MEC.

AO - Como era a Rádio nesse momento? Como você sentia a Rádio nesse momento, em relação com as outras que você conhecia?

LCS - Para mim era muito visível um certo clima de serviço público na Rádio MEC, porque eu vinha de muitos anos em empresa particular. Mas quando retornei tive a impressão de que a realização da oficina havia contribuído para aquecer o ambiente de trabalho. Encontrei aqui, nos anos noventa, um clima mais estimulante, mais participativo, as pessoas menos temerosas de enfrentar novos desafios. Mas nesse momento eu ainda digeria o trauma de ter visto a JB acabar, contabilizava outros naufrágios, como o da Nacional, e sentia não ser impossível que o mesmo acontecesse à Rádio MEC, por qualquer acidente de percurso. Imaginava como seria se os ouvintes não fossem apenas receptores, mas se houvesse alguma forma de participação deles em favor da emissora que sintonizam, como acontece em outros países. Se isso é mais utópico com relação às emissoras comerciais, não parece contrariar a filosofia das emissoras públicas ou oficiais, ao contrário. Daí começou a surgir a idéia de uma coisa que nunca foi tentada entre nós, e assim nasceu a Sociedade dos Amigos Ouvintes da Rádio MEC, isso em 1991/2.

AO - Foi um ano trabalhoso, aquele. Discussão de estatuto, essa coisa toda de como fazer, e o apoio importante do Sergio Cabral, pai.

LCS - É verdade. Mas em abril de 92 a Sociedade já estava de pé, para dar a oportunidade da sociedade civil se manifestar com relação ao rádio. Pois o Governo só via o rádio em termos quantitativos, falando em implantar 10 mil emissoras no ano 2000. Hoje, estão em 3 mil e poucas, imagine se tivéssemos 10 mil, que loucura não seria - sem patrocinadores, sem dinheiro, o país em crise. Então tudo isso nos leva à necessidade de se pensar melhor o rádio, se pensar o destino do rádio, para onde ele está indo Afinal, eu vivi a Era do Rádio - não como profissional, mas como ouvinte e cidadão, acompanhei a transição para o rádio moderno, participei do rádio contemporâneo. Constatei que de qualquer forma o rádio sobrevive, se comunica, presta serviços e informa, acompanha o ouvinte. No período final da JB eu vi uma realidade desmoronar. A Rádio tinha prestado grandes serviços à sociedade brasileira e eu não tinha ilusões de que ela pudesse sobreviver às dificuldades enfrentadas. Ao mesmo tempo, me chamava a atenção a marginalização do ouvinte nesse processo, como se ele não tivesse nada com isso, fosse um alienado. Felizmente as nossas conversas frutificaram no sentido de tentarmos mostrar a possibilidade da sociedade civil se envolver no assunto rádio, apoiar uma emissora tentando preservar o que constitui a sua característica, a sua filosofia básica, a sua essência - no caso da Rádio MEC o rádio educativo, uma raridade entre nós, porque só tem mesmo a Rádio MEC fazendo isso e mais algumas emissoras universitárias espalhadas pelo Brasil, quase todas lutando com todo tipo de carências. A Rádio MEC tem mais visibilidade, porque ela está presente na ex-Capital da República e também em Brasília. Então, ela deveria ter toda atenção do poder público para cumprir sua missão, e eu acho que o fato de existir uma sociedade de amigos que seja uma espécie de consciência critica dentro do processo, pode trazer resultados. E a repercussão da Sociedade de Amigos da Rádio MEC provou que havia um espaço, tanto que acorreram pessoas que, na verdade, nem conhecíamos, como o professor Jorge Luiz de Souza e Silva - que acabou presidindo a primeira diretoria - mais o apoio de gente como a professora Maria Yeda Linhares, do Edino Krieger, do Ary Vasconcelos, e tantos outros que acorreram espontaneamente para fundar a Sociedade de Amigos. Isso prova que havia uma razão de ser pra ela. Entre as propostas trazidas pela Sociedade de Amigos Ouvintes da Rádio MEC havia uma que frutificou e que era exatamente contra a rotina dos programas gravados. Tudo era gravado - as pessoas não sabiam mais fazer programas ao vivo, economizando fitas, evitando desperdício de tempo, de operadores e tudo mais - e essa proposta frutificou. Tanto que, hoje, a própria Rádio mantém o Ao Vivo entre Amigos, e outros programas do gênero no auditório sinfônico. Também resultou positiva a Biblioteca, embora não tenha uma procura muito grande de consulta, mas está ai a Biblioteca Tude de Souza, da SOARMEC, instalada com seus volumes de uma literatura básica e até bastante atualizada sobre rádio, para servir ao publico em geral, aos estudantes e pesquisadores e aos profissionais de rádio.

AO - Que outras realizações da SOARMEC você citaria?

LCS - Acho que tem sido estimulante a participação em pequenas coisas, como a instalação, nos corredores da Rádio, de retratos mostrando quem foi quem dentro da Rádio MEC, como o próprio Roquette-Pinto e a equipe de produtores e programadores de outros tempos - Cecília Meireles, Fernando Sabino, Carlos Drummond. Enfim, essa preocupação de documentar o passado e o presente da Rádio é uma coisa positiva, embora muita gente não goste disso, ou se sinta melindrada com isso. Mas eu acho positivo, sim, porque é um confronto pra mostrar como o rádio era feito, porque temos que aproveitar a experiência do passado, não copiá-la, mas para traduzi-la de uma maneira atual, contemporânea. Um exemplo disso foi a série Visão da Literatura, com adaptação em capítulos da leitura do Memorial de Aires, de Machado de Assis, que foi feito na gestão de Regina Salles com o apoio do Fundo Nacional de Educação. Foi um trabalho que trouxe de volta a narrativa sonora, um gênero praticamente ausente do rádio. Até hoje a BBC faz isso: um livro é lido antes da meia-noite, em capítulos, também. Então esse exemplo deveria frutificar.
Outra coisa seria o documentário radiofônico. Nós fizemos alguns, sobre Roquette-Pinto, sobre Paulo Tapajós e sobre Almirante, que eu me recorde. Então, é preciso que o rádio não seja apenas musical ou apenas jornalístico. Uma emissora educativa não pode ficar num samba de uma nota só. Ela tem que variar a programação, tem que se preocupar, por exemplo, com a língua portuguesa. Se os jornais tem agora colunistas que focalizam os erros mais comuns de nosso idioma, e isso tem leitores, por que o rádio - que é muito mais eufônico e coloquial - não faz isso? Mas deveria ter, como já teve, aliás, não só português, como outras línguas. Hoje em dia o espanhol é a segunda língua mais estudada e o Mercosul é uma realidade. Nós e a Argentina estamos muito mais ligados que em qualquer outra época da nossa história, então não vejo porque não ter um programa de espanhol. Outra iniciativa da SOARMEC que deu certo foi a de lançamentos de discos do acervo da Rádio, e que se expandiu, tomou até outro rumo mais atual, feito pela Rádio MEC.
Então, tudo indica que, nos quase 11 anos da Sociedade dos Amigos Ouvintes da Rádio MEC, o saldo é positivo. Lastimo porém que as comemorações dos 80 anos do rádio no Brasil e dos 80 anos de fundação da Rádio MEC estejam aquém do que se poderia esperar desse ano, como gerar debates, seminários, estudos, publicações que pensassem melhor o rádio. Esta seria a oportunidade de uma grande comemoração, que não está sendo aproveitada. Tenho a impressão que isso seria mais que necessário: seria urgente. Não se justifica que o rádio só seja comentado quando faz aniversário, o que acontece de 10 em 10 anos. Só em uma data redonda os jornais e as televisões abrem espaço para o rádio e o próprio rádio abre espaço pra ele. É absurdo, porque esse espaço deveria ser permanente. Enquanto isso, a Sociedade de Amigos Ouvintes está aí, com uma vela acesa, esperando contribuições, esperando trocas, esperando oportunidades de trocas maiores, e de trocar influências e colaboração. Por que não?

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