de Utilidade Pública Federal - Portaria no. 3935
de Utilidade Pública Estadual (RJ) - nº2464
de Utilidade Pública Municipal (RJ) - nº3048
detentora do Prêmio Estácio de Sá 2002

 

Domício Proença

Romancista, poeta, ensaísta, crítico literário, professor universitário, além de promotor cultural – criou o importante projeto da Bienal Nestlé de Literatura Brasileira – , Domício foi eleito em 2006 para a Academia Brasileira de Letras. Em 1977, produziu duas séries de programas para a Rádio MEC. Foi entrevistado em dezembro de 2010 por Adriana Ribeiro e Solange Leobons. Transcrição: Renata Mello.

Como foi seu começo no rádio?
Eu aprendi a escrever para o rádio, no rádio. Mais precisamente na Rádio MEC. Ela foi a minha escola. Eu fui à Rádio MEC como professor de português e de literatura brasileira, e comecei dando aulas de português. Era quase uma hora de rádio, acho que dava uns 45 minutos: você, o microfone e o público. E você tinha que preencher aquele tempo. Claro que eu comecei a aprender que podia introduzir música, letras de música – eu trabalhava muito com isso. Mas a primeira experiência foi muito pouco radiofônica. Mesmo assim, funcionou: a resposta foi muito boa.

Quem lhe convidou?
A diretora, na época, mulher maravilhosa, Maria Yedda Leite Linhares. Depois, ela sofreu no período do golpe militar, e ela foi fantástica. Ela montou uma equipe na rádio e, do que eu me lembro, não havia nenhuma orientação específica, nada disso. Ela não tinha, digamos, um planejamento previamente ideológico, nada disso. Então ela me disse: “Domício, você pode dar aula de português pra rádio?” – “Posso.” E eu fui lá, para dar aula de português. Ela conhecia o meu trabalho. Eu já era professor na Faculdade Nacional de Filosofia, já estava ensaiando os primeiros livros: foi com essa bagagem que eu fui pra Rádio MEC, e as aulas que eu dei foram exatamente por aí. Não estavam vinculadas a nenhuma programação previamente estabelecida, a uma diretriz que fosse seguida, nada disso. O critério foi feito por todos nós, nas áreas que a Rádio deu cursos.

Quem eram as pessoas?
Não me lembro mais, já faz tanto tempo. Sei que era o Jairo Bezerra que dava matemática. Depois veio o Projeto Minerva e eu fiz, praticamente, o curso inteiro do Minerva. Eu fazia as aulas. Foi muito engraçada essa experiência, porque eu pensava rádio, mas pensava localmente. Já no Projeto Minerva eu pensava num programa como um todo. E pensava o roteiro, a sonoplastia, a música, pensava tudo, de tal maneira que o Diretor, Avelino, e o responsável, Floriano Faissal, disseram: “Professor, por favor, o senhor vai obrigar a rádio a demitir quatro pessoas, porque o senhor está fazendo o papel de cinco pessoas: não precisa, basta o senhor fazer o seu roteiro e nós produzimos. O senhor está tirando o papel do sonoplasta, do músico, do diretor.” Mas é que eu só conseguia pensar o programa integrando todas as dimensões. Aí, aprendi que não era bem isso, e, então, passei a fazer o roteiro e botava algumas sugestões – as vezes eu não aguentava e escrevia: “entra música tal, aproveita tal música” – acabei fazendo 100 programas, o que era muito agradável de fazer.

Como era o formato do programa?
A minha escolha foi centrar o programa pensando no destinatário, que era o pessoal de supletivo de 1º grau, mais adulto. Então era uma linguagem adulta, mas num nível de acessibilidade. Entre as muitas experiências que o programa me trouxe, uma delas foi a excelente parceria com o Roberto Braga, filho do Rubem Braga, que se tornou meu amigo, que era exatamente o encarregado do script. Ele fez muito bem. A parceria era tão boa que ele não interferia no meu texto, porque eu já dava também o texto praticamente organizadinho, já dava a distribuição com os falantes. Então eu senti que na dinâmica do programa tinha que haver diálogo, e eu já previa os diálogos. E o dia em que eu acertei mesmo, tive um grande acerto, foi o dia em que eu usei metalinguagem, ou seja, um programa de rádio dentro do programa. Era uma situação em que alguém estava ouvindo o programa e fazia a crítica do próprio programa – era uma coisa meio doida. Eu me lembro de um programa que me deu uma satisfação muito grande, onde eu imaginei um motorista de táxi no ponto, na hora do almoço ouvindo a Rádio MEC, ouvindo o próprio programa de português do projeto Minerva. E um colega o interrompia e criticava:
–“O que você está fazendo?”
–“Estou ouvindo o programa projeto Minerva”.
–“Como? Projeto Minerva?”
Porque o projeto não era muito bem recebido por alguns críticos: era conhecido mais como o projeto ‘me enerva’. Então eu fazia uma coisa muito interessante – fiz, uns 2 ou 3 desses programas em que o interlocutor chegava e dizia pro colega: “Mas você perdendo tempo ouvindo isso.” E nesse programa incorporei a crítica, e o sujeito que estava ouvindo fazia a defesa do programa e convidava o amigo a ouvir e aí entrava o conteúdo do programa. Um dia eu estou no táxi e entra o programa, e eu disse para o chofer: “Aumenta que eu quero ouvir.”
– “O senhor conhece o programa?”
– “Conheço.”
– “O senhor por acaso é o autor desse programa?”
– “Sou.”
Aí, ele começou a elogiar o programa, e não me cobrou a corrida. –“Eu quero agradecer ao senhor. O senhor reconheceu a gente, o senhor fala pra gente, o senhor fala a língua da gente.” Eu fiquei emocionadíssimo com aquilo, valeu a pena. O motorista de táxi se sentiu emocionado porque a classe estava sendo reconhecida de uma maneira dignificante e dando a ele o direito de fazer a crítica do programa. Achei isso muito bom e aí passei a adotar com certa freqüência esse exercício de metalinguagem dentro dos programas.

Era melhor, mais fácil de escrever para o Minerva?
Melhor por várias razões. Primeiro porque, num programa de rádio muito longo onde você usa só a fala e um ou outro recurso, a carga de informação dos conteúdos que ele passa é pequena, ninguém retém, ninguém grava o que você informa num programa de rádio num tempo muito longo. Hoje, então, com a velocidade que a internet trouxe, com a velocidade da comunicação, com a redução, inclusive do texto, que está acontecendo com uma freqüência muito grande na internet, não sei se para o bem ou para o mal...
E uma das coisas que eu procurei fazer na série foi privilegiar o discurso, sim, mas não dar a ele o tempo pleno. Amenizar o discurso oral com as vinhetas, com as músicas, com as letras de músicas. Outra coisa também: evitei o narrador onisciente. Não era um locutor, uma locutora falando. Em alguns programas havia isso, o locutor falava e como a rádio não tinha muitos recursos, ela sempre aproveitava a prata da casa. Então você tinha o locutor, a locutora e eventualmente uma outra voz. O que era complicado. O programa era muito baratinho.

Seus scripts usavam também linguagem de radioteatro?
Sim. Eu tinha uma mania de noveleiro, de ouvir novela de rádio. Eu fui um grande ouvinte de novela de rádio: eu ouvi A ilha do pano verde com Floriano Faissal. Tinha Floriano, Roberto Faissal... Lembro da voz do Faissal, lembro o poema do Augusto dos Anjos. Eu acho que eu tinha 12 anos, 13 anos, ficava ouvindo lá na minha Ilha de Paquetá A ilha do pano verde. Floriano, em quase todos os capítulos, dizia:
“Vês! Ninguém assistiu ao formidável

Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!”

Força total, aquilo. Eu fiquei mais ligado a ele porque eu lembrei daquela voz sempre típica. Então a gente tinha um radioteatro bem interessante, que funcionava bem nessa dimensão. E com isso eu fazia motivação com radioteatro e pontuava com a locução que era uma forma de dar aula indiretamente. E a locução sempre variada, sempre dialogada pra evitar ser muito marcada. Foi uma experiência muito boa essa do Projeto Minerva.
Depois, foi uma sugestão nossa: Os caminhos da comunicação, uma série de uns 100 programas, proposta minha. Com a experiência adquirida, ficou mais fácil de fazer. Aí, era diversão, era uma coisa maravilhosa. E na esteira de Os caminhos da comunicação vieram os programas especiais, um deles com Érico Veríssimo, por exemplo.


Esse programa Os caminhos da comunicação, qual era o foco central, e como era o formato?
Era mais centrado na produção de textos, e o formato sempre utilizava letras de música popular. Porque, como era um programa de produção de textos, eu descobri que a letra de música popular contém praticamente todos os gêneros e formas. A letra de música popular tem narração, tem dissertação, tem descrição, sobretudo tem narração.Os grandes sucessos do Roberto Carlos são as narrações, as músicas do Roberto e do Erasmo são sempre historinhas, “Eu vim aqui amor /só pra me despedir/ e as últimas palavras desse nosso amor você vai ter que ouvir...” é um lamento, mas é uma história de amor. E é sempre contando alguma coisa, ou então uma descrição: “Embaixo dos caracóis dos seus cabelos o soluço e a vontade...” Reparem que coisa curiosa: comecei a perceber ali todas as modalidades de descrição, e até de dissertação: “Saudade, palavra triste, quando se perde um grande amor ...” Há dissertações reflexivas: “Se eu quiser falar com Deus...” Então, eu comecei a utilizar isso, com cartas, cartas lindas que foram desde os compositores tradicionais até Chico Buarque. Cartas, algumas, muito boas: “Meu caro amigo me perdoe por favor, se eu não lhe faço uma visita”. Também tem carta de pedido, do tipo que eu vou ouvir muito aqui na Academia:
“Ô Antonico, vou lhe pedir um favor, que só depende da sua boa vontade, é necessário uma viração pro Nestor, que está vivendo em grande dificuldade. Ele está mesmo dançando na corda bamba, ele é aquele que na escola de samba toca cuíca, toca surdo e tamborim, faça por ele como se fosse por mim. Até muamba já fizeram pro rapaz, porque no samba ninguém faz o que ele faz...”
E, aí, eu pontuava a linguagem: era uma experiência muito prazerosa trabalhar essas formas da música popular. Ao mesmo tempo, a letra da música conta a história social do Brasil, facilitava muito uma leitura com esses conteúdos na direção da história do Brasil. Um exemplo: “Patrão o trem atrasou, por isso eu estou chegando agora. Trago aqui um memorando da central, o trem atrasou meia hora. O senhor não tem razão pra me mandar embora...” Veja bem, isso é em cima das aprovações das leis trabalhistas de Getúlio Vargas. Aí você tem um fato social e a letra ajudava muito. Depois teve um outro, do Nelson Sargento, se não me engano, que dizia assim, é um samba enredo: “Getúlio Vargas, grande presidente do Brasil...” aí vinha a história do Getúlio, esse era o refrão. Um outro, muito bom, que dava pra você fazer uma bela interpretação era:
“Joaquim José da Silva Xavier morreu a 21 de abril pela independência do Brasil. Foi traído e não traiu jamais a Inconfidência de Minas Gerais...”.
Daí você falava da Inconfidência, falava da independência. As letras ajudavam muito e ao mesmo tempo me permitiam trabalhar a linguagem mais ou menos elaborada. Você pega uma letra do Caetano Veloso, uma letra do Chico Buarque de Holanda, uma letra do Gilberto Gil, que são extremamente elaboradas... Gonzaguinha é uma pletora de metáforas “Chega de tentar, dissimular e disfarçar e esconder o que não dá mais pra ocultar... explode coração.” E aí você pega um Chico “deixe em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoas e qualquer desatenção, faça não...” essa música é de matar. Uma música do Vinícius de Moraes, Serenata do adeus: “Ai, a lua que no céu surgiu, não é a mesma que te viu...” Então, com essas letras, eu fui compondo Os caminhos da comunicação e interpretando todos os gêneros, todas as formas. Foram 100 programas. Outro dia eu estava fazendo uma operação de desapego e eu tinha que jogar fora tudo que não usava, tudo que era papel velho, e aí eu encontrei os roteiros, encontrei tudo.

Não jogou fora ainda não, né?
Não, esses eu deixei num cantinho, apesar dos protestos da dona Maria. Eu tenho todos do Projeto Minerva, eu tenho tudo. Ainda tenho os manuscritos das aulas de português, porque não havia muitas máquinas nessa época: eu lia no manuscrito.


No programa Os caminhos da comunicação o senhor fazia a locução?
Não, nunca fiz locução. Mas eu me lembro muitas vezes de estar no estúdio, pra falar como entrevistado ou pra responder consultas.

Depois de Os caminhos da comunicação vieram essas séries especiais, uma das quais os romances do Érico Veríssimo, certo?
Os romances de Érico renderam 5 programas, ao todo.. Acho que fiz outra série sobre Ary Barroso, também. Era um programa que exigia uma sonoplastia comedida, as vinhetas musicais tinham de ser muito dosadas, porque o forte era o texto.

Quem eram os locutores?
Não me lembro. Era sempre uma dupla... Era uma locutora, trabalhou muito tempo na Rádio Nacional... Como é o nome dela?

A Isis de Oliveira?
A Isis eu acho que fez alguma coisa, mas não era permanente lá, essa era permanente. A Isis de Oliveira foi uma tentação pra mim. Eu tinha me apaixonado pela voz dela nas novelas. A voz dela era uma doçura, e ela sempre fazia pares românticos. Encantava nossa adolescência de 12, 13, 14 anos aquela voz dialogando com Roberto Faissal, também com voz de galã.

Essa é uma das maravilhas do rádio. Você poder imaginar o belo que lhe apetece e não o belo que alguém inventou pra você.
Exatamente. Eu chamo assim “a leitura oral”. É o que você ouve que fica, e você compartilha a mensagem, você é colaborador literalmente das mensagens. A mensagem chega a você através de uma voz que faz que você crie uma imagem bela. É um negócio fantástico, o rádio tem esse poder. E tem um outro poder maior ainda , que é uma coisa muito curiosa. Um estudioso da língua portuguesa, fazendo o le­van­tamento da pronúncia brasileira, numa tentativa de caracterizar uma pronúncia padrão do Brasil. Isso foi tentado em 1938, num congresso de língua cantada.
Pensa bem, o cantor tinha que cantar, pronunciar de tal forma que o Brasil inteiro se familiarizasse com ela. Naquela época se acreditava, e era verdade, que a pronúncia mais equidistante de todos os lugares do Brasil era a pronúncia do Distrito Federal do Rio de Janeiro, porque era a capital e vinha gente de qualquer lugar. Então, a partir daí criou-se um problema: como é que você vai cantar? Com sotaque, ou sem sotaque? Então se chegou a esse congresso. Os cantores pediram um congresso de língua cantada – acho que foi Mario de Andrade que organizou isso. E a idéia era tentar uma pronúncia mais ou menos padrão. Chegaram a algumas conclusões. Depois fizeram um outro congresso um pouco mais tarde: o congresso de língua portuguesa falada no teatro. Como o fulano ia falar no teatro? Que padrão ele ia usar? Que R ele ia usar? Que T: o T carioca? Ia comer as finais como carioca faz ou falar como paranaense? (imitando pronúncia) Nesse restaurante não tem leIte quEnte.
É uma coisa curiosa a força do rádio. Nessa pesquisa se chegou a conclusão que havia 9 pronúncias de ‘erres’, no Brasil. Mas na pesquisa chegou-se a uma cidadezinha, onde, no meio de uma pronúncia bem diferenciada, bem caipirada, surgiu um R rolado perfeito. Como é que pode? Aquele R estava descontextualizado ali. Pesquisaram e chegaram à seguinte conclusão: aquele R se devia à guerra. Porque durante a segunda guerra havia sempre um boletim da guerra que era transmitido ao meio dia e às 6 da tarde, diariamente. O boletim de notícias da guerra, nossos pracinhas que estavam lá, e o César Ladeira era o locutor oficial... E o R da comunidade era o R do César Ladeira – de tanto ouvir, as pessoas começaram a imitar o R do César Ladeira. Impressionante o Rádio. Hoje, está acontecendo com a televisão aqui e em Portugal – aqui, menos. Porque a fala na televisão, ela pasteuriza, ela é unificadora, até porque em alguns casos, me informaram, não sei se é verdade, há um manual de pronúncias que estabelece quais palavras você usa e como você pronuncia. O pessoal na redação sabe que não pode falar determinadas palavras no Brasil todo. Mas, ao mesmo tempo, a pronúncia dos locutores, a pronúncia do Bonner, da Fátima Ber­nardes, do Boris Casoy, dos ancoras, é uma pronúncia que se impõe e as pessoas tendem a imitar. E, nas novelas, é o que está acontecendo em Portugal, que levou a uma preocupação do próprio Governo português com a pronúncia. A pronúncia das novelas está se refletindo nas pronúncias comuns da comunidade, impressionante. Veja o poder da mídia, do veículo de comunicação, sobretudo a comunicação via rádio, que tem um alcance que as pessoas não imaginam. Se você pensar que um cidadão está ali e liga o rádio do carro, você está multiplicando a comunicação radiofônica pra milhares de veículos que estão transitando em todas as cidades do Brasil. Já não
estou falando do rádio quefica ali na cozinha, ligado o dia inteiro. Na minha casa de Paquetá tem um rádio na cozinha que fica ligado o dia inteiro. É impressionante: a primeira coisa que a empregada faz quando acorda é ligar o rádio. Aqui, em Copacabana, na minha casa, quase todas as empregadas, a atual não faz isso, mas as anteriores, a primeira coisa era ligar o rádio. Primeiro era o Haroldo de Andrade – elas tinham uma loucura, sabiam tudo do Haroldo de Andrade. É uma presença contínua, o rádio fica ligado o dia inteiro, as pessoas ficam ouvindo e se orientando por ali.
Eu fui convidado num determinado momento – olha que coisa mais traumatizante, de certa forma –, eu fui convidado para transformar uma rádio, que era uma rádio que atendia o público C & D, e a idéia era transformá-la numa rádio para as classes A & B. Na pior das hipóteses, B. Foi muito traumatizante. Foi uma experiência incrível. A minha função, felizmente, era só mudar a linguagem. Por exemplo, verificar o padrão de linguagem , que tipo de vocabulário, o que pode ser usado, o que não pode ser usado. Foi difícil, eu nem sei se deu certo, porque eu saí logo depois que a coisa foi implantada.

Por quê, as pessoas resistiram?
Não, a coisa foi muito séria, porque havia muito interesse em jogo. Quando eu vi o andar da carruagem eu tirei o meu time de campo. Primeiro porque eu não achei muito saudável. O trabalho em si era desafiador, mas não era agradável, e eu não sabia até que ponto aquilo ia ser bom ou mal.

Qual a sua percepção hoje do rádio como veículo educativo? Experiências como o Projeto Minerva e outras podem ter lugar hoje?
Acho muito difícil... Diante da força da Internet, parece que não, porque você tem a possibilidade de ter uma informação muito mais rápida pela rede. Você tendo um convívio com as redes sociais tão intenso, você tendo um programa muito mais rápido pela televisão – e a televisão utilizando uma dimensão que a linguagem do rádio não tem, porque, veja bem, a linguagem do rádio trabalha sobretudo com o som, com a palavra, com a música. .O rádio pode simular uma sala de aula, muitas vezes a gente fazia, até usando recursos de humor, etc. Mas uma coisa é você ouvir uma aula pelo rádio, outra coisa é você ver uma aula na televisão. E outra coisa, também: você vê que hoje em dia a educação a distância está utilizando a televisão e o reforço pela comunicação escrita. E o rádio não tem esse poder. Esse papel dos cursos de teleducação é o papel que o rádio fazia, o rádio antecipou isso. Agora, evidentemente, esse país é muito grande, e em deter­minados lugares onde a televisão não chega o rádio ainda funciona. Não acredito muito que funcione como uma educação sistemática: o poder de educação do rádio hoje é um poder assistemático. Você tem ali o fulano ouvindo o rádio no carro dele, qualquer pessoa de qualquer nível social. E ele ouve uma mensagem e se essa mensagem for didaticamente trabalhada e sutilmente apresentada, ou seja, se esse caráter didático não for ostensivo – se ele for didaticamente ostensivo o fulano desliga o rádio, entendeu? Por isso que você fazer um programa como Os caminhos da comu­nicação ainda valeria, porque teria muito do teatro, muita dramatização, muita música. Mas você fazer um projeto Minerva pelo rádio, hoje... Já naquela época era complicado. Você era obrigado a montar o telecurso, colocar lá , aquele rádio no canto da parede e as cinco horas ia todo mundo pra lá pra ficar ouvindo, e ainda assim havia boicote, reduziam a freqüência da rádio. Porque havia uma obrigação de carga horária, todas as rádios eram obrigadas a ceder um tempo para o governo fazer aquilo. E outra coisa: o governo direcionar é muito complicado. Então, no tempo de poder totalitário, de governo totalitário, o que as pessoas inteligentes fazem é passar a mensagem com habilidade – foi o que os artistas fizeram, foi o que os professores fizeram. Os professores foram muito responsáveis pela manutenção do espírito democrático do país, porque mal ou bem eles tinham uma inteligência suficiente, uma habilidade suficiente pra continuar passando os valores, no que a gente acreditava, no que a gente acredita que são os melhores valores pra nossa vida. Que são os valores democráticos, éticos etc.

O que o senhor acha da reforma ortográfica?
Eu sou favorável. Eu acho que a língua acompanha a dinâmica da cultura em que ela se insere. No momento em que o Brasil tem mais de 190 milhões de falantes com uma norma, e Portugal e os demais países que um dia foram colônias, utilizando uma outra norma – porque tinha duas normas gráficas, o que levava a problemas sérios do ponto de vista econômico, do ponto de vista diplomático, do ponto de vista pedagógico, pra dizer pouco, haveria outros.
Do ponto de vista econômico, dependia o mercado livreiro, que usava as duas ortografias. E a ortografia diferenciada, ela permitia um inter­cambio mais aberto, mais franco. Do ponto de vista diplomático, quando o Brasil pretende um assento na ONU, ou os outros países também devem ter o seu lugar no espaço mundial, esbarravam num problema, documen­tos escritos em duas grafias, que, não parece não, mas é bastante signi­icativo. Do ponto de vista econômico, ainda, o mercado livreiro, sobretudo em relação aos países africanos que ainda estão num processo de afirmação, onde a independência só começou em 75, em busca da sua própria identidade cultural, onde o português ainda é a língua oficial, embora disputando com a língua nacional. Uma grafia comum para todos é fundamental para garantir unidade na comunidade. Mais de 230 milhões de habitantes falando e escrevendo nessa língua.
Eu acho que por aí é importante, Agora: a ortografia simplifica pouco, ela unifica. Ela simplificou muito pouco. O que as novas normas fizeram? Trouxeram algumas alterações, algumas modificações, algumas substituições e muita permanência – mudou pouco. Se nós checarmos às 29 bases do acordo, pelo menos umas 5 ou 6 são as mesmas de 1943 de 1945. As outras que mudaram não são tão fundamentais, só mudaram coisas que tinham sido questionadas antes. Porque esse acordo resulta de um aproveitamento de um documento de 1975 muito bom, que, entre outras coisas, abolia todos os acentos, o que provocou uma reação absoluta. Foi substituído por um de 1986, que também modificava mas não com tanta radicalidade, mas que também não foi aceito. Olha que coisa curiosa: em 1975 os países africanos estavam acabando de se tornar independentes. Eles eram colônias portuguesas, foi difícil chegar a uma mudança. Em 1986, a inde­pendência já tinha 11 anos, os países já estavam mais ou menos estabilizados, foi mais fácil reunir todo mundo no Rio de Janeiro, e cada um disse o que queria. Então o acordo se fez com mais autenticidade, mas também não foi aceito. Houve rejeições bastante fortes, sobretudo Portugal. Aí se resolve reunir todo mundo de novo, em 1989. Chegaram a um acordo fazendo concessões. Que concessões? Por exemplo: Portugal não acentuava os ditongos em ie e oi, quando nas paroxítonas, assembléia, heróico. Porque não acentuavam? Tinham razão por não acentuar – eles não pronunciam aberto, então para eles aquele acento não tinha sentido. Então, o Brasil e outros disseram: “Está bem, tira o assento da assembléia”. Depois um acentinho bobo em vôo e poucas palavras em oo tinham um acentinho e ninguém entendia nem por que, porque não faz diferença nenhuma. “Então, está bom, vamos tirar esse acento também” – e assim, de parte a parte, chegaram todos a um acordo que foi o documento de 1989, aprovado em novembro. Reparem que coisa curiosa: o projeto simplifica, em parte, mas a ortografia não ficou unificada. Não se unifica o unificável. Por quê? Porque essa ortografia, esse projeto, ele tem fundamento muito mais fonético do que etimológico. Os outros dois tinham fundamento etimológico, mas esse privilegia o fonético em detrimento do etimológico – o que provocou evidentemente uma reação muito grande em Portugal. Preferiam que mantivesse um pouco a etimologia. O que isso significa? Significa que os brasileiros de 1943 não escreviam mais consoante muda: ninguém aqui escrevia uma consoante que não se pronunciava. Em Portugal, até o momento desse novo acordo, escreviam consoantes que não se pro­nunciavam. Por exemplo, se você for a um hotel em Portugal verá escrito lá: RECEPÇÃO, mas eles pronunciam RECEÇÃO, e o P está lá. Então, nesse acordo, eliminaram as consoantes mudas, em função das pronúncias comunitárias. Então, fica difícil você unificar uma coisa que não se unifica. Por isso houve concessões autorizando as duas formas. Então, o que unificou? Foi feito o tal do documento pra quê? Pra justificar o consenso, ou seja, todos os oito países aceitam que essa maneira de escrever valha pra todo mundo, não importa a pronúncia daquela palavra nos lugares em que ela é pronunciada. Isso é complicado? Não é não. Pensa no espanhol. A grafia é uma só, a pronúncia varia e isso não complica em nada a comunicação das pessoas.
A critica que se fez em alguns casos aqui – “Ah, mas agora nós vamos ter que usar as palavras portuguesas!”– também não tem nada a ver. Lá, eles vão continuar a subir no autocarro, e a tomar o comboio – isso eles vão continuar fazendo, isso não alterou nada, está igual. Não mexeu na língua, mexeu só na roupa das palavras, as palavras só mudaram de modelito. E mesmo assim, para todo mundo assinar, passaram-se 18 anos.

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