de Utilidade Pública Federal - Portaria no. 3935
de Utilidade Pública Estadual (RJ) - nº2464
de Utilidade Pública Municipal (RJ) - nº3048
detentora do Prêmio Estácio de Sá 2002
   
 
Pedro Paulo Colin Gill

 
 
Entrevista realizada em 2009 por Adriana Ribeiro Transcrição Renata Mello
 

Quando pedimos ao produtor veterano da Rádio MEC que nos concedesse uma entrevista para registramos suas muitas histórias, ele, antes de nossa conversa, escreveu um texto inspirado no nome desta sessão – “Rádio do meu tempo”. Nesse texto ele descreve, entre outras coisas, uma relação profundamente afetuosa com o veículo rádio, que entrou em sua casa na década de 1940, para nunca mais perder o lugar entre seus mais caros interesses, como poderão perceber nessa entrevista.

Quais foram seus primeiros contatos com o rádio?
As madrugadas do rádio: não existia nada igual. Porque o meu rádio, enorme, 12 válvulas, com mostrador policromático, eu apagava a luz da sala e ficava aquele lusco-fusco, aquilo tudo iluminando, colorido, um silêncio. E eu ouvia baixinho as músicas da madrugada. Às vezes do estrangeiro. André Kostelanetz, as músicas chamadas de fantasia.... Janela aberta, porque não tinha ladrão. O silêncio era quebrado pelo apito do guarda noturno. Quando morava no subúrbio era o trem de carga que passava de madrugada. Isso ficou na medula. Isso era o rádio do meu tempo.


E como você passa de ouvinte a produtor?
Eu sempre gostei muito de rádio. Na minha casa, de jornalistas, o rádio era fundamental. O meu tio, Rubem Gil, foi secretário da Casa dos Artistas durante 30 anos, de 1920 a 1950, quando ele faleceu. O presidente da Casa dos Artistas na ocasião era o Floriano Faissal. E eu lá estava e ficava admirando os artistas de rádio, de teatro, de cinema, que freqüentavam a Casa dos Artistas. O Floriano era muito amigo do meu tio. Ele mexia muito comigo, me chamava de judeu. Vinha com aquele jeitão dele: “Ô judeu, vem cá, senta aqui, lê esse texto”. Porque ele precisava de meninos para a Rádio Nacional. E aí aconteceu o fato de nós irmos lá e fazer um programinha que era rádioteatro, e eu fazia um menino. Mas eu estava muito nervoso, aquilo era uma coisa brutal, em 1949. Aí eu peguei o texto e comecei a ler e ele disse: “Não Pedro... não é isso. Deixa eu dizer pra você: o menino é mau caráter, um desequilibrado”. E concluiu com a seguinte frase: “Seja você mesmo”. Aquilo me surpreendeu, mas foi uma vitória porque eu fiz e ele disse: “Viu?, é isso! Você não presta.” E aí começou a coisa.. Logo depois veio uma convocação da Rádio Mayrink Veiga, de uma professora: Maria de Lourdes Alves. Ela estava selecionando meninos e meninas do Ginásio para um programa chamado Clube juvenil, que seria patrocinado pela Toddy. E nós fomos. Nós, quem?: eu e o Nelson Tolipan. Eu conheço o Tolipan desde 1947. Então fomos, os dois, para a Rádio Mayrink Veiga. Fizemos um teste com a professora Maria de Lourdes Alves e entramos no Clube Juvenil. Essa foi a nossa estréia no rádio, em 1949. Estamos fazendo, esse ano, 60 anos de rádio. Lá tivemos como mestres alguns colegas que depois encontrei aqui na Rádio MEC, como Allan Lima. O Allan Lima era um dos nossos ensaiadores. O Orlando Prado, também, que era do radioteatro aqui da Rádio MEC; Teresinha Amaio, que estava também começando, que fazia teatrinho nas escolas; Tereza Raquel, que era do Colégio Piedade. Enfim, estava todo mundo aparecendo.

O que você fazia no programa da Mayrink?
A professora Maria de Lourdes me disse: “Pedro, você vai fazer crônica cinematográfica”. Mandou eu ver os filmes e fazer as crônicas. Eu tenho até datilografada a primeira crônica que eu fiz para esse programa, em 1949. Pergunte quem bateu à máquina a crônica para mim: Gianfrancesco Guarnieri. Guardo isso como um tesouro.

Você continuava estudando?
Nós estudávamos no Colégio Liceu Francês. Terminamos em 1952, e aí já estávamos na Rádio Nacional. A professora conseguiu um espaço na Nacional e o Floriano Faissal nos assumiu integralmente. E aí foi uma delícia, porque eu era o locutor. Eu adorava quando o Cauê Filho, que era da Rádio Nacional, apontava pra mim e dizia: “Entra”. E eu dizia: “Emissoras brasileiras da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, PRE-8”, com erres e esses, imitando o Reinaldo Dias Leme, o Aurélio de Andrade, que estavam convivendo ali com a gente. Foi uma delícia. E o programa foi bem. Ficou até 1954, se não me engano. Aí aconteceram duas coisas que me afastaram um pouco do Rádio. A primeira, uma insistência da família para que eu fizesse concurso para a Marinha. E passei. Mas, nesse ínterim, entre 1949 e 1953, nós freqüentávamos muito a Rádio MEC, também. Como colaboradores. Íamos ouvir o programa do Paulo Santos ao vivo, no quarto andar. Ele fazia uns certames de discos. Muito honestos. Outro programa de jazz que freqüentávamos era o do Silvio Túlio Cardoso. Que era um crítico de jazz do jornal O Globo e fazia um programa na Rádio Globo, que naquela época não era uma grande rádio. Mas o Silvio recebia músicos jazzistas. Em 1951, aconteceu um terremoto para mim, para o Tolipan... todos nós que gostávamos de jazz: veio a orquestra do Tommy Dorsey inteira pra Rádio Tupy. E nós já conhecíamos o pessoal da Rádio Tupy, nos dávamos muito com o Raul Brunini, que era o apresentador. E íamos pra lá assistir o Tommy Dorsey. De repente, na porta do elevador, no terceiro andar da Rádio Tupy, a porta abre e, quem sai? Tommy Dorsey. Nós ficamos parados. E foi só isso. Perdemos a chance de conversar com o Tommy Dorsey por causa do choque emocional.
Os seus interesses então gravitavam entre literatura e música, com ênfase em música norte americana...
Na literatura, porque minha tia era professora, era literata; meu pai também era jornalista, literato, e a gente era iniciado ali, tinha muitas conversas em torno disso. Sempre ocorria uma espécie de sarau na casa da minha avó. Falávamos de tudo, mas principalmente sobre a guerra.
Voltando para a década de 1950, seu relato nos faz ver que havia um grande contato entre produtores de diferentes emissoras de rádio. Vocês freqüentavam várias emissoras...
Raul Brunini, Luis Brunini, da Rádio Roquette Pinto, que foi a antiga Rádio Escola do Distrito Federa... Estava lá o Miécio Honkis, que foi daqui da Rádio MEC, também. Continuamos indo à Rádio MayrinkVeiga, também. Bom, aí teve aquele interregno da Marinha, fui pra lá. E, é claro, não deu muito certo. Em outubro de 1953 conheci minha futura mulher e me casei, em novembro de 1954. E veio a filharada. Bem, eu tinha que ganhar a vida. Na rádio não dava, porque era sistema de cachê. Então encarei os concursos da vida e passei para a Caixa Econômica Federal, e virei funcionário da Caixa, que era uma autarquia. Era um banco social. Trabalhei na Caixa 11 anos.

Como e por que você voltou ?
No final de 1969. Estava eu caminhando pela Avenida Rio Branco, e quem vem na minha frente? Allan Lima. “Pedro Paulo! Precisava falar com você. O destino botou você na minha frente! Precisamos convocar aquele pessoal do nosso tempo de rádio. Porque a Rádio vai iniciar um projeto de caráter nacional, de educação a distância. Vai se chamar Projeto Minerva, e eu estou na coordenação junto com a Helena Theodoro. Vamos para lá!”. Aí eu fui. Que sorte! Consegui a transferência de Ministérios, porque naquele ano isso foi permitido. Então fui transferido do Ministério da Fazenda para o Serviço de Radiodifusão Educativa do Ministério da Educação. Aí eu chorei. Choro até hoje. Foi uma maravilha. Vim para cá. Virei funcionário da Rádio MEC e foi uma realização pessoal. E começamos a fazer programas. Eu vim com o objetivo de fazer aulas, porque eu já estava formado, já era sociólogo: aulas de Estudos Sociais para o Projeto Minerva. Foi uma honra porque quem era o produtor das aulas de português?: Domício Proença Filho. Matemática: Jairo Bezerra... Bom, aí começamos a fazer, e o Projeto Minerva explodiu. Foi um trabalho muito bonito, foi de princípio de 1970 até 1983. Depois acabou. Acredito que cerca de 2 milhões de brasileiros tenham sido beneficiados.

Quais os programas que você mais gostou de fazer?
Todos eles. Gostava muito de radioteatro. Por causa da Rádio Nacional, da Mayrink... Sorte que, depois, o Floriano Faissal veio para cá para a MEC. No radioteatro, o Dylmo Elias e o Magalhães Graça eram os nossos ensaiadores. Wanda Costa, Célia Morais... vozões maravilhosas. O Magalhães Graça chegava a ser tão autêntico que ele botava muxoxos nos artistas que não faziam muxoxos. Ele encaixava de tal maneira.... o Magalhães Graça era um gênio. Uma vez eu fui ensaiar com ele um texto da Íris de Carvalho sobre a Favela da Catacumba. Eu disse: “Eu não vou fazer não, Graça” — “Por quê?” — “Porque ninguém vai fazer igual a você”. Quando ele falava “catacumba”, você via a catacumba! Além do radioteatro, eu fazia um programa chamado Encontros com a Rádio MEC. Aí eu trazia todo mundo da área da literatura, do teatro, das artes plásticas. Várias personalidades. Os locutores do programa eram William Mendonça e Maravilha Rodrigues, que tinha uma voz maravilhosa. Depois fiz o Song Book. Era o Ecos de uma era com algumas diferenças, e pegou no ouvido dos ouvintes. Está no ar desde a década de 1980.

Você recebe cartas de ouvintes?
Recebo. E às vezes não respondo. O que é uma coisa absurda. E ultimamente, também os e-mails. Recebi recentemente um da cidade de Socorro no interior de São Paulo. Há pessoas que escrevem discordando de meus programas, o que é muito bom. Chegamos a formar um clube dos ouvintes do Ecos de uma era. Vínhamos para cá nos dias das gravações e depois íamos celebrar. Ainda sobre os programas que fiz, participei também de programas de literatura do Guiaroni, da Cleonice Berardinelli, e do Geir Campos.
Falando os textos?
Falando, dizendo as poesias. Foi ali que eu entrei em contato com muitos poetas.
Nesse momento, além do Ecos de uma era você faz o único programa de literatura da Rádio MEC. Fale um pouco sobre esse seu programa.
A idéia do Expressão literária, que eu achei ótima, foi da Liara Avelar, e o programa já tem mais de dois anos no ar. Só que eu abri o leque da literatura: agora passou a ser literatura e história, literatura e sociologia, literatura e mito. Nós já estamos com oito programas sobre literatura e mito. Agora talvez a gente vá começar a trazer para entrevistas alguns professores. Ele atualmente tem meia hora e estamos pensando em reduzir para 15 minutos. Há pouco tempo fiz um programa só sobre a Tabacaria, poema de Fernando Pessoa. Esse programa vale à pena..

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