de Utilidade Pública Federal - Portaria no. 3935
de Utilidade Pública Estadual (RJ) - nº2464
de Utilidade Pública Municipal (RJ) - nº3048
detentora do Prêmio Estácio de Sá 2002

 

Marlene Blois

 

Pioneira do Projeto Minerva e do rádio educativo, nossa entrevistada é autora de livros para o ensino fundamental e tem trabalhos publicados aqui e no exterior sobre comunicação e Rádio. Produziu e apresentou, pela Rádio MEC, as séries "Educação em Debate" (por 12 anos) e "Esporte Brasil"; e co-produziu, com Renato Rocha – que assina esta entrevista – a série "Encontros com Paulo Freire", em parceria com a Rádio Cultura de São Paulo.

Quando e como você começou na Rádio MEC?
MB – Com carteira assinada, em maio de 71. Mas, antes, eu já estava oficiosamente trabalhando aqui. Foi assim: a professora e radialista Helena Theodoro estava organizando a equipe que iria planejar e produzir programas para o que ficou conhecido como Projeto Minerva. Nós havíamos trabalhado na Secretaria de Educação e penso que foi por isso que ela fez o convite. Um pouco antes, eu tinha feito um curso sobre a TV como meio educativo (que era uma grande novidade) com as professoras Judite de Paiva e Souza, e Alfredina de Paiva e Souza. Aí, eu tive que viajar e, quando voltei, tinha dois convites: um da Helena, para vir pra cá, e outro da professora Judite, para trabalhar na TVE – porque eu havia tido bom desempenho no curso. Mas o encanto para mim era o rádio e eu vim pra cá.

E o que você fazia?
MB – Nós trabalhávamos em grupo, planejando o curso que seria a grande novidade do Minerva. Atendendo a nova lei, a 5698, nós oferecemos o Curso Supletivo de 1º grau – que passaria a ter 8 anos, juntando o antigo primário com o ginasial. Teríamos que pensar num supletivo com grandes inovações. Os quatro primeiros anos ficavam a cargo do Mobral, mas os alunos saíam do Mobral e queriam continuar os estudos, então o governo tinha que oferecer alguma coisa que desse terminalidade de 1º Grau, e era essa a função do Minerva, que estava inserido nessa proposta de Brasil Grande, onde era preciso dar educação à massa, melhorar as condições de escolaridade do trabalhador. Na perspectiva da época, o Brasil só crescia se tivesse pessoas qualificadas. E essa história continua até hoje: faltam professores qualificados, não conseguimos erradicar o analfabetismo... Aí, começamos esse trabalho de planejar o curso, trabalhando primeiro com a Fundação Padre Anchieta – eles faziam o curso na televisão, na Padre Anchieta, e nós fazíamos o curso versão rádio. Essa foi a primeira perspectiva.


Nesse início vocês levaram em conta as experiências do MEB, do Colégio do Ar, etc.?
MB – Não, além de não termos esse material, nem tínhamos tempo. Até porque a Educação, no início dos anos 70, estava dando um grande salto metodológico. E nós todos estávamos muito entusiasmados com essa mudança – a grande mudança de poder oferecer um curso, para um grande contingente de pessoas, a distância, numa perspectiva de criação de uma grande rede de educação, no Brasil inteiro. Isso queria dizer o envolvimento das Secretarias de Educação. Era um trabalho tão grande, tão encantador, que a gente não tinha tempo de nada. Depois do planejamento, tínhamos de montar a equipe de professores que escreveriam os conteúdos das aulas. Ninguém sabia direito como escrever conteúdo pra rádio. Tínhamos que transformar esses conteúdos, que os professores traziam, em produtos radiofônicos. Esta era a tarefa dos nossos redatores fantásticos, para depois então gravar – e aí entravam os radioatores, locutores, sonoplastas etc., dando vida ao que chamávamos de radioaula. O trabalho foi assim, sem tempo para se ter uma fase piloto para testar. Numa segunda oferta e nas seqüentes do curso, fizemos os ajustes para melhorar o material didático, ou seja, a aula radiofônica e o fascículo que a acompanhava. Regrávamos trechos das aulas, chamávamos o professor, os locutores ou os que eram necessários. Foi desse jeito.


Quanto tempo até o primeiro programa ir ao ar?

MB – Não foi muito, não. A equipe foi formada à medida que o trabalho exigia – os que chegavam aprendiam com os que já estavam na produção.


Quem eram essas pessoas?
MB – No início, não éramos muitos. Cheguei eu, depois a Yvone Vieira, a Solange Leobons, a Virgínia Palermo, na produção, com Allan Lima. E foram chegando Maricéa Drumond, Maridéa Macedo, Benirah Azen, a Amelinha (Amélia da Silveira), Yeda Brandão, Rosa Dávila, Lígia Canabarro, Lídia Costa, Mário Dias, Lourdes Favila, Yara Chedid, Ivanete Silva, José Antônio, Maria Fucs. O diretor era o Avelino Henrique, e a Helena Theodoro tinha um envolvimento mais político, de articular tudo isso – uma pessoa dinâmica, com grandes idéias.

E os professores?
MB – Tinha o Domício Proença, nas aulas de Português; Jairo Bezerra, Matemática; Arnaldo Niskier, Moral e Cívica, e o Aurélio Buarque de Holanda .

Quer dizer que o Minerva não se serviu das experiências anteriores? Partiu de zero?
MB – Na verdade, a experiência de um longo curso, pelo rádio, ninguém tinha. Partimos de uma proposta pedagógica que seria veiculada pelo rádio. Porque nós formávamos o grupo de educadores, e tínhamos as pessoas de rádio, que transformavam os conteúdos em produtos radiofônicos. Tínhamos reuniões freqüentes para discutír o melhor modo de passar um determinado assunto. Como fazer as cortinas de passagens de um bloco de conteúdo para outro? Qual deveria ser a duração?, etc. E, como nós viajávamos muito, íamos a campo, conversávamos nos rádiopostos e trazíamos o "sentimento" dos nossos alunos para as reuniões de equipe.

Isso quando?
MB – Em setenta e poucos. O tempo todo, fazíamos um trabalho, nas Secretarias de Educação, de convencimento de que os governos locais não teriam condição de dar um curso supletivo com a qualidade que oferecíamos para aquela massa oriunda do Mobral. Como a Secretaria iria assumir isso? Presencialmente, não teriam condição. Então, qual a estratégia? Conversar com os responsáveis, "vender" o que era um curso pelo rádio, sua importância. Essas pessoas iam se sensibilizando, montavam rádio-postos – nós dávamos treinamento para os que seriam supervisores, para os monitores. Na verdade, construímos um grupo de pessoas nos estados compromissadas com uma educação via rádio.
Como era um rádioposto?
Marlene Blois – Um rádioposto tinha uma antena no telhado e um rádio receptor. No início, tínhamos um rádio que era dado às secretarias com sintonia cativa – os ouvintes não podiam trocar de estação –, e uma sala de aula, que podia ser um espaço numa igreja ou num quartel, por exemplo. Se havia quadro-negro, ótimo. Os alunos recebiam a coleção de fascículos do curso. Nos anos 70, nós já trabalhávamos com multimeios, não é fantástico? Tínhamos o rádio, o fascículo e mais a presença do monitor – esses três elementos funcionando.

O monitor era pago?
Nós não pagávamos: esses recursos eram a contrapartida das Secretarias de Educação ou das prefeituras. Muitas prefeituras montavam seus próprios sistemas, cediam salas de aulas em determinados bairros, que funcionavam às vezes em dependências militares, abrindo oportunidades de aprendizagem não só paras os recrutas, mas, também, para a comunidade. O mesmo se passava quando um rádioposto funcionava em hospitais, cooperativas e presídios. Foi um trabalho de um imenso alcance social.

Os programas foram aperfeiçoados mais em função dos relatórios que vocês traziam do que por cartas e telefonemas?
Recebíamos cartas, sim. Mas o que nos valia mais eram os relatórios mensais que chegavam dos coordenadores das unidades federadas. Funcionava assim: os monitores mandavam para os supervisores, os supervisores reuniam aqueles relatórios dos monitores que estavam sob sua responsabilidade, faziam um relatório, e com base nesses relatórios dos supervisores era montado, pelos Coordenadores estaduais, um único, que nos era enviado. Era realmente uma rede. E ali estavam registradas as observações que o pessoal fazia, do que os alunos comentavam, do que as pessoas que conviviam com esses alunos contavam. E mais: o que nós colhíamos, indo nos rádio-postos à noite, conversando com os alunos, com os monitores, incentivando-os para que não parassem de estudar, para saber se os fascículos estavam chegando a tempo, se os rádios estavam funcionando, se o som chegava com qualidade... Quando havia irregularidade, nós orientávamos sobre como vencer a dificuldade.

A equipe toda, na Rádio, tinha quantas pessoas?
A equipe "pedagógica" e de coordenação de produção que trabalhava aqui, acho que uns vinte e poucos profissionais, incluindo os redatores. Era um redator por matéria. Quando as matérias tinham menos aulas semanais, um redator só cobria duas matérias. Os professores-conteudistas não eram muitos – era um por matéria, e não davam expediente na rádio.
Um ressentimento que constatei aqui, em relação ao Minerva, era que havia uma divisão flagrante entre o pessoal do Minerva e o da Rádio, que dizia que o Minerva não aproveitava as capacidades da Rádio: até os locutores eram contratados de fora. Você concorda?
Nós, naquele tempo, éramos o SRE (Serviço de Radiodifusão Educativa). O SRE tinha as Rádios MEC – Rio e Brasília – e depois agregou esse projeto. Então, o que acontecia: a Rádio tinha a sua vida de broadcasting, nós éramos uma coisa à parte. A Rádio não tinha o propósito de fazer educação, como o projeto tinha. Era um projeto, vamos dizer,"instrucional", com uma proposta clara: tinha que dar da 5ª à 8ª séries, portanto terminalidade do ensino de 1º grau, para aquele mundão de brasileiros que estavam espalhados por esse país inteiro e que precisavam de um diploma, se não, não seguiam seus estudos. Muitas dessas pessoas eram oriundas do Mobral, estavam espalhadas por todo Brasil, exigindo: "Queremos continuar estudando, queremos mais". Aí, o governo resolveu dar força ao Rádio e à Televisão. Na TV, havia um trabalho paralelo ao que fazíamos na Rádio, que era o "João da Silva" e o "Projeto Conquista". Muitas vezes, nós saímos daqui com o pessoal da TV, oferecendo os cursos nos Estados. Indicávamos, por exemplo, nas capitais onde tinha mais condição, que assumissem o Projeto Conquista, por televisão; e todo o interior em que a TV não chegava, o nosso curso pelo rádio. Então, voltando, o que aconteceu? O Projeto Minerva acabou se constituindo num grupo a parte, aqui dentro, porque não houve uma proposta inicial de integração. O SRE tinha duas funções: tinha as suas rádios para oferecer música clássica e popular e sua proposta cultural - embora a Rádio MEC fosse uma rádio educativa, mas educativa nessa perspectiva maior da cultura, da qual a educação é parte. Havia, por exemplo, um padrão de locução para a Rádio e outro para as produções do Minerva, com locução mais coloquial. O "time" era outro e precisavam falar para outros ouvintes que não eram os "classe A" da MEC – por isso nossa proposta de produção era diferente e, para nós, naquele momento, o rádio educativo visava chegar a muitos com educação formal, educação que os sistemas de ensino não estavam em condições de oferecer. Se a proposta das radioaulas eram bem aceitas pelos alunos daquela época, com certeza, hoje, não a faríamos da mesma forma, mas hoje o mundo é outro, diferente dos anos 70.

Quem era o diretor de broadcasting?
Tinha o Guiarone; depois veio o nosso saudoso Floriano Faissal. Tivemos nele um grande professor de rádio, porque vinha da Nacional, a rádio que sabia falar para o Brasil. Nossas aulas melhoraram muito tendo o Floriano na direção de estúdio. O Allan Lima também fez parte desse time. Houve uma proposta de algumas das emissoras fazerem cultura, e devemos sua realização ao Allan. Ele construiu uma rede paralela – o Minerva Cultural –, que só veiculava programas culturais. E isso foi uma evolução. O aluno tem que aprender matemática, geografia, etc., sim, mas tem que ser um ser mais completo. E como fazer isso? Levando uma programação cultural até eles. Tínhamos programas lindíssimos sobre literatura, teatro, circo – tanta coisa! –, e isso era o Allan Lima quem cuidava.

Qual foi balanço desse primeiro momento?
Nós trabalhamos com multimeios e isso foi um ponto super-positivo. Repare, eu nunca vejo as pessoas discutirem isso: qual era o papel do rádio no sistema que foi montado? O rádio tinha o papel de incentivar, de trabalhar a questão da oralidade – que é fundamental –, de vencer todas as barreiras do não entendimento de uma leitura dos fascículos. O fascículo tinha as suas peculiaridades de linguagem escrita, com gravura, mapa, gráfico, etc., e o rádio trabalhava aqueles conteúdos com todos os recursos possíveis da época, que a gente acreditava que poderiam ajudar o aluno, que já vinha cansado do trabalho, com fome, que ia para aula sete e meia da noite, que fazia uma leitura prévia do conteúdo com o monitor, e depois ouvia a aula radiofônica. Portanto, ele teria duas assimilações desse conteúdo – uma visual, porque era um material impresso que lia; e a outra auditiva. Isso ninguém valoriza. O aluno não estava só: estava com os colegas no rá-dio-posto, trocavam idéias, voltavam a ler o conteúdo depois da audição, analisavam e faziam suas anotações, e o que não tinham entendido era discutido no rádio-posto. Então, sem termos aprofundamento teórico, na época, nós estávamos fazendo o que preconiza hoje a escola construtivista. O aluno estava construindo o seu conhecimento e usando dois canais de recepção, o visual e o auditivo. Ele estava trabalhando aqueles conhecimentos com os colegas, trocando informação, e diante da sua realidade, da sua história, do que ele trazia de vida como aluno adulto, contextualizando o que aprendia.
(continua na página seguinte)
(continuação da página 10)

E o monitor? Qual era a orientação que recebia?
Aquele monitor era orientado a aplicar, sempre que possível, os conhecimentos abordados no curso à realidade onde o aluno vivia. Repare que trabalho lindo que era. Nós talvez não tivéssemos, naquela época, essa perspectiva que lhe estou passando, nós não tínhamos essa visão macro. Agora, quando eu leio toda a teoria construtivista que está na moda no mundo inteiro, eu digo: "Meu Deus, a gente fazia isso, há 30 anos atrás!". A dinâmica era a seguinte: o aluno chegava às sete e meia, lia o conteúdo da aula, ele sabia qual era a aula, tinha o mapa de que aula ia ouvir; das 8 às 8:30, ele ouvia a aula, depois ficava para trabalhar os conteúdos e os exercícios que estavam no fascículo. Nós estávamos garantindo qualidade da informação, porque nós não tínhamos professores formados no Brasil inteiro em número suficiente. Muitos dos monitores eram os próprios alunos, que se revezavam. Cada dia era um que virava monitor – às vezes não tinha nenhuma pessoa que tivesse o antigo primeiro grau completo, que pudesse assumir a monitoria.

Havia programa de capacitação de monitores?
Não só de monitores, mas também de supervisores e de coordenadores. Nós fizemos muitos encontros que chamávamos de Encontros Regionais do Minerva. Começamos com encontros nacionais que, em geral, eram aqui no Rio. Depois, passamos a promover os encontros regionais – reunimos o pessoal do nordeste, do sudeste, do sul, do norte e do centro-oeste, sempre numa capital da região. Chegamos também a fazer os encontros estaduais, até pela própria iniciativa das secretarias. Nós mandávamos um professor nosso para acompanhar e ajudar a organizar o evento. Fazíamos isso antes de cada novo lançamento dos cursos e quando o curso já estava pela metade ou mais. Nós formamos um grupo que tinha a perspectiva da educação a distância via rádio, com o uso de multimeios. Isso foi um trabalho avançado para a época, em termos de estrutura descentralizada - e estávamos no regime militar! - e de proposta pedagógica. A TVE fez isso conosco. Muitas vezes, as pessoas que iam para os encontros da TV e para os encontros do rádio eram as mesmas. Nós tínhamos em cada secretaria um grupo de profissionais da educação trabalhando "em rede". Depois, quando houve a grande mudança, tudo isso se foi.

Que grande mudança?
MB – O MEC optou por não mais oferecer programas nacionais, deixando a cargo dos sistemas de ensino a responsabilidade de fazê-lo. O que se viu foi o desmonte da rede, com poucas iniciativas locais, ficando a massa de jovens e adultos desassistida.

Quantos alunos participaram do Minerva?
MB – Eu não tenho mais esse registro, mas nós tivemos bem mais de 200 mil alunos que fizeram os cursos. Há um tempo atrás, fui a Campos, aqui no nosso Estado, e encontrei uma professora que tinha sido monitora do Minerva. E ela me contou experiências que aconteceram em Campos, com o pessoal das fazendas de cana-de-açúcar. Eu fiquei maravilhada. Falou de gente que teve oportunidade de ascender a partir das portas que se abriram com o curso pelo rádio. Foi emocionante!

Existe algum sucesso como esse, documentado?
Não, eu mesmo nunca escrevi sobre isso. Pode ser que alguém aqui da casa tenha escrito. Mas eu me lembro da professora de Campos contar dos alunos que tinham freqüentado o rádio-posto onde ela atuava – um era um advogado bem sucedido na cidade. E muitos que passaram pelo Minerva chegaram a ser prefeitos, secretários de educação, quando antes não tinham nem o primeiro grau. Na verdade, como tudo que aconteceu naquele período, o Projeto Minerva ficou estigmatizado por ter sido uma iniciativa dos governos militares. O rádio educativo perdeu quando começou o desmonte da rede que havia sido formada. E havia outra pressão paralela: a dos donos das emissoras, via a poderosa ABERT. Por que? Porque as emissoras de rádio, que já tinham que ceder o horário da Hora do Brasil, ainda tinham que disponibilizar a meia-hora seguinte para oferecer educação ao Minerva.

Qual era a Portaria?
Primeiro foi a Portaria interministerial MEC-MINICOM nº 408, depois foi a 568, que determinava meia-hora de segunda a sexta e 75 minutos aos sábados, em todas as emissoras AM, OC e OT, menos nas FMs, porque as FMs alegavam: "Não, só veiculamos música, não temos quase patrocínio, como é que uma rádio ainda vai abrir mão de mais meia hora..." – foi por aí. E o MEC também não teve recursos ou criatividade suficiente pra buscar alternativas. Esse tempo começou a ser reduzido e aí passou a ficar somente spots durante a programação das emissoras.


A Portaria foi revogada?
Foi sendo alterada. A cada nova discussão era baixada mais uma a portaria: a bancada dos radialistas no Congresso crescia e era forte. O Ministério da Educação com o Ministério das Comunicações e mais a ABERT no meio dessa história, e a educação foi perdendo espaço, até ficar reduzida à produção de spots, apenas – a televisão e a rádio produziam spots, e as rádios veiculavam na hora que quisessem – e aí o Minerva acabou.

E havia censura, no Minerva?
Sim. Havia os "censores", aqui dentro, lendo todos os roteiros. E eu acho que era até nessa sala onde nós estamos agora (a sala 201), que os infelizes liam, principalmente, os roteiros das aulas de história, de Educação Moral e Cívica...

Eles eram funcionários?
Alguns, sim. Ninguém via suas caras, mas eles circulavam pela casa, nos acompanhavam muitas vezes aos encontros com monitores. E nada ia gravar sem passar por aqui, pela censura – os nossos scripts tinham que passar por esta sala!

E como era a produção dos fascículos?
Era um longo processo, que passava inclusive por concorrência entre as editoras. Eu e Solange fazíamos todo o planejamento e acompanhamento da produção editorial, porque tínhamos experiência de já ter publicado livros didáticos. Quando a Editora Abril ganhava a concorrência, íamos para São Paulo acompanhar a produção, página por página, escolhendo as fotos, etc. Quando a Bloch vencia, era mais fácil realizar o trabalho, porque a editora ficava no Rio. Mas houve um momento em que a nossa missão era participar, em parceria com a Fundação Roberto Marinho, da produção de um curso com multimeios, os Telecursos. Aí, cabía a nós produzir as radioaulas. Por que? Eles forneciam os conteúdos e produziam as aulas para televisão e o material impresso, e nós produzíamos para rádio e usávamos a nossa rede de veiculação e de recepção. Nestes telecursos iniciais – não nesse que é oferecido atualmente – nós produzíamos o rádio, e os fascículos eram comuns, tanto para rádio quanto para TV. Vale dizer que a Fundação Roberto Marinho nunca se meteu na nossa área: o rádio era nosso, o MEC repassava o dinheiro para nós, e nós desenvolvíamos esse trabalho em parceria. Como a Fundação nesse tempo ficava em São Paulo, as reuniões eram lá e de lá trazíamos os conteúdos gerados pelos professores contratados pela Fundação, e produzíamos aqui. A veiculação era através da rede radiofônica, da Portaria 568. Isso tem que ficar claro: houve 3 momentos em nosso trabalho de oferta de cursos: um com a Fundação Padre Anchieta; um integralmente nosso, para os cursos supletivos de 1º e de 2º graus, ou seja, conteúdos, produção radiofônica, fascículos e sistema de recepção em rede, e um terceiro com a Roberto Marinho, com os Telecursos.
(continua na página 12)

Com a TV Globo também foi 1º e 2º grau?
Foi o que hoje chamamos de ensino fundamental e médio. Nós tínhamos também produção para professores, junto com a TVE, com duas versões: para rádio e para TV, sendo a coleção de material impresso, única. Houve outras produções conjuntas, mas não com material impresso. Programas para a Terceira Idade, para universitários, para famílias de crianças deficientes auditivas. Quando o Heitor Salles, que já tinha sido diretor daqui, foi nomeado Presidente da FUNTEVE, eu fui ser coordenadora de educação da Fundação. Então, procurei fazer essa integração de programas da área educativa, que tivessem as versões rádio e TV. Outro ponto era a necessidade de crescimento profissional da equipe. Dentro dessa idéia, algumas pessoas daqui foram fazer mestrado em tecnologias educacionais na UERJ. Eu e Solange participamos da primeira turma. Esse curso nos deu clareza do que fazíamos e do que ainda podíamos fazer na área de educação a distância. Mais tarde, defendi tese na Universidade Gama Filho, em livre docência, também sobre Rádio Educativo. Por conta disso venho escrevendo trabalhos, tentando levantar um pouco dessa história.

E o Sistema Nacional de Rádio Educativo, como foi que surgiu?
Bem, o SINTED – Sistema Nacional de Televisão Educativa já existia quando foi criada a FUNTEVÊ, uma fundação vinculada ao MEC, para agregar as ações educativas da Rádio MEC e da TVE. O SRE deixou de ser SRE, para passar a ser um centro de rádio educativo, aqui, na rádio; e a TVE passou a ser um centro de TV educativa, juntos, em uma única fundação. O SINRED foi uma proposta minha, do Assis Brasil e do Idelfonso Brum. Eu falei para o então presidente da FUNTEVE: "Se você quer criar algo novo, crie o SINRED, o Sistema Nacional de Radiodifusão Educativa, englobando um subsistema de rádio e um subsistema de televisão". Porque o subsistema de televisão, o SINTED, já existia. O SINRED seria a continuidade de um trabalho de radiodifusão educativa em que nós estimularíamos o surgimento de rádios educativas no Brasil inteiro, para que elas pudessem fazer um trabalho integrado, quer dizer, além do trabalho especifico seu com a sua comunidade, que tivessem um momento de produção compartilhada, em que pudessem fazer um trabalho de rádio educativo, não mais nos moldes do Projeto Minerva, mas uma produção, por exemplo, continuando a atender professores que precisavam ter treinamento e que continuam sendo a grande pedra no sapato da educação brasileira: investir na qualidade dos docentes desse país. Então essa era a idéia básica do SINRED.

O SINRED teve umas 50 emissoras na rede, não?
É verdade, mas você sabe como ele nasceu? Nós tínhamos, aqui, na Rádio, essa proposta do Minerva aos domingos. O que a gente podia fazer de novo, e que temática poderia fazer uma grande mudança na linguagem desse rádio-educativo? A primeira coisa que eu pensei foi: "Bom, a temática pode ser o folclore." Aí, procurei os órgãos responsáveis pelo folclore. Eles não se entendiam. Então pensei: "Essa discussão não é nossa. Nós estamos abrindo uma perspectiva de canal, mas se eles mesmos não se entendem, não vale a pena investir nessa temática. E aí, nesse tempo, estava surgindo no MEC uma campanha de "Esportes para Todos", com a proposta de fazer com que o esporte não fosse praticado apenas por uma elite que tinha acesso aos clubes, e, sim, por toda a população. Eu então pensei: "Isso é interessante, acho que vai dar certo." Havia um órgão no Ministério, a Secretária de Educação Física e Desportos, que estava capitaneando essa proposta de fazer um esporte democratizado – para portador de deficiência, mulher, idosos, para crianças e jovens, usando as praças, as ruas, as praias. Entrei em contato e eles acharam a idéia fantástica. Eles se instalaram aqui e começamos a fazer a produção para usar o espaço radiofônico, divulgando e continuando a adotar o modelo de "rede" informal. Qualquer um poderia participar, não só os órgãos oficiais nos Estados, das Secretarias responsáveis pelos esportes nos municípios, mas ONGs também. "Vamos formar uma rede novamente, uma rede informal, sem nome, sem dono – só a proposta de fazer rádio educativo de qualidade", foi o que pensei. E, aí, esse pessoal do EPT – Esporte para Todos – fez um encontro, aqui no Rio, para vender a idéia e anunciar que já iam contar com o espaço de veiculação na cadeia nacional de Rádio. Eu então propus que convidassem representantes de algumas rádios educativas para o evento. Esse foi o embrião do SINRED. A primeira proposta foi a de criar esse grupo à parte da produção do Esporte para Todos, e, aí, surgiu a série Coisas da província, a primeira idéia concreta do que havíamos pensado para o SINRED: uma produção compartilhada, o Brasil de todas as latitudes ouvindo os falares brasileiros. No começo, eram 4 ou 5 emissoras, apenas. E a coisa foi caminhando.

Nesse início, os programas da série Coisas da província eram todos gerados aqui?
A coisa mais linda era essa. No Esporte para todos, as pessoas nos estados já gravavam programas e mandavam para cá. Muitos não vinham com qualidade, mas à medida que eles começavam a fazer e nós orientávamos, começou a chegar material de qualidade. Com o Coisas da província, a proposta foi nessa linha. Havia um planejamento do que seria produzido. Assim: a Educativa de Pelotas, no Rio Grande do Sul, vai falar de coisas do seu estado, sobre Mario Quintana, por exemplo. E assim foi. Eles produziam e mandavam, e nós veiculávamos para o Brasil inteiro. Com isso, a gente pôde estimular as produções locais: era o Brasil se mostrando para os brasileiros.

O SINRED evoluiu e parou. Como foi isso?
Eu escrevi, na minha tese, um capítulo grande sobre o SINRED. Porque eu sonhei muito com esse SINRED-Rádio, e lamentei muitíssimo o caminho que ele seguiu. Alguns que passaram pela direção tinham esquecido que nós não estávamos mais no processo ditatorial. Nós já tínhamos liberdade de falar, não precisávamos tanta centralização das ações. As pessoas não souberam lidar com isso, com a liberdade. Então, o que fizeram? Voltou a centralização, voltou o "eu tenho o poder do dinheiro para te dar, então, a tua rádio só vai receber se fizer isso e abrir espaço para aquilo...". Então, veja: o SINRED cresceu, nós tínhamos aqui um setor de coordenação, recebíamos as fitas, redistribuíamos. Era um trabalho danado. Recebia-se os programas gravados, montava-se uma grade, colocava-se no ar, todo mundo ouvia, e, na troca, todos se aprimoravam, crescia o rádio educativo. Porque o mais importante era que os profissionais do Centro de Rádio estavam à frente em termos de qualidade de produção. Tinham um know-how a passar. Tínhamos que ser detonadores de uma melhoria de produção, para formar ou aperfeiçoar pessoas nas rádios educativas estaduais, para que os programas fossem melhores, para que o se entende por rádio educativo fosse mais aberto, mais flexível, com canais alternativos para produção específica. Mas, infelizmente, em vez de se aprimorar o sistema, as coisas foram, mais uma vez, se deteriorando, até que hoje não se tem mais nada.
(continua;áo da página 12)

Que outra série o SINRED veiculou?
Quando houve a abertura política, eu propus fazer uma série com Paulo Freire, que tinha acabado de voltar do exterior. A direção da Rádio concordou e, então, eu perguntei ao Paulo Freire se ele aceitava fazer uma série para veiculação nacional através da rede. E isso tinha a ver também com a idéia de parceria que fundava o SINRED, já que o Paulo morava em São Paulo e podíamos nos valer da Cultura para viabilizar a produção, diminuindo custos. Você foi o produtor da série. Então, essa série é histórica: nenhuma outra rádio no Brasil produziu nada parecido. E essa série está em várias universidades estrangeiras, não sei como. Teve gente que estudou português para poder ler no original o que o Paulo Freire escrevia. E essa série faz parte do acervo da Rádio, está aqui, e eu tenho um orgulho enorme de ter tido você, Renato, como companheiro de produção. O "Encontros com Paulo Freire" ficou primoroso enquanto produção radiofônica. A propósito, vale destacar, além desta série, o restante do acervo fantástico que a Rádio tem. Ele é muito rico e pode ter novas utilizações. É possível otimizá-lo. É só a gente ter um grupo que pense isso, que ouça, e se dedique a reaproveitá-lo. Esse acervo precisa ser divulgado, precisa ser valorizado, precisa ser mantida a memória que está aqui. O rádio educativo é a Rádio MEC.

E a sua participação na criação de novas emissoras educativas?
Bem, há toda uma história da legislação de como se podia abrir uma rádio. Cabia a nós, do Centro de Rádio Educativo Roquette-Pinto, analisar e liberar os projetos que acompanhavam as propostas de novas rádios educativas, dar o parecer e orientar o grupo solicitante. Depois, eu continuei fazendo pesquisa nessa área e, como eu tinha que apresentar uma tese de Livre Docente, que me daria o título correspondente à doutora em Comunicação Social, nas áreas de rádio e TV, eu me dediquei a aprofundar o estudo que tinha feito para a dissertação de Mestrado da UERJ. Então fiz uma comparação do que havia acontecido nesses dez anos que separavam a primeira da segunda pesquisa - porque foi exatamente 10 anos depois. Enviei um questionário para as rádios educativas, e 50% responderam. E, nesse estudo, pude aprofundar a questão do SINRED, porque ele já não existia mais. Levantar documentos do que existia, um pouco da história do rádio, de como o rádio educativo se inseria nessa história do rádio brasileiro. Porque, na verdade, o rádio brasileiro tem o seu nascer educativo.
A gente sabe que não faltam leis. O que falta para que o governo cumpra as suas obrigações constitucionais para com o rádio educativo?
Eu acho que falta uma conscientização de todos do que o rádio pode fazer, do que o rádio ainda não fez em termos educativos.

O que o rádio não fez, ainda?
Nós todos devemos uma grande coisa ao rádio – e esse é o lado educativo mais fantástico e não tão claro para as pessoas –, que diz respeito à língua falada neste país. Deve-se muitíssimo ao rádio, e isso precisava ser estudado mais profundamente: os falares, o falar padrão, e o entendimento por todos os brasileiros nesse Brasil continental. E o rádio está 24 horas no ar, mantendo esse diálogo silencioso com o público, em português. Então, isso não tem preço, e isso nós todos devemos, em grande parte, ao poder do nosso rádio. Esse rádio brasileiro, que põe música americana no ar, mas quando fala não é em outra língua. Fala português, com um bom padrão; fala gíria, sim, mas isso faz parte, porque nós falamos gíria, mas, em geral, o rádio fala num bom padrão. A música é outra coisa fantástica. A música que a gente conhece, que o rádio veiculou, divulgando nossos artistas, isso é o rádio que faz, e isso também é um lado educativo.
Agora, o rádio precisava ter um compromisso um pouco maior com a questão da cidadania. Não é só quando veicula campanha de vacinação. Passar mensagens curtas: algumas rádios fazem isso muito bem, mas a gente deveria ter esse compromisso maior por parte dos radialistas. Em tocar essa história, em botar pequenas mensagens, mas mensagens que vão fundo, que vão fazer com que as pessoas parem e pensem. O rádio pode fazer esse papel de discussão das questões nas comunidades, nas associações de moradores – vamos discutir essas coisas que são nossos direitos. Essa era a grande proposta das escolas radiofônicas de Paulo Freire, do antigo MEB. É retornar um pouco isso, com a naturalidade e a intimidade que o rádio tem com o ouvinte, que só o rádio tem – nenhum outro veículo tem essa intimidade com cada um de nós. Então o rádio precisa ter esse compromisso. Que foi o compromisso primeiro do Roquette, que teve no MEB também um grupo que tinha uma proposta de cidadania – é voltar com essa proposta que quer formar cidadãos conscientes, participativos, integrados, querendo um Brasil melhor do que esse que está aí. É isso que falta. E falta esse compromisso das rádios educativas de chegar mais perto do povo, de sair dos seus estúdios, de ir para as ruas, de fazer propostas maiores, de promover encontros, é isso que as rádios precisam fazer. As universidades precisam ter rádios educativas para que tenham os seus laboratórios vivos nas escolas de comunicação. Eu acho que a minha mensagem agora é essa, eu acredito em rádio, eu adoro rádio, posso ter passado por todos os meios, hoje estou produzindo cursos pela internet, mas rádio é rádio.

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