de Utilidade Pública Federal - Portaria no. 3935
de Utilidade Pública Estadual (RJ) - nº2464
de Utilidade Pública Municipal (RJ) - nº3048
detentora do Prêmio Estácio de Sá 2002
   
 
Marlos Nobre

 
 
Entrevista realizada em 2005 por Adriana Rbeiro. Transcrição Renata Mello
 
O ano de 2009 será de muitas comemorações para o compositor, pianista e regente Marlos Nobre. A celebração dos seus setenta anos de vida e cinqüenta dedicados a música inclui uma série de concertos pelo Brasil e pelo mundo. Como reconhecimento pelos anos de dedicação à música erudita, Marlos Nobre também foi homenageado pelos Correios com um selo comemorativo (imagem ao lado). Na esteira dessas homenagens, o Amigo Ouvinte fez essa entrevista com Marlos, que também é um radialista veterano.

 

AO – Como foi sua vinda para a Rádio MEC?
Eu sou de Recife. De lá me inscrevi no 1º concurso Música e Músicos do Brasil, da Rádio MEC. Era um concurso de Música de Câmara. Eu escrevi um Concertino de Cordas, que foi uma das obras escolhidas, e eu ganhei menção honrosa. Isso foi em 1959. Eu nem vim ao Rio. Em 1960, houve o 2º concurso e eu ganhei o primeiro prêmio, com um Trio para piano, violino e violoncelo. O prêmio foi dado pelo Ministro da Educação, e o Trio da Rádio tocou. Era o Bocchino, ao piano; Anselmo Zlato­polsky, ao violino; e Iberê Gomes Grosso, ao violoncelo. Em 1962, eu me fixei no Rio. Na época, fizeram concurso para o coro da Rádio. Murilo Miranda, que era o diretor, chamou o Isaac Karabitchevsky pra reger o coro e foi quem promoveu esse concurso. Eu gostava muito de cantar em coro, lá em Recife, então eu fiz o concurso e entrei como baixo-barítono, no Coro da Rádio MEC. Fiquei em 62 e 63 nesse coro e, em 64, eu ganhei uma bolsa da Rockfeler. Pedi licença e fiquei em Buenos Aires, estudando doutorado em composição. Alto nível de composição, porque era com Alber­tine Asfera, que é da Argentina; Luigi Dallapiccola, da Itália; Mario Pietro, também da Itália, e Aaron Copland, dos Estados Unidos, quer dizer, os maiores mestres da composição. Hoje, quando olham meu currículo, falam “com esses professores, que loucura!”. Realmente eram os maiores compositores da época. Foi muita sorte estudar com eles. Em 65 eu voltei ao Brasil. Continuei cantando no coro da Rádio. Nesse período, o diretor era o Eremildo Viana. Era um momento muito complicado. Mas eu tinha um trabalho com o Maurício Quadrio, que era também produtor da MEC. O Maurício gostava muito da minha obra e ele era diretor da Odeon, na época uma grande companhia de discos. Ele queria fazer uma coleção de música brasileira: ele era louco pra gravar música brasileira. Aí me chamou pra fazer parte da equipe dele. Eu comecei a fazer recuperação de partituras. Eu ia pra Biblioteca Nacional, pra Biblioteca da Escola de Música... Lá, por exemplo, estava a Abertura do Padre José Maurí­cio. Só existiam as partes, e eu fiz a parti­tura e aí foi gravada. Hoje, ainda tenho o original. Também Marcos Portugal, a missa Te-Deum de D. Pedro I, que estava na Igreja do Carmo. Faltavam algumas páginas, porque as pessoas, lamen­tavel­mente, arranca­ram folhas com o manuscrito de D. Pedro I . Você imagina como era precioso isso. E o Maurício disse: “Assim não dá pra gravar, você não pode fazer?”. Aí eu fiz aquele trabalho de reconstituir, a partir do estilo de D.Pedro I. Eu escrevi as partes que estavam faltando. E foi gravado pelo coro da Rádio MEC. Eu também gravei. O regente, eu acho, foi Henrique Mo­re­lenbaun. Uma obra primo­ro­sa, lança­da em LP pela Odeon. Então, nós gravamos Radamés Gnattali, os concertos de piano, pelo próprio Radamés Gnattali, e Villa-Lobos, alguma coisa. Foram muitos discos.

AO – Era um trabalho do Maurício Quadrio junto à Odeon com a participação da Rádio?
É o que hoje chama-se de parceria. Naquela época chamava-se convênio. Maurício Quadrio era funcionário da Rádio, e eu também. Então éramos cedidos e as gravações eram nos es­tú­dios da Odeon. Os LPs, foram lançados numa coleção chamada Monumento da Música Clássica Bra­sileira, uma coisa imensa. São discos rarís­simos, que nunca foram lançados em CD. A Rádio deve ter. Foram feitas grava­ções, por exemplo, de obras de Henrique Oswald. Concertos para piano com uma grande intérprete dele que era a Marina Barra. Nós pegamos as pessoas da Academia Brasileira de Música, o Andrade Muricy era o presidente, o Renzo Massarani, o Mozart de Araújo – que já foi diretor da Rádio–, a Helza Camêu, e fomos buscar partituras importantes. De Leopoldo Miguez fizemos duas espécies de poemas sinfônicos. Primorosos. Chegamos até Guerra-Peixe, chegamos a fazer a Retirada da Laguna, de Guerra-Peixe. Tudo isso em LPs. E era um trabalho incrível, porque eu estava associado à Rádio, que tinha a Orquestra Sinfônica Nacional, o Coro, e os solistas era a Odeon que escolhia e pagava. O regente era Alceo Bocchino, que era da Rádio, e havia também regentes convidados como o Morelenbaum. Mas o Bocchino gravou muita coisa, na época. Foi um trabalho incrível. Foi um trabalho que deu muitos frutos. Depois ocorreram muitos problemas, com a Odeon. Porque eram discos culturais, então não vendiam muito. Foi uma coisa pioneira dentro da Rádio. E aquilo justificava a essência da Rádio MEC, uma Orquestra pra gravar música brasileira. E eu trabalhei nessa parte até mais ou menos 67, 68.

AO – E o senhor não produzia programas?
Até aí eu era funcionário do coro, mas fazia muita coisa na Rádio. Eu fazia todas essas coisas por causa da minha formação. Já naquela época eu era um compositor, tinha meus prêmios todos, viajava muito. E sempre tive apoio para viajar. Fiquei nos Estados Unidos, ficava 2 meses nas cidades, ia e voltava. Foi muito importante.

AO – Alguma dessas viagens foi mais longa?
A mais longa foi essa de 63 e 64. Felizmente eu não estava aqui quando houve aquela revolu­ção. Quando voltei, já estava essa tralha aqui toda. Mas em 63 e 64 eu fiquei com essa bolsa da Rockfeler, com licença sem venci­mento.

AO- Quando é a sua estreia como produtor?
Isso foi um pouquinho depois. Porque, na Rádio, eu fiquei até essa época trabalhando, assim, mais avulso, e, em 1972, o diretor era o Avelino, e ele me chamou pra ser o chefe do setor musical. Antes, era o Bocchino. Foi então que eu comecei a fazer um trabalho com o Concertos para Juventude, que, na época, a Rádio fazia junto com a TV Globo. Eu tinha muitas idéias e era muito crítico a respeito do Concertos para a Juventude. Então, eu digo: “vou aplicar as minhas idéias.”

AO – Quais eram as suas críticas?
Era que a Rádio era muito devagar, em termos de promoção. Tendo uma orquestra, tendo o coro, tendo todas as possibilidades, a Rádio era muito modesta em termos de entrar no circuito. A Orquestra Sinfônica Nacional foi a orquestra que mais gravou no Brasil. Naquela época, deu uma projeção muito grande à Rádio. Mas a ar­ticulação administrativa aqui na Rádio era len­ta. Quando eu entrei, em 73, eu continuei com as gravações na TV Globo. Muitos músicos aqui da Rádio tocavam na Orquestra da TV Globo, e eles ganhavam da Globo um paga­mento, certamente, muito maior. E quando eles iam gravar o Concertos para a Juventude diziam: “nós estamos gravando pra Globo”. Eu argumentava: “olha, vocês estão gravando aqui como Orquestra Sinfônica Nacional”, “não, é como orquestra da Globo”. O Concertos para a Juventude começou no Teatro Municipal e depois passou a ser veiculado na Globo. Foi grande a repercussão da Rádio. Nós fizemos o programa de 72 à 79. Eu inventei os chamados concursos. Nós fazíamos concursos pra jovens instrumentistas, mas jovem mesmo. Os garotos brasileiros que ninguém conhecia. E simples­men­te eram Antonio Menezes, que tinha 8 anos de idade e ganhou o primeiro prêmio; era o Bernardo Katz, violoncelista; era o Roberto Minczuk, que hoje é o regente da Orquestra Nacional, trompista, tinha 8 anos de idade. Então esses gêniozinhos brasileiros, uma coisa como­vente da gente ver. O José Carlos Cocarelli, pianista, era um garotinho de 10 anos, filho do oboísta que tocava na Orquestra Nacional.

Alceo Bocchino e Nelson Freire, em uma das apresentações do programa Concertos para a Juventude

O Ranevsky tinha os filhos dele também que eram violoncelistas, enfim, essa garotada, nessa faixa de 7 e 8 anos. Eles tocavam na Globo nas manhãs de domingo e os prêmios eram uma ajuda pra ir pro exterior estudar, entre outros. Então, o Menezes teve uma ajuda para ir pro exterior estudar violoncelo. Era assim. Cha­ma­va-se Troféu Rádio MEC-Globo Instrumentista. Depois fizemos para pianistas, corais... uma coisa impressionante. Vieram corais do interior de Minas Gerais, de São Paulo, da Amazonas. Era extremamente comovente, porque os corais vinham de ônibus, nós não tínhamos dinheiro pra pagar. Fizemos um acordo com a Itapemirim. O concurso de coral foi um êxito bárbaro. Depois fiz então o Concurso Nacional de Bandas. O concurso de bandas foi mais incrí­vel, porque as bandas vinham também de ôni­bus, do interior, com instrumentos colados com esparadrapo, aí era o sapateiro, era o lixeiro, era o prefeito, o Secretário de cultura municipal, era dona de casa: eles eram os músicos. Coisa como­vente. Alguns desa­fi­na­vam, aquela coisa, mas a gente sabia que o que importava era eles se apresentarem. E na Globo, que naquela época já tinha al­cance naci­onal, ima­gine a cidade colocando a televisão pra ver a bandinha tocar. E o disco foi feito com os vencedores, eram 4: de São Paulo, de Pernambuco, de Minas Gerais e, acho, uma do Paraná.



AO – Quem eram os jurados do concurso?
O júri era formado por músicos que eu chama­va, de grande categoria, como Morelenbaum, Bocchino, Arnaldo Estrela, Iberê Gomes Grosso, só papa fina. Infelizmente, a Globo não pôde manter as fitas, mas as ofereceu a Rádio MEC, que não teve dinheiro para comprar. Eram aquelas fitas de tape, caras, o Boni na época me disse: “a Globo não é instituição cultural, nós não vamos fazer arquivo de fitas, depois de 3 domingos a gente apaga e grava em cima, mas eu ofereço por preço de custo”, quer dizer, nós teríamos que dar uma fita em troca. Aquela fita significava um investimento financeiro imenso. Você imagina o que é uma fita gravada no estúdio da Globo, com toda técnica e tal. Ele ofereceu “me dá uma fita virgem que eu dou essa”. Aí eu fiz um projeto, briguei, fiz o diabo e não consegui nem uma fita: nem uma fita. Foi uma tristeza. Quando eu vi tudo aquilo, um arquivo imenso, a memória de todos esses grandes músicos que hoje estão tocando no Brasil, todo mundo começou ali com 8 anos, 7 anos, era um documento maravilhoso. Foi tudo destruído. O concerto, por exemplo, com Victor Assis Brasil, que morreu logo depois, tocando com a orquestra da Rádio. Radamés Gnattali tocando ao vivo, Nelson Freire... Todo mundo era garoto. Isso se perdeu, lamentável. Foi a grande coisa que foi feita aqui na Rádio que justificou a orquestra da Rádio se apresentar, o coro da Rádio se apresentar, a Orquestra de Câmara da Rádio. A minha idéia sempre foi assim, a Rádio tinha que entrar no circuito da mídia forte.


AO – As transmissões trouxeram ouvintes?
Sim, ouvintes de música. O Brasil parava. Em certas cidades o padre era obrigado a mudar o horário da missa. Porque ninguém desgrudava do Concertos para Juventude, para acompanhar o concurso. O pessoal ficava torcendo pelo vio­li­nista, que tinha 6 anos de idade; outro ficava torcendo pelo violoncelista, que tinha 7. E o júri dava in­for­mação cultural subli­mi­nar. Ele não dava aula, mas cada fala do júri era uma aula. Havia orquestras se apre­sen­tando. Havia um con­certo muito bem filmado, mas havia também a coisa do concurso que era uma maneira de fazer com que o público ficasse ligado. Um formato popular. Então isso aí levou a um sucesso sem precedência. O ibope da Rá­dio e da TV Globo, nessa época, era imenso com música erudita. Acho que, ho­je em dia, nós não tería­mos a mesma coisa.
Em 1977, eu fui nomeado para o Instituto Educacional de Música, aí me licenciei da Rádio. Mas eu, como diretor de música, continuei ligado na Rádio. O diretor era o Heitor Salles. Então eu disse pro Heitor: “vamos continuar”. E nós continua­mos fazendo os Concertos, já com apoio do Instituto de Música da Funarte. Até que a Globo começou a ficar de olho no horário. A mãe do Boni gostava muito do Concertos. Então o Boni não mexia. Quando morre a mãe do Boni, ele diz: “acabou”. Este horário ele estava querendo para trans­mi­tir a Fórmula 1. Isso foi em 1981.

AO – Ano que a OSN saiu da Rádio.
A Orquestra começou a criar um tremendo problema. A briga era grande: a Or­questra Sinfônica Nacional com a Orquestra Sinfônica Brasileira. O Isaac queria as verbas todas pra OSB. Eu dizia: “não, tem que dividir com a OSN.” Depois, a Orquestra foi pra Nite­rói. Os músicos criaram tanta dificuldade, de sindicato e não sei o quê, que acabou. O diretor que estava aqui não se interessou em manter. Quando eu voltei pra Rádio, passei a ser produtor de programas. Eu senti que estava me estressando demais. Eu realmente me desgas­tei. Quando houve então a saída da Orquestra, aí eu disse: “ chega!”. Eu não quis mais saber nem do Concertos para a Juventude, nem da Orquestra Nacional, e acabou.

AO – Ainda é possível trazer de volta a Orquestra para a Rádio?
Eu não sei, acho que não. Acho que não interessa mais... Sabe por quê? Vou dizer: são caros. Não vejo estrutura que seja possível co­lo­car aqui. Se você pensar que os ensaios eram feitos no 6º andar, sem ar condicionado. Quando entrou um novo diretor, que não me lembro agora, ele acabou com aquilo e decidiu fazer ali o projeto Minerva. Pegou a Orquestra e chutou ela lá de cima – era sempre assim. Eu tinha medo das férias. Porque a Orquestra en­tra­va de férias e quando voltava não tinha lugar para a Orquestra. Um esforço que a gente fazia pra poder ensaiar. Foi por isso que eu me can­sei, porque você lutava pelo lugar da Orquestra. Então era cada conquista na base da luta, não era brincadeira. Esse esforço físico de manter uma orquestra significava uma coisa que a Rádio hoje não pode, não tem espaço físico pra isso. Não adianta você ter uma orquestra e a orquestra não ensaiar.

AO – O que a Rádio poderia fazer e não faz?
A Rádio deveria gravar mais música brasileira e lançar música brasileira. Eu sei que não é fácil, e que já está fazendo. Mas devia fazer com mais vigor. Aproveitar o estúdio para ver os talentos brasileiros que estão surgindo. E fazer um acervo do nosso tempo para o futuro. Porque nós temos talentos jovens, que não podem entrar no circuito comercial ainda. E esse pessoal precisa de um lugar para fazer sua divulgação. Aqui se faz concerto, gravações, mas precisa conse­guir mais apoio financeiro, que não custa tanto. Já tem um estúdio com tudo montado. E gravar mais música de composi­tores brasileiros jovens, com artistas brasileiros jovens. Essa turma que está aí, de grande qualidade, não só no Rio e São Paulo. Fazer projetos. A função da Rádio é preservar para o futuro o que acontece hoje no Brasil.

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