de Utilidade Pública Federal - Portaria no. 3935
de Utilidade Pública Estadual (RJ) - nº2464
de Utilidade Pública Municipal (RJ) - nº3048
detentora do Prêmio Estácio de Sá 2002

Lauro Gomes


DATA: 22/04/2002

Amigo Ouvinte - Como e quando você entrou para a Rádio?

Lauro Gomes - Foi em 09 de Janeiro de 1974. Eu fui convidado pelo Reginaldo Magalhães, que era diretor artístico, no tempo do Brigadeiro Tróia. Ele não era ligado a música, mas sabia que eu estudei canto, que freqüentava o Teatro Municipal, que ia a todos os concertos e tal, e perguntou se eu não gostaria de fazer alguma coisa aqui na Rádio. Eu falei: "Se for pra escrever um programa tudo bem, topo". Aí, pouco depois, num encontro casual, ele me disse: "Você começa amanhã, às 9 da manhã." Eu disse: "O quê?". E era nada mais, nada menos pra substituir o supervisor de gravação e programação. E eu cheguei já como programador e supervisor de gravação - que era pra acompanhar as gravações, os textos. Estava tudo atrasado em termos de gravação. Programas que era pra ter ido ao ar dois meses antes, ainda por gravar, e tudo jogado pelo chão. Então, a primeira coisa que eu vi era que precisava organizar aquilo tudo.
Comecei por dividir as tarefas dos locutores, organizando os programas que iam ser gravados por cada um - e nós tínhamos uma equipe de produtores que era uma coisa de louco, Maestro Alceo Bocchino, Aída Bocchino, Sérgio Nepomuceno, Alberto Shatovisch, Noemi Flores, Marina Moura Peixoto, Hebe de Matos, Belmira Frazão, programas de teatro, etc, etc... Na música popular tínhamos o Paulo Tapajós, a Helena Teodoro, o Haroldo Costa, o Ricardo Cravo Albin - que está até hoje aqui conosco. Walmir Ayala também trabalhava na AM. Nós produzimos juntos um programa comemorativo pro Roquette-Pinto. Então, era uma equipe gigantesca de produtores e, fora isso, tínhamos uma Orquestra Sinfônica funcionando - com grandes maestros, tanto nacionais como internacionais, vindo reger essa Orquestra -, uma Orquestra de Câmara, um Coral, um Quarteto Vocal da Rádio MEC, o 1º Conjunto de Música Antiga do Brasil, Quarteto de Cordas, o Trio da Rádio, além de vários duos. Então era uma rádio padrão: a Rádio MEC era do mesmo nível da RAI italiana, da Rádio e Televisão Francesa, da BBC de Londres, da Deutsche Welle.

AO - Naquele tempo, em 74, não existia FM, não é?

LG - A FM quem fundou fui eu. Desde o início, a primeira programação da FM foi minha. Eu fazia tanto programa de música popular como de música erudita .

AO - Você falou que a rádio era do nível da RAÍ, da Deutsche-Welle… Você conhecia essas estações?

LG - Já conhecia pelos programas que elas mandavam para cá. Inclusive, até hoje a Deutsche-Welle manda e a Rádio ainda transmite.

AO - Fale dos produtores daquela época.

LG - Eu me lembro da Priscila Rocha Pereira, que fazia Música e Músicos do Brasil, programa que hoje sou eu que faço. Depois da Priscila, o programa passou por uns dois ou três produtores. Antes de mim era o pianista Miguel Proença. A gente tem que falar do programa sobre cinema, feito pelo Shatovski, importantíssimo, que lançava todos os filmes, todas as trilhas musicais; o do Alfredo Souto de Almeida, sobre teatro, com entrevistas - ele fazia a crítica, ia aos camarins e entrevistava os artistas que participavam. Então, cinema, teatro: tudo era coberto - fora as coisas ao vivo que a gente fazia. Eu, como produtor, cheguei a gravar muitas óperas no Teatro Municipal, para transmitir depois. Mas, no meu tempo de criança, escutava sempre óperas transmitidas pela Rádio MEC, pela voz do Paulo Santos, narrando, entrevistando os artistas nos intervalos e conversando com o público: era uma coisa de louco. Outros produtores da época eram o Sérgio Nepomuceno, que fazia os Maestros Regentes; o Maestro Bocchino, que fazia sobre Sinfonia; Dona Aída Bocchino, que fazia sobre Arte do Canto e Canto Lírico - eram dois programas. Sem esquecer o Zito Baptista, que é uma instituição, que está até hoje trabalhando com a gente. E tinha a Belmira Frazão, que fazia "A História do Balet" e o "Classe A" - um programa só de grandes concertos. E tínhamos a Marina Moura Peixoto, que fazia "Quarteto" - um programa só de quartetos de corda-, e Jackeline Lawrence, que fazia "Musica e Teatro".
Não podemos esquecer da Edna Savaget, e, na música popular, da Helena Teodoro, grande defensora do movimento negro, da música negra, como Haroldo Costa também, que fazia tanto música popular como música sul-americana e música do Caribe. Nosso inesquecível Paulinho Tapajós que era um defensor ardoroso da música brasileira. Então essa Rádio fervilhava. E tínhamos também os nossos solistas: o Miguel Proença, pianista, a Leda Coelho de Freitas, soprano que ganhou prêmio "Canção Francesa", em Paris, concorrendo com 98 cantoras internacionais. Tivemos a Creusa de Pennaforte, mezzo-soprano que cantou na Ópera de Paris durante anos. Existem gravações dela com a Orquestra da Ópera de Paris e ainda os pianistas Oriano de Almeida e Larry Foutain, este também preparador das solistas...

AO - Funcionárias?

LG - Funcionárias contratadas: eram solistas da Rádio MEC. Tínhamos a Silvia Baugartner que era especialista em música alemã, também solista da Rádio MEC. Tínhamos também a Eliane Sampaio que está aí até hoje - era professora da UNIRIO. E tinha a Maria de Lurdes Cruz Lopes. Esses eram os recitalistas da Rádio. Muitos desses estão saindo na nossa coleção de discos Repertório Rádio MEC. E isso sem falar nos que vinham aqui para gravar especificamente aquela série maravilhosa que é o "Música e Músicos do Brasil" e toda a musica brasileira que foi gravada pelos nossos corpos estáveis, a nossa Orquestra, a Orquestra de Câmara... Eu me lembro de muitos que atuaram e que atuam até hoje: o celista Iberê Gomes Grosso; o fagotista Noel Devos; o José Botelho, clarinetista, que formou toda uma nova geração - são os grandes professores. Se existe hoje, uma escola de oboé, de fagote, de clarineta , deve-se a esses grandes nomes que vieram aqui pro Brasil, contratados, ficaram na nossa orquestra e se dedicaram ao ensino, formando uma grande escola. E a Rádio foi uma grande escola, se for falar das crônicas lidas pelo Paulo Autran , que eu assistia, os quadrantes - todos os que escreviam , a Malú de Ouro Preto, a Diná Silveira de Queiroz, o Carlos Drummont de Andrade, Rachel de Queiroz e o Manoel Bandeira...

AO - Você ouvia isso?

LG - Ouvia. Eles mandavam as crônicas pra cá. O presidente da Academia, o Austregésilo de Athaíde, cansei de ouvir ele gravando as crônicas dele. As crônicas de Dináh Silveira de Queiroz , eu é que separava para serem gravadas - só que nesse tempo já não era mais o Paulo Autran quem as lia.

AO - Era quem?

LG - Eram vários locutores e locutoras

AO - Fala dos locutores

LG - Não vou lembrar de todo mundo, mas, pra mim, uma das maiores e mais competentes vozes do rádio foi Maravilha Rodrigues. Era emocionante a agilidade dela de gravação, a quantidade de programa, porque tudo da Rádio era gravado e montado na época, e ela gravava quilos de programas, era tudo de primeira vista, e tudo de enfiada. Ela não parava, não errava. Ela, Guilherme de Souza, que está conosco até hoje, e o José Assis, que se aposentou. Tinha o Willian Mendonça, que faleceu, que também gravou muito aqui, o Sérgio Chapellin que começou na Rádio MEC, ele começou novinho aqui, a primeira experiência foi aqui, depois é que ele ficou famoso. E aí voltou pro Minerva. Mas ele começou aqui, como Fernanda Montenegro, que eu só fui conhecer no teatro. De locutora ainda quero falar da Anita Taranto, que tinha uma personalidade forte - ela dava uma classe ao programa, para apresentar coisas assim de alta categoria, porque ela tinha uma imponência vocal muito bonita. E tinha também a Maria Helena Raposo , que lia as críticas, as crônicas, e também lia muitas óperas. E ela também era uma grande cantora, um mezo-soprano quase contralto. Trabalhou muitos anos nessa casa.

AO - E o Paulo Santos?

LG - Paulo Santos era hors concours porque ele era voz padrão da Rádio MEC . Existem muitos outros que eu estou fazendo injustiça com o meu esquecimento. Linda Alves, outra locutora que tinha a voz muito bonita também. O que eu quero afirmar, aqui, é que a grandeza da Rádio, o padrão que a Rádio tinha, a gente tenta manter hoje, mas eu fico assombrado. Naquele tempo, em que a gente tinha funcionando dentro desse prédio a Embrafilme, como é que se ajeitava todo aquele contingente aqui dentro, aquela Orquestra Sinfônica, de Câmara, Conjunto de Música Antiga da Rádio, Coral da Rádio MEC, que eu nem falei, Trio, Quarteto de Corda, Quinteto de Sopro. Então tínhamos toda uma estrutura aqui dentro. E hoje eu fico bobo, porque a gente hoje, pra gravar, é uma dificuldade.

AO - E o Karabtchevsky?

LG - O Karabtchevsky fazia muito programa, aqui, também. Eram sobre aspectos orquestrais - ele comentava a obra sinfônica que ia ser tocada. Naquele tempo, muita gente também trabalhava no Projeto Minerva, mas não participava muito dentro da Rádio. Era uma coisa um pouco estanque, o que era o caso do Karabtchevsky e dos locutores que só gravavam pro Minerva, como o Chapelain e o Cid Moreira.

AO - Lauro, você não tinha experiência em Rádio. Quem foram seus professores, aqui dentro?

LG - Eu entrei pra Rádio, como disse, pra escrever um programa, e acabei ficando como supervisor de gravação e de programação. Eu tinha noção de pronúncia, porque estudei canto durante 10 anos, cantei em coro desde o primário, e freqüentava os concertos, então, eu sabia mais ou menos a regra de pronúncia, e ajudava a corrigir os locutores nas gravações, acompanhava com o texto, e qualquer dúvida, nós tínhamos o Paulo Santos, que dava cursos - inclusive eu fiz curso com ele: eram cursos maravilhosos que ele fazia apostilas com regras de pronúncia em russo, em francês em inglês, espanhol e alemão.

AO - Você ainda tem essas apostilhas ?

LG - Tenho as apostilhas do curso todo, em casa. Então, todo ano ele fazia esse curso. E muitos produtores da Rádio faziam esse curso também, que era pra estar em contato. Agora eu comecei fazendo programas pra encher os buracos que apareciam na grade de programação. Se num horário faltava determinado programa, eu fazia um, e assim fui começando. Atendendo aos Ouvintes, por exemplo, não tinha quem fizesse, então eu fazia o programa. Além de preencher as horas vagas com planilhas musicais - escolhendo as obras, pra não haver repetição e pra não haver choque também na programação. Depois eu inventei uma série para um amigo que trabalhou aqui e depois foi para Paris - ficou aqui só 6 meses. Então eu dei uma série pra ele fazer, "Os Mestres", que abordava os mestres da música francesa, da música inglês, alemã, da música italiana, da espanhola. Cada dia da semana, naquele horário, era dedicado a um país - o que está sendo feito hoje, de novo, pelo Arthur da Tavola, aos domingos. Mas ele foi embora pra Paris, e a série caiu na minha mão, porque não tinha quem fizesse. Ai eu comecei a produzir, também, o "MEC Especial" - que era do Paulo Santos. Foi o Paulo Santos quem fez os primeiros MEC Especiais, que eram de raridades musicais. Ele fez uma série de 3 ou 4 programas, aí, nessa época, mudou a direção da Rádio. Saiu o Brigadeiro Tróia, saiu o Reginaldo Magalhães, que foi o diretor artístico que tinha me posto aqui, e entrou um rapaz que eu não me lembro o nome dele - era do Ministério da Saúde, e ficou pouco tempo como diretor artístico. E já tinha essa série MEC Especial, que era uma coisa que a direção da Rádio queria que continuasse. Então ele propôs que cada produtor faria um por semana, seria dividido. E então eu fiz o primeiro, sobre Carlos Gomes interpretado pelos maiores cantores do mundo: Caruso, Bidu Saião e por aí vai. E esse programa fez um sucesso incrível. Em seguida, mais dois produtores apresentaram programas. Eu prefiro não citar nomes, mas foi um fracasso, porque não estava dentro do espírito do programa. Aí me pediram que fizesse o 4º programa, e eu fiz um correndo, focalizando a Cláudia Muzio - eu tenho muitos amigos colecionadores, e, então, corri atrás. Professores de escola de música pediram cópia e o programa foi um sucesso. Aí eu fiquei com a responsabilidade do programa e comecei a fazer mesmo raridades incríveis, correndo atrás de colecionadores amigos meus, e começou a sair crítica do Arthur da Tavola, elogiando muito o programa, e tudo o mais. O diretor da Rádio, nesse tempo, já era o Heitor Salles, que me chamou ao gabinete, dizendo que "em Brasília tinha recebido muitas críticas favoráveis ao programa e tal..." , e ele arranjou outras pessoas pra cuidar da programação, eu parei de fazer tudo o que eu fazia pra só me dedicar a produção, passei a ser só produtor,
Nessa época, eu trabalhava também na TV Educativa, no projeto Escadaria do Teatro Municipal, e também na Funarte. Aí, quando houve a coligação da Rádio com a TV, eu teria que ficar na Rádio porque era funcionário da Rádio - eu trabalhava na TV, mas só recebia 1/3 do salário. Aí, eu optei por ficar na TV -a nossa era a única equipe erudita brasileira na televisão: eu, Aylton Escobar e a Cecília Coelho, que fazíamos uma série de programas pra TV Educativa -, e, quando consegui ficar lá, o Heitor Salles brecou a minha saída dizendo que não abria mão da minha presença na Rádio, porque ia ser fundada a FM e que quem ia tomar conta da FM era eu. Foi em 82. E eu tive que fazer a programação toda da FM, e ainda escrever os programas, e éramos só 3 nessa equipe: eu, Virginia Portas e Marlene Barton.

AO - Antes de falar na FM, explique como a Orquestra Sinfônica era, quem decidia o que ia ser gravado, qual era a formação, essas coisas, ok?

LG - Bom, eu já não peguei mais o Francisco Mignone, que foi o início. Peguei o fim da primeira fase do Bocchino e depois toda a fase do Marlos Nobre como diretor artístico, depois a volta do Bocchino, que foi quando acabou definitivamente. Mas o maestro mais atuante foi o Bocchino - o regente principal da Orquestra. Agora, quem decidia era a direção artística. Mas não sei, também, porque havia muitas gravações de compositores que vinham aqui, gravavam, como Radamés Gnattali; o Guerra-Peixe, nos segundos violinista da Orquestra - um monstro sagrado da música, sentava lá nas fileiras de trás, bem apagadinho, tocando violino -; Iberê Gomes Grosso, aquele virtuose do violoncelo; o Botelho, na clarineta; o Devos, no fagote, o Eugene Ranevisk; a esposa dele, a Violeta Kundert, que era do conjunto música antiga - o conjunto mais antigo do Brasil. Quando eu tinha saí da chefia da FM e voltei a ser produtor - fui nomeado chefe musical -, então eu programava os concertos pra sala Cecília Meirelles da Orquestra de Câmara com o Coro e no Conjunto Música Antiga.

AO - Já não havia mais Orquestra?

LG - Não. Tinha a Orquestra de Câmara, com o maestro Nelson Nilo Rack, que ficou com alguns remanescentes da Orquestra, quando a Orquestra se foi para a Universidade Federal Fluminense, e, justamente na minha gestão, houve então a distribuição da Orquestra e do Coral para a Escola de Música, e depois o Conjunto de Música Antiga foi desfeito porque todo mundo estava aposentado, e acabou-se o Conjunto de Música Antiga - o mais antigo do Brasil, que atuou durante 40 anos dentro dessa Rádio, e até hoje eu não entendo o mecanismo que levou a essa derrocada toda, sabe? Eu sei que havia problemas, porque não se resolvia o problema dos músicos. Tinha musico que tocava tuba e já estava avançado em idade e não podia mais tocar, não tinha mais fôlego, e não se podia botar outro no lugar, porque eram funcionários públicos, e não havia dinheiro pra se contratar músicos de fora. Era um problema que o Maestro Bocchino é que pode explicar direito como é que funcionava, porque era um milagre como a Orquestra funcionava, porque tinha que vir gente de fora pra cobrir os buracos, e não tinha mais concursos para que se colocassem outros nos lugares. Então o que eu sei é isso, e, então, jogaram a orquestra lá para a Universidade Federal Fluminense Mas, com esse fim, os nossos recitalistas deixaram de gravar e passaram a produzir. Então, a Leda Coelho de Freitas, por exemplo, passou a fazer O Cravo e o Piano e Música de Câmara, Silvia Baugartener fazia o Lied .

AO - Elas apresentavam o programa?

LG - Não, locutores liam. Eram produtores, como a Nancy Viana, que fazia o Vesperal; como Arcy Mello e Sergio Leal Carneiro, que faziam Sala de Concerto; como a Priscila Rocha Pereira, que fazia Caleidoscópio. O Roberto Strutt, que era da orquestra, também passou a ser produtor, fazia o Pequeno Concerto .

AO - E os outros produtores?

LG - Nós tínhamos um bando de produtores, aqui. A Helena Teodoro fazia Origens; o Haroldo Costa fazia Estampas Brasileiras; o Alfredo Canté fazia a Volta ao Mundo; o Walmir Ayala, que fazia o Painel de Arte; o Edgard Duarte, que fazia A Revista do Livro; e …

AO - Quem era Edgard Duarte?

LG - Era um escritor, como Mauricio Salles também. E ainda tinha Ricardo Cravo Albin, com "Os Discos de Hoje", Alberto Shatovski, com "Cinema", sem esquecer o Geraldo Guedes, que trabalhou muitos anos aqui e já faleceu. E também do Arthur da Tavola, que trabalha há muitos anos, e do Marlos Nobre que também trabalha até hoje. E quero lembrar da Virginia Portas, que me ajudou quando nós montamos a FM, junto com a Marlene Barton também, e do Fernando Neiva, que passou a ser produtor, depois que eu estava na FM. A Lilian Zaremba, que entrou junto comigo, na mesma época com a Rosette Cleia Vaisman também.

AO - Paulo Salgado?

LG - Paulo Salgado foi um produtor e foi um diretor artístico da casa, como Paulo Santos foi diretor artístico da casa também. E tinha também o Oswaldo Jardim, o Dom João Evangelista, o Antônio Nobre, o Antônio Hernandes, …

AO - Antônio Hernandes trabalhou aqui também?

LG - Trabalhou, e a esposa dele, a Nancy Hernandes, continuou até se aposentar. E tinha também a Diana Cristina Damasceno, a Gulnara Bocchino, que trabalhou muito aqui, também. Era tanta gente, mas tanta, que é difícil a gente não esquecer. Tem que falar do Nelson Tolipan, que trabalha há muitos anos. Do Maurício Quadrio, que era importantíssimo. Uma vez aconteceu um fato gozadíssimo. Eu era supervisor de gravação, e chega a Maravilha Rodrigues, muito aflita: "Lauroo, Lauroo, o que que eu faço?" Eu digo: "O que que foi Maravilha?" Era a opereta La Perichole, que se passa no Peru, e o Mauricio Quadros escreveu: "O Peru do seu Offenbach é muito parisiense", e a Maravilha, apavorada "Como é que eu faço aqui?" Eu disse: "Muito simples, a música do seu Offenbach é muito mais parisiense do que peruana". Foi a saída, porque são coisas que acontecem, né?, ainda mais Mauricio Quadros que é italiano de origem. Tinha muita coisa gozada. Uma vez dona Belmira Frazão também chegou muito chateada porque…

AO - Ela fazia o que?

LG - Ela fazia os programas Música de Ballet e Classe A. Na época da ditadura, ela chegou aqui uma arara, porque acusaram dona Belmira especificamente, de difundir música comunista no programa Música de Ballet, porque ela botava as músicas dos russos na Rádio - não podia nem Prokofiev, nem Tchaikovski, quer dizer, umas coisas assim incríveis. E ela era irmã de um grande embaixador do Brasil, uma mulher serissima, não tinha nada de esquerda. A pobre da Helena Teodoro era atormentada porque ela defendia o negro, então era tida também como de esquerda. Noemi Flores também, coitada.

AO - Aconteceu alguma coisa?

LG - Não me lembro especificamente, mas houve muita coisa com Helena, eu me lembro bem e esse caso da Belmira que era de morrer de rir né? Umas coisas assim sem "pé nem cabeça".

AO - A respeito de literatura no rádio, o que você se lembra, de literatura na Rádio MEC?

LG - Literatura feito por rádio-teatro, grandes e consagrados escritores que escreviam pra Rádio, fazia teatralização, faziam crônicas. Mas eu peguei o rádio-teatro ainda com o Dilmo Elias, que fazia um trabalho muito bonito: ele radiofonizava várias peças.

AO - Você trabalhou com Sérgio Viotti?

LG - Não, quando eu entrei ele já tinha saído. Inclusive, quando eu fazia as programações de ópera, o Zito não estava trabalhando na Rádio MEC, porque ele estava no Instituto do Açúcar e do Álcool, e não podia acumular. Então, eu escolhia as óperas, porque existiam mais de 200 óperas montadas na nossa discoteca, e com a voz de Sérgio Viotti. Então, simplesmente, cada semana eu escolhia uma ópera diferente, já montada e botava no ar. Aí, eu insisti muito, no tempo de Heitor Salles, que trouxesse o Zito de volta, e conseguimos que o Zito voltasse, ganhando um pro labore muito significante para o trabalho de modernizar e apresentar gravações recentes - porque há muito tempo a Rádio não fazia isso. Fora isso, também consegui fazer muitas externas naquela época - hoje em dia não fazemos mais, não temos meios materiais pra fazer -, mas transmiti muita gravação, gravei muitas óperas no Teatro Municipal. Mas o momento sublime foi a gente conseguir gravar Yerma, do Villa-Lobos - foi a única vez que foi levada no Brasil, e nós conseguimos gravar.

AO - Vocês tem essa fita?

LG - Essa gravação sumiu dos nossos arquivos, mas existe gravações em CD tirada da nossa transmissão da Rádio MEC. Muita gente gravou, só nós não temos, mas é fácil conseguir porque muita gente comprou no exterior e tem acesso. Eu gravei, por exemplo, Eliane Coelho, quando veio aqui a primeira vez. A primeira vez que se montou a Flauta Mágica, com artistas brasileiros, todos os artistas brasileiros, era Wladimir de Kanell, Maria Lucia Godoy, Eliane Coelho e o Aldo Baldim, que já faleceu - o elenco era todo brasileiro. Nós gravamos também a Viúva Alegre, com Paulo Fortes, Ruth Staerke e com a Eliane Coelho, também. Então muitas coisas nós conseguíamos fazer, como gravar a ultima vez que Madalena Tagliaferro se apresentou em público. Eu consegui também a última entrevista da Mindinha, e a última entrevista com o nosso inesquecível Francisco Mignone, 19 dias antes da morte dele. Ele deu um depoimento lindo, e fizemos uma série.

AO - Essas entrevistas da Mindinha, do Mignone, existem ainda?

LG - Tudo que foi feito na minha época tá guardadinho no nosso acervo. E os que vieram depois de mim, sempre me chamavam antes de apagar qualquer fita pra usar em novas gravações. Porque eu proibia: tudo que fosse feito por brasileiros, artistas brasileiros, compositores brasileiros, podia ser artista brasileiro tocando Beethoven, não me importava, mais nada podia ser apagado. Então, esses depoimentos estão todos lá. Tem muita gente que já morreu: a última entrevista do Guerra-Peixe; o Paulo Fortes, no Municipal; a Bidu Saião - eu fiz cinco horas de programas com a Bidu Saião -, ela me deu uma entrevista gigantesca e por aí vai.

AO - A partir de um determinado momento, as fitas rolos foram transcritas para fita cassete. Quem foi o infeliz que deu esse tipo de ordem?

LG - Não me lembro. Inclusive essa série que eu falei - MEC Especial - eram gravações raríssimas, muitas se perderam e muitas eram em fitas-rolo de uma hora. Agora, só existem a cópia em cassete. Como isso aconteceu eu não sei. Você sabe da penúria que era a Rádio naquela época, e que a gente nem tinha fita pra gravar os novos programas. Então, me chamavam para saber se se podia apagar tal ou qual programa. Quando era uma coisa comum, com gravações que existem aos milhares - obras de Beethoven, de Mozart, etc. com essas orquestras mais famosas, gravações que todo mundo tem, então, essas, eu dizia: "Podem apagar." Mas se era coisa ao vivo e com brasileiros, de jeito nenhum. Eu consegui salvar muita coisa e muita gente que tomou essa consciência, depois de mim, também. Por isso é que é importantíssimo esse trabalho que a SOARMEC começou a fazer, de lançar em CDs a nossa memória musical. São gravações de 40 anos atrás que estão sub-existindo aí, em fita, que é um milagre, porque não há uma preservação dessas fitas, não há uma recopiagem. Eu salvei já muita coisa em DAT, mas precisava se recuperar urgentemente todo esse acervo que nós temos ai. Porque nós temos, além dessas coisas maravilhosas gravados pelas nossas orquestras, os coros, os trios e quartetos e quintetos e, além disso, existe toda a série de solistas que nós ainda não botamos: os recitalistas. Jacques Klein, por exemplo, nós temos 3 ou 4 concertos dele, ao vivo, gravado no Municipal.

AO - Mas é propriedade da Rádio?

LG - Sim, como é que não? Concerto nosso, com nossa Orquestra, produzido por nós. Nós temos muita coisa ai, internacional, com artistas brasileiros, de suma importância.

AO - E agora, falando da implantação da FM, como ela começou a entrar com uma grade de programação? Conta essa história pra a gente.

LG - Ela começou no inicio de 1985, e essa primeira grade quem elaborou fomos eu e a Virginia Portas, que era uma espécie de secretária, como Marlene Barton também. Então eu fiz essa primeira grade, e a Rádio funcionava de 8 horas da manhã até a meia-noite, quando encerrávamos. Começava com a presença clássica, às 8 horas da manhã. Com a Sinfonia, que era produzida pela Rosete; depois vinha Sala de Concerto; Panorama Coral, que era produção da Gulnara Bocchino; depois Classe A; depois vinha Som Maior, com Oswaldo Jardim; No Mundo dos Discos, que era com Sérgio Nepomuceno; depois Arthur da Távola, com Robert Schuman - Romance e Tragédia ; depois Nova Dimensão, que era um programa meu; Arte do Canto, da Aída Bocchino; Cravo e o Piano, da Leda Coelho de Freitas; Audição Especial, que era da Rádio Cultura de SP, Paz de Espírito, com Dom Evangelista Enou, que produzia também Histórias da Bíblia ; e as Cantatas de Bach, do Zito Baptista Filho.

AO - Como você definiu essa grade? Qual foi o critério?

LG - O critério era fazer horários estanques dentro do mesmo dia. Cada produtor tinha seus horários semanais. Por exemplo, o jazz, a música norte-americana e a música de cinema, eram programas da AM, que eram reprisados na FM. O Zito por exemplo fazia as "Cantatas de Bach", que era da FM, mas a "Ópera Completa", que era da AM, aos domingos, na FM era aos sábados. E aí, começou, e depois, quando foi chegando o fim do ano, o Heitor Salles me disse que queria que a Rádio começasse a funcionar as 6 da manhã e que fosse até às duas da madrugada. Então, inventei um programa que era "Bom dia com Música", produzido por 4 produtores, meia hora cada um. Gravei 800 programas com os dois locutores, o Willian Mendonça e Maravilha Rodrigues. Fazíamos módulos de meia hora, e a gente ia variando todo dia - essa série, depois, mandaram para Brasília, que era até um acervo importantíssimo que ficasse ai na Rádio como recordação daquela época. Mandaram pra Brasília porque, quando a MEC de Brasília começou a funcionar precisava de programas, e mandaram essa série. Depois, inventei outra série, à noite, e falei com o Heitor que, se ele quisesse também das duas 2 as 6 da manhã, a gente podia transmitir, podíamos fazer uma avant première, de madrugada, do que ia ser transmitido no outro dia. Por problemas de não haver técnicos para operar de madrugada, não foi feito. Mas já havia, naquela época, a intenção de funcionar sem parar. Eu deixei a FM funcionando das 6 às 2 da manhã; depois veio a Gulnara Bocchino; depois eu fui chamado de novo, fiquei mais um ano, reestruturei e, depois, me botaram como diretor musical.

AO - E hoje?

LG - Hoje em dia, sou produtor de vários programas: Concerto MEC, ao meio-dia; Música e Músicos do Brasil, que é o segundo programa mais antigo da rádio, depois do Ópera Completa; e produzo o Sala de Concerto e também os Sons do Brasil, que é um programa novo, só de ritmos brasileiros.

AO- Lauro, queria que você falasse dos diretores que você viu passar pela Rádio, e também de um cargo importantíssimo que foi parando de ter aqui, que era o Diretor Artístico. Já sabemos que, quando você entrou, o diretor era o Brigadeiro Tróia. E o diretor artístico, quem era?

LG - Reginaldo Magalhães. O Comandante Tróia, a gente nunca tinha muito acesso, porque a direção da Rádio sempre foi muito fechada aos produtores, em geral. Então, eu tratava diretamente com o diretor artístico da época, o Reginaldo, com quem eu trocava idéias. Uma característica nossa, logo quando eu entrei, foi reduzir muito os textos, que eram muito literários - às vezes um programa de meia hora tinha 6 a 8 páginas, sabe? Então fomos criando uma nova imagem.

AO - O Reginaldo Magalhães era um homem de cultura?


LG - Ele trabalhava na Embrafilme com o Comandante Tróia, que também era da Embrafilme e o trouxe pra cá. Porque, justamente, ele tinha um certo nível cultural. Mas não entendia nada de música, e música erudita, em si, ele não entendia nada. Ele me chamou por isso: pra um apoio a ele.

AO -E depois do Tróia?

LG - Foi o José Candido de Carvalho, um escritor, autor do "O Coronel e o Lobisomem", e que a gente só via entrar e sair. Não tive o mínimo contacto com ele: se eu disse uma ou duas vezes "boa tarde", foi muito. E eu não entrava no gabinete. Eu só passei a freqüentar o gabinete no tempo do Heitor Salles, que realmente foi quem deu um apoio muito grande aos funcionários. Ele viu muito esse lado dos empregados que a gente não tinha quem defendesse nosso interesse ele lutou muito e trabalhou muito pela Rádio MEC.

AO - Quem foi o diretor artístico do José Candido?

LG - Não me lembro o nome. Um cara que veio da Saúde…

AO - E do Heitor Salles, quem era?

LG - Fui eu.

AO - O que o Heitor fez pelos funcionários? Melhorou salários, essas coisas?

LG - Exato. Fez uma tabela para locutores, para produtores, e regularizou essa situação nossa que era muito indefinida, com cargos e comissões.

AO - O que você acha que ele fez pela Rádio, propriamente?

LG - Conseguia material. Fitas que era uma dificuldade, que a gente não tinha. Condições de estúdio para gravar. Realmente foi uma época que a gente pode respirar um pouco mais. Porque ele arranjava, ele conseguia - com influência do pai, talvez, com Brasília. Tanto que ele ficou muitos anos e era muito querido pelos funcionários.

AO - Ele imprimiu alguma característica nova na programação?

LG - Eu posso contar uma conversa que ele teve comigo. Uma vez ele me chamou no gabinete e disse pra mim isso que eu estou declarando agora: "Lauro eu não entendo nada de música erudita, nem é a minha coisa preferida. Gosto, sim, em raros momentos, então eu não vou me meter naquilo que eu não entendo, deixo por tua conta." Então a gente fazia e levava ao conhecimento dele. Eu nunca sofri restrição nenhuma, nunca tive crítica negativa do meu trabalho - ele só me chamava pra dizer dos elogios que ele recebia pela nossa programação. Então ele era um sujeito que deixava a gente trabalhar: não se metia. Ele queria que o negócio funcionasse e funcionasse bem, e o que ele podia melhorar as condições, por exemplo, as externas que eu pedia, ele melhorava. De um modo ou de outro, ele arranjava um carro pra levar, pagava um lanche para os funcionários ficar até 2 horas da manhã gravando no Teatro Municipal. A gente tinha a boa vontade dele - ele não fechava a porta do gabinete para a gente. Apesar de ser uma coisa distante, porque era o Dr. Heitor Salles não era como a da nossa última diretora, a Regina Salles, que era uma companheira nossa de trabalho e então a gente entrava à vontade.

AO -O Heitor comprou algum equipamento pra Rádio?

LG - Não posso te precisar, porque era muita coisa miúda, mas comprou, sim. Me lembro que vieram microfones E também fitas, porque antes a gente não tinha condição de trabalho, sabe? E essa condição de não poder apagar as fitas, de eu falar com ele: "Dr. Heitor, a gente não pode apagar essas fitas." Ele sabia da importância da nossa cultura, disso ele tinha consciência, e tem até hoje. Mas ele foi um muito legal para Rádio. Dos diretores que eu conheci, ele foi o que mais se bateu pela Rádio. Não foi o que mais conseguiu, porque nós conseguimos mais com o filho do Presidente, que conseguiu remontar todo o Sinfônico e conseguiu uma mesa gigantesca esses negócios todos, porque estávamos com um filho de um Senador que depois seria o Presidente da República.

AO - Não foi bem assim, porque, na realidade, foi uma coincidência: as verbas que haviam sido pedidas, anteriormente, foram liberadas justamente quando ele estava na direção da Rádio.

LG - Eu quis dizer que foi na época dele que se fez, né? As outras direções, eu vou te dizer. Luiz Brunini ficou meses aqui, quer dizer, não tive o mínimo contato. Ficou aqui uns 6 meses - também aquele negócio de 'bom dia' e 'boa tarde'. Acho que não chegou a influenciar na programação, não me lembro. Depois tivemos o Luiz Paulo Porto, que ficou 1 ano e meio. Esse já foi mais ativo, mas não tive muito contato com ele porque eu não tinha nada a ver com a programação, na época.

AO - Quem era o diretor artístico dele?

LG -Acho que já era a Gulnara Bocchino. Realmente, não me lembro. Porque o Paulo Santos também foi diretor artístico um tempo imenso e, aliás, muito bom diretor artístico, porque o Paulo entendia muito de música erudita. Depois de Luiz Paulo Porto tivemos a Thais de Almeida Dias, que também ficou só 1 ano e poucos meses, mas foi muito ativa, mexeu muito na programação. Ela era uma educadora e dava uma ênfase maior ao ensino. O ensino era uma coisa à parte, na Rádio, mas a gente não pode esquecer dos educadores que aqui trabalharam e que lutaram muito, também.

AO - E depois da Thais?

LG - Heitor Sales, de novo. Ele voltou e nós implantamos a FM. João Henrique ficou com a AM, e eu fiquei responsável pela FM. Então fizemos duas programações estanques e começou-se a vida independente de cada uma emissora - claro que, até hoje, passam programas da AM na FM, mas é o mínimo. Então, depois dessa gestão do Heitor Salles, que foi seguir a vida dele como político, tivemos, então, o Eduardo Fajardo, que é um companheiro nosso, mas que foi um negócio de dois meses. Depois a dona Maria Angélica Borges, que ficou aqui também alguns meses, e te juro que não me lembro nem do rosto dessa senhora, que não me lembro de nada, deve ter sido muito inoperante porque não me lembro.

AO - Mas depois o Heitor Salles volta outra vez…

LG - Não, antes foi a Márcia de Souza Queiroz, que era nossa companheira, produtora da Rádio e que ficou muito pouco tempo, também, acho que 1 ano. E foi um tempo muito bom, porque, como colega e como amiga, a gente tinha muita liberdade de trabalho e foi uma época muito boa de se trabalhar - porque não havia conflito. Aí, depois, voltou de novo o Heitor Salles, ficou mais 1 ano e pouco, e foi substituído pelo Paulo Henrique Cardoso, que quis popularizar a Rádio, que não gostava muito da música erudita, mas que não teve muito o que fazer na FM - ele mexeu mais na AM. Na época, ele queria popularizar, botar funck, botar coisas de rádio comercial. Houve um certo mal estar, mas ele não era inacessível - era uma pessoa que gostava de produzir e de bater papo com a gente por aí.

AO- Essa rodízio de diretores já demonstra o descaso manifesto para com a Rádio, e a gente vai notando o desaparecimento dessa figura chave que é o diretor artístico.

LG - Por que aqui, politicamente, deixou de ser um cargo muito desejável. Então, as pessoas que vinham aqui, vinham pra tapar buracos: não vinham para trabalhar pela Rádio.

AO - Depois do Heitor veio o Saens, não é?

LG - Ele veio com um rádio mais liberal, mais uma política do PT, que pela primeira vez entrou aqui na Rádio com um novo pensamento, com uma nova diretriz, mas que também não influenciou muito na FM, que era o meu setor. Ele deu mais força para o jornalismo que alias essa força tinha vindo até de antes mas ele enfatizou mais o jornalismo. E depois, então, veio a Regina Salles, que foi uma batalhadora e fez um trabalho magnífico. Por ela ter vindo da produção da Rádio, como educadora, ela revolucionou - porque ela discutia a Rádio com a gente, fazia reuniões, as portas estavam abertas, todas as sugestões eram estudadas, todos os projetos eram discutidos. Essa tentativa de recuperação da memória da Rádio, que há anos eu me batia por isso. Porque todo esse projeto nasceu da minha descoberta dos irmãos Gnattali tocando Nazareth. Mas não havia verba, e, depois, com esse negócio de TV junto é que a Rádio foi preterida mesmo - sempre essas muito curtas, muito estanques, que não podiam trabalhar.
Então, a Regina Salles foi a primeira, sabe, que movimentou. E não vamos esquecer que ela foi eleita pelos funcionários. Foi uma época muito boa para a emissora, e conseguimos - junto com a SOARMEC, com a criação da SOARMEC - criar toda esse arquivo sonoro com a série Repertório Rádio MEC que, infelizmente, agora está parada. Desde que acabou a estrutura da Rádio MEC oficial, e passamos a ser ACERP - que é uma Associação -, não conseguimos um apoio substancial do Governo, para realizações.

AO - Lauro eu gostaria que você falasse um pouco da mecânica de produção da Rádio, como você deve ter conhecido, porque eu também conheci. Houve uma época em que a gente tinha o produtor do programa; tinha um assistente de produção; tinha, se precisasse, um sonoplasta; e tinha também um repórter e até um cast de rádio-teatro, inteiro. Fala um pouco de como você conheceu isso, no seu tempo.

LG - Pois é, a gente tinha uma infra-estrutura para realizar isso tudo. Mas. como ficou frisado, a partir da derrocada total da nossa Orquestra, dos nossos corpos estáveis - e aí foi junto a nossa Orquestra de Câmara, o Trio, o Quarteto de Cordas, e o rádio-teatro, também. Agora, a ACERP funciona com muita deficiência, porque não tem dinheiro. Então, por exemplo, eu trabalho sozinho: todos os meus programas eu realizo sozinho, com os técnicos da Rádio, claro, não é? Mas não tenho assistente de direção, não tenho uma equipe que trabalhe junto comigo. Tem o nosso gerente de produção, o Paulinho Neto, tem o nosso chefe, que é produtor também, o Sérvio Túlio, que trabalha e comanda essa parte, mas infra-estrutura a gente não tem - cada um produz o seu, porque infelizmente, a gente está muito sem material humano e também sem material técnico. As nossas maquinas enguiçam não tem mão-de-obra pra retorno, pra reforma dessas maquinas, computadores suficientes. A maioria dos produtores, como eu, tem computador em casa e já traz tudo pronto de casa. Porque se a gente fosse contar com o que tem aqui, ia ser uma briga. dentro.

AO - Há alguma coisa que eu não perguntei e você gostaria de falar para concluir?

LG - Eu tenho uma grande esperança - falo em futuro, porque meu tempo aqui está terminando. Eu já estou aposentado, voltei, fui contratado pela ACERP, para continuar essa batalha, estamos batalhando até hoje, e o meu grande sonho é que a ACERP consiga transformar essa rádio numa coisa viável para voltar a ser a emissora oficial do País. Eu gostaria que voltasse a Orquestra, que nós tivéssemos um novo Trio da Rádio Mec, um novo Quarteto, um novo Coral, uma nova Orquestra de Câmara, um novo Quinteto, um novo conjunto de música antiga, um regional da Rádio MEC, pra tocar o regional brasileiro autêntico, e todos os solistas virem aqui tocar, gravar aqui - artistas brasileiros, compositores brasileiros - que era o que era feito antigamente, que se voltasse àquele tempo antigo.



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