de Utilidade Pública Federal - Portaria no. 3935
de Utilidade Pública Estadual (RJ) - nº2464
de Utilidade Pública Municipal (RJ) - nº3048
detentora do Prêmio Estácio de Sá 2002
A SOARMEC DISCOS

Roquette-Pinto: O Homem Multidão

Ruy Castro

(Segunda parte)

"Nenhum dos tipos da população brasileira apresenta qualquer estigma de degeneração antropológica", escreveu ele. "Ao contrário. As características de todos eles são as melhores que se poderiam desejar. [...] O número de indivíduos somaticamente deficientes em algumas regiões do país é considerável. Isso, porém, não corre por conta de qualquer fator racial; deriva de causas patológicas cuja remoção, na maioria dos casos, independe da antropologia. É questão de política sanitária e educativa. [...] A antropologia prova que o homem no Brasil precisa ser educado e não substituído".

O alcance de Rondônia não ficaria por aí. O livro faria a glória do futuro general e marechal Rondon, embora esse também desconhecesse por completo o sentimento da vaidade. Um único índio que escapasse ao martírio era-lhe mais importante que os quilos de medalhas que espetavam em sua farda. Mas a verdade é que, sem o livro de Roquette, ninguém poderia calcular a dimensão da obra de Rondon, muito menos seguir o seu exemplo. Mesmo assim, Roquette não se dava por satisfeito. Para que o Brasil soubesse o quanto de seu território devia a Rondon, propôs que esse território - entre os paralelos 8 e 14 ao Sul do Equador e entre os meridianos 12 e 20 a Oeste do Rio de Janeiro - se chamasse, justamente, Rondônia. A idéia, lançada por Roquette em 1915, numa conferência no Museu Nacional, seria afinal adotada... 41 anos depois, em 1956, quando uma área muito menor, a do território do Guaporé, passou a chamar-se Rondônia.

Onde, por sinal, não existe até hoje uma única cidade, rua ou arraial com o nome de Roquette-Pinto.

Pouco depois de Rondônia, em 1920, Roquette, de passagem, conquistou a admiração de um povo que dedicara seus últimos 50 anos a olhar para o Brasil com profundo ressentimento e rancor: o do Paraguai. Em 1927, no seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, ele defenderia a convicção de que fora o Brasil o responsável pelo início da Guerra do Paraguai, contra a opinião do acadêmico a quem sucedia na cadeira 15: o poeta Osório Duque Estrada, patriotíssimo autor do Hino Nacional.

Ao ouvir aquilo, muitos imortais ficaram inquietos dentro dos fardões. E, já prevendo que alguns ali pudessem acusá-lo de pouco patriota, Roquette jogou cal nos possíveis ataques:

"Pelo progresso de minha terra, tenho arriscado contente, e mais de uma vez, a vida que ela me deu. Mas só compreendo o patriotismo que não precisa de mentiras para manter sua existência".

Tanta coragem e determinação tornavam Roquette-Pinto um vulto quase onipresente na cena brasileira. As pessoas o apontavam ao vê-lo passar nas ruas, quase sempre com um charuto entre os dedos. Quando não era o charuto, o objeto mais presente em sua mão era um lápis de duas cores (vermelho e azul), com que circulava e sublinhava qualquer texto que o interessasse. Sabia-se que falava francês, italiano, espanhol, inglês, alemão, tupi e segundo ele próprio, "um pouco de latim e uma reles lambujem de grego". Mas podia ser tudo, menos um pernóstico: "Gosto muito de gíria e tenho horror à gramática. Se escrevo certo, é sempre por acaso", dizia. E sabia-se também que tocava piano, que escrevia poemas sem intenção de publicá-los, que desenhava e pintava e que era capaz de montar ou desmontar qualquer aparelho mecânico ou elétrico: "Gosto imenso de trabalhar com as mãos. As mãos é que fazem os homens inteligentes".

Numa época pobre em comunicação e rica em mexericos, sabia-se também que ele e sua mulher se haviam separado. Separações eram chocantes naquela época, e ainda mais entre pessoas públicas. Mas, no seu caso, não havia motivo para mexericos. Como sua família sempre soubera, Roquette simplesmente não era "casável". Sua inquietação não lhe deixava muito tempo para os prazeres domésticos ou para desfrutar os dois filhos - Paulo, nascido em 1909, e Beatriz, em 1911. E Riza, ao contrário, era uma mulher com acentuado gosto pelas coisas do lar. Como nenhum dos dois podia mudar sua natureza, afastaram-se de comum acordo, chorando um nos braços do outro. Anos depois, Riza casou-se com um oficial da Marinha, ao passo que Roquette tornou-se o melhor partido do Rio de Janeiro, disponível para as muitas mulheres que o interessavam. Mas nunca voltaria a casar-se.

Não eram apenas as mulheres que o interessavam - tudo o interessava. Dez anos antes, a caminho de juntar-se a Rondon na selva, Roquette percebera a importância da telegrafia na integração dos grotões mais distantes. Agora, em 1922, durante as comemorações do Centenário da Independência do Brasil, ele começara a perceber a importância de uma nova e extraordinária invenção: o rádio.

Os primeiros a chegar à enorme Exposição do Centenário, instalada na esplanada aberta pelo desmonte do morro do Castelo, no centro do Rio, não deram muita importância às estranhas cornetas metálicas instaladas em alguns postes. Vistas de relance, lembravam cornucópias dos gramofones em voga em 1922, mas poucos naquele 7 de setembro, dia da abertura da exposição, saberiam dizer para o que serviam. A multidão estava mais interessada nos luxuosos pavilhões dos países participantes e, principalmente, na montanha-russa armada em frente ao palácio Monroe. De repente, ao cair da tarde, as pessoas ouviram assombradas, como se aqueles sons viessem das nuvens, o Hino Nacional e um discurso do presidente Epitácio Pessoa. Como, mesmo naquele tempo, ninguém acreditasse que o hino ou Epitácio tivessem nada de celestial, concluiu-se rapidamente que o som saía pela tais cornetas. Afinal, era para aquilo que serviam as geringonças penduradas nos postes. Eram "auto-falantes" - e era o rádio chegando.

Duas companhias americanas de energia elétrica, a Western e a Westinghouse, haviam instalado pequenas estações de 500 watts no pavilhão dos Estados Unidos para demonstrar a última novidade. Seus transmissores tinham sido montados, respectivamente, na Praia Vermelha e no alto do Corcovado (ainda sem a estátua do Cristo), com 80 auto-falantes distribuídos pela exposição e por Niterói, Petrópolis e São Paulo. À noite daquele mesmo dia, o assombro foi ainda maior quando os auto-falantes irradiaram a ópera O Guarani, de Carlos Gomes, direto do Teatro Municipal. Bem, assombro em termos. O som era falho e rouco, como se um coro de sapos tivesse entrado pelos auto-falantes e coaxasse em uníssono fazendo passar-se por Epitácio Pessoa ou por Peri e Ceci. Era preciso apurar as orelhas para se entender alguma coisa. Nos dias seguintes foram transmitidas várias palestras, inclusive uma sobre higiene, mas, àquela altura, o público já desistira de esforçar-se para ouvir.

Em janeiro de 1923, finda a exposição, a Westinghouse desmontou a estação do Corcovado e a levou de volta para o Estados Unidos. Mas a Western conservou a sua na Praia Vermelha, na esperança de que o governo brasileiro se interessasse em comprá-la. O governo se interessou e comprou a estação, mas entregou-a aos Correios para que ela operasse como telégrafo. Não era o que os primeiros radioamadores nacionais estavam esperando. Já havia muitos pelo país, construíndo seus próprios aparelhos e comunicando-se entre si no Rio, Paraná, São Paulo, Minas Gerais e Pernambuco. Alguns deles conseguiram autorização e começaram a usar a Praia Vermelha para transmitir boletins meteorológicos, cotações da Bolsa de Açúcar e Café, santos e efemérides do dia, cançonetas, poemas e outras pequenas atrações.

Mas era quase uma audição para surdos, porque havia um obstáculo legal a que a escuta se espalhasse: para possuir um receptor em casa, o cidadão tinha de "requerer permissão" ao Ministério da Viação através dos Correios e Telégrafos e, ainda por cima, "apresentando um fiador idôneo" - um responsável pela integridade patriótica do indigitado. Com os ecos e fumaças da Grande Guerra de 1914-1918 ainda no ar, supunha-se que o rádio podia ser um instrumento perigoso, capaz de levar os segredos militares brasileiros para as potências estrangeiras - donde todo cuidado era pouco. A polícia estava autorizada a prender quem fosse flagrado ouvindo aparelhos desautorizados.

Roquette-Pinto não estava preocupado com segredos ou com militares. Aliás sua opinião sobre estes era arrojada para a época: era favorável ao serviço militar, mas achava que ele deveria limitar-se a "construir pontes e estradas, aprender um ofício, trabalhar numa coisa útil. [...] A Grande Guerra, aliás, veio mostrar que a vitória caberá a quem melhor abastecer-se. O soldado, hoje, é principalmente um operário. As guerras são ganhas pelos eletricistas, pelos mecânicos, pelos motoristas". Para Roquette, ao contrário de guardar segredos, o rádio deveria servir para difundir a coisa de que o Brasil mais precisava: educação.

Nos Estados Unidos, a primeira emissora com transmissão regular surgia em 1920, em East Pittsburgh, na Pensilvânia. Ou seja, outro dia mesmo e, agora, apenas três anos depois, o rádio já alcançava cerca de 12 milhões de americanos, com mais de 100 estações transmitindo. Os Estados Unidos estavam sendo fantasticamente ligados pelo rádio. A Europa também, através da Marconi. Nas fantasias mais otimistas, já havia operários ouvindo Mozart, analfabetos bebendo as palavras de Bernard Shaw e gente dos mais distantes rincões sabendo as últimas de Wall Street ou do palácio de Buckingham, tudo pelo rádio. O rádio era uma arma, mil vezes mais poderosa do que canhões da Grande Guerra. Roquette começou a imaginá-la integrando e educando os milhões de brasileiros dispersos pelos mais de 8 milhões de quilômetros quadrados. Seria como completar, só que em escala nacional, a obra de Rondon.

Era preciso fundar uma rádio e ele era o homem para isso. Uma rádio educativa, "com fins científicos e sociais", de preferência ligada à Academia Brasileira de Ciências, da qual era secretário. O primeiro passo era pedir o apoio do presidente desta, Henrique Morize, seu velho mestre. Morize, que era a modéstia em pessoa, assustou-se com a idéia, mas não resistiu ao incandescente entusiasmo do discípulo. Os outros membros da academia foram logo contagiados.

Tratava-se agora de remover os obstáculos. No dia 14 de abril, Roquette soltou pela Gazeta de Notícias a campanha para libertar o rádio da lei que dificultava que os cidadãos possuíssem aparelhos domésticos. Tinha um argumento forte: devido às transmissões da Praia Vermelha, os Correios haviam fornecido 536 licenças especiais apenas nos primeiros meses de 1923. Tal demanda era uma prova que o Brasil inteiro queria o rádio (uma das licenças, aliás, contemplara o próprio Roquette, embora o seu aparelho fosse o que provocara risos abafados em Amadeu Amaral).

Mas só um fato consumado, como a existência de uma rádio, forçaria a queda da lei. Pois ele cuidou de que isso acontecesse: no dia 20 de abril, na sala de física da Escola Politécnica, no Largo de São Francisco, em plena reunião da academia, os cientistas comandados por Roquette fundaram a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro - PR-l-A.

A primeira diretoria já saiu constituída daquela reunião: Morize foi aclamado presidente, Roquette secretário e outros acadêmicos ocuparam os cargos de tesoureiro e conselheiros. Os demais membros da academia assinaram eufóricos a ata de fundação e mais de trezentos sócios-efetivos e associados a subscreveram. Para os padrões daquele tempo, era quase um ato de desobediência civil, praticado por senhores de pincenez e colarinho duro - se se aplicassem a lei, não haveria cadeia no Rio de Janeiro para todos. Mas, numa jogada hábil, Roquette indicou para presidente de honra da Rádio Sociedade o próprio ministro da Viação e Obras Públicas, Francisco Sá - de quem dependeria a revogação da lei que tornava o rádio uma atividade clandestina.

No dia primeiro de maio, sob vista grossa da autoridade, a Rádio Sociedade fez a sua primeira transmissão experimental pela estação da Praia Vermelha. Às 20h30 em ponto, Cauby de Araújo, um dos signatários, anunciou a declaração de Roquette-Pinto comunicando a fundação da rádio. Roquette tomou o microfone e, com grande otimismo e exagero, disse: "[A partir de agora] todos os lares espalhados pelo imenso território do Brasil receberão livremente o conforto moral da ciência e da arte pelo milagre das ondas misteriosas que transportam, silenciosamente, no espaço, as harmonias".

Belas palavras, mais ainda levaria tempo para que o rádio atingisse todos esses lares. E ainda havia a lei "retrógrada e carrança", como ele chamava. Mas a pressão deu resultado. No dia 11 de maio, Francisco Sá assinou a revogação: o rádio no Brasil estava finalmente livre. Já era possível ter um aparelho em casa sem ir parar no presídio da Rua dos Barbonos, futura Evaristo da Veiga. Ao governo caberia apenas licenciar o funcionamento das emissoras. Uma semana depois, no dia 19, a Rádio Sociedade promoveu sua instalação solene, usando novamente emprestado o equipamento da Praia Vermelha para a sua transmissão inaugural.

E ponha solene nisso, Roquette e seus colegas, reunidos na Escola Politécnica, ouviram emocionados quando, da Praia Vermelha, Edgard Sussekind de Mendonça abriu a transmissão recitando um soneto do próprio Roquette intitulado, bem a propósito, O Raio. Era simbólico: o raio viaja pelo espaço e vai cair sabe-se onde - como rádio. (A única cópia do poema perdeu-se naquela noite e o autor nunca conseguiu reconstituí-lo de memória). Em seguida, Heloísa Alberto Torres, filha do abolicionista Alberto Torres, leu um conto infantil de Monteiro Lobato, de que não há registro de título. E, concluindo, Francisco Venâncio Filho leu uma página de Os Sertões. Com aqueles poucos minutos de vozes no ar, a Rádio Sociedade silenciou e a estação da Praia Vermelha voltou aos seus serviços telegráficos. Mas para todos os efeitos, uma rádio brasileira ferira pela primeira vez - como se dizia - o éter.

Vibrando com o resultado, M. B. Astrada, sócio-fundador da rádio e representante no Brasil da Casa Pekan, de Buenos Aires, especialista em equipamento de radiofonia, doou à Rádio Sociedade uma pequena estação emissora e receptora de 10 watts -suficiente para que, com boa vontade, ela se fizesse ouvir no Centro da cidade e arredores. Três meses depois, no dia 20 de agosto, o governo federal, já com Arthur Bernardes na presidência, autorizou oficialmente o início das irradiações no Brasil, desde que "para fins educativos". Bernardes não parou aí: permitiu que a Rádio Sociedade fizesse uma hipoteca do material emissor no Banco do Brasil, no valor de 100 contos de réis, para instalar a antena e cobrir as primeiras despesas. Entre estas, estava a compra da estação de 1 quilowatt, fornecida pela Marconi, com a qual a rádio poderia ultrapassar até os limites do então Distrito Federal.

No dia 7 de setembro - um ano depois da Exposição do Centenário e funcionando no pavilhão doado pela Tchecoslováquia, em frente à Santa Casa de Misericórdia, na Rua Santa Luzia -, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, agora com o prefixo de PRA-A, entrou triunfalmente no ar.

Não era nada parecida com o rádio que logo se faria no Brasil. Ao contrário, com seu programa de "educação em massa", a Rádio Sociedade parecia, a princípio, uma extensão da Academia de Ciências. Os acadêmicos faziam tudo: produziam, escreviam e apresentavam os programas. Roquette dava o exemplo: acordava todos os dias às 5 da manhã, lia os matutinos, circulava com seu lápis de duas cores tudo que lhe parecesse interessante e, duas horas depois, estava diante do microfone apresentando o "Jornal da Manhã". Lia as notícias, com destaque para o noticiário internacional, e comentava-as para os ouvintes. Outros levavam discos de suas coleções de clássicos e óperas, botavam-nos para tocar e falavam dos compositores, músicos e cantores. Ninguém era pago, era tudo por amor. E havia os que se apresentavam nos programas, recitando poesia, cantando ou tocando piano - entre os quais o próprio Roquette.

Para que não se pense que a rádio era instrumento da sua vaidade, é bom dizer que Roquette era razoavelmente eficiente ao piano e que sua voz de barítono era elogiada pelos entendidos. Ele próprio era um homem rigoroso: quando, certa vez, o escritor Afrânio Peixoto insistiu em cantar na rádio, Roquette não fez por menos: "Mas, com essa voz, Afrânio???". Peixoto caiu em si e contentou-se em recitar poemas de cordel, no que foi acompanhado ao piano por Roquette.

Nem tudo era música e literatura. Os acadêmicos também davam palestras e cursos pelo microfone, de acordo com suas especialidades: português, biologia, história, francês, geografia e até silvicultura. O Rio, capital da República, recebia toda espécie de personalidades da área cultural e científica, e um programa obrigatório desses figurões era uma visita às instalações da Rádio Sociedade - um deles, em 1925, já na Rua Carioca, 45, foi Albert Einstein.

O amadorismo da rádio era tão flagrante quanto a boa vontade dos que a faziam. A programação também não era de cunho exatamente popular, mas ninguém se importava: os aparelhos eram caros naqueles primeiros tempos, poucos podiam possuí-los e esses poucos gostavam do que a rádio punha no ar. O que os desagradava era o som terrível das transmissões. Os jornais viviam cheios de cartas protestando contra os ruídos e chiados da PRA-A e temendo pelo futuro do rádio no Brasil, caso aquilo não melhorasse. Roquette, com sua larga visão histórica, não se assustava com a ameaça:

"Nós, que assistimos à aurora do rádio, sentimos o que deveriam ter sentido alguns dos que conseguiram possuir e ler os primeiros livros", ele disse ao microfone.

 

Terceira parte

 

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