de Utilidade Pública Federal - Portaria no. 3935
de Utilidade Pública Estadual (RJ) - nº2464
de Utilidade Pública Municipal (RJ) - nº3048
detentora do Prêmio Estácio de Sá 2002

 

Paulo Santos

Entrevista realizada na Casa São Luiz, por Renato Rocha e Adriana Ribeiro, em 29/08/03, para ser lida ao som de um disco de jazz. Sugerimos Duke Ellington, um dos preferidos do pioneiro da divulgação do jazz no Brasil. Mas, antes, leia a apresentação que Eleazar de Carvalho escreveu, nos anos 60, para o lendário locutor da Rádio MEC

 

Paulo Santos por Eleazar de Carvalho.

“O timbre e a cor de sua voz; sua impecável dicção; seu instinto musical; o perfeito conhecimento que demonstra possuir das obras que interpreta; tudo isso, aliado a um apurado bom-gosto e a uma elegante simplicidade, justifica o titulo que Paulo Santos possui, de ser o NARRADOR BRASILEIRO.
Todas essas qualidades tenho constado durante a execução das obras que Paulo Santos tem narrado sob a minha regência. Estão em uníssono comigo, Leonard Bernstein, Igor Markevitch, Hans Swarowsky, Aaron Copland, Arthur Fiedler e muitos outros com quem Paulo Santos tem colaborado.
Na sua bagagem de interprete figuram gravações de “Pedro e o Lobo”, de Prokofieff; “Young Person’s Guide To The Orchestra”, de Benjamin Britten; e “O Carnaval dos Animais”, de Saint-Saens.
Paulo Santos é detentor, duas vezes, do Disco de Ouro, do troféu Obelisco, do “Prêmio Chagas Freitas”; do “Prêmio Roquette Pinto”; da medalha do cinqüentenário do Teatro Municipal; do Golden Award, da American Society of Disc-Jockey.
Com todas essas qualidades e distinções, Paulo Santos não necessita de apresentação. Este registro representa, apenas, a minha homenagem ao homem de cultura eclética e a quem muito já deve a comunidade cultural brasileira”.

Amigo Ouvinte Como você entrou para a Rádio MEC?
Paulo Santos– Bom, a vontade já era muito grande, desde garoto, porque a Rádio MEC permitia um tipo de programação que as outras não tinham: músicas mais selecionadas, repertório erudito, coisas assim. Eu tentei e acabei conseguindo, através do Sr. René Cavé e do Sr. Fernando Tude de Souza, que eram os dois diretores da Rádio – um artístico e outro geral.

AO Em que ano, isso?
PS – Faz tempo, acho que em 45.

AO Você foi recebido por eles?
PS – Fui recebido primeiro pelo René, que era o responsável pela programação da Rádio; depois ele passou a noticia ao Tude da minha vontade de trabalhar lá, de fazer alguma coisa lá: locução, narração, redação especializada, coisas assim. E eu comecei assim.

AO Foi pedido algum teste, antes?
PS – Não, eu fui direto. Apenas me apresentei diante ao microfone, pra que eles ouvissem meu tipo de voz, maneira de ser. Mas não foi um teste, propriamente.

AO Você começou fazendo o quê?
PS – Comecei fazendo programas normais, que já vinham prontos, pra gente botar no ar. Alguns tinham textos, eu lia o texto; outros não tinham nada, tinha só o nome da música e o intérprete, mais nada.

AO Qual o 1º programa que você produziu?
PS - Olha é um pouco difícil dizer, mas o que ficou mais marcado foi o programa de jazz – Em Tempo de Jazz – que queriam que eu chamasse de Jazzmania, mas eu não quis. E foi crescendo, crescendo, até que eu recebi convites de outras rádios para fazer aquele programa, tirar dali e passar pra lá. Mas eu não concordei, porque eu comecei na Rádio MEC, então tinha que ficar ali.

AO “Em Tempo de Jazz” começou quando?
PS – Não tenho certeza, acho que em 46.

AO Como era o formato do programa naquela época? Era só com discos?
PS – Era só com discos, porque não tinha meio nenhum de fazer transmissão externa, coisas assim nesse sentido, então era só disco. E o grande problema, na época, aqui no Rio, e no Brasil inteiro, é que jazz era uma coisa muito rara, muito difícil. Então, havia música norte-americana. Mas música dançante, comercial, coisa assim, e isso não cabia no que eu queria. Então, foi um pouquinho difícil começar assim. Mas, a medida que a coisa pegou, e foi rapidamente, apareceram as participações ao vivo, de músicos brasileiros, que eu convidei, e nós conseguimos chegar aonde queríamos.

AO Que músicos brasileiros você levou para o programa?
PS - Quase todos os brasileiros tinham esse dote, digamos assim, de improvisação. Porque, antes de irem para o jazz, eles já improvisavam na musica popular, no samba e coisas assim. Tinha muita gente, na época, inclusive alguns que ficaram com o nome marcado como o Dick Farney, No programa, ele teve a liberdade de fazer o que ele gostava de fazer, sem restrição nenhuma – coisa que ele não tinha conseguido nunca em outra emissora.

AO Os discos eram seus ?
PS – Eram sempre meus. Não tinha música de jazz, naquela época – nenhuma rádio tinha. O que eles tinham era musica popular norte-americana, música de dança, ou qualquer coisa assim, mas não jazz. O jazz sempre foi uma especialidade que eu usufrui, desde o inicio até o final da minha carreira na Rádio.

AO Você foi sonoplasta da Rádio?
PS – Fui, sim. Naquela época, a Rádio já fazia programa de rádio-teatro. Então, eu entrei com efeito de colocação de músicas ao texto que iria ser representado. Só música e ruídos especialíssimos.

AO Então, voltando ao jazz: o programa começou em 45 e foi até quando?
PS – Olha, enquanto eu estive na Rádio MEC, eu estive no ar.

AO É verdade que quem te substituía, nas férias, era o Edino Krieger?
PS - Era, sim.

AO Mas o Edino entendia de jazz?
PS - Entendia, sim. E gostava de jazz. No início da coisa, o programa não era pré-gravado, depois é que começou a gravar. E aí, não precisou mais que o Edino participasse, porque eu gravava e deixava pronto pra ir ao ar.

AO Era ao vivo e passou a ser gravado, por que?
PS – Passou a ser, para não haver falhas do operador, em relação aquilo que a gente estava apresentando. De maneira que passou a ser gravado. O programa fazia sucesso: então, a gente, com os pedidos recebidos, repetia aquele programa tal qual foi ao ar.

AO Que outros programas você fêz?
PS - Ah, muita coisa. Eu produzi um programa chamado Cine Música, que era feito a partir de musicas usadas em cinema. Eu ia comentando, um a um, aquele filme que estava sendo exibido. Além disso, um programa de ópera. E eu, inclusive, criei oficialmente essa coisa lá na Rádio Ministério da Educação, que era a transmissão de uma ópera completa – que não existia no rádio, naquela época. Ocasionou uma série de problemas no inicio, mas, depois, pegou de tal modo que não saiu mais do ar;

AO Tinha mesmo um microfone da rádio pendurado no palco do Teatro Municipal?
PS – Tinha aquele negócio pendurado, sim, para a transmissão do que estava acontecendo no palco. O meu era um microfone portátil, e eu, dali, comentava a coisa toda, antes de ir ao ar, enchendo o tempo. Muita gente dizia “enchendo lingüiça”, mas não é verdade. Apenas para que o publico tomasse conhecimento daquilo que ia ser apresentado, daquele momento em diante – fosse ópera, fosse orquestra sinfônica, fosse o que quer que seja.

AO A lenda é que você entrava no Teatro Municipal e entrevistava todos os artistas e personalidades. Quantas línguas você fala, Paulo?
PS – Eu falo várias: inglês, principalmente, mas espanhol e italiano, também.

AO Paulo, o teu nome está intimamente ligado à OSN. Onde a OSN ia, você acompanhava?
PS - Acompanhava. Toda vez que fosse necessário. Não só como solista narrador, mas também como coadjuvante da direção daquele setor.

AO Fale dos recitais no cinema Rex. Que época foi?
PS – Final dos anos 40: 49, 50, por aí. Começava às 10 horas da manhã e ia até meio-dia, aos domingos. Podia ser musica clássica ou semi-erudita; mas a gente comentava e combinava antes, com quem ia ser apresentado, uma entrevista, num possível intervalo, para que a transmissão fosse feita dali.

AO E as transmissões na TV Globo, como eram realizadas?
PS – Nada de especial. Antes da transmissão, nós contactávamos com os solistas, com as pessoas que iam se apresentar, para que, no intervalo, nós pudéssemos conversar a respeito, embora muito rapidamente, para aquilo não ser só apenas musica erudita jogada no ar.

AO É verdade que o nome “Rádio MEC” foi você quem propôs?
PS - Fui eu que propus, sim. Porque Ministério da Educação e Cultura complicava muito na época, porque antes era só Ministério da Educação. Então: eme-é-cê: MEC, Ministério da Educação e Cultura – quando se passou a chamar assim. Aí eu passei a adotar essas 3 letras como se fosse um prefixo, digamos assim, daquilo que a gente ia apresentar.


AO Com o LP Pedro e o Lobo, você foi o pioneiro no Brasil da narração com música. Você tem um especial carinho por essa obra do Prokofieff, não é mesmo?
PS – Tenho, porque acho a obra muito boa, musicalmente e como idéia de narração conjugada com a música, e, segundo porque nós precisávamos ter um caminho novo dentro dessa estrutura musical. E foi assim que nós começamos, com Pedro e o Lobo. E depois vieram as outras.


AO Quais foram?
PS – Bem, eu fiz muita coisa, de vários autores, nesse sistema botar a voz falada, declamada, como você quiser chamar isso – mas não cantada – com a música.

AO Segundo o locutor Décio Luiz, foi você quem acariocou a empostação da Rádio MEC, que era apaulistado: Rrrrrádio Minissstério. Você dava cursos dentro da Rádio. Lauro Gomes e o Guilherme de Souza contam que estudaram com você.
PS – Não só eles: muitos outros fizeram cursos lá, com a gente. Eles queriam aprender a maneira de dizer a coisa pra que todos entendessem e que não fosse sofisticado.

AO Como é que era a pauta, o temário desses cursos?
PS – A idéia principal foi a de lançar esse negócio, auxiliando aqueles que estavam trabalhando no setor radiofônico. E muita gente, já profissional de Rádio, passou a ir a Rádio MEC, querendo participar dessa coisa, e falava sempre comigo , porque era a principal voz.

AO Você era a voz padrão da Rádio: as pessoas ouviam a sua voz pra falar mais ou menos parecido com você?
PS – É verdade, mas eu achava que não era necessário. Cada um tinha o seu jeito de ser, mas acontecia muito isso. Iam lá, me visitar, pra ver como eu fazia a coisa.

AO Você tem essas apostilas ainda guardadas ?
PS – Muita coisa se perdeu, não sei nem como.

AO Você tinha ou chegou a preparar um dicionário fonético, com nomes de músicos e músicas?
PS – Eu tinha, porque eu fiz, não porque existisse. Então, coisas assim, especiais, eu escrevia o nome, tal qual era escrito, e, depois, a pronúncia correta do nome, como era conhecido mundialmente.

AO E o Nelson Tolipan?
PS - Ele começou comigo. Queria que revisasse tudo que ele escrevia. E continuamos assim, amigos.

AO Você fez algum trabalho no INCE, narração de filmes, essas coisas?
PS – Eu fiz algumas coisas, sim, mas principalmente atuando; não escrevendo. Mas produzindo e narrando.

AO Quais os grandes diretores da Rádio, a seu ver ?
PS – Tem muitos, mas o Fernando Tude de Souza foi quem deu a partida para que o resto prosseguisse.

AO Você trabalhou em outra rádio ?
PS – Trabalhei na Rádio Jornal do Brasil, ao mesmo tempo que na Rádio MEC. E, de passagem, na Rádio Clube do Brasil. Na Rádio JB, eu não era só locutor, porque o locutor apenas apresentava a música, e eu não: comentava o que estava acontecendo. E fiquei lá bastante tempo. Aliás, o nome JB quem botou fui eu.

AO Você também pôs o nome na JB!
PS – E pegou, né?

AO O perfil do profissional de rádio era ume depois da TV virou outro?
PS – Infelizmente, virou. Mas não tem nada uma coisa a ver com a outra. Porque a televisão você vê, então, não adianta você comentar uma coisa à sua maneira e você ver outra. Já o rádio, não: você fazia aquilo pro ouvinte ver mentalmente.

 

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