de Utilidade Pública Federal - Portaria no. 3935
de Utilidade Pública Estadual (RJ) - nº2464
de Utilidade Pública Municipal (RJ) - nº3048
detentora do Prêmio Estácio de Sá 2002
   
 
Ricardo Cravo Albim

 
 
Ricardo Cravo Albim e Turíbio Santos
 

Radialista, pesquisador, escritor e produtor cultural, Ricardo foi entrevistado por Adriana Ribeiro e Erika Franziska Werd Werneck, em 6/8/2010. Transcrição: Renata Mello.

AO – Como é que foi a sua chegada à Rádio MEC? Quem era você naquela época?
RCA – Bom, na verdade a minha carreira em rádio começa na Rádio Roquette-Pinto, com Armando Queiroz, pai do ator Luís Armando Queiroz e que foi um dirigente da Rádio Globo muito forte nos anos 50. O Armando Queiroz era Diretor da Rádio Roquette-Pinto em 1962. Eu já mexia nessa altura com música popular e especialmente com jazz. A Bossa Nova estava nascendo, e eu tinha uma certa intimidade com o nascimento da Bossa Nova, que teve seu “pique” em 1962, com o Festival do Carnegie Hall.
A partir de 1962, Otto Lara Resende, que era pro­cu­rador e trabalhava na mesma sala que eu, me apre­sentou ao Armando Queiroz, de quem ele era amigo, que era ligado à turma da Rádio Globo e do Roberto Marinho. E o Armando Queiroz, conversando comigo, me perguntou se eu não gostaria, interessado por música que era, de fazer um programa. Eu comecei, portanto, minha carreira de rádio fazendo um programa na Rádio Roquette-Pinto, chamado Jazz, música do século. Fiz isso por dois anos, até 1964. Mas parei e voltei apenas na Rádio MEC em 1973. Em 1973 eu entrei na Rádio MEC, também convidado – pela minha intimidade com o Museu da Imagem e do Som, pela minha intimidade com a música popular brasileira.


Você já era Diretor da EMBRAFILME e do Instituto Nacional de Cinema?
Exatamente: eu saí do INC e da EMBRAFILME em 1971, e a partir de 1972 entrei na Rádio MEC.
E esse INC tem a ver com o Instituto Nacional de Cinema criado pelo Roquette-Pinto?
Tem, claro. Porque, quando eu fui o Presidente do Instituto Nacional de Cinema, meu principal e grande amigo e assessor foi o Humberto Mauro. Era o INCE: Instituto Nacional do Cinema Educativo, que até hoje tem resíduos lá na Rádio MEC. Funcionavam no mesmo prédio.

Aí a EMBRAFILME foi criada e você foi dirigi-la?
Sim, fui o segundo diretor. Passei pela insupor­tabilidade daquele peso dos anos de chumbo, consegui passar ali, a duras penas, apenas um ano.

E no Museu da Imagem e do Som?
No Museu da Imagem e do Som eu fiquei até 1972. Ele foi criado em 1965. Quem criou o MIS foi o Governador Carlos Lacerda, inclusive o nome é dele.
Muita coisa que foi criada não foi nefasta só porque foi durante o regime militar...
Pelo contrário, imagine. Eu sempre fui um livre pensador. Eu fui convidado a exercer o cargo de primeiro Presidente e Diretor do Museu da Imagem e do Som, ainda em 1965, pelo Vice-Governador Rafael de Almeida Magalhães, que era muito meu amigo. E no Museu da Imagem e do Som, inclusive, tem arquivos de coisas que foram absurdos da própria ditadura.. Documentos sobre os artistas e músicos que foram prejudicados... Eu descobri nos registros do MIS coisas horríveis... Eu só aceitei a Presidência do INC, acu­mulando com a EMBRAFILME, por pressão, porque eu era o único nome disponível, em termos de cre­dibilidade dentro da cidade do Rio de Janeiro, graças ao trabalho do MIS, que estava no auge, na florescência. E ali, no MIS, eu fazia um trabalho inclusive muito corajoso, muitas vezes indo contra a ditadura. Fazendo prêmios para Oscar Niemeyer em 1968, para o Muniz Sodré, para o Gilberto Gil ...

Vocês encontravam brechas.
É claro que havia os núcleos guerrilheiros, que lutavam na clandestinidade, mas havia as pessoas que tentavam fazer uma recuperação e um resgate da decência. Eu era um caso desse. Razão porque eu fui solicitado, em comissão, por um grupo do Cinema Novo, à frente David Neves, Luís Carlos Barreto, Leon Hirchmann, Glauber Rocha, Cacá Diegues, para assumir a Presi­dência da Embrafilme. Só que eu realmente não con­segui... é uma longa história. E aí eu saí gravemente atingido – por um triz eu não era preso. A pressão era avassaladora. De um lado os americanos, a Motion Picture, e do outro lado a acusação, sempre aquela, de que seria ligado aos comunistas etc. E eu nunca fui ligado aos comunistas, eu era apenas um livre pensa­dor. Mas saí acusado de ligações comunistas.

Na Rádio MEC você fazia programa de Jazz?
Eu saí, tanto do INC quanto da EMBRAFILME e, logo depois, em 1972, do MIS. E então fui convidado para a Rádio MEC, de 1972 para 1973. Eu comecei com o programa Gigantes da Música Popular Brasileira. Foi o primeiro programa.. A partir daí, nunca mais saí: fiquei 30 anos ininterruptos no ar. Isso é motivo de um grande orgulho, porque eu sempre defendi o ideal de divulgar, realçar a música brasileira que vale a pena. Nunca houve nem poderia haver qualquer interfe­rência. Eu sempre dei idéias para melhorar a Rádio. Eu tenho esse justo orgulho de ter sempre tentado colaborar com o melhor para a Rádio MEC. Nunca saindo do ar, fazendo programas... Esse meu último programa foi uma homenagem que a Rádio me prestou, que é um programa com o meu nome, Ricardo Cravo Albim convida. Para a Rádio MEC eu também produzi, com o Consulado da França, dois programas divulgando a cultura da França, porque eu sempre fui muito ligado à França, era o pro­gra­ma Brasil-França, e eu também produzi o Panorama das artes plásticas, que foram programas muito célebres. O Brasil-França durante três anos – 78, 79 e 1980–, e o Panorama das Artes Plás­ti­cas, de 81a 83, mas sempre paralelamente comunican­do com a música popular brasileira.

Quando você entrou já havia a política de divulgar a música popular brasileira?
Claro. Eu fui chamado para a Rádio exatamente porque já era àquela altura um conhecidíssimo pesquisador e divulgador da música popular brasileira, através do trabalho pioneiro que eu levantei no MIS, criando uma coisa que era absolutamente inédita: os depoimentos para a posteridade, em que eu empregava um viés mais sociológico do que científico. Isso interessou até à Biblioteca Nacional de Washington, que copiou nosso modelo aqui. Foi um modelo criado por mim. Foi isso que deu o parto ao Museu da Imagem e do Som.
As pessoas inclusive iam para o auditório, e tinha gente ouvindo os depoimentos, muito interessante.
Ninguém ousava fazer isso. O que eu fiz? Eu ousei no MIS impor os pioneiros semi-analfabetos do samba, além do que negros, que não eram absorvidos por toda uma “inteligência”. Eram absorvidos como coisas curiosas, como excentricidades bizarras da cultura popular. Eu os absorvi num centro museológico por definição. Muitas vezes eu fui muito acusado disso “que museu absorve para a posteridade vozes semi-analfabetas, e não absorve os nossos literatos, os nossos membros da Academia Brasileira de Letras, a cultura oficial?”. Fui muito condenado por isso, apesar de, depois de gravar e registrar todos os pioneiros negros da Música Popular Brasileira, ter gravado também os literatos. Nem disso poderiam me acusar, porque depois realmente eu gravei os membros da Academia, os literatos, os desportistas, os políticos.

Esse acervo, que esta lá até hoje, é usado na Rádio MEC para criar programas?
Não, eu nunca confundi as coisas. Eu fiz os acervos, e soube depois das idas e vindas do MIS, que me deixaram muito triste, mas eu jamais tirei uma cópia sequer dos depoimentos que eu criei, uma única cópia de qualquer depoimento para mim mesmo, nunca. E tantas pessoas espoliaram o nosso Museu da Imagem e do Som.
Esses depoimentos poderiam ser uma grande fonte para a produção de programas, hoje.
Poderiam, mas eu tive sempre o escrúpulo, sempre fui uma pessoa muito escrupulosa, me permita, eu sempre fui absolutamente ético e jamais imaginava utilizar uma coisa que eu fiz num lugar para abrilhantar uma coisa que estava fazendo no outro. Por essa razão, depois disso tudo, de uma vida muito ética, eu fundei o Instituto Cultural Cravo Albim, para o qual eu doei todos os meus bens. Eu acho que isso é uma espécie de culminância ética. Pelo menos eu acho assim. Isso é vaidade? Não é vaidade. É para servir de exemplo, é um bom exemplo de que nós não temos no Rio de Janeiro apenas a degradação de um Fernandinho Beira Mar, dos traficantes, nós temos pessoas que realmente cuidam das coisas. E é esse o exemplo que a gente tem que realçar.

Qual é a sua visão sobre a Rádio MEC, dentro do panorama radiofônico brasileiro?
A Rádio MEC é a chamada fonte indispensável da música brasileira, que realmente não tem qualquer compromisso com essa coisa chamada IBOPE e pesquisa de opinião. Se bem que, é claro, seria sempre desejável, um sonho, que a Rádio MEC tivesse tudo em primeiro lugar, que o país fosse um país tão culto, tão sensível, que absorvesse realmente a rádio não comercial, colocando-a em primeiro lugar. Isso não vai ser possível em um país tão problemático, e com tantas definições de ligeireza, especialmente de pobreza e ainda de analfabetismo como o Brasil. Portanto a Rádio MEC cumpre um dever inalienável. A Rádio MEC segue, bem ou mal, mas segue, até hoje, o paradigma pelo qual ela foi criada pelo gênio, eu diria herói brasileiro, que foi Edgar Roquette-Pinto. “Pela cultura dos que vivem em nossa terra, pelo progresso do Brasil” – esse lema, bem ou mal; em muitos momentos, com más direções, mal; em outros muitos momentos, bons; mas sempre perpassa, no caldo final, o momento de relevância da Rádio MEC em relação a absorver e corajosamente prosseguir com esse lema. Graças aos esforços das pessoas. Esse espírito dele conseguiu contaminar o próprio quadro funcional. Eu me orgulho muito das coisas que eu fiz, e eu sou uma pessoa múltipla. Eu sou escritor, sou jornalista, sou fundador de Museus, tenho uma participação na vida pública grande, mas qual é a coisa de que eu mais me orgulho: é pertencer à Rádio MEC sem sair do ar durante uma única semana. Esse é meu grande orgulho. Eu sou legitimamente orgulhoso disso.

A sua formação inicial foi em direito?
Eu sou formado pela Faculdade Nacional de Direito, que funciona, como sempre funcionou, ao lado da Rádio MEC. Eu ali estudei cinco anos. Ali tive os melhores professores de Direito. Me formei ali, em 1963, com 21 para 22 anos de idade. Como paraninfo, Hermes Lima, Santiago Dantas, grandes mestres do direito.
Com quem você trabalhou nesse tempo na MEC? Quais pessoas que lhe marcaram como radialistas?
Foram muitas, eu não ousaria citar uma direção para não cometer a injustiça de me esquecer das outras. Mas uma pessoa que me acompanha a vida inteira, que hoje é diretora cultural do Instituto Cultural Cravo Albim, e que foi a pessoa que insuflou bons projetos na Rádio MEC, é a Maria Eugênia Stein. Foi diretora do Projeto Minerva. Graças ao Projeto Minerva, Maria Eugênia Stein, a quem eu cito e reverencio aqui, e o Zé Cândido de Carvalho – que foi um diretor ilustríssimo, membro da Academia Brasileira de Letras – acompanharam grandes momentos meus na Rádio MEC, inclusive o MPB 100 Ao Vivo, que é um dos momentos de maior glória que eu tenho na Rádio MEC. Levando todo o elenco da música popular brasileira, fazendo rádio ao vivo em auditório, se bem que montado, é verdade, mas gravando rádio ao vivo, e fazendo para 1000 emissoras do país, aos sábados, uma e meia da tarde. Dessa série celebérrima, gravamos 30 programas e resultaram 8 LPs memoráveis.

Alguns que passaram pelo MPB 100 ao Vivo?
Pelo programa passaram Luís Gonzaga, Abel Ferreira, Altamiro Carrilho, Cartola, Paulinho da Viola começando, Jackson do Pandeiro, só para citar alguns ilustres. Odete Amaral, Paulo Tapajós, todos cantando na Rádio MEC, contando os 100 anos da história da MPB. É um roteiro meu, com a minha voz. É um programa de honra da Rádio que eu me orgulho. Depois eu fiz também um outro programa, 140 programas, para o Projeto Minerva. Uma série muito importante chamada Gente da Música. A série de que eu mais me orgulho. Eu espero que esteja toda preservada lá. Gente da Música, meia hora para cada grande compositor da música popular brasileira. São 140 grandes programas, guardados na Rádio MEC. Um programa de pesquisa de discos raros – em 70 horas nós botamos o melhor da discografia que existe no Brasil, com discos que não existem mais hoje, mas estão gravados na Rádio MEC. Gente da Música,140 programas de meia hora, o que dá 70 horas de Rádio. Eu trabalhei muito, intensamente, não parei uma semana. Foram ao todo mais de 15 séries de programas, 15 títulos diferentes.
Existe uma imagem negativa na cabeça de algumas pessoas sobre o Projeto Minerva. E o Minerva foi ótimo.
Modéstia a parte, tem o meu nome, Paulo Tapajós, Clóvis Paiva, que fazia um programa benemérito ao Folclore Brasileiro. Nós, no rádio, éramos livre pensadores, produzindo aquilo de melhor para formar público ouvinte.
Você falou que fez um programa sobre artes, o Breve panorama das Artes Plásticas. Com quem você trabalhou?
Sozinho. Eu redigia e narrava. Era um programa de cinco minutos. Eu tenho ainda os roteiros, guardei todos aqui no Instituto Cultural Cravo Albim. Estão aqui Breve Panorama das Artes Plásticas, roteiros do Brasil-França, roteiros do MPB-100 Ao Vivo, roteiro dos Gigantes da Música, pastas e pastas, esse programa ficou 15 anos no ar. Um programa semanal, durante 30 anos: conte! Só que eu fiz programas múltiplos: em uma semana eu tinha 3, 4 programas no ar: Breve Panorama das Artes Plásticas, o meu Gigantes da Música Popular Brasileira e o Projeto Minerva. Se você somar todas as semanas de 30 anos aí você vai ter uma idéia. Breve Panorama das Artes Plásticas era um programa raro, hoje não tem mais nada disso, o programa da França, Brasil-França, era com o que havia de melhor. Tanto que eu fui herdeiro, pelo ICCA, da discoteca toda em LPs do Consulado Francês, agora, há dois anos atrás.

Isso era uma parceria do Consulado com a Rádio?
Era. E eu fazia por amor à França. Isso me legou, em 1980, o diploma, do qual muito me orgulho, que é o de Cavalheiro das Letras e Artes do Governo da França. Fernanda Montenegro recebeu, Luís Carlos Barreto acaba de receber, eu recebi em 1980.

A Rádio MEC, no imaginário do povo, é uma rádio de elite. “Ah, é a Rádio que tem música clássica...” Eu queria que você falasse sobre isso, sobre a con-vivência entre a dita “música clássica”e o que há de melhor na música popular brasileira.
A primeira verdade que você acaba de dizer é que sempre foi uma Rádio de elite. Desde que Roquette-Pinto a fundou, era realmente ouvida por elite. Quando o rádio se popularizou, o viés popular nunca veio da Rádio MEC; o viés popular veio para as outras emissoras, na sequência do prof. Roquette-Pinto. A Rádio MEC contudo sempre serviu para a educação e para o ensino, isso é verdade.

Para a difusão da cultura.
Para a difusão da cultura. E da educação também, da educação básica. Houve muitas aulas , eu não tenho nada com isso, mas a Rádio MEC sempre estimulou processos de alfabetização. Isso é um viés relevante, está dentro da diretriz benemérita do prof. Roquette.

E o futuro da Rádio, o que pode ser feito?
Eu acho que nós temos um problema desde que eu me entendo como produtor: a Rádio nunca teve um som correto, ideal, pelo menos con-correndo com as demais. Isso é inaceitável. A primeira coisa que temos que fazer é realmente fazer com que a rádio tenha um som que possa pelo menos concorrer com o som das emissoras particulares. Isso não tem justificativa. Isso é um dos motivos que diminui o grande trabalho da Rádio. Eu espero que a Rádio MEC resgate a sua definição de qualidade.

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