de Utilidade Pública Federal - Portaria no. 3935
de Utilidade Pública Estadual (RJ) - nº2464
de Utilidade Pública Municipal (RJ) - nº3048
detentora do Prêmio Estácio de Sá 2002

 

Entrevista com Fernanda Montenegro

PARA O JORNAL “AMIGO OUVINTE”, Nº 30, OUTUBRO DE 2000

 

 

 

 

 

 

 

 

Foto Divulgação

Amigo Ouvinte: Como foi sua formação antes de ingressar na Rádio?
Fernanda Montenegro: Eu ingressei na Rádio Ministério em 45,quando eles abriram um concurso para fazer o "Teatro da Mocidade". Porque era uma idéia do Tude de Souza, quando o René Cavé também era o Diretor Artístico da Casa: preparar radialistas, desde a mais tenra idade. Então eles abriram esse concurso, para chamar jovens que quisessem ingressar nessa carreira, e eu devo dizer que, na época, o Rádio era o que a Televisão é hoje. O Rádio era uma porta para a comunicação de todo o país e, dentro da visão de Getúlio Vargas, através da Rádio Nacional, principalmente, que era uma Rádio que abrangia todo o território brasileiro, pertencer ao Rádio, que era um Rádio muito diferente do de hoje, era dar início a uma carreira credenciada, intelectualmente respeitada. 
E eu ouvia a Rádio Ministério, menina, eu já gostava da Rádio Ministério, e vi que estavam chamando para esse concurso. Eu tinha 15 anos, porque quando terminei o meu primário eu queria trabalhar. Eu sou de uma família modesta, no sentido de poder aquisitivo. Meu pai era um operário especializado, modelador mecânico, mas era um homem que vivia do seu salário, era um artista, um homem de grande influência na nossa família e na minha formação. Eu fui, então, fazer um secretariado no Berlitz, e já estava praticamente no terceiro ano deste curso, que compreendia inglês, francês, português, estenografia e datilografia, e tirava o meu curso de madureza à noite, e ainda arrumei tempo para ir para a Rádio Ministério, fazer um teste. 
Um dia recebo um telegrama dizendo que eu me apresentasse - e foi quando eu consegui entrar mesmo dentro da Rádio, porque acho que a inscrição era feita na portaria. E fui: fiz um teste de voz, para ver qual era o timbre, li um poeminha, que infelizmente eu não me lembro mais de quem era. Eles me chamaram, eu voltei lá, e fui então fazer parte do Teatro da Mocidade, que era um Programa que iria aproveitar toda essa moçada, como locutores, como radioatores... ...E eu me lembro que estreei numa peça do Cláudio Fornari, que, na época, era um autor muito importante, chamada "Sinhá Moça Chorou", e fiz o papel da Manoela, que era uma jovem - o segundo papel feminino - que se apaixonou pelo Garibaldi. E aí foi dada a partida. 
Então, o que eu tinha de formação era um bom primário, que se fazia na época, três anos de secretariado, já freqüentando à noite o madureza, que eu fiz em dois anos, com exame no Pedro II. Enfim, era uma efervescência muito grande, porque a Guerra logo acabou, foi a parte final dos anos 40, o mundo se reorganizando, era uma esperança muito grande, tudo ia dar certo dali para adiante: as pessoas não iam mais ter fronteiras, ia ser uma liberdade total, os EUA estavam muito bem com a União Soviética, aparentemente - enfim, foi nesse clima.

AO: Você trabalhou de 45 até quando?
FM: Acho que ainda fiz alguma coisa em 53 ou 54, porque participei de muitas coisas na Rádio Ministério. Eu participava desse Programa de Radioteatro, uma peça semanal, com um papel maior e um papel menor; eu participava de um Programa chamado "Franceses nós cremos em vós", que foi um Programa logo depois da Guerra, para levantar a moral, porque a nossa cultura era uma cultura de grande influência francesa - o René Cavé, que era o Diretor Artístico, era de família francesa. Tinha uns programas musicais em que a gente fazia vidas de compositores, de cantores, tudo dramatizado. 
Eu trabalhei muito perto de Edmundo Liz, de Alfredo Souto de Almeida... logo em seguida veio dona Geny Marcondes, com o seu programa infantil: então, eu trabalhava muito na Rádio Ministério. Aí, em seguida, comecei a ser colaboradora da Álvaro Armando - que era uma jornalista que escrevia com nome de homem -, e nós fazíamos um programa sobre informação literária. Depois passou a ser com a minha assinatura, porque comecei também a redigir, a fazer adaptações de romances para um Programa chamado "Passeio literário", que ia à tarde... Tinha também programas folclóricos: eu apresentei a Estelinha Egg, o Valdemar Henriques - enfim, a Rádio tinha uma programação muito variada e servia muito ao artista brasileiro, tinha isso. Apresentava também - olha como eu trabalhei!- eu apresentava a "Orquestra Sinfônica para a Juventude", que era transmitido do Cinema Rex - um programa de grande audiência, com os grandes maestros que tinham fugido da Guerra, e que se juntavam aos maestros brasileiros. Então, a Orquestra Sinfônica Brasileira tinha uma programação dominical, transmitida pela Rádio, e eu era a apresentadora - todo domingo lá ia eu para o Cinema Rex, às 10 da manhã - chamava-se Concertos para a Juventude. Tinha também uns ciclos... Lembro que participei de um longo ciclo da Magdalena Tagliaferro - isso que eu estou contando são pelo menos cinco anos intensos com a Rádio -, ela transmitia um Programa de altos estudos de piano, para gente já formada, e isso tinha uma audiência muito grande, porque ela era uma mestra. As aulas dela me serviram muito no teatro, porque ela didatizava a dramaticidade de cada autor, e de cada Escola: o que era o Impressionismo, o que era o Expressionismo, o que era o Clássico, o que era o Romântico, através desses autores todos. Tinha um outro programa também, que se chamava 'Brasiliana', que eu apresentava, com outros colegas, onde a gente lia documentos importantes da História do Brasil, e grandes peças da Literatura, como 'Os Sertões'. 
Deixa eu dizer uma coisa importante na minha vida: a Rádio Ministério para mim foi uma 'Universidade'. Porque, assim que a gente foi para a Rádio, nós tínhamos aulas de declamação, de impostação, nós tínhamos aula de Português, de Logopedia. A Rádio tinha uma Biblioteca bastante boa e tinha uma Discoteca única, naquela época, no Rio de Janeiro. Então esse convívio diário, intenso, nem sei como eu dava conta dentro da Rádio, abrangendo diversas zonas, tendo uma Biblioteca, lidando com personalidades importantes da época - eu apresentei também, durante anos, um Programa chamado Douce France, que ia aos domingos, ao meio dia, e com todo grande artista Francês que batia no Rio de Janeiro, geralmente era o Sacha que acompanhava ao piano, e como era um Programa da Embaixada Francesa, durante muitos anos eu ganhava, porque eles eram muitos gentis comigo, toda uma discoteca de Música Francesa, assim, do que havia de mais requintado. Esse Programa era dirigido por duas pessoas, o Michel Simon, que era um francês radicado no Brasil, e Dona Lia Roquette-Pinto, com quem eu tive uma aproximação muito grande durante todos esses anos. Então, para uma jovem, aos 20 anos eu tinha feito uma 'Universidade' viva, não de Ciências Exatas, naturalmente, mas do ponto de vista cultural, com muita informação, e numa vivência com gente de primeiríssima qualidade, literária e musical.

AO: Você considera que o embrião da sua formação de Teatro se deu na Rádio, nas suas intervenções como radioatriz?
FM: Sim, porque, na verdade, muitas pessoas, todos, de uma certa forma, passaram por lá. Foi o caso, por exemplo, do próprio Fernando Torres. No início dos anos 50, o Fernando criou um programa chamado 'Falando de Cinema' - que foi feito durante um longo tempo por Fernando, com a minha colaboração. Quando nós nos casamos e fomos para São Paulo - resolvemos morar cinco anos em São Paulo -, nós passamos isso para o Shatovsky. O 'Falando de Cinema' é um Programa de criação nossa. 
Na verdade, a primeira coisa que fiz em Teatro foi um convite de uma colega do Radioteatro que se chamava Valquíria Brangatz, que depois passou a se chamar Neli Rodrigues, que fez teatro algum tempo - depois se casou com o Raul Roulien , e foram também para São Paulo, ela se formou em advogada. E quando ela se formou, juntamente com o Magalhães Graça, que também fazia parte da Rádio, a Faculdade de Direito fez uma apresentação de uma peça do Cassona - o Cassona é um autor da geração, e amigo muito próximo, do Lorca (Garcia Lorca, 1898 - 1936) - eles apresentaram uma peça chamada 'Nuestra Natascha', e precisavam de um papel de uma mocinha, que ria muito, porque era uma escola de órfãs, uma coisa assim. E então a Valquíria me indicou para o Adauto Filho, que era o diretor, um ensaiador à moda antiga, que tinha uma menina assim, assim, assim... na Rádio Ministério - eu tinha quinze para dezesseis anos -, e eu fui fazer esse teste, e foi uma hora em que eu pisei no palco de uma forma mais consciente. Aí, passaram-se os anos... eu já estava lecionando Português para estrangeiros, no Berlitz - porque eu fiz quatro anos no Berlitz, então o Berlitz me conseguiu um diploma, um documento registrado pelo Ministério da Cultura, de que eu poderia lecionar para estrangeiros, dentro daquelas circunstâncias, de cursos de línguas, não oficiais. Então, eu já lecionava Português para estrangeiros, já tinham se passado quatro anos, e, lá dentro, o Magalhães Graça, que continuava na Casa - também tinha o José Vasconcelos - eu sou dessa geração: José Vasconcelos, Jaime Barcelos, o Maga-lhães Graça, que fazia Teatro, e a Maria Jacinta, que era uma educadora, uma escritora. O sonho dela era lançar gente de talento para o Teatro, ela juntou lá uma gente para fazer 'Altitude 3200', uma peça francesa. Como tinha muita gente moça, faltou lá um papel e o Magalhães Graça me indicou - já era a Dona Esther Leão, uma ensaiadora portuguesa que trabalhou muito no Brasil. Foi uma mulher que cuidou muito das vozes de homens públicos, tipo Carlos Lacerda, um dos tantos homens públicos que estudaram colocação de voz com a Dona Esther Leão. Aí eu fui, isso já em 1950, e eu fiz esse papelzinho. A companhia durou pouco, foi um fracasso muito grande, mas aí foi onde também eu voltei a encontrar o Fernando, sério, assim todo dia, então começamos a namorar. Dessa Companhia faziam parte Nicete Bruno, Margarida Rei, Magalhães Graça, Beatriz Segall, Fernando, eu... A Companhia acabou, acabou em dez dias, mas aí a crítica tinha falado bem de mim, e aí começava já a Televisão - a Televisão tinha estreado um mês antes, no fim de 50, e eu já fui, em janeiro de 51, para a Televisão, para fazer uns sketchs, a convite. E como era a Televisão, não era todo dia - a família muito assustada com essa filha que estava querendo ir para Teatro, uma coisa que não era lá muito recomendável, e saía toda a noite, e isso era um problema dentro de casa, então a Televisão era uma vez por semana, e aí as coisas foram se acomodando. Aí eu fiquei na Televisão, na Rádio - olha bem a loucura -, na TV Tupi, que começou, e lecionava, e tive também um período na Rádio Guanabara, quando o Sérgio Vasconcellos, que também foi diretor na Rádio, foi chamado para ser Diretor Artístico da Rádio Guanabara, que era uma rádio comercial, e ele levou Alfredo Souto de Almeida, e o Alfredo levou todos nós. Passamos lá dois anos, e o Alfredo fez um concurso, quando apareceu o Chico Anísio, Nádia Maria, Sílvio Santos, eu... Mas só deixei a Rádio mesmo, quando fui para São Paulo. Acho que ainda em São Paulo eu adaptei alguma coisa para a Rádio. E fiz a bobagem de não continuar, porque hoje eu poderia ter sido aposentada pela Rádio, porque eu, certamente, trabalhei uns dez anos para a Rádio Ministério.

AO: Você era contratada? Qual o salário?
FM: Olha, nós não só recebíamos muito pouco, como não recebíamos. Nós éramos colaboradores. Às vezes nós trabalhávamos um ano para receber - a gente recebia tudo no fim de um ano, não tinha um pagamento mensal. Começou com um cachêzinho, mas como a gente começou a trabalhar muito, a gente juntou diversas possibilidades de encaixar salário, mas sempre como colaboradores. Mas acho que houve uma hora em que quem comprovasse que tinha trabalhado tanto tempo se tornaria funcionário, e eu acho que perdi essa chance, porque eu poderia estar colaborando com a Rádio até hoje, porque é a Rádio que eu escuto - a qualquer hora do dia eu estou na Rádio Ministério, na FM.
Então era um dinheirinho, não era um grande dinheiro. Agora, como eu já lecionava Português, como já trabalhava na Rádio Guanabara, como tinha pai e mãe, a minha casa - meu pai, embora modesto, mas sempre a nossa base familiar de sustentação veio dele, e de uma forma muito honesta, muito farta, a nossa mesa sempre foi uma mesa farta. Então, era muito pouquinho dinheiro. Eu podia esperar, mas tinha gente desesperada, tinham pessoas desesperadas.

AO: Quando você passou a assinar Fernanda Montenegro?
FM: Eu era locutora como Arlete Pinheiro, e era radioatriz como Arlete Pinheiro. Quando fui escrever, quando comecei a adaptar, e eu adaptei muito tempo, coisas muito bonitas, de autores importantíssimos - não bonitas porque eu fiz bonitas, elas eram bonitas lá, na mão de quem as criou -, e eu achei que era muito 'Arlete Pinheiro para cá, Arlete Pinheiro para lá', porque eu tinha tantas frentes, que aí eu inventei esse nome, para redigir. Então era: adaptação de Fernanda Montenegro, e a radioatriz era, ou a locutora, Arlete Pinheiro. E assim foi feito, e o nome que pegou foi o Fernanda Montenegro. Tanto que quando eu conheci Fernando, ele não sabia que eu era Arlete Pinheiro. Até que um dia eu disse: 'Olha aqui, eu vou te dizer uma coisa, o meu nome não é Fernanda Montenegro!' Mas aí já era Fernanda para ele, e ficou Fernanda!

AO: Fale mais da atuação de Edmundo Liz, de Pascoal Longo, dessas pessoas que foram as principais responsáveis pela dramaturgia feita dentro da Rádio.
FM: Pascoal Longo, eu tenho a impressão que ele veio também pelo 'Teatro da Mocidade', não sei se ele já era jornalista, ou estava começando a vida de jornalista. Ele tinha muita presença em adaptações, mas eu me lembro, por exemplo, que o grande idealizador dessas adaptações no campo da poesia e no campo da música era Edmundo Liz, as adaptações de textos, eu não sei se era o Edgard - como é que se chamava? - Edgard... uma pessoa inteligente, depois até foi para a Rádio Guanabara... Mas eu me lembro assim, fortemente: Tude de Souza, René Cavé, Edmundo Liz, Alfredo Souto de Almeida, Pascoal Longo, Geny Marcondes. Gente que vinha ilustrar a gente, vamos dizer: Otacílio Rainha, Dona Esther Leão, tinha um declamador chamado Severo, o primeiro nome dele eu já não lembro, era um português que 'dizia' muito bem, foi a fase dos declamadores portugueses no Rio, por causa do João Vilaré. Tinha também um médico, que vinha falar sobre todo o sistema fonador, ele devia ser um fono-audiólogo. 

AO: Vou repetir alguns nomes que você citou há pouco, para saber um pouco mais sobre eles e sobre a sua impressão a respeito deles. Primeiro, o Otacílio Rainha.
FM: O Otacílio Rainha tinha um programa de Português na Rádio Ministério, que era muito ouvido. Era um professor muito conceituado, e ele já era da Casa. Então ele começou a vir, a nos ouvir ler, enfim, a dar noções de português para a gente, como articular, como falar os 'esses', as concordâncias. Mas nós éramos muito atilados, era uma geração muito, muito presente, todos nós que estávamos lá, ou já passando para o 'Clássico' ou freqüentando o 'Científico', ou já em Faculdade, ou em cursos outros, mas já com uma base, e uma vocação para Literatura, uma vocação para o falar. Allan Lima, por exemplo... Allan Lima, que foi uma pessoa que atravessou muitos anos, era junto comigo o sustentáculo, entre aspas, do 'Casal de Reis' do programa infantil da Dona Geny Marcondes (No Reino da Alegria). Eu me lembro da pessoa do Edino Krieger, do Paulo Santos, que tinha o programa de jazz... Também lá dentro do estúdio ensaiava a 'Orquestra Afro-Brasileira', então a gente conhecia aqueles músicos que lidavam com esse processo todo. Agora, assim, perto, atuando em cima, vamos dizer, da minha área, era o Edmundo Liz, o Alfredo Souto de Almeida, que dirigia o Rádioteatro, o Pascoal Longo, que escrevia, e - quem fazia a 'Brasiliana'? Alguém fazia a 'Brasiliana', eu não me lembro agora, e nós líamos, nós fazíamos parte dos locutores do Programa 'Brasiliana'.

AO: E o Fernando Tude de Souza?
FM: Eu lidei com ele muito pouco, porque ele estava na 'estratosfera' da grande idéia, e do gabinete. Nós freqüentávamos os estúdios, o corredor. O Fernando Tude de Souza, na minha cabeça, ficou sendo um homem que tem não só a capacidade intelectual, mas a ação de pôr isso para fora, de se comunicar, e de organizar - porque eu penso que saiu dele, como discípulo direto do Roquette-Pinto, ele absorveu toda a estrutura, a formatação de tudo o que eles sonharam para uma estação educacional. Mas isso tudo estava ligado dentro do projeto do Capanema, que na realidade foi o fundador de toda a estrutura cultural brasileira. 
Aquela equipe gloriosa que ele conseguiu formar, mesmo dentro de uma ditadura 'Getulista', é um momento de grande visão nacionalista. Mas não vamos falar 'nacionalismo' - como essa palavra se deteriorou através dos anos -, não é isso, porque parece uma coisa 'fascistóide', mas não é, vamos então dizer 'nacional'. Você vai, assim, lá no Rio Grande do Sul, tem um museu com peças barrocas, do tempo das Missões. Aquilo lá tem a mão do Lúcio Costa. Aí você vai ver quem organizou isso - quem organizou foi o Mello Franco. Então você vai vendo que toda a memória nacional já estava pensada, todo o atendimento à arquitetura brasileira, e manutenção do arquivo brasileiro estava lá, e até hoje a gente vive disso. Toda a estrutura musical, que se tinha na escola - eu sou de uma geração que tinha 'Canto Orfeônico', e eu fui uma das tantas alunas que foram regidas pelo Villa-Lobos - eu me lembro do Villa-Lobos, de terno branco, regendo a meninada toda. Tudo bem, aquilo tudo era do Getúlio, que tinha o 'Dia da Raça', coisa buscada, sei lá, de Hitler, de Mussolini, mas, na verdade, era ótimo a gente, antes de entrar na aula, cantar os nossos Hinos. A gente gostava dos nossos Hinos. Na hora de se cantar a gente sabia os Hinos todos. Então, voltando - eu estou dando um panorama -, aí vem lá a figura do Roquette-Pinto, que pega essa Estação, pega este Canal, e tem o Tude de Souza, que põe em execução toda essa formatação do que deveria ser, daí para a frente, a elevação do radialista no Brasil.

AO: Com o seu fiel escudeiro, René Cavé...
FM: Com o René Cavé, ali, sustentando aquilo tudo, com uma sapiência, com uma paciência, bordando aquilo tudo. Eu, particularmente, nunca senti um clima de 'disputas doentias', nunca senti 'panelinhas', e eu vivi muitos anos na Rádio. Havia uma harmonia, dá até para a gente achar que foi um anjo que soprou naquela geração toda que forjou isso e essa Casa.

AO: E o Villa-Lobos?
FM: O Villa-Lobos freqüentava em baixo, porque dentro do corpo da Rádio tinha o Cinema Educativo. Eu conheci o Humberto Mauro, conheci o Lima Barreto. A gente tinha documentários... Antes da gente fazer um Radioteatro, a gente tinha ilustração: eles buscavam professor de História, que vinha falar. Quando a gente estreou - eu me lembro da estréia - a gente teve aulas de História sobre a 'Revolução Farroupilha', compreende? Isso é uma pena não ter mais. A gente fazia, por exemplo, um ato - porque era tudo educacional - então a gente fazia assim: 'A Assinatura da Lei Áurea', por exemplo: se tinha algum documento ou documentário, lá vinha uma explicação inteira para a gente sobre a Lei Áurea, como se deu, de que maneira. 
Eu me lembro que tem até um curta, feito pela Lídia Matos - ela tinha 15 anos, ou pouco mais, fazendo a Princesa Isabel -, é um documentário do INCE, então a gente viu aquilo. Eu estou buscando na minha memória, porque isso tudo fica lá guardado, a gente precisa buscar muito para lembrar como nos acompanhavam, diante de cada situação dramática que a gente tivesse que ler e que interpretar no Radioteatro. Aí quando você ouvia programas sobre compositores, por exemplo, você tinha uma discoteca inteira ali . Há coisa de uns quatro anos, nós fomos à Noruega, e eu tive uma emoção enorme, porque muitas vezes durante esse tempo, a gente adaptou coisas do Grieg, a vida do Grieg. E nós fomos à casa do Grieg. Botei a mão no piano do Grieg, e aquela Rádio Ministério veio inteira - Edmundo Liz, Alfredo Souto de Almeida, e eu digo: 'Olha, meus amigos, por incrível que pareça, aquela jovem, que achava que não ia dar para coisa nenhuma na vida, hoje eu estou na casa do Grieg, e a mão em cima do piano do Grieg!'. Isso são emoções e uma vivência cultural muito plena de humanidade também, porque as pessoas eram pessoas muito especiais. 
Então, voltando ao Tude de Souza, eu acho que a grande qualidade dele foi que ele foi buscar as pessoas certas para aquela coisa que estava nascendo, pessoas absolutamente aderentes, voltadas, envolvidas, e que se juntaram, não tangenciaram só, elas se integraram nessa jogada toda. Então tem um panorama de gente na minha cabeça, de redatores também. Tinha um jornalista ótimo, o Fernando Segismundo, que era um dos redatores da Casa: está na ABI até hoje. 

AO: E o Alfredo Souto de Almeida?
FM: O Alfredo era recém-saído da Faculdade de Direito, era um locutor da Casa. Tinha essa função de Diretor do Radioteatro. E ele apostava em mim porque ele me dava as coisas boas para fazer, me dava os bons papéis, e pela vida afora, se tornou meu compadre, junto com a Maria Inês, que também passou a redigir para a Casa, quando eles se conheceram. Ah, me lembrei de outro Programa: 'Cenas e Bastidores'. Durante anos fiz 'Cenas e Bastidores', com o Alfredo, aos domingos. Fui companheira do Alfredo também nisso.

AO: Em que consistia esse programa?
FM: Eram comentários, noticiário, crítica e entrevistas. Era um Programa amplo. O domingo na Rádio, não sei se era antes ou depois do Douce France, aí entrava 'Cenas e Bastidores', que tinha a resenha da semana, a entrevista da semana, as estréias da semana, as informações para a outra semana... Era um programa muito vivo, e ficou muitos anos. Foi a partir daí que o Fernando teve a idéia de fazer 'Falando de Cinema': porque tinha um programa de Teatro e não tinha um de Cinema.

AO: Todos esses programas eram 'ao vivo'? 
FM: Eu fiz tudo 'ao vivo', enquanto eu estive na Casa.

AO: Nem em acetato era gravado?
FM: Não, acho que não. Eles podiam até gravar para guardar, eu não sei, mas na hora em que ia para o ar, ia 'ao vivo'.

AO: O que você acha do Radioteatro como gênero? No Brasil, ele deixou de ser praticado, mas lá fora há toda uma tradição. O Pinter faz Radioteatro, o Beckett fazia, o Brecht fez, o Walter Benjamim, essa turma toda fez.
FM: O Radioteatro na Alemanha é uma realidade. Na França, na Inglaterra... O Rádio no Brasil ainda é o grande companheiro do homem do campo, do homem que está dirigindo, do homem que à noite não quer ficar na frente de uma TV. Com o radinho de pilha, onde você estiver, você tem o rádio do lado. 
Eu acho que o Brasil mudou muito. Não quero dizer se é para pior ou para melhor, mas sinto falta desta visão mais cultural que o Rádio tinha. Uma Rádio como a Rádio Nacional tinha uma Orquestra de Câmara, uma Orquestra Sinfônica, ela fazia programas de música sinfônica, de música popular, tinha programas de auditório, tinha um Radioteatro dela - os melodramas todos que acabaram na Televisão -, tinha um Radamés Gnattali, tinha redatores de primeiríssima qualidade, não era uma 'desova' e hoje em dia a impressão que eu tenho é que o Rádio é uma 'desova', de 'qualquer coisa', 'bota aí, bota aí'. E essa era uma preocupação desses anos 40 e 50, depois o Brasil mudou muito, e foi se tornando só o esqueleto dos acontecimentos, é uma descarnificação, eu acho.
Antes dessa Televisão avassaladora, todos os programas importantes do espectador brasileiro eram no Rádio, e no Rádio, já que eu estou falando de programação, era o Radioteatro. O Radioteatro, ele radiofonizava desde o que seria hoje o Beckett, desde o Berio - se amanhã tiver que fazer um programa sobre o Luciano Berio -, até Jararaca e Ratinho. Entende a gama? Passando por todos os países, passando por todas as culturas, e isso apenas com a voz e uma sonoplastia que sustentava, e uma contra-regragem que sustentava os ruídos. E o imaginário das pessoas - o imaginário é o ideal de cada um que era posto ali - a sua sensibilidade era toda ela tocada, e o que você tinha dentro de você, você punha na visão dessas vozes, desses sons, dessa fantasia. Então eu acho que era muito mais possível você 'culturalizar'. Hoje em dia, com a imagem, você não tem como fazer 'uma Veneza', a não ser que você vá filmar Veneza, bote o cara dentro de Veneza, mas se você faz um Radioteatro, você se diz em Veneza, faz o barulhinho de água, diz: 'Essa gôndola é linda, ou é feia, ou é...', e você já está dentro da gôndola, compreende? Então eu não sei porque é que não se faz um Radioteatro charmoso, envolvente, adulto, como se fazia naquele tempo. 

AO: Unicamente por razões econômicas: os anunciantes fugiram todos para a TV. Quem poderia garantir a sobrevivência do gênero seriam as Rádios Públicas: são programas caros.
FM: Pois é, mas por exemplo: todo domingo, desde que eu me entendo, a Rádio Ministério tem a hora da ópera, às cinco horas da tarde, não é isso?

AO: O Programa mais antigo da Rádio.
FM: Exatamente... São óperas às vezes muito difíceis de você sustentar, precisa estar preparado, precisa entender, gostar, precisa estar bem ilustrado, não só sobre óperas, mas também às vezes gostar de um determinado gênero de ópera. Por que não fazem Radioteatro? Se levam óperas inteiras, por que não levar peças inteiras, por que não fazer adaptações, por que não se ler 'Os Sertões? Por que não se pegar essas obras fundamentais da formação brasileira, da cultura brasileira, e não se faz isso em leitura, em capítulos?

AO: A Sociedade dos Amigos tem um Projeto, chamado Visão da Literatura, que é exatamente para isso.
FM: Porque, às vezes, o cara pode não acompanhar todo dia, mas o dia que ele passa por ali, interessa aquela literatura. Agora, pré-julgar que porque... então ópera também não poderia passar, não poderia passar nenhuma música sinfônica, porque não tem orquestra, a orquestra é cara, porque de alguma maneira houve uma despesa para estar em dia com o que se faz de melhor em ópera, ou em música sinfônica, ou não há um dispêndio aí?

AO: Não, o Zito Baptista traz os discos.
FM: O artista traz de casa? Não sei... Por exemplo: o Artur da Távola tem um programa maravilhoso, eu quando bato ali, eu ouço. Se ele fizesse na Televisão, talvez eu não visse, porque eu teria que parar a minha vida para ficar diante de um aparelho de televisão para ver uma orquestra tocar. Mas ele está falando, eu estou no banho, estou no automóvel, estou em algum lugar que eu possa ter um rádio, viajo, estou num hotel, se pego, mesmo que sejam 15 minutos daquilo, 10 minutos, enquanto me arrumo, dentro do meu closet - lá, tem um rádio. 
Porque especificamente eu quero ouvir uma coisa, que eu sei que eu vou me envolver com ela. E eu acho que essa desculpa de que está na Televisão, isso aí não pega. Mas então como é que você explica as outras Rádios, que têm tanta publicidade? É porque alguém ouve aquilo. E eu não acredito que uma Rádio Cultural não possa ser sustentada por um governo: isso é uma falência, isso é uma balela, isso é uma desculpa, isso é um crime, em última análise! É pressupor que aquilo não interessa mais, o que é uma presunção; segundo: dentro de um orçamento, não seria a ruína do Ministério da Cultura nem da Educação, eu acho que é apenas o eterno 'O não homem próprio no lugar devido'. Nós sofremos disso, nós sofremos sempre de uma pessoa...

AO: A 'escalação do time'?
FM: A 'escalação do time' nunca é legal, nós temos essa herança malfadada. Dentro do Processo Cultural nunca está a pessoa que deveria estar, é sempre uma definição de cargo para um atendimento político. Então, voltando a nossa 'Pré-História': não foi o caso do Roquette-Pinto, não foi o caso do Tude de Souza. E eles tinham um Ministro chamado Capanema, de grande autoridade cultural, educacional, e um homem de visão brasileira, assim, 'à flor da pele' - então veio lá de cima, compreende? A 'corte' decidiu, e todos os escalões abaixo são escolhidos de acordo com essa capacidade primeira, porque é muito difícil cada um de nós ficar aqui em baixo, lutando, porque a resposta lá de cima é sempre que não tem verba - nunca tem verba para a Cultura.

AO: Continuando a falar de Capanema:
FM: Nós temos que falar do Capanema, porque temos que falar do Roquette-Pinto, porque temos que falar de Tude de Souza, porque nós estamos falando da Rádio Ministério da Educação e Cultura! O Brasil foi organizado culturalmente, o organismo do atendimento cultural e da visão cultural, tudo isso veio a partir de Capanema. Até aí, essa República, em termos de cultura, tinha lá tudo existindo 'solto no espaço', sem entrar num sistema que pensasse o fenômeno nacionalmente. Então, todos os órgãos de atendimento cultural foram criados por uma 'penada' do Capanema - diz aí, qualquer setor de atendimento cultural e educacional. O que nós sentimos falta, hoje, é dessa 'visão orgânica'. Como isso veio num período ditatorial, sempre se põe: 'Olha, isso saiu de um cérebro ditatorial!', mas não podemos deixar de reconhecer que se hoje temos o 'Instituto disso', o 'Patrimônio daquilo', a 'Memória dali', enfim, eu ficaria aqui 'elencando' todas as ramificações da educação e da cultura, porque, até ali, eram 'bólidos' voando aí, fora de um sistema, completamente soltos. Alguém pedindo a Deus que pegasse e jogasse no terreno certo. 

AO: Como você está vendo o Rádio hoje?
FM: É um Rádio totalmente desqualificado. Tem um ou outro esforço, que morre, como foi a 'Ópus'. Tem uma Rádio muito interessante, que surgiu agora, que a gente ouve em todos os táxis, em todos os lugares, que é a 'Rádio Scala', se não me engano, que está dando atenção à música instrumental popular - é uma coisa nova. Então você vai no consultório está tocando, você vai no táxi está tocando, no elevador está tocando, tudo bem, é música ambiente, mas é uma coisa mais sofisticada um pouco, e quando eu digo 'sofisticada' eu não quero dizer 'metida a besta', não: eu quero dizer que tem uma certa sensibilização ali atrás. Porque o resto é música americana, pouquíssima música brasileira sendo tocada, e elas todas indo parar nas mãos dos evangélicos, tudo bem, a liberdade de expressão é fundamental, a de crença também é fundamental, mas é uma constatação: a rádio particular está tendendo a virar porta-voz de religiões, ou de músicas dirigidas, em última análise. Porque tudo já tem dono, então é uma imposição de cima para baixo muito violenta, nas estações. Você muda os canais, principalmente nos canais de AM, é 'muito dono', tem 'muito dono', é 'porta voz' de muitas cabeças, de muitos interesses.

AO: Você ouve a Rádio? Como você vê a Rádio, hoje?
FM: Hoje eu ouço a Rádio MEC bem, e acho, do ponto de vista musical, que ela está bem, que ela diversifica. A chamada música erudita voltou a ter um espaço importante, de novo. Houve uma época aí em que a gente não tinha mais uma programação... costumam dizer elitista, mas não é 'elitismo'. Por que elitista? Eu acho que um chorinho é tão requintado, e tão 'Mozartiano', quanto uma peça de Mozart, por exemplo. Mas eu sinto falta do 'didatismo', eu sinto falta de programas como o do Artur da Távola, que era isso muito comum nas 'priscas eras' da Rádio Ministério. Assim: 'O que é uma peça?', 'De que gênero é?', 'No que ela é melhor ou não é melhor do que a que a antecedeu, dentro da vida daquele autor?', é não dar a música, 'só a música', acho que deve ter um grande horário só de música, porque se for tudo didático vai ficar 'um porre', mas eu acho que é preciso que tenha programações de 'educação musical'... E o radioteatro... Seria maravilhoso ter um 'Horário Literário', claro, imantado por música, porque não vai fazer um programa literário 'seco', mas enquanto se está lendo, também se está ouvindo boa música.

AO:Os Sertões: como foi lido? Era 'a seco'?
FM: Não, ela era toda imantada de música, os trechos mais difíceis a gente subia a música. Foi feito em capítulos, não sei nem se foi feito todo, mas ele foi feito em grande parte. É preciso imantar a leitura, se você tem um trecho difícil, não lê ele todo, lê um trecho, sobe, introduz o segundo trecho, se for possível repete - isso não se fazia assim, mas eu estou dando um exemplo - se repete o período todo, depois... se uma Rádio educadora não faz isso, quem vai fazer? 
Os 'Autos da Devassa', do Tiradentes, está tudo lá, fazer disso um Radioteatro, não precisa escrever, está escrito, basta um apresentador e duas ou três vozes. Se é difícil você fazer um 'Hamlet', se é difícil você fazer um 'Suassuna', não se faz - mas tem muitas outras coisas que se pode fazer. As crônicas das cidades, as crônicas históricas, o material que fica, os depoimentos das pessoas, um dia em que sai uma boa crônica de um 'Veríssimo', telefona para ele, 'vamos repetir a sua crônica hoje', que não seja tão político, eu não creio que ele vá cobrar o preço de um... Dá trabalho, e precisa de gente como aquela de antigamente, que vai lá, e cata, e faz. 

AO: Como era o 'espaço físico' da Rádio? 
FM: Naturalmente que aquele edifício tinha menos 50 anos. O Campo de Santana não tinha grades, tinha bonde ainda, tinha aquele elevador - já era 'antigão' naquele tempo -, a gente saía do elevador, tinha um longo corredor, lá no fundo tinha a discoteca, tinha um estúdio, e tinha a sala do controle, não sei se ainda é assim. 
Tinha um auditório, que era onde a gente tinha as aulas - isso eu não sei se era no terceiro, não sei qual é, estou só dizendo os dois andares o que continha. Tinha um que tinha um auditoriozinho na frente, que era onde a gente tinha as aulas, tinha um palquinho ali, e no fundo daquele corredor, tinha a sala de concerto, onde ensaiava a Orquestra Afro-Brasileira, e tinha um estúdio de atendimento, no meio.. Olha, isso já são 50 anos... 

AO: Tem alguma coisa que você gostaria de dizer e que eu não perguntei ?
FM: Por que é que a gente não consegue fazer da Rádio Ministério uma coisa mais contagiante? Mais viva? Por que ter medo do atendimento cultural para o ouvinte? Porque a Estação nunca foi chata, naquela época. Ela era diversificada, tinha programas folclóricos, tinha programas de música francesa, tinha música sinfônica - a gente vai repetir tudo o que eu já disse, compreende? 
Mas eu entendo, eu entendo, porque aquilo fazia parte de um 'organismo total', e hoje a gente é muito 'pulverizado', culturalmente falando. Hoje as pessoas são 'descarnadas', em termos de visão cultural. No atual sistema o artista não é reconhecido: é reconhecido o 'produtor cultural' - o artista não tem acesso, você tem que ter uma firma, você tem que ter um produtor, ou se tornar um, e ir à luta. E isso é sempre visto através do dinheiro, através do impossível, através da dificuldade, através do atendimento de terceiros, das verbas, dos percentuais, sabe?

AO: Virou negócio...
FM: É a 'globalização'. Tudo bem, o mundo caminha, as coisas não vão ficar em 1940 e 50, não estou dizendo isso, mas o 'plano cultural', ele requer 'carne'. Até mesmo o ensino, se não vem coberto por uma camada de cultura, ele é um 'esqueleto', você ensina o cara a ler, mas ele não é solicitado além do abecedário. E a maneira como você culturalmente imanta aquele abecedário é que ele vai chegar a uma leitura num outro nível, senão ele apenas vai ler 'eva', 'ovo' - se é que ainda ensinam isso. Noutro dia eu li uma coisa muito bonita, da Dona Neuma. Ela queria, lá a moda dela, pegar a molecada e ensinar, e não conseguia. Então ela reuniu a molecada, e o Paulo Freire sem que ela soubesse bateu nela, em cheio. Ela disse o seguinte: 'Eu comecei a ensinar os palavrões: PUTA, P-U-T-A, PUTA.' E os garotos começaram a se interessar. Era pelos palavrões que os garotos diziam - e ela também era uma pessoa de dizer palavrão -, então entraram todos num acordo, e ela começou a ensinar pelo palavrão.

AO: Palavrões como palavras geradoras ?
FM: Exatamente, quando entrou na cultura do garoto, na vivência do garoto, concordando ou não com os palavrões - eu acho que palavrão não faz mal a ninguém, desde que não seja para a pessoa errada, e numa hora errada -, mas foi uma maneira de chamar o garoto para a palavra escrita, porque ele imantou aquilo de uma realidade, de uma 'carne' que lhe é própria, não é verdade? 

AO: Você emprestou o seu nome a várias campanhas em defesa da cultura, uma delas inclusive para defender a permanência do nome da Rádio MEC, e toda hora você vai a Brasília e fala com as pessoas. Qual é a média de sucesso desses movimentos? 
FM: Olha, a gente vai porque tem que ir. Mas eu sempre vou achando que é um 'ato inútil'. Mas eu faço, porque as coisas não são fáceis, e tanto se vai que, de repente, pode ser até que aconteça alguma coisa. É aquela coisa do chinês: 'lutar mais cinco minutos, pode ser que a gente ganhe a guerra'. Eu até me poupo de ir a tantos que me são solicitados, porque eu sempre penso que: 'Meu Deus, vou lá e não vai acontecer nada!', mas a gente vai. Noutro dia, houve o negócio da 'Não Violência'. Todos nós somos pela não violência, e a campanha foi uma campanha que os meios de comunicação endossaram, 'Eu quero paz, vamos acender uma vela'... Eu não acredito que aquilo vá ter um desenrolar, mas eu fui - mas não vai ter um desenrolar. Porque tem uma hora que a gente tem que nominar, a gente tem que dizer 'de quem se quer e para que se quer, ou para quem se quer'. Então, geralmente, as campanhas, elas são assim nos 'espaços infinitos'. Eu não preciso dizer para você que eu não quero violência, e você não precisa dizer para mim que eu não quero violência, mas tem uma violência aí. A gente vai porque nós estamos em acordo, mas nós temos que falar para quem não está vendo que nós estamos de acordo, então, se não se nomina para quem se manda o protesto, ele 'cai no vazio'. 
No Brasil, só tem resultados quando você nomina, quando você determina que é aquela pessoa, que é aquele setor, que é ali que a gente tem que ir, porque quando a gente fala geral - porque aqui é tudo geral -, porque quando você nomina, você puxa a pessoa do anonimato, até quando é o Presidente da República, mas você puxa ele para a roda, para a berlinda. Então como quase nunca se nomina, a gente vai apenas no esforço de ir, achando que a inércia de lá vai ser tocada por algum barulho de cá. Mas a gente vai.


© Copyright SOARMEC 1999 -2005. Todos os direitos reservados.