de Utilidade Pública Federal - Portaria no. 3935
de Utilidade Pública Estadual (RJ) - nº2464
de Utilidade Pública Municipal (RJ) - nº3048
detentora do Prêmio Estácio de Sá 2002

Hamilton Reis


Depoimento de Hamilton Reis com participação de Décio Luiz

Décio Luiz, ao chegar com o entrevistado, foi logo dizendo que "O Hamilton é uma unanimidade, todos gostam dele aqui!". Hamilton Reis, que começou como mensageiro, tornou-se o fac-totum da Rádio MEC, o homem dos sete instrumentos, que, sem nunca ter ocupado um cargo de chefia e, claro, sem nunca ter sido remunerado à altura de seus méritos, fez tudo o que pode pela Emissora. Faltava locutor, ele ia e locutava; faltava técnico, ele ia e operava; faltava eletricista, ele ia e consertava.


AO - Quando você veio para a Rádio?

HR -Em 1938, com uns 6 anos de idade, vim morar na Praça da República, no prédio da Faculdade de Direito, de onde meu pai era administrador. Eu conheci o edifício daqui da Rádio no esqueleto. Era uma obra parada. Diziam que ia ser o futuro necrotério. Era uma brincadeira minha pular o muro, e vir brincar aqui dentro.

AO - Quando o prédio ficou pronto?

HR - Em 1942. Eu vi o Getúlio Vargas chegar aqui, de uma janela do Salão Nobre da Faculdade, porque era difícil chegar perto de onde "o homem" ia passar. A Rádio Ministério foi inaugurada aqui neste edifício, a partir dali. Ela veio da Rua da Carioca, nº 43.
Naquela ocasião, a minha mãe, para ajudar no orçamento, fornecia uma pensãozinha. Aí, eu vinha trazer os pratos de comida aqui, onde havia freguês, e, assim, fui me enturmando. Em 48, o Dr. Tude de Souza me chamou: "Não quer trabalhar aqui, não?" Falei com meu pai, e fui admitido como diarista, em março de 48. A Rádio MEC (que, naquela época, era Rádio Ministério da Educação e Saúde) ocupava o 3º e 4º andares, o 6º andar não existia - era a casa de máquinas do elevador - e o 5º andar era no nível do Estúdio Sinfônico. Tinha só uma passagem. Depois ali foi instalado o primeiro transmissor de FM da Rádio MEC, para mandar o sinal para o transmissor.

AO - Embaixo ficava o INCE, não é?

HR - Exato, o Instituto Nacional do Cinema Educativo, criado pelo Professor Roquette-Pinto, criador da Rádio. Eu convivi com o Roquette-Pinto. Todo dia, ele vinha almoçar aqui. No período que eu vim para cá, foi comemorado o Jubileu de Prata do Rádio no Brasil, já que a Rádio Sociedade foi fundada em 1923. Foi uma festa bonita, coquetel… e isso marcou muito a minha entrada como funcionário. E também foi inaugurado o Estúdio Sinfônico com um concerto da Orquestra Sinfônica Brasileira.

AO- Você começou fazendo o quê?

HR - Fui admitido como diarista mensageiro, fazia entregas do noticiário nos jornais. Aliás, a minha primeira tarefa foi entregar os convites para essa festa! Depois, veio muita luta para arranjar uma efetivação, mas aí eu fui galgando aos poucos.

AO - Fale do Fernando Tude de Souza.

HR - Ah, o Dr. Tude era uma pessoa compreensiva. Era um homem que, quando ia para o exterior - e ele ia sempre - trazia para cada funcionário um perfumezinho como agrado. Isso não é coisa que se veja por aí.

AO - O que ele fez, em termos de programação, de equipamentos?

HR - Não era fácil aqui a questão da inveja… Naquela ocasião, já não era muito fácil, mas ele fez. Fizemos com ele este Estúdio Sinfônico, o transmissor de ondas médias, parece que incluiu mais o de ondas curtas. Mas foi ele quem deu seguimento à idéia do Roquette-Pinto. Ajudado pelo René Cavé, que também tinha o mesmo espírito, porque o Cavé foi funcionário da Rádio Sociedade. A estrutura da Rádio era: o Diretor, a transmissão (que era da competência da SPI, Seção de Preparo da Irradiação), e SA, Seção Administrativa,chefiada pelo "seu" Mesquita.

AO - Quem estava no Departamento Técnico então?

HR - João Labre Jr.! Um dos fundadores da Rádio Sociedade. Ele tinha muita vivência com aquilo ali, era engenheiro do ramo. Foi também uma boa, uma grande figura.

AO - E o diretor Carlos Rizzini?

HR - Ele dinamizou. Nós tivemos aqui - com muito sucesso - um curso para Redatores e Locutores, e nisso também se destacou a Professora Neuza Feital. Ela criou o curso para Redatores, ministrado por professores. Rizzini também criou o "Pensando no Brasil". Nessa série, ele reuniu o Almirante Álvaro Alberto, do Conselho Nacional de Pesquisa; o Austregésilo de Athayde, que era da Academia Brasileira de Letras; o Basílio Machado Mello, da Confederação das Indústrias. Eles faziam crônicas naquele espírito de enaltecer o país. E há que se ressaltar o "Rádio-Jornal", que passou a ocupar um espaço grande. Foi quando vieram o Paulo Corrêa; o Mário Augusto, que dirigia; o Mário Jorge, redator...
Em 1954, retornou o Tude de Souza. Devo ressaltar o papel do Dr. Tude aqui. A Rádio, quando eu cheguei, funcionava das 12 às 14 horas, e depois das 17 às 23. Destacava-se aí o noticiário "Londres Informa", durante a Guerra, diretamente da BBC, isso marcava muito... Com o Tude, a Rádio passou a entrar às 9. Ele pôs aqui um Jornal Falado, que era dirigido pelo Víctor do Espírito Santo Cardoso. Aí, a Rádio passou a entrar no ar às 9, e ia até às 14. A programação contava, também com a colaboração da a Lucília de Figueiredo com o "Faça do seu lar um Paraíso", figura igualmente de grande importância na Rádio MEC.
Eu estou em 48, ainda na administração Tude de Souza. Aí, tivemos o "Ao redor do mundo". Nós tínhamos o Alfredo Souto de Almeida, o José Acrísio, o Luiz Augusto. Produtores, nós tínhamos Fernando Segismundo, Álvaro Salgado, a esposa dele, que trabalhava na Biblioteca, Dona Dilke Salgado, tinha a pianista laureada Marina Moura Peixoto, que foi chefe da Seção de Programação (denominada Seção de Preparo de Irradiação), tinha a Geny Marcondes, que também marcou época, principalmente com o programa infanto-juvenil "Reino da Alegria". Além disso, tínhamos o grupo "Música Viva", com o Professor H.J. Koellreutter, todo sábado. O grupo "Música Viva" era o Koellreutter, Guerra-Peixe, Edino Krieger, Radamés Gnatalli e Cláudio Santoro. Vamos destacar aqui, também, o "Colégio do Ar". Foi aí que a Rádio passou a entrar às 7 da manhã, com aulas de Português. Nesse período, o famoso professor Oswaldo Diniz Magalhães foi requisitado e veio dar aulas de ginástica. A Rádio passou a entrar no ar às 6h da manhã. Seguiu o "Colégio do Ar", seguiu o "Jornal Falado". Ai, veio o Dr. Rizzini, mas foi um período pequeno. Na fase de 1948, já tinha Fernanda Montenegro, tinha o José Vasconcellos, o Mário Garcez.

DL - Quem era o Diretor do Radioteatro?

HR - O Edmundo Lys. Tudo começou com o "Radioteatro da Mocidade", em 45. No elenco, Fred Lino, Luiz Gabriel de Barros Valle, a Vera Nunes, entre outros. Aí, veio o Gentil Puget. Ele era paraense, um musicólogo, pianista, compositor, compreendeu? Tinha o maestro Valdemar Henrique, também paraense, que, nos programas, mostrava suas composições acompanhando ao piano a sua irmã Mara, cantora... A Orquestra Sinfônica se apresentava sempre aqui, com o Eleazar de Carvalho. Todo domingo, às 10 horas da manhã, havia o "Concerto Para a Juventude", que fez carreira no Theatro Municipal e no Cinema Rex. A locução era do Paulo Santos e, durante algum tempo, do Paulo Alberto, o hoje Arthur da Távola. Sem falar na Temporada Lírica do Theatro Municipal, onde a sala muito grande só tinha um locutor. Então, o locutor no estúdio fazia a ópera como se fosse ao vivo.

AO - Você conheceu o Paschoal Longo?

HR - Paschoal Longo, baiano, sujeito de alta qualidade. Escrevia adaptações, e Radioteatro: "Este mundo maravilhoso". Tinha uma série de programas: o "Mundo maravilhoso", "Novos Horizontes" tratava de coisas científicas. Tinha o Otto Maria Carpeaux, também, que escrevia para cá... Paschoal Longo trabalhou aqui acho que até 1954, depois foi dirigir o escritório do IBC, na Alemanha.

AO - E o professor José Oiticica?

HR - Professor Oiticica foi produtor durante a gestão do Rizzini. Ele vinha aqui apresentar as aulas ao vivo, porque antigamente não se gravava nada.

AO - Bom, aí o Tude voltou.

HR - Voltou em 54. Ele continuou a programação e modernizou a Rádio em equipamentos. Comprou um órgão Hammond, que serviu para vários recitais do Professor Antônio Silva. A Lucília de Figueiredo, que fazia o programa feminino "Faça de Seu Lar um Paraíso", faleceu e, então, ele chamou a Edna Savaget. No ano seguinte a Alda Menezes, que fazia o "Aqui entre Nós", casou, deixou a Rádio e a Edna ficou com o programa, transmitido no mesmo horário, de 13h às 14h. Ela deu uma roupagem nova ao programa, mas sempre dirigido ao público feminino. Nessa época, vamos ressaltar aqui, o Tude de Souza deu muita importância à programação estudantil. Então, nós tínhamos um programa aqui da Associação de Imprensa Estudantil. Ricardo Raoli era o responsável, tudo feito por universitário. Também foi nessa época que veio o Paulo Alberto, o hoje senador Arthur da Távola. Realmente aí foi que começou a fase de estudantes dentro da Rádio. Havia uma parceria com o professor Libânio Guedes, que era do Colégio Pedro II. Ele dirigia um programa chamado "A Juventude Cria". Isso foi em 48, 49. Ali, tinha Allan Lima, galã do cinema nacional, ator de teatro, até hoje em atividade. Não tem melhor diretor de dublagem, tradutor... esse realmente é bom! Os estudantes do Pedro II escreviam e apresentavam o programa, e tinha ali a Theresinha Amayo, Ivan Meira, Inácio Singer, Arion Romita, Felix Cohen, Orlando Prado, e outros. Tudo feito por eles. Vamos lembrar, também, o "No Reino da Alegria", a inesquecível criação da Professora Geny Marcondes! Esse programa tinha uma audiência incrível. Vinha gente aqui cantar, se apresentar, Festinha de São João, estas coisas todas. No prédio do Ministério da Educação fazia-se teatro de bonecos, de marionetes. As vozes eram de Jaime Barcellos, o "Rei Pimpão", Nanci do Nascimento, a "Rainha Finoca", Vitória Régia, Álvaro Costa, etc... O Radioteatro foi uma fase importante na Rádio MEC!

AO - "No Reino da Alegria" era um programa de radioteatro?

HR - Era Radioteatro, mas eram estórias. Levava o "Sítio do Pica-Pau Amarelo", aquelas estórias todas. Brilhava a Sílvia Regina, mas isso aí é uma fase. "A Juventude Cria", "No Reino da Alegria", "Concertos para a Juventude", programas que marcaram a Rádio MEC! Tivemos aqui Sadi Cabral dirigindo o Radioteatro. Sadi Cabral foi em 1950, tinha que inventar, às vezes. Não podemos esquecer também a figura do Jefferson Duarte, que era operador, locutor, contra-regra, rádio-ator... o que se pedisse, ele ia lá e fazia com brilho! Quebrou muitos galhos. Waldir Finotti, também. Mário Jorge, também dirigiu o Radioteatro, foi um grande radioator!

Ele veio do "Radioteatro da Mocidade". Não podemos também esquecer a figura de Sheila Ivert, ela teve uma presença marcante, uma voz fininha muito característica, ela apresentava de tudo.

AO - E o Celso Brant?

HR - Celso Brant vem em 55, com o Juscelino. A administração dele, vamos dizer assim, é mais musical. Tinha "Saraus e Serenatas", o conjunto "Os Últimos Boêmios", do Tête de Araújo, falecido há pouco tempo. Era um conjunto muito bom, onde tocava o Altamiro Carrilho. Sem contar também a música lírica, a música de câmara! Cantoras que vinham aqui ao vivo! Ele investiu também em todo um quarteto de cordas: cello, duas violas e um violino.


AO - Mais sobre o Celso Brant?

HR - Ele teve uma bela passagem pela Rádio. A irmã, a Vera Brant, e o irmão, o Hélio Brant, tinham uma grande presença aqui dentro. O Dr .Celso vinha sempre à noite, porque ele acumulava como Chefe de Gabinete do Ministro Clóvis Salgado. E, como bom mineiro, tinha aquele pessoal que estava sempre com ele. Era uma bela pessoa. Atencioso. Nunca foi de criar problema.

AO - Depois veio o Mozart de Araújo?

HR - Diga-se de passagem, se temos uma discoteca hoje, algum registro de música brasileira, vamos dar graças a Deus e a Mozart de Araújo! Ele fazia questão de autorizar as gravações. Então ele levava a lista: "Tem música brasileira?" "Não senhor." "Não grava!" "Tem música brasileira? Grava!" Alceo Bocchino já estava na Rádio nesse período, veio em 53. Ele entrou efetivamente, tinha contrato com a Rádio. Sempre foi um maestro, pianista acompanhador dos bons, preferido pela maioria das cantoras. E fazia parte de conjunto de câmara. Fez um trio com o Iberê Gomes Grosso e o Anselmo Slatopolsky.

AO - A OSN vem com Mozart de Araújo?

HR - Exato. E esse sexto andar, que nós temos aqui, ele mandou construir para a sala de ensaios da Orquestra. Chegaram a fazer uma minitécnica, lá. E tinha o Quarteto da Rádio MEC, que foi a primeira formação: Santino Parpinelli, Marcelo Pompeu Filho, Damela e Ranewsky.

AO - Quem trabalhava aqui na época do Celso Brant?

HR - Vamos ver: Dr. Miécio de Araújo Honkis. Ele era médico, muito estudioso, e fez o programa "No Tribunal da História". Aí passou a fazer o "Novos Horizontes", também quando o Paschoal saiu. Ele era ligado ao Observatório, então ele promoveu, dentro do programa, visitas ao Observatório Nacional. Faziam fila aqui, na porta da Rádio MEC, para poder ir lá. Alugavam dois ou três ônibus.

AO - E o Murilo Miranda?

HR - Ele realmente tinha uma visão vasta, queria popularizar. Levou a Orquestra Sinfônica Nacional para as favelas, para a rua, queria chegar ao povo! E ele pegou aquela comemoração toda do Jubileu da Rádio MEC, promoveu recitais importantes. Criou o "Quadrante", que eram crônicas diárias escritas por Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade. Era um para cada dia da semana.

AO - Quando o Drummond veio para cá, como funcionário?

HR - Foi com o 'Quadrante', em 61. Mas, antes, ele teve uma participação, com a Lia Cavalcante, em 1953. Eles fizeram um programa. Depois parece que o programa não prosseguiu, era "Temas e Variações" ou "Temas com Variações". Ele fez acho que um ou dois programas, e a Lia Cavalcante fazia também "Dois Dedos de Prosa" - uma crônica diária.

AO - E o Maurício Quadrio?

HR - Ele chegou aqui antes de 50, era do Instituto Italiano de Cultura. Conheci bem o Maurício, aquele italiano, falando ligeiro, foi um grande amigo, de muita vivência, enxergava longe. Ele entrou no mundo fonográfico também. Ele fez um grande trabalho, ainda está até hoje na atividade, produtor musical. Vamos fazer aqui também uma referência a Zito Baptista Filho, que está aqui até hoje. O Zito é oriundo dos concertos do Teatro Rex, todo domingo ele estava lá! Também, é a tal coisa: é aquele amor pela Rádio MEC. Então, ele veio, passou a produzir o Ópera Completa, em 1950. Vamos ressaltar também os concursos que nós tivemos aqui, onde se exibiram bons intérpretes. Isso foi com o Tude, também.

AO - E os locutores dessa época?

HR - Locutores, nós tínhamos aqui: Fernando Menezes, Luiz Augusto, Nelio Morales, Alfredo Souto de Almeida, José Acrísio, Altanir Ferreira, José Vasconcellos, Décio Luiz, Carlos Noronha, João Assaf, Mário Augusto Rocha, Marco Aurélio de Mendonça, Paulo Santos...

DL - Paulo Santos se notabilizou, também, pela gravação de "Pedro e o Lobo".

HR - E porque fez várias vezes no Municipal, ao vivo. Sabia conduzir. Temporada lírica fazia muito bem. Tínhamos sempre um concerto no Municipal, todo sábado à tarde, às 4h, transmissão direta! Aí, veio o pessoal da Nacional, em 57. Veio o William Mendonça, veio o Luiz Miranda, Alfredo Canthé. Veio, também, a Maravilha Rodrigues. E outros tantos que tinham aqui! Clarival do Prado Valadares, era crítico literário. Também tivemos Vasco Mariz, cantor, cantava aqui, grande musicólogo, diplomata lá do Itamaraty, teve presença muito importante.

AO - E depois do Murilo Miranda?

HR - Poucos sabem que, na passagem de Mozart de Araújo para Murilo Miranda, o cargo foi oferecido ao Dr. Tude de Souza - o que foi motivo de um bilhetinho do Jânio Quadros, dizendo que fosse reconduzido o Dr. Tude na direção. Aliás, não era bem na Rádio, era no Serviço de Radiodifusão Educativa, o SRE. Ele chegou a vir aqui, mas já tinha outros afazeres, então não aceitou o convite. Aí, foi indicado o Murilo Miranda. Depois, naquelas peripécias todas, veio a Professora Yedda Linhares. Uma presença muito marcante, aqui. Mas eu só estive sob a orientação dela uns seis meses. Passei 6 meses de licença-prêmio, e só voltei na época do Eremildo Viana.

AO - O que falam do Eremildo é verdade?

HR - Foi uma situação diferente, realmente ele criou um estado de autoridade: "Eu determino!"

AO - Dizem que ele adquiriu instrumentos para a OSN.

HR - Instrumentos, sem dúvida, ele deu. Nesse período aí, a Rádio MEC tinha um programa, o "Concertos para a Juventude", que passou a ser apresentado pela Rede Globo. Ele teve uma participação, um carinho muito grande com aquilo ali, e por alguns anos a TV Globo transmitiu o programa, diretamente do seu estúdio.

AO - Alma Cunha de Miranda?

HR - Ah! Uma pessoa muito doce. Ela vinha da JB. Ela criou o Museu da Rádio MEC. E era uma cantora, ela fez vários recitais aqui na Rádio, inclusive. Não sei se vingou o Museu da Rádio MEC. Nós tínhamos também uma Biblioteca. Não sei porquê acabaram com a Biblioteca. Muita coisa se perdeu aqui. Há aquele Mário Del Mônaco: "O Escravo", com o Mário Del Mônaco, que foi gravado pela Rádio MEC, e também se perdeu.

AO - E em termos de equipamentos? Tinha alguma carência?

HR - Não, não! Não vamos nem falar em fita ainda, vamos falar no acetato. Primeiro tinha a 'base de vidro', que era um perigo! Depois, veio o 'base de alumínio'. Nós tivemos aqui um torno para a gravação de acetato - matrizes - de alta qualidade. Inclusive a Colúmbia gravou muito aqui, Vários filmes tiveram a trilha sonora gravada aqui neste estúdio.

AO - E o Manoel Cardoso?

HR - Esse foi um "padroeiro". É uma figura dentro do Rádio. Veio também da Nacional, e realizou muitos trabalhos aqui. Ele era técnico da MUSIDISC, inclusive. Mas, aí, também, vamos destacar o Hamilton Córdoba. Esse também foi Diretor Técnico, aqui, foi quem também modernizou um pouco. Tivemos aqui uma "Semana da Música", em que fizemos uma programação toda ao vivo a partir da "Voz do Brasil". Mas tivemos também a Orquestra de Sopro, tivemos a Orquestra de Cordas, também, e a presença muito grande do Edino Krieger, aqui, dirigindo este setor. O Edino foi "cria" da casa. Marlos Nobre foi daqui também, veio com o Mozart de Araújo. Ele criou um Concurso de Música de Câmara, e foi vencedor com um quarteto que fez.

AO - Quando surgiu o primeiro gravador, aqui?

HR - Em 1949. Foi um gravador de fio, para D. Helsa Cameu, que fazia programa de folclore, essas coisas... Foi a primeira vez que vi um gravador. Depois, teve o famoso Revere, em 1950. Tinha boa qualidade. Já era de fita magnética, de três quartos. Depois teve o Aiko, de fita; e o Webster, também de fita. Mas já existia Ampex, o modelo 600. Nós nos valíamos também de um gravador que o Cardoso tinha, um gravador guardado, dele.

Agora, o primeiro Ampex que chegou foi com o Mozart de Araújo. Ampex 300, aquele foi bom! Daí, então, já foi mais fácil comprar, tinha aquele Ampex 600, depois outro, o 351. Mas gravador em disco nós já tivemos desde 48!


AO - E Avelino Henrique?

HR - Realmente, na administração dele, em termos de equipamentos, foi quando a Rádio MEC "se fez". Foi a época do Minerva. Poucas pessoas da Rádio MEC foram aproveitadas no Projeto Minerva - e tínhamos bons elementos, inclusive na parte técnica. Fizeram dentro da Rádio Ministério uma outra rádio, quer dizer, a Rádio cedeu só as instalações. Tudo era concentrado para o Projeto Minerva, eles tinham prioridade em tudo - o Mobral também, que ficou aqui depois. Aí é que veio aquele negócio: "Mas isso não presta! Isso é coisa velha!" E muita coisa aí se foi. Tinha um acervo de 78 rotações… Eu vi, uma ocasião, um sujeito mandar dispor de um material que eram gravações únicas, ao vivo! "Ah, isso é velharia, não se usa mais! Não tem valor" - "Não, rapaz, isso tem! Isso aqui é uma audição pública e ninguém vai repetir isso, se teve erro, se não teve erro, ninguém vai repetir!" Mandaram doar, não sei se conservaram alguma coisa.

AO - Consta que o Avelino desativou o Museu e mandou o material para a Penha, que virou um depósito, depois que o transmissor foi para Itaóca. Por que o transmissor saiu de lá?

DL - Quando dos preparativos para a inauguração do Aeroporto do Galeão, mandaram todos os transmissores para o "lado de lá" da Baía da Guanabara, ficando o "lado de cá" só para a recepção.

HR - Exato, isso deve ter sido em 1979.

AO - Alguma coisa a mais sobre o Avelino?

HR - Ele era amigo de todos, acho que ninguém tem a dizer nada dele. Pode discordar da orientação dele, porque, para uns, a Rádio MEC deveria ser sempre aquele "santuário". Mas ele realmente teve sua presença. No tempo dele, a Discoteca passou para o 3º andar, e o 4º andar foi reformado. No Estúdio Sinfônico, ele botou aquele vidro grande, comprou uma mesa Langeli de doze canais, coisa boa na ocasião, importada.

AO - Armando Tróia, o que ele fez?

HR - Ah, o Brigadeiro Tróia! Ele deu continuação, deu aquela ênfase toda ao Projeto Minerva, ao Projeto do Mobral. Não foi mal. Tive pouca convivência com ele, já não era aquele "come e dorme" dentro da Rádio MEC, porque antes eu morava aqui dentro, praticamente. Tinha a chave da Rádio - tanto fazia chegar às 7 da manhã, como sair às 2 da manhã. Todo mundo ia embora, eu ainda ficava. Sábado e domingo eu estava aqui dentro - tinha sempre alguma coisa por fazer. Uma ocasião, foi o André Segovia. Veio aqui num domingo à noite e ficamos lá, meia dúzia de convidados, ele tocou e ainda recebeu o cachêzinho dele aqui.

AO - José Cândido de Carvalho?

HR - Eu já não tive contato com ele. Tive com o Heitor Sales, que o sucedeu. No período dele, tivemos a vinda do Sérgio Chapellin, do Cid Moreira. Eles vieram por causa do Projeto Minerva e acabaram como funcionários. Paulo Tapajós, Floriano Faissal e as filhas dele. O Heitor foi o último diretor que eu tive.

AO - E o Ghiaroni?

HR - Ghiaroni veio em 57. Vale lembrar que tivemos também a inclusão do Haroldo Costa, em 54. Ele e Aloysio de Alencar Pinto faziam o programa "Estampas Brasileiras". A música brasileira popular, não é? Trouxeram até escola de samba aqui no nosso Estúdio. Fizemos o programa "Ao Redor do Mundo", o mais antigo da Rádio MEC! Vinha o Grupo Folclórico da Casa do Porto, se apresentar aqui. São fases, são eventos que não podemos esquecer.

AO - O que você ainda gostaria de acrescentar ao que falou?

HR - Bom, eu vivi tão intensamente a Rádio MEC… Eu vim para cá em 48; e em 55, veio a Delci, trabalhar na Administração. Cinco anos depois nós estávamos casados, como estamos até hoje. Até diziam: "Ah, o Hamilton não vai casar, porque ele não sai da Rádio MEC!" Saí daqui em março de 82, com 34 anos de casa. Por trabalhar na Rádio MEC, me chamaram para a Globo, passei sete anos lá. Depois, fui para a Voz da América, e lá me aposentei. A Rádio MEC realmente marcou a minha vida! Se eu sou alguma coisa, agradeço à Rádio MEC! Se tivesse que começar, começaria pela Rádio MEC outra vez!

 

 

© Copyright SOARMEC 1999 -2005. Todos os direitos reservados.