de Utilidade Pública Federal - Portaria no. 3935
de Utilidade Pública Estadual (RJ) - nº2464
de Utilidade Pública Municipal (RJ) - nº3048
detentora do Prêmio Estácio de Sá 2002
A SOARMEC DISCOS

Roquette-Pinto: O Homem Multidão

Ruy Castro

(Primeira parte)

O poeta e jornalista Amadeu Amaral, secretário da Gazeta do Rio e cronista de O Estado de São Paulo, teve vontade de rir. Fora convidado por seu amigo Edgard Roquette-Pinto para ouvir uma transmissão experimental da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, que este acabara de fundar. Roquette contara-lhe maravilhas do rádio, mas não o preparara para o espetáculo que o esperava.

Como todo mundo em 1923, Amadeu Amaral ouvira falar da nova invenção. Sabia que era uma forma de transmitir sons a distância, um misto de telégrafo com telefone, mas nunca escutara uma transmissão. Em sua fantasia, devia ser uma coisa de alta ciência, cheia de aparelhos complicados, daí sua surpresa ao adentrar a casa de Roquette, na Rua Vila Rica, em Botafogo, e deparar-se com um cenário de circo de cavalinhos.

Uma vara de bambu, plantada no jardim, servia de antena. Dela escorriam fios de cobre, que iam até a sala e se enfiavam numa bobina de papelão, a qual devia ser o aparelho. Deste saíam uma tomada de terra, comicamente ligada à torneira da pia, e em um fone comum, de telefone, para ser aplicado à orelha. Uma geringonça infantil, primitiva e precária. Amadeu Amaral achou graça: aquilo é que era o rádio?

Amadeu Amaral esperou o pior: iria escutar grunhidos, estalos e chiados, e, para não desagradar seu anfitrião, teria de dizer a Roquette que o rádio era mesmo a oitava maravilha. Olhou resignado para a engenhoca, aplicou o fone ao ouvido - e, em vez da cacofonia que imaginava, escutou os poemas e trechos de ópera que estavam sendo irradiados a quilômetros dali, na estação da Praia Vermelha. "Tudo tão perceptível como se os sons se originassem a dois passos. Aquela caranguejola ridícula funcionava maravilhosamente", ele escreveria entusiasmado em O Estado de São Paulo.

Amadeu Amaral fez mal em duvidar. Afinal, ele conhecia Roquette-Pinto.

Em abril de 1923, quando estava fundando a primeira emissora de rádio do Brasil, Edgard Roquette-Pinto tinha 39 anos incompletos. Era, por qualquer critério, um homem impressionante: atlético (1m78), bonito e, como dele diria Gilberto Freyre, "com algo de imperialismo brasileiro no seu porte". Havia até quem o achasse parecido com Goethe. Mas sua reputação não repousava na figura física, embora esta provocasse suspiros em admiradoras, muitas das quais alimentaram suas paixões por ele (e algumas foram correspondidas). Roquette-Pinto não era apenas amado pelos que o conheciam. Era nacionalmente admirado pelo que já fizera pela ciência brasileira. A introdução do rádio no país era, a rigor, apenas a sua segunda ou terceira façanha, e estaria longe de ser a última.

Quando se avalia hoje o monumental legado do carioca Roquette-Pinto ao Brasil, parece inacreditável que um único homem pudesse fazer tanto. Estamos desabituados a esses homens-multidão, capazes de aplicar sua inteligência e ação a interesses tão amplos e múltiplos. Mas, no caso de Roquette, talvez ele não tivesse escolha. O Brasil de seu tempo era enorme, muito maior que o de hoje, e estava todo por ser feito. Com seu dinamismo científico, filosófico e, até, espiritual, Roquette-Pinto não podia esperar que surgissem outros Roquette-Pintos para ajudá-lo. Enquanto esses não surgissem, ele viveria de mangas arregaçadas.

Sua biografia ainda não foi escrita e, quando o for, não caberá num único volume. Só através dela poder-se-á reconstituir o que o levou - desde o seu nascimento, no dia 25 de setembro de 1884, em Botafogo - a preparar-se para tantas atribuições. Pode ter sido a influência do homem que, na verdade o criou: não o seu pai, o rico advogado Menélio Pinto Vieira de Mello, mas seu avô materno, o fazendeiro João Roquette Carneiro de Mendonça, em cuja fazenda Bela Fama, perto de Juiz de Fora, o menino Edgard passou três anos. O pouco contato com a família do pai levou-o até a alterar seu nome de registro - Edgard Roquette Carneiro de Mendonça Pinto Vieira de Mello - para Edgard Roquette-Pinto, com um hífen de que não abria mão. Em 1905, quando se formou pela Escola de Medicina, Edgard legalizou seu novo sobrenome e, depois, estendeu-o aos seus descendentes. Quanto ao prenome, chamava a si próprio de Édgard, não Edgárd.

Além do avô João Roquette, que lhe pagou os estudos e transmitiu seu amor à natureza, outros dois homens foram decisivos para o destino de Roquette. O primeiro, o biólogo Francisco de Castro, que o fez desistir de tornar-se oficial da Marinha e convenceu-o a navegar pelo mundo ainda mais aventuroso da medicina e da biologia. O segundo, o médico Henrique Batista, que o converteu ao Positivismo - a doutrina fundada pelo francês Augusto Comte (1798-1857), segundo a qual a redenção do homem se daria pelo conhecimento. Mas, embora fosse prodigiosamente estudioso, havia algo em Roquette que parecia atraí-lo para fora dos gabinetes. Sua própria tese de formatura, O Exercício da Medicina Entre os Indígenas da América, já insinuava seu rumo futuro: a antropologia.

Em setembro de 1906, Roquette partiu para o Rio Grande do Sul a fim de estudar os sambaquis - as jazidas de conchas, ossos e utensílios do homem pré-histórico que habitou o litoral da América. E daí também porque, depois de alguns anos como assistente de Henrique Batista (com cuja filha Riza casou-se em 1908) e como médico-legista no Rio, Roquette deu uma guinada em sua carreira: tornou-se, por concurso, professor da cadeira de antropologia e etnografia do Museu Histórico Nacional, na Quinta da Boa Vista. Ali, em 1911, ele conheceu o homem que, este sim, o marcaria para sempre: o tenente-coronel Cândido Mariano da Silva Rondon.

O mato-grossense Rondon, nascido em 1865, já estava nas selvas do Amazonas e do Acre desde 1890, desbravando a mata, criando povoados, demarcando fronteiras, estendendo linhas telegráficas e fazendo os primeiros contatos com tribos à margem de qualquer civilização, como os parecis, os kabixis, os tapanhumas e os cajabis. Como Roquette, Rondon também era positivista e acreditava na ciência e na fraternidade como molas para o progresso. Levava geólogos, cartógrafos e outros peritos em suas expedições e, ao voltar de cada uma, trazia amostras de objetos paleológicos e os entregava ao Museu Nacional. Muitos desses objetos caíram na mão de Roquette, que se debruçou fascinado para estudá-los. Deles resultou o seu documento Nota sobre Índios Nhambiquaras do Brasil Central, que leu num congresso de americanistas em Londres, em 1912.

Era a primeira vez que Roquette saía do Brasil - mas, ao pôr o pé no navio para a Europa, já acertara um compromisso com Rondon: iria acompanhá-lo na sua próxima expedição à Serra do Norte. A idéia de defrontar-se com brasileiros que, em plena alvorada do século XX, ainda viviam na pré-história, era muito mais excitante para ele do que qualquer congresso científico nas estranjas.

Em julho daquele mesmo ano, de volta ao Brasil, Roquette seguiu com destino a Mato Grosso, para juntar-se a Rondon. Tinha 27 anos. Os quatro meses seguintes seriam uma saga de extraordinária importância para o conhecimento do Brasil - porque, pela primeira vez, Rondon viajava com um homem à sua altura. Roquette-Pinto, sozinho, valia por uma equipe de cientistas.

Naquela expedição ele foi etnógrafo, sociólogo, geógrafo, arqueólogo, botânico, zoólogo, lingüista, médico, farmacêutico, legista, fotógrafo, cineasta e folclorista. Anotou toda a aparência da região - da floresta à árvore e à folha - a composição dos solos, o contorno das montanhas, o fluxo dos rios, a intensidade das quedas e a riquíssima variedade da fauna. Nas visitas às tribos já pacificadas, mediu os crânios dos índios, comparou seus pesos e alturas, analisou suas endemias e descreveu suas formas de produção, comércio e transporte. Registrou seus conhecimentos científicos, relações familiares, organização política, hábitos religiosos, formas lingüísticas, habilidade manual, cantos e danças. E ainda realizou a primeira dissecação de um indígena - na verdade, uma indígena - de que se tem notícia.

Roquette não deixou um fio solto. Anotou musicalmente os cantos dos nativos e, não contente, gravou-os em cilindros de cera com o fonógrafo portátil que se usava na época. Filmou tudo que pôde e fotografou ou desenhou o resto. Sem contar o que recolheu de pedras, pontas de flechas e objetos indígenas, e que transportou pelos milhares de quilômetros através de rios, pântanos e picadas abertas na selva. O que sobreviveu desses fonogramas, filmes, fotos, fichas antropométricas e objetos, conservados até hoje no Museu Nacional, dá só uma vaga idéia das condições em que tudo isso foi realizado. Roquette foi um Indiana Jones da vida real, só que mais heróico - porque verdadeiro.

No monstruoso percurso pelas selvas do Mato Grosso e do Amazonas e pelas bacias dos rios Paraguai, Juruena e Gi-Paraná, a morte acompanhou cada passo de Rondon, Roquette e seus homens. Dias e dias de caminhada podiam ser feitos sem sol visível, debaixo da espessa vegetação - se avançassem um quilômetro por dia isso era considerado ótimo. O principal objetivo da expedição era a pacificação dos nhambiquaras, até então arredios a qualquer contato com o colonizador. Arredios e hostis. Os mateiros de Rondon eram flechados à distância por mãos invisíveis; outros eram capturados e devolvidos sem cabeça; e ainda outros se feriam nas armadilhas postas por eles. E havia as ameaças permanentes da selva, como os animais e as doenças - varíola, beribéri, impaludismo. Burros, cavalos e bois iam morrendo e sendo deixados para trás. Os homens eram enterrados pelo caminho e Rondon batizava com seus nomes os acidentes geográficos do percurso. Mas, para o sacrifício de cada homem ou montaria, a expedição garantia um pedaço de chão que se incorporava efetivamente ao Brasil.

Para Roquette-Pinto, era tudo um milagre e esse milagre chamava-se Cândido Rondon. Sendo ele próprio mameluco por parte de avós indígenas, e falando os dialetos de várias tribos, Rondon conseguia repassar para os índios sua mensagem de paz - em nehuma outra época, na história da América, o choque entre o "selvagem" e o "civilizado" foi tão suave e humano. Para isso seu famoso lema, "Morrer, se preciso for, matar, nunca", teve de ser, primeiro, entendido pelos brancos que o seguiam. Dali Roquette extraiu uma compreensão do problema do índio que, até hoje, é revolucionária: "Nosso papel social deve simplesmente proteger, sem procurar dirigir nem aproveitar essa gente. Não há dois caminhos a seguir. Não devemos ter a preocupação de fazê-los cidadãos do Brasil. Todos sabem que índio é índio, brasileiro é brasileiro. A nação deve ampará-los e mesmo sustentá-los, assim como aceita, sem relutância, o ônus de manutenção dos menores abandonados ou indigentes e dos enfermos".

Os nhambiquaras contatados por Rondon e Roquette viviam na Idade da Pedra em 1912. Seus machados eram de pedra mal polida. As facas eram lascas de madeira. Não conheciam a navegação, a cerâmica ou as redes de dormir - donde atravessavam os rios a nado, comiam de mão para mão e dormiam direto no chão. Eram cobertos de bernes, pulgas e piolhos. Nunca tinham visto um homem branco ou negro. E o mal que faziam era, muitas vezes, por ingenuidade: ao ouvir o zumbido dos fios telegráficos, pensavam que o poste ocultava uma colméia e o derrubavam em busca do mel. Quando Rondon finalmente conseguiu que se aproximassem do acampamento (o que se deu à zero hora de uma noite memorável para Roquette), seus presentes para eles foram de um comovente simbolismo: machados de aço. Poucos anos depois, os nhambiquaras, já "evoluídos", iriam rir de seus velhos machados de pedra.

De volta ao Rio em novembro daquele ano, Roquette depositou no Museu Nacional cerca de uma tonelada e meia de objetos que trouxe da Serra do Norte. As anotações musicais foram entregues a Villa-Lobos, que as elaborou em composições que assinou com Roquette. Em seu organismo, Roquette trouxe também o impaludismo, a cujas seqüelas iria atribuir a doença que o acometeria na maturidade. Mas sua própria volta à cidade já era, para muitos uma proeza: como um homem tão urbano, de hábitos tão refinados, um elegante intelectual carioca, podia ter sobrevivido à brutalidade da vida na selva?

Uma explicação poderia ser a grande parte da infância passada na fazenda de seu avô. O mato não lhe era estranho. Mas há uma diferença entre as bucólicas fazendas mineiras e o sertão com seus perigos à traição. Poder-se-ia argumentar também que, aos 27 anos, Roquette era jovem e forte, e que, quando ainda mais moço, fora esportista: remara anos pelo Botafogo, no tempo em que o remo formava os atletas mais completos do Rio. Mas não há comparação entre um domingo de regatas e atravessar alagados carregando equipamento e com água pelo pescoço. A única explicação está na pétrea determinação de Roquette: impusera-se uma tarefa e tinha de cumprí-la. E os que o conheceram sabem que ele só precisava disso para agir.

O poeta Carlos Drummond de Andrade, que só viria a conhecê-lo muito depois, definiu-o como "um civilizado a quem a civilização não faria falta, porque seria capaz de reconstituí-la dentro da mata, adaptando-se ao meio e extraindo dela valores culturais, sem perda do instinto nativo, ou por um refinamento prodigioso desse mesmo instinto". Mas Roquette fez ainda mais: de volta à cidade, reconstituiu pela palavra a cultura da selva.

A grande bagagem que trouxe da expedição foram as anotações e as memórias de tudo que havia presenciado e vivido. Com elas, Roquette passou os quatro anos seguintes escrevendo o livro que, por si só, garantiria o seu lugar na imortalidade: Rondônia. Um monumental tratado antropológico, botânico, geológico, climático, zoológico e etnográfico de uma vasta região do Brasil entre os rios Juruena e Madeira, compreendendo partes do Mato Grosso, Amazonas, Pará, Acre e Guaporé. O fio condutor era, claro, a expedição de 1912. Mal publicado o livro, em 1916, tornou-se lugar-comum dizer que Rondônia estava para a saga de Rondon como Os Sertões, de Euclides da Cunha, estava para Canudos. Os dois livros revelavam um Brasil que, até então, muitos brasileiros julgavam existir apenas na imaginação dos poetas. Para Roquette, não poderia haver elogio maior do que ser comparado a Euclides (aliás, colega de turma de Rondon na Escola de Cadetes da Praia Vermelha, classe de 1888) - porque, para ele, Os Sertões era comparável aos Lusíadas ou a Dom Quixote.

No futuro, mais precisamente em 1956, o crítico e ensaísta Álvaro Lins estabeleceria uma outra virtude de Rondônia: a literária. Segundo ele, era pela força estilística de seu tratado científico (e não pelos fracos contos e poemas que depois escreveria) que Roquette-Pinto fazia parte da literatura brasileira. E Gilberto Freyre, outro exigente no seu julgamento dos colegas, nunca deixaria de elogiar, ao lado da exuberante escrita de Rondônia, a "segura base científica" de Roquette - distinção que não conferia a mais ninguém daquele tempo. Em seu livro Ordem e Progresso, Gilberto menciona treze vezes a seriedade de Roquette. O qual, não importavam as loas, sempre foi modesto ao falar de sua obra-prima: "É um instantâneo da situação social, antropológica e etnológica dos índios da Serra do Norte, antes que principiasse o trabalho de alteração que nossa cultura vai processando. É a prova fotográfica - um clichê cru".

Mas, naturalmente, era muito mais que isso. Suas experiências com os nativos e com os homens do sertão deram a Roquette os instrumentos para desfechar uma campanha anti-racista que atingiria em cheio o arianismo então vigente no Brasil. Para muitos naquela época (como para alguns ainda hoje), nossas mazelas seriam originárias da presença dos negros, mestiços e índios na composição racial brasileira. A tese original era do diplomata francês Joseph Arthur, conde de Gobineau (1816-1882), autor de uma teoria racial da História e que um dia resultaria no nazismo. Uma visão "benigna" do problema, defendida pelo então diretor do Museu Nacional, o antropólogo João Batista de Lacerda, apostava no "embranquecimento" do povo: em poucas décadas, os sucessivos cruzamentos extinguiriam a raça negra no Brasil... Mas Roquette, que via o Brasil como "um imenso laboratório de antropologia", pensava diferente:

 

Terceira parte

 

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