de Utilidade Pública Federal - Portaria no. 3935
de Utilidade Pública Estadual (RJ) - nº2464
de Utilidade Pública Municipal (RJ) - nº3048
detentora do Prêmio Estácio de Sá 2002

 

Lilian Zaremba

 

1 - Em que ano você entrou para a Rádio MEC ? Como e por que

Foi em 1974. Eu estudava flauta doce e teoria musical na Pro-Arte, em Laranjeiras. Acredito ser esclarecedor destacar essa parte da minha formação por estar relacionada diretamente a música, ao seu conhecimento e fruição. E os Seminários de Música Pro-Arte eram, e creio que ainda são, um lugar muito especial. Reúnem mestres amantes de seu ofício. Por outro lado, nessa mesma fase, ingressei para a graduação em Arquitetura na Universidade Federal Fluminense. Cursei dois anos e tranquei a matrícula depois que fiz estágio num escritório de arquitetura. Vi que não poderia passar o resto de minha vida ali. Foi quando Gustavo José Meyer, na época produtor da Rádio MEC (excelente produtor, diga-se) me sugeriu que apresentasse uma proposta de série sobre Música Antiga, naquele momento conteúdo inexistente na grade da programação. Foi o que fiz. Conversei com o diretor, Reginaldo..., fiz um piloto e foi aceito. Gustavo Meyer foi meu orientador, ensinou o básico inicial para se produzir um programa de rádio. Jacob Herzog, hoje pianista e professor doutor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, trabalhara na Rádio também, e foi outra ajuda indireta: seus comentários e opiniões sobre trabalho me são preciosos até hoje, além do seu humor peculiar.


A sala dos produtores ficava aonde hoje é a segunda sala da discoteca, arquivo dos LPs. Era ali que a Dirce reinava. Uma figura imponente, morena bonita, capaz de conjugar expressões faciais radicais: sisuda e amplamente receptiva. Sua risada era poderosa, vibrava. Dirce sabia tudo o que existia naquela discoteca, o estado das gravações, autores, era um arquivo ambulante. Foi ali que treinei parte da minha capacidade para voar. Isso porque trabalhava-se em meio a outras conversas, telefones tocando, entradas e saídas de produtores procurando material, batendo nas teclas das máquinas de escrever. Me lembro especialmente da voz de Paulo Santos, sua pronúncia rebuscada em precisão das sílabas, do Lauro Gomes, outro grande conhecedor do acervo fonográfico, da delicadeza da Yeda, e do casaquinho nos ombros, faça chuva ou sol, da Dona Rosalina.
Até hoje o Lauro Gomes não pode me ver de casaco, evoca a profecia: vai ficar igual !


2 - Como foi fazer seu primeiro programa, o Música Antiga ?

O "MÚSICA ANTIGA" reunia o repertório da música medieval e renascentista da Europa Ocidental. Basicamente os LPs que eu encontrava na Modern Sound ... porque a Rádio possuía pouquíssimo material desta fase da história da música. Alguma coisa gravada em fitas rolo vinham de países como a Bélgica e a Holanda, mas nem sempre era adequado - alguns concertos gravados ao vivo, com palmas, outros com a locução muito diferente do padrão da MEC... aliás, essa é uma questão que ainda existe. Mas eu pesquisava também nos livros, basicamente na Livraria Leonardo da Vinci. Não se trata de fazer anúncio dessas lojas porque a rigor, elas acabaram prestando um serviço muito além do comercial. Reduto de informações numa época sem Internet.

Aprendi a dar valor a embalagem. Uma capa de disco pode falar muito sobre seu conteúdo, ou afastar você de algo realmente valioso mas com a imagem equivocada. A primeira vez que vi um LP do pianista Glenn Gould nos anos 70, nunca tinha ouvido falar nele. Mas a moderna imagem fotográfica, sugerindo o movimento possante das mãos ao piano, o corpo todo envolvido naquele som, foi o que me fez comprar aquele disco. Redescobri a música barroca ouvindo Gould.


3 - As suas primeiras influências em rádio: você ouvia rádio antes de fazer ? Quem você ouvia ?

Minha primeira experiência foi aos três anos de idade. Já contei essa história. Minha mãe, professora, trabalhava e precisava me deixar na casa de minha avó, que também trabalhava. Ficava eu lá com a Maria, que também trabalhava ! então, ela ligava o rádio na sala - ficava dentro de um móvel enorme, de madeira - me colocava sentada no sofá e ia fazer o que tinha de fazer. Nos meus três anos, ouvia aquelas vozes - me lembro muito bem da voz do Paulo Gracindo - e achava que estavam todos ali, dentro da casa, escondidos em algum lugar. Ficava imóvel, ouvindo, assustada e ao mesmo tempo me divertindo, imaginando sei lá o que.
Quando eu completei doze anos ganhei um rádio de presente. Era um daqueles rádios com capa de couro, vermelha, e um botão para ondas curtas. Passei a dormir com o rádio grudado no travesseiro. Gostava de ouvir as falas em outras línguas, mesmo sem entender nada. Viagens no sono através de vozes e alguma música, mas basicamente vozes. ( Sidarta Ribeiro, destacado biólogo brasiliense afirma que o sono é como um eco. Concordo. Essa época de rádio escuta infantil-adolescente ressoa permanentemente em mim). As emissoras estrangeiras, especialmente as européias, ainda hoje apresentam uma cultura que privilegia textos longos, muita informação. Dormia e acordava com o rádio ligado. Minha irmã assim que pôde, trocou de quarto.

Na comunicação existe a conhecida reinvindicação por um canal de mão dupla, isto é, todos podendo fazer o papel de emissor e receptor de mensagens. Sem querer ir contra tal desejo que me parece legítimo, penso na complexidade desta questão. Porque a rigor, quando eu ouvia tarde da madrugada aquelas vozes se expressando em língua estrangeira, mesmo sem compreender o conteúdo, mesmo sem responder nada, me comunicavam algo. Texto e sub-texto, fronteiras culturais também são diluídas no som, na possibilidade encantatória da ressonância das palavras.


4 - Em seu primeiro programa você fazia o texto e tinha dois locutores, hoje você fala seus textos ...

Trabalhei com profissionais maravilhosos. Pessoas que nunca me desconsideraram por ser jovem demais e inexperiente. Ao contrário, me ajudaram a entender muito sobre o trabalho que eu deveria fazer e sempre se colocando disponíveis a aprender. Um luxo da inteligência humana. Allan Lima, Yeda, Maravilha, William, Lindolfo, Ronaldo Rosas e .....
No início era sempre uma dupla: voz feminina e masculina. Dinâmica sonora na leitura do texto, enriqueciam o conteúdo das informações nas expressões da fala diferentes porque um homem, para além das especificidades de timbre e altura de voz, sempre fala diferente de uma mulher.

William, figura elegante, trabalhava na embaixada americana. Sua pronúncia era impecável, sua disposição para gravar também. Yeda, cantora lírica, possuía voz mais suave, delicada. Sempre bem vestida, penteada e perfumada, caprichos femininos louváveis. Maravilha, voz contralto, fornecia imagens diferentes com sua leitura, podia ser mais direta, padrão muito pessoal e moderno. Uma mulher de figura forte apesar de compleição física pequena, magra, frágil até. Impressionava o fato de fumar ... isso acaba com a voz !

Com o tempo, as mudanças. Aposentadorias, doenças, mudanças de emprego, e a Rádio foi se esvaziando de locutores. Na época, existia a distinção entre os locutores "de cabine", que ficavam no ar lendo notas e notícias variadas, e os locutores apresentadores de programas. Existia certa diferença profissional, como se os primeiros não fossem adequados a leitura de textos narrativos. Talvez fosse também uma forma de hierarquia, começando-se como locutor de cabine até, com experiência, passar a locutor de programas gravados. Aliás existia também o locutor-apresentador-produtor, caso do Paulo Santos. Aliava a voz adequada, ao assunto e o jogo de cintura do entrevistador.
Com a redução drástica de locutores, a Rádio num determinado momento sem poder contratar ninguém, decidiu que os próprios produtores gravariam seus programas. Para mim, esse momento foi um divisor de águas.

lembro bem do primeiro dia em que fui gravar meu programa. O técnico era o Mario Jorge, com quem eu trabalharia muito tempo. depois que li o texto, o Mário me disse: sinceramente, sem querer ofender, mas sua voz é muito ruim .

escrever é uma coisa, ler em voz alta é outra. O Raduan Nassar, escritor que abandonou a carreira deixando poucos mas definitivos escritos, diz que "as palavras são sementes". Concordo totalmente. Depois que saem da sua boca, não pertencem mais a você, criam vida própria não apenas no som jogado ao ar mas como este som é compreendido por quem escuta. O que você diz, a maneira como diz, a sua voz, o ambiente em que é ouvida sua fala, a disposição de quem capta esta fala ... são tantas as variantes a serem consideradas e nunca essas questões todas tinham me assombrado, antes de me colocarem o desafio de ler meu próprio texto.
Foi então que comecei a aprender a escrever. Até ali, me parece, eu não escrevi, apenas reproduzi textos colando idéias alheias, formas extraídas da literatura aonde garimpava informações dos livros de história da música e contra capa de discos, basicamente. Passei a entender que antes de mais nada um texto radiofônico precisa observar a dinâmica da própria fala que escreve, este texto terá sua própria forma musical.

Você pode escrever um belo texto que será destruído numa leitura equivocada. Existe ritmo, existe respiração, entonação, articulação, texto e sub-texto, informação direta e indireta, um mundo se abriu ali para mim.

a fala é carregada na voz. Alguém fala e, pode falar como profissional ou não. E a minha voz era tudo, menos profissional nos moldes requeridos. Ao mesmo tempo esta voz passou a ser adequada para meus textos, porque, basicamente, era eu quem estava ali emitindo opinião, falando. Aprendi então que podia escrever para mim ou para outros. Foi o momento em que comecei a prestar mais atenção na maneira de falar e na voz de cada um. Hoje, quando alguém fala, muitos detalhes me chamam atenção. Adoro trabalhar com profissionais como Eduardo Fajardo, Daniela Lapidus, Luciano Durso, Luiz Nascimento, vozes lindas, cabeças pensantes e profissionais dispostos a ousar e transformar a fala em muitas possibilidades de comunicação. É uma tremenda inspiração para mim.

A discussão em torno da "voz no rádio" é bastante interessante e atual. A experiência radical e vitoriosa na história da Fluminense FM pode ser exemplo brasileiro emblemático desta mudança nos padrões de locução radiofônica. Recentemente fiz um programa sobre isso porque hoje minha voz está envelhecida e como toda voz envelhecida, acrescida de asperezas ou rugas, se quiser uma metáfora. Mas sempre lembro do Tom Jobim e sua música "Luiza". A gravação que ele próprio realizou é sem dúvida alguma a melhor. Inclusive foi utilizada na abertura de uma novela da Globo, subvertendo sutilmente o "padrão globo de qualidade" no horário mais nobre, de grande audiência. E porque aquela voz, cheia de imperfeições supostamente inadmissíveis é a melhor ? porque transmite algo além do texto, um sub-texto pessoal. Podem chamar de emoções, sentimentos, o que seja. Eu chamaria de identidade, e de fato, a voz é uma impressão única, pessoal, e ao mesmo tempo todos possuem uma... a idéia deste original sem cópia nos aproxima de nossa humanidade: somos todos e só um.

atualmente sempre que possível prefiro trabalhar com locutores e deixar minha voz para textos muito específicos, textos de opinião crítica. Me parece o mais adequado dentro de uma grade e um padrão sonoro como o da MEC-FM. Gosto do fato da MEC-FM possuir várias falas, não impondo um padrão rígido, fechado, cansativo, como as outras emissoras em geral. Mas acredito que tudo deva ser balanceado, alternando informações e textos lidos por locutores profissionais. A diferença entre as falas, misturando produtores e locutores - afinal o Jorge Ayer, Nelson Tolipan, Servio Tulio, Lauro Gomes, e outros também gravam alguns de seus próprios programas - cria um design sonoro e ilusão de intimidade aproximando o público ouvinte... é incrível ser reconhecida pela voz ! e isso já me aconteceu várias vezes.


5 - Em que momento de sua trajetória você decidiu pensar o rádio na Academia. Fazer mestrado e
doutorado ?

Nesta mesma época em que passei a gravar meus textos comecei a produzir uma nova série, voltada para o repertório dos séculos 17 e 18. Depois de dez anos produzindo este programa de Música Barroca resolvi colocar no ar um pedido aos ouvintes: que enviassem a sua opinião sobre o programa. Não havia Internet naquela época e tudo era feito por cartas. Recebi duas e ambas solicitavam informações, digamos, equivocadas. Uma delas me pedia o endereço do lugar aonde se vendia fac-símiles... eu havia produzido um programa falando das partituras de música barroca, muitas vezes impressas em cópias de fac-símiles, como se sabe, documentos originais, partituras escritas pelo próprio punho de Johann Sebastian Bach, por exemplo. Ou seja, um fac-símile é peça de Museu ou colecionador disposto a pagar fortunas por um pedaço de papel, que no entanto, vai valorizar no mercado. Mas nada disso tinha ficado claro, eu tinha sido extremamente incompetente e soube nesse exato momento o tamanho do prejuízo causado. Até ali, muito pouco do que fiz se comunicou. Basicamente era a música quem comunicava algo, o texto não. Ao invés de informar, confundia. Foi um choque bom.

quando o filósofo Marcio Tavares d'Amaral me entrevistou durante a prova para admissão no mestrado da Escola de Comunicação da UFRJ, me perguntou o que pretendia com o curso. A resposta saiu da minha boca anterior à decisão do que falar: eu queria refletir sobre meu trabalho e no dia a dia isso era impossível. Certas coisas nos saltam mesmo do fundo do cérebro, um pensamento já presente embora nunca formulado. Tenho certeza da importância desta resposta, não apenas para minha admissão no curso, mas como determinante no caminho a seguir dali em diante.

Depois da experiência em Arquitetura e Música, ingressei na PUC do Rio de Janeiro aonde em 1981 me graduei no curso de Licenciatura em História. Mais um conjunto de profissionais a quem rendo homenagem, por me possibilitarem sólida formação teórica. O treinamento para pensar e expressar a formulação de idéias adquirido ali - porque pensar, acredito, é também uma questão de exercício - foi determinante durante as provas no concurso para mestrado. Mais ou menos dez anos marcavam este hiato entre o fim do curso de História e o início do curso de Mestrado em Comunicação e Cultura. Este tempo não chegou a passar totalmente em branco porque o trabalho na Rádio sempre exigiu muita leitura, pesquisa, informação. Não estava desatualizada mas sentia necessidade de receber novas opções, ferramentas, para ampliar o exercício da reflexão.


6 - Na sua opinião, o que a Academia pode fazer pelo rádio ?

procurei o curso de Comunicação da ECO/UFRJ por ser uma proposta multidisciplinar, isto é, por admitir diferentes linhas de abordagem de pesquisa. Estudei música, história social e política, então me faltavam as linhas mais gerais do conhecimento dos modelos comunicacionais. Existindo na ECO uma área na graduação dedicada ao "radialismo", imaginei estar entrando no lugar certo. O curso de mestrado reúne excelentes professores, pensadores, profissionais com os quais se aprende ouvindo, lendo e observando. Chegava com mais de quinze anos de prática em comunicação radiofônica, bagagem extremamente útil, mas levei um certo tempo para entender o ritmo da produção acadêmica. É completamente diferente. Nos moldes em que se coloca hoje esta pergunta, Academia e Rádio (falando em Rádio MEC mais especificamente) estão bastante distantes, quase compartimentos estanques. Existem, me parece, diferenças institucionais muito grandes, assim como profundo hiato entre as emissoras comerciais e públicas. É assunto extenso, mas se houver vontade política é claro que estreitar laços só dará lucro a ambas as partes. Pessoalmente, os estudos de mestrado e posteriormente doutorado, foram outro divisor de águas em minha carreira no Rádio.

você pode trabalhar a vida inteira em rádio e desconhecer quase totalmente o assunto. pode estar limitado a execução de tarefas com um mínimo de reflexão e informação a respeito delas, embora com a pressão contemporânea da concorrência, esse conhecimento tenha passado a ser questão de sobrevivência no mercado de trabalho.

As aulas na ECO me levaram a pesquisar e encontrar outras formas e idéias de Rádio, ampliando minha capacidade de produzir no dia a dia. Reuni alguns destes textos em três publicações intituladas "Rádio Nova, Constelações da Radiofonia Contemporânea" que organizei durante o mestrado e doutorado, sendo publicados pela ECO com patrocínio da Fundação José Bonifácio. Estes três números foram distribuídos gratuitamente a profissionais e bibliotecas, sendo hoje material de consulta muito utilizado. A biblioteca da SOARMEC possui em seu acervo. Novos formatos, textos, a questão das vozes, do tempo, das novas tecnologias, das inúmeras configurações sociais estabelecidas em torno da comunicação radiofônica, os enunciados, a técnica, enfim, verdadeiro belvedere sob o qual passei a depositar meus olhos e ouvidos. Talvez a Academia possa fazer pelo Rádio tanto quanto pôde fazer pelo meu trabalho no Rádio. E por sua vez o Rádio possa fazer tanto quanto ando me esforçando para fazer pela Academia. Além da publicação do Rádio Nova, organizei o I Radio-Forum do Rio de Janeiro, reunindo importantes profissionais de emissoras nacionais e estrangeiras, em seminários e audições no Centro Cultural Banco do Brasil. Tenho trabalhado junto a pesquisadores levando suas idéias para o Rádio, tentando atingir especialmente o público universitário, interessado em ampliar suas possibilidades profissionais futuras. Além de seguir publicando estudos sobre o tema, participando de congressos e bienais, conectada a grupos de estudo e discussão sobre radiofonia, desenvolvendo projetos em radiodifusão multimídia e um BLOG na Internet.

Depois de levar um puxão de orelha de meu amigo, o músico, produtor radiofônico e webmaster Servio Tulio Abelha, resolvi arregaçar as mangas e mergulhar na multimídia. Este mergulho requer não só a coragem de abandonar velhos hábitos (abandonar a máquina de escrever e substituí-la pelo computador já exigiu certo esforço) como a vontade de adquirir novas habilidades. É necessário investir tempo, estudo e recursos financeiros. Mas não se pode caminhar sem aceitar o caminho embora só quando o Servio tenha me perguntado porque, afinal, eu demorava tanto para aprender a lidar com a tecnologia multimídia, é que esta necessidade tenha vociferado sua urgência. Foi assim que iniciei neste ano de 2004 um BLOG, primeiro passo na utilização de ferramentas que deverão me conduzir a radiodifusão multimídia. Preciso conhecer todas as etapas deste processo, incluindo softwares, configurações, procedimentos - assim como venho conhecendo as etapas técnicas de gravação e montagem em estúdio - para poder pretender propor algo nesta área.



7 - Muitos de seus programas pensam a própria linguagem radiofônica. Temática rara. Como você começou a elaborar eles e quais as suas referências para tal ?

Minha tese de mestrado foi uma comparação entre a produção radiofônica de Orson Welles e a experiência radiofônica de Glenn Gould. Veja você, aquela capa de disco (do Gould) acabou rendendo até tese de mestrado ! Estes dois exemplos de abordagem da mensagem radiofônica são extremamente ricos e únicos, e também grande desafio ao intelecto e imaginação. Até porque Orson Welles trabalhou no chamado rádio "comercial" , e Gould, no rádio "público". Em que se pese a diferença de tempo entre as duas produções, Welles nos primeiros dias desta mídia sonora e Gould já na era da quadrophonia, me pareceu justo destacar o que apresentam em comum: a grande aventura da escuta. Até que ponto os programas de Welles são comerciais ? e até que ponto Gould é rádio ? Essa discussão é interessantíssima mas longa, na verdade ando até hoje discutindo isso...

Vinicius de Moraes disse certa vez que "a palavra tem um gosto de maçã mordida na boca de Orson Welles". Achei fantástica essa idéia, ao mesmo tempo sensual e gulosa. O poder da voz na expressão da fala talvez tenha sido um dos maiores legados de Orson Welles ao rádio. Já Glenn Gould se propôs a retirar música das palavras, construindo na edição de várias falas o seu radiodocumentário contrapontístico. O rádio como música erguida nas palavras despossuídas de sentido fechado, ampliando a comunicação.

Depois dos estudos esta disposição para pensar a formulação da linguagem radiofônica se introjetou em meu trabalho de tal forma, que já não sei o que separa meu texto disso. Bem, na verdade existem textos bem diretos e simples, apenas "acabamos de ouvir"... ! Mas fora esses informativos objetivos, todo o resto acaba sendo uma conjugação de fatos reais e diferentes estímulos auditivos trabalhados na estrutura do texto.

8 - Como você descobre os programas apresentados no Rádio Escuta ? pela Internet ?


todos os caminhos levam a Roma, já se disse. Posso achar um CD numa lojinha como aquela que tem no Jardim Botânico, entro em contato com o autor ou gravadora. Ou é um amigo que me traz de viagem algum CD com obras de artistas plásticos ou áudio artistas. Também troco informações com pesquisadores, compositores, regentes, artistas plásticos, muitos pela Internet. Conheço por exemplo os trabalhos do maestro e compositor paulista Gil Jardim e do maestro e compositor curitibano Henrique de Curitiba por causa do correio eletrônico. Existe ainda o diálogo com os colegas sempre antenados como é o caso do Servio Tulio. Fora isso, também costumo viajar, vasculhar sebos, frequentar eventos de poesia sonora ... uma coisa acaba levando a outra. Tenho feito também muitas entrevistas e neste caso, os convidados levam seu material sonoro.

vez por outra alguém diz: essa música é a cara dos programas da Lilian. Fico pensando neste padrão um tanto de exceção, porque a rigor, faço programa com música de tudo que é tipo, e generos bem comuns como a música barroca, do período clássico ... agora, na série A Música em Cena (programa semanal sobre trilhas para cinema, teatro, dança e artes plásticas) apresento músicas bem populares até. Mas o que fica de uma informação ? será aquilo que você se lembra, identifica, ou aquilo que marcou de alguma forma indelével a sua memória ?


9 - Quase sempre em textos sobre rádio as características de agilidade e prestação de serviços são apresentadas como as principais qualidades do meio. Você está de acordo com isso?

Assim como existem conceitos, existem padrões. São parâmetros utilizados para avançar. Mas não quer dizer que você não possa ou não deva desconsiderá-los. Apenas devemos lembrar: desconsiderar um conceito ou padrão deve ser algo feito por alguém que de preferência e para ser possivelmente bem sucedido, conheça bem esse conceito ou padrão. Ou seja, questionar e quebrar regras é necessário assim como conhecer e saber usar essas mesmas regras. Inovar talvez seja mais fácil do que obter êxito na comunicação desta inovação. De qualquer forma o rádio é um veículo de massa, sempre havendo necessidade de alcançar certa simplificação da mensagem para atingir o maior número de pessoas. Não quer dizer banalizar a informação. Esta medida não é receita fácil. Cada vez mais me convenço, em vários níveis, da dificuldade em ser simples. Porque acaba sendo muito complexo ser simples ! Agilidade e prestação de serviços são qualidades abstratas materializadas nos objetivos: é comercial ou pública ? Pretende-se gerar a venda de produto ou a produção de conhecimento ? Saindo desta seara realmente complexa diria que existe outro motivo talvez até banal para o rádio ser ágil, conciso e prestador de serviços: a falta de paciência para ouvir. Isto é um fato: frases longas, cheias de informação, simplesmente são descartadas pelos ouvidos em geral - exceções sempre existem, é claro. Fenômeno contemporâneo ? Somos reféns de um mundo baseado em imagens ? falta ou excesso de estímulo ? Eis um tema para tese de doutorado ...

o diálogo já mereceu diversas reprises: "ouvi seu programa ontem, adorei!" eu digo: que ótimo, qual era o programa ? "ah ... eu acho ... eu me lembro que tocou uma música ... você falava... depois ouvi seu nome !"
a maior parte das pessoas ouve mas não escuta. Escutar é querer ouvir. Elaborar o que se ouve. Por isso coloquei o título desta minha última série radiofônica de Rádio Escuta.

10 - Você acredita que a radioarte tem espaço na programação das rádios comerciais ? o rádio sendo um veículo mais lúdico e experimental no Brasil e no Mundo ?

Acredito que já se faça radioarte sem esse nome. Como já disse anteriormente, existem classificações, categorias. Esta categoria "radioarte" vem sendo sistematizada à partir de trabalhos desenvolvidos sob parâmetros da arte sonora acústica e eletroacústica. Costumam diferenciar radioarte de "arte do rádio", sendo a fronteira entre estas classificações um tema para debate infindável. Então, segundo essa classificação um tanto difusa, os radiodocumentários de Glenn Gould seriam "radioarte" e os programas de Orson Welles seriam "arte do rádio". Gosto de trabalhar no cotidiano da produção radiofônica, e sendo assim, considero brilhante a capacidade de um autor-produtor como Welles realizar diariamente algo surpreendente. Agilidade, soluções rápidas e criativas para problemas que se coloquem, o manejo da engenharia técnica a serviço da construção do discurso, tudo isso precisando não perder de vista o orçamento gasto, a relação custo-benefício ... são mestres os profissionais capazes de equacionar todas estas etapas entregando seu trabalho na hora. Já produções como a realizada por Gould são subvencionadas, levando meses de estúdio para serem editadas, isso sem demérito nenhum. Apenas vejo aí a grande diferença: quando se fala em radio comercial, "time is money", e aliás atualmente esta máxima se aplica - e acredito que deva mesmo em certo nível ser aplicada - ao rádio público (cobrar eficiência, qualidade e compromisso com aplicação adequada de recursos orçamentários também cabe nessa frase desgastada, time is money)
Então, para responder sua pergunta tão interessante em tão pouco espaço, diria que existem dois aspectos possíveis: o primeiro diz respeito ao circuito de "arte sonora". Os festivais, bienais, a produção experimental, universitária, as salas de concerto. Este circuito deve e precisa existir seja com subvenção pública ou privada. Outro aspecto seria a utilização de idéias da arte sonora, ou radioarte, levadas parcialmente ou adaptadas para esquemas comerciais. Muitas vezes assistimos comerciais de propaganda de cigarro ou outro produto que se valeram de toda uma cultura retirada das artes plásticas. Magritte é um artista que deveria receber royalties de um monte de propaganda espalhada por aí. Ouvimos também músicos como Quincy Jones ou Miles Davis incluírem sonoplastia em suas músicas, e também ouvimos emissoras de rádio aonde a construção da locução se confunde com a música, seja rap, hip-hop, enfim, criatividade para além dos padrões de uma emissora comercial tradicional. Eis aí porque afirmo que já existe radioarte no radio comercial. Quando se busca audiência, reinvenção ou renovação são palavras indispensáveis.

Costumo convidar diferentes profissionais para gravar um programa comigo. Por duas razões: a primeira é porque desta forma consigo trazer novas informações, material não disponível usualmente no mercado. Em segundo, porque é nesse diálogo que meu trabalho caminha. Gravei por exemplo um especial com o músico e design sonoro Luís Eduardo Gomes. O material apresentado por este artista expõe verdadeira arte sonora, numa relação extensa com a cultura musical dita "de concerto" e ao mesmo tempo incorporando informações do entretenimento audiovisual (não fosse ele um profissional de cinema também). Para mim foi um mundo que se abriu colocando novas maneiras de trabalhar a mensagem radiofônica. Ao mesmo tempo acredito ser esta uma maneira da emissora se aproximar dos novos ouvintes.

11 - Uma nova rádio precisa de um novo tipo de ouvinte, ou uma nova rádio faz um tipo de ouvinte.

Sou mãe e depois deste episódio acredito e não acredito na formatação dos ouvidos. Positivamente existe a necessidade de passar conhecimento por uma questão de querer auxiliar o próximo (ou, um tanto negativamente, quando vaidade ou o desejo de perpetuar poderes também serão argumentos nesse processo) mas sabemos que este próximo só poderá ser auxiliado se quiser, e mesmo para isso será imprescindível desconfiar e avaliar criticamente nossa sabedoria preponderante. A proposta de uma nova rádio deve estar sintonizada com os rumos que uma sociedade quer e precisa tomar. Havendo diálogo inteligente as partes caminham muito bem, evoluem. Sintonizar este diálogo é tarefa do profissional.

12 - Em que a Internet auxilia ou concorre com o radialista ?


a radiodifusão multimídia é uma realidade que veio para ficar. Assim como a imprensa de Gutemberg, a Internet pode transformar alguma parte da aventura radiofônica em objeto obsoleto. Isso aconteceu por exemplo, com o livro. As iluminuras medievais, os livros artesanais, ilustrados um a um, tornaram-se obras de arte, guardadas atrás das vitrines de importante Museu ou Biblioteca. Não envelheceram, adquiriram novo status. Quem primeiro elucidou desta forma a questão foi o pensador canadense Marshall McLuhan. Para ele, o livro não iria sumir frente a onipresença das telas do computador. Ao contrário, o livro se tornaria obsoleto, tornando-se uma forma de arte. Obsoleto não é velho. Nem antigo. Acredito que isso possa acontecer com certo tipo de rádio - não sei bem qual. Mas este outro formato, a radiodifusão multimídia, emerge como nova ferramenta, introduzindo novos conceitos. Minha tese de doutorado foi justamente sobre este momento de passagem: do rádio sem imagens, apoiado na produção de sentidos via audição, para este outro múltiplo, aceitando imagens, texto, hiper-texto. Existe uma certa cisão entre os que acreditam ser o web-canal outra mídia, não existindo web-rádio. É assunto bastante novo, em evolução, de qualquer forma, me parece, o rádio já lucrou. São inúmeras as estações, textos, informações de todo tipo sobre o universo radiofônico disponibilizados na WEB. O radio, mais do que visualidade, ganhou neste primeiro momento da Internet visibilidade, numa conexão realmente fantástica de informações disponíveis para quem puder acessar a Rede.

a importância da cultura técnica do rádio é algo que agora com a multimídia, talvez mereça maior destaque. Impossível imaginar alguém progredir neste modelo sem saber utilizar os diferentes programas e efeitos. Meu trabalho sempre valorizou a técnica. Costumo afirmar que 50% do resultado depende do operador de áudio. Aprendi e aprendo muito com estes profissionais especiais conhecedores profundos de rádio, ouvidos atentos e espertos aos diferentes padrões musicais, vocais, sonoros. Betinho Monteiro, Ribamar Mendes, Sergio Muniz, Edu, Monteverde, Alvaro, Mario Jorge, Dinho, Haroldo, André Luis, Eduardo, Cacá, Cosme, Ary Andre, Nilton Queiróz, podem se considerar co-autores de meu trabalho formalizado no diálogo enriquecido pela troca de conhecimentos. A Rádio MEC foi - e continua sendo - a grande escola de rádio que já frequentei. Aprendi trabalhando e gostaria agora de poder passar adiante o que aprendi, caso julguem de interesse e utilidade.

O que mais me lembro?
A primeira vez que fiz uma entrevista foi com o Joel do Nascimento, em sua casa na Penha. Era a época do "Sovaco de Cobra", o boteco aonde os músicos se reuniam aos domingos, dez da manhã, para tocar choro.
Depois foi a vez do maestro Radamés Gnattali. Fui a sua casa no Jardim Botânico e quando a porta se abriu expôs a figura imponente, sentada em uma poltrona de couro. Sua voz estrondosa ressoou: " de que colégio você é ?" Fiquei sem saber o que dizer... mas consegui, quase inaudível, "sou da Rádio MEC ... vim entrevistá-lo sobre música ..." Radamés retrucou: "sobre música não se tem o que falar. Só ouvir". Mas não arredei pé e para minha sorte, porque descobri minutos depois, uma personalidade generosa, de humor peculiar, um artista de cultura e inteligência impressionantes e figura humana encantadora no alto de seus 80 anos.


radiomemorabilia

Minha rádio memória sempre será um tanto improvável. Por um lado apresenta lacunas enormes na precisão dos fatos: datas, nomes, cronologia dos acontecimentos. Por outro, é refém desta impermanencia da memória: afinal, o que se quer lembrar ? de todos os fatos marcantes que vivi um deles insiste em saltar desta caixa craniana imprevisível: me lembro do dia em que o maestro Alceo Bocchino, com toda sua simpatia e elegância me disse: "sabe Lilian, quando você entrou aqui na Rádio, eu pensei que você fosse... hippie!".
E soltou estrondosa gargalhada.

Lilian Zaremba
Rio de Janeiro
setembro de 2004.



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