de Utilidade Pública Federal - Portaria no. 3935
de Utilidade Pública Estadual (RJ) - nº2464
de Utilidade Pública Municipal (RJ) - nº3048
detentora do Prêmio Estácio de Sá 2002
A SOARMEC DISCOS

Roquette-Pinto: O Homem Multidão

Ruy Castro

(Terceira parte)

"O rádio é a escola dos que não têm escola. É o jornal de quem não sabe ler; é o mestre de quem não pode ir à escola; é o divertimento gratuito do pobre; é o animador de novas esperanças, o consolador dos enfermos e o guia dos sãos - desde que o realizem com espírito altruísta e elevado". E sempre concluía suas falas com a frase que se tornaria o lema de sua rádio: "Pela cultura dos que vivem em nossa terra. Pelo progresso do Brasil".

O espírito "altruísta e elevado" a que Roquette se referia significava uma rádio sem fins comerciais - ou seja, sem anúncios. Muito bem, mas quem arcava com os custos das transmissões? Roquette instituiu um fundo de auxílio à rádio, mantido por associados (que chegaram a três mil em poucos anos) - daí o nome Sociedade. Esse fundo era enriquecido com doações "espontâneas" de casas comerciais.

Quando se viu com mais dinheiro em caixa, a rádio começou a criar um corpo de funcionários fixos e remunerados. Era o início da profissionalização. O primeiro locutor de verdade (speaker, como se dizia e se continuaria a dizer por muitos anos) parece ter sido Rubey Wanderley. Na sua esteira vieram outros locutores, programadores, roteiristas e discotecários, trabalhando por salário. Aos poucos, o dia-a-dia da rádio começou a sair das mãos da Academia de Ciências, embora isso não alterasse o seu espírito: Roquette cuidava de que ela continuasse educativa e se mantivesse à distância de qualquer contaminação política, comercial ou excessivamente popularesca. Mas era de prever que a Rádio Sociedade não ficaria sozinha por muito tempo no "éter".

Em 1924, surgiria a Rádio Clube do Brasil, também nos mesmos moldes de uma "sociedade"(no caso, "clube") de contribuintes. Nos dez anos seguintes, e só no Rio, apareciam as rádios Educadora, Mayrink Veiga, Philips, Transmissora, Guanabara, Ipanema, Farroupilha, Jornal do Brasil, Tupi e, em 1936, a Nacional. Em São Paulo e no resto do país, outras estações também pulularam. Em pouco tempo, a orientação geral do rádio brasileiro era outra. Afastaram-se anos-luz da que fora um dia sonhada por Roquette-Pinto. E a própria Rádio Sociedade teria de espremer suas doses maciças de alta cultura para programar um pouco de "entretenimento".

O ídolo Francisco Alves apresentava ao microfone da Rádio Sociedade um grande sucesso carnavalesco de Ismael Silva, Newton Bastos e dele próprio, o samba "Nem é bom falar". A certa altura da letra, Chico Alves cantou: "Tu falas muito, meu bem, e precisas deixar / Tu falas muito, meu bem, e precisas deixar / Senão eu acabo dando pra gritar na rua / Eu quero uma mulher bem nua!".

Em seu novo apartamento na Avenida Beira-Mar, Roquette-Pinto escutava sua transmissão. Ao ouvir Francisco Alves cantar pelo microfone que "queria uma mulher bem nua", quase teve uma coisa. Ligou no ato para a emissora, chamou urgente um encarregado e mandou-o tirar a rádio do ar. Em seguida mandou chamar o próprio Francisco Alves e passou-lhe uma espinafração:

"Seu Chico, o senhor quer uma mulher bem nua. Eu também quero uma mulher bem nua. Só que o rádio não é lugar para querer isso!"

Mas não adiantava. O decreto-lei 21.111, de 1/3/1932, assinado pelo presidente Getúlio Vargas, autorizava a veiculação de propaganda comercial pelas rádios. Com isso, como uma avalanche, surgiram os patrocinadores, os cachês artísticos, os programas de auditório, os humorísticos, as transmissões esportivas, os anúncios e os jingles ao vivo. Os aparelhos baratearam e o rádio tornara-se, finalmente, acessível a todo mundo. E, de uma hora para outra, tornara-se o maior fator de divulgação da música popular. Os grandes cartazes (como eram chamados os cantores e compositores mais famosos) passaram a ser disputados pelas emissoras: Carmem Miranda, Sylvio Caldas, Mário Reis, Almirante, Ary Barroso, Lamartine Babo, Orlando Silva e, claro, Francisco Alves. Para ter esses nomes em seu cast, as rádios investiam em equipamento e novos programas, pagavam-lhe fortunas e brigavam como cães adultos pela preferência do público.

Roquette-Pinto não entrava nessa briga. Para ele, o rádio deveria continuar educativo - pelo menos, a sua rádio. Até fizera algumas concessões, como a de acolher em seus quadros o já famoso "Programa Casé", de Ademar Casé - um berço de talentos como Noel Rosa, Haroldo Barbosa, Paulo Roberto, Nássara, Evaldo Rui, Sandi Cabral. Tudo corria bem e ele gostava de música popular, mas, assim que se descuidou, Francisco Alves pediu mulheres nuas pelo microfone.

Nadando contra a corrente, Roquette continuava a não admitir propaganda comercial ou política em sua emissora - o que a condenava a um gueto no dial. Mantida, como sempre, apenas pelos "sócios", a Rádio Sociedade não tinha dinheiro para modernizar o equipamento e ampliar a potência a fim de enfrentar a concorrência. As óperas completas que transmitia (e que atraíram milhares de jovens brasileiros para o canto lírico) estavam sendo sufocadas em volume por "O Teu Cabelo Não Nega". Roquette desejava apenas que houvesse espaço para todo mundo. Mas, agora, o ideal do rádio educativo no Brasil estava em perigo.

Em 1933, convenceu seu amigo, o educador Anísio Teixeira, secretário da Educação, a fundar uma rádio-escola a ser mantida pela prefeitura do Rio, para servir de exemplo a outras no futuro. Anísio topou, Roquette emprestou-lhe equipamentos e funcionários da Rádio Sociedade e, com isso, a Rádio Escola Municipal, PRD-5, foi para o ar no ano seguinte. Em troca, Anísio pediu que ele fosse o seu primeiro diretor. Roquette aceitou. Talvez a nova estação do Largo da Carioca (rebatizada em 1945 como Rádio Roquette-Pinto) pudesse escapar ao comercialismo que parecia engolir todas as outras, inclusive a sua.

Para evitar a morte ou a desfiguração da Rádio Sociedade, Roquette só enxergava uma solução: reverter seus canais a um órgão oficial - o Ministério da Educação e Saúde.

Em julho de 1936, quando resolveu se desfazer de sua rádio, Roquette-Pinto chamou seus filhos Paulo de 27 anos, e Beatriz de 25, à Rua da Carioca. Informou-lhes que, aos 52 anos, era um homem pobre e que a única herança que poderia deixar-lhes era a rádio, para que a dirigissem como uma rádio comercial. Só o prefixo, já então PRA-2, valia uma fortuna. "Mas não quero que ela se transforme numa rádio comercial", acrescentou.

Ao seu ver, ninguém - nem ele, nem seus filhos - poderia salvá-la desse destino. Somente um órgão oficial teria meios para isso.

Beatriz entendeu o que seu pai queria dizer. E nem esperou pela opinião do irmão. Antecipou-se e perguntou:

"É esse o seu ideal, papai?"

"É", respondeu Roquette.

"É tão raro um homem realizar seu ideal, meu Deus. Dá a rádio, papai, nem se discute".

Roquette então perguntou por carta a Gustavo Capanema, ministro da Educação e Saúde, se o ministério se interessaria pela rádio com tudo o que havia dentro: instalações, equipamento, biblioteca, laboratório de ensaios científicos, discoteca, instrumentos musicais, partituras, arquivo, móveis e utensílios, além, é óbvio, da estação transmissora em perfeito estado de funcionamento, com seus canais de ondas médias e curtas, e um quadro completo de locutores e técnicos com 13 anos de experiência. Tudo isso sem dívidas ou ônus de espécie alguma para a União e até com dinheiro em caixa. Única e irrevogável condição: a de que a rádio permanecesse fiel ao seu lema cultural e educativo, sem qualquer vinculação comercial, política ou religiosa.

Capanema respondeu que o presidente Getúlio Vargas aceitava e agradecia, mas sugeria que a reversão fosse feita através do Departamento de Propaganda e Difusão Cultural. Ao ler isso, um alarme tocou na cabeça de Roquette. Ele pareceu adivinhar que, em menos de um ano, o tal departamento se tornaria o infame Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) do Estado Novo. Ora, ninguém o estava obrigando a desfazer-se de sua rádio. Sem hesitar mandou outra carta a Capanema enfatizando que a reversão seria feita "ao Ministério de Educação do povo, não ao governo". E só então Capanema entendeu e encerrou a correspondência, garantindo que o ministério a aceitava sem discussões, no termo em que fora proposta.

Essas cartas foram os anticorpos que, no futuro, garantiriam a integridade da rádio contra os vários órgãos que tentariam apossar-se dela.

A reversão foi sacramentada no dia 7 de setembro de 1936. Na cerimômia oficial, realizada no terceiro andar do prédio da Rua da Carioca, Capanema fez-se acompanhar por seu chefe de gabinete, Carlos Drummond de Andrade. Vinte cinco anos depois, Drummond recordaria numa crônica que a cerimônia "tinha qualquer coisa de casamento no seio de uma família muito unida, que via a filha sair nos braços do rapaz escolhido livremente; sim, um excelente rapaz, tudo estava ótimo, os dois seriam muito felizes - mas... quem sabe?"

A imagem lhe ocorrera porque Roquette passara os canais a Capanema com a frase:

"Entrego esta rádio com a mesma emoção com que se casa uma filha".

Roquette saiu dali com Beatriz para um pequeno corredor nos fundos do andar e chorou de antecipada saudade. Com os olhos também molhados, Beatriz voltou para ajudar Drummond a colar os selos do ministério nos móveis e objetos da rádio.

Naquele dia, há exatamente 60 anos, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro deixava de existir, para que nascesse a Rádio Ministério da Educação.

Em 1924, Roquette candidatara-se à Academia Brasileira de Letras na vaga do poeta Vicente de Carvalho, mas fora derrotado. Em 1927, foi eleito na vaga de Osório Duque Estrada. Usou o fardão na noite de posse - e nunca mais. Um ano antes, tornara-se diretor do Museu Nacional. Bem ao seu estilo, em todo o tempo em que partejou o rádio no Brasil e esteve à frente da emissora, Roquette nunca interrompeu seu trabalho científico: naquele período, publicou dezena de palestras e monografias sobre antroplogia, medicina, história e lingüística. Entre uma e outra, traduziu Goethe. Um jornalista francês escreveu-lhe perguntando se tinha uma divisa. Roquette repondeu: "Crer e agir". E explicou que nunca agira sem crer e que, depois de crer, nunca deixara de agir.

Agir, para ele, era uma segunda natureza. Em 1933, como um menino curioso que - em vez de destruir um brinquedo para saber como funciona - constrói esse brinquedo para vê-lo funcionar, Roquette montara uma televisão primitiva, à base de processos mecânicos usando o disco de Kipkov. Com isso, simplesmente realizou a primeira transmissão de imagens no Brasil. Instalou a emissora na sede da rádio na Rua da Carioca, um receptor na casa de seu amigo Flávio de Andrade na rua Cândido Mendes, em Santa Teresa, e fez uma única transmissão. As transmissões mostravam cartazes com letras A, B e I, formando a sigla da Associação Brasileira de Imprensa. No futuro, o cronista Antônio Maria destacaria o fato de que, graças a Roquette, as primeiras imagens de TV mostradas no Brasil não foram as de um anúncio comercial ou um retrato do presidente da República, mas o nome da entidade dos jornalistas.

Mas Roquette sabia que ainda era cedo para a televisão. Até lá, havia muita coisa a ser feita, como salvar a rádio ou, se não conseguisse, passá-la para um órgão público - o que acabou acontecendo. Depois de doá-la ao ministério da Educação, Roquette ainda a dirigiu por boa parte de 1937 antes de entregá-la a seu sucessor, Fernando Tude de Souza. Só que, antes disso, no próprio ano de 1936, ele já se envolvera com a que seria a última paixão de sua vida: o cinema.

Um vendedor de eletrodomésticos foi procurá-lo no Museu Nacional tentando empurrar-lhe alguns para o museu. Chamava-se Humberto Mauro, tinha 39 anos e era famoso porque, mesmo morando na pequena Cataguazes (MG), fizera filmes que se tornariam clássicos do cinema brasileiro, como Tesouro Perdido (1927) e Brasa dormida (1928). Mudara-se para o Rio em 1930 para trabalhar no Cinédia, fizera Ganga Bruta (1933) e acabara de rodar Cidade-mulher, com música de Noel Rosa e Assis Valente. Era um gênio intuitivo, mas, nas horas vagas, tinha de virar-se vendendo enceradeiras e aspiradores de pó. Roquette não lhe comprou nenhum - mas comprou o próprio Humberto Mauro com a proposta: "Você vai trabalhar comigo. Vamos fazer o cinema educativo no Brasil!"

O Instituto Nacional do Cinema Educativo (INCE) foi fundado por Roquette naquele mesmo ano de 1936. A partir de O Descobrimento do Brasil (com música de Villa-Lobos), permitira a Humberto Mauro rodar, nos anos seguintes, cerca de 300 documentários em curta-metragem, de caráter científico, histórico e da poética popular. Quase todos sob orientaçao de Roquette, que também escreveu e narrou muitos deles. No INCE, eles formaram toda uma geração de técnicos até 1947, quando Roquette, aos 63 anos, afastou-se da presidência e deixou Mauro em seu lugar.

O INCE funcionava num prédio da Praça da República, dois andares acima das novas instalações da Rádio Ministério da Educação. Donde, até sem querer, a menina-dos-olhos de Roquette-Pinto continuava sob seu olhar vigilante e satisfeito. No decorrer dos anos ele apreciou o progresso da sua criação. Suas idéias originais - "maluquices líricas", como as chamava Drummond - foram conservadas, desenvolvidas e, com os recursos técnicos e financeiros dados pelo governo, até ampliadas.

Roquette maravilhava-se ao ver que a rádio podia manter várias orquestras como a sinfônica, de câmara, de sopros e a afro-brasileira; um quarteto vocal e outro de cordas; um conjunto de música antiga; um coral, um trio, vários duos e um fabuloso quadro de solistas. Os maestros responsáveis por eles chamavam-se Eleazar de Carvalho (regente do programa "Música para a juventude", que ficaria décadas no ar), Alceo Bocchino, Radamés Gnattali, Guerra Peixe, Francisco Mignone, Iberê Gomes Grosso, Abigail Moura e muitos outros - a nata musical do Brasil. Roquette acompanhava também os concursos de orfeões promovidos pela rádio, somando às vezes mais de 700 vozes. Tudo aquilo nascera de seu pioneirismo.

Roquette gostava também de ver os programas educativos em forma de radioteatro e vibrava com os programas sobre literatura, poesia, teatro, cinema, folclore e jazz. Mas, provavelmente, seu grande orgulho era saber que as aulas do "Colégio do ar", transmitidas diariamente em dois turnos durante o ano letivo, contavam com milhares de alunos matriculados. Era o sonho feito realidade: o rádio como professor.

Em seus últimos anos, a imagem de Roquette-Pinto, já enorme, cresceu às dimensões de uma tal lenda. E os que seguiam à distância as suas realizações nem imaginavam que, desde pelo menos 1935, qualquer movimento físico lhe provocava dores praticamente incontroláveis. Roquette passara a sofrer de espandilose - um processo degenerativo da espinha vertebral que o foi deformando aos poucos, curvando-o para a frente e impedindo-o até de virar o pescoço sem virar também o tronco. Era cruel que isso lhe acontecesse - logo a ele, que sempre convivera tão harmoniosamente com sua saúde, seu corpo e sua beleza. Para combater a dor, Roquette habituara-se à aspirina, que tomava, não de uma em uma, mas às colheradas, várias vezes ao dia. Mas nada disso impediria que continuasse ativo até o fim. À vezes até desnecessariamente.

A Universidade do Brasil ia homenageá-lo com o título de professor honorário, a mais alta láurea universitária. Com quase 70 anos, Roquette subiu pela escada e chegou cansado ao andar onde se daria a cerimônia. Seu amigo, o cientista Carlos Chagas, perguntou-lhe por que não usara o elevador.

"Sou um homem disciplinado", respondeu Roquette. "O contínuo lá embaixo me disse que usasse a escada".

Roquette sofreu um derrame fatal no dia 18 de outubro de 1954, em seu apartamento na Avenida Beira-Mar, enquanto escrevia um artigo para o Jornal do Brasil. Apartamento que insistia em viver sozinho, com os poucos aposentos, inclusive o banheiro, entulhados de engenhocas mecânicas que inventava para se divertir. Nem todas iriam funcionar e ele sabia disso. Mas suas principais criações - Rondônia e a Rádio Ministério da Educação e Cultura - estavam mais vivas do que nunca.

E ele também sabia.

Segunda parte

 

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