de Utilidade Pública Federal - Portaria no. 3935
de Utilidade Pública Estadual (RJ) - nº2464
de Utilidade Pública Municipal (RJ) - nº3048
detentora do Prêmio Estácio de Sá 2002
A SOARMEC DISCOS

 

Cleonice Berardinelli

 
  Ela é a nossa maior autoridade em Camões e Fernando Pessoa. Professora Emérita de Literatura Portuguesa da UFRJ e da PUC-RJ; Doutora Honoris Causa da Universidade de Lisboa; Visiting Professor da Universidade da Califórnia, campus de Santa Barbara; Professora Convidada da Pós-Graduação da Universidade de Lisboa; e autora de livros publicados no Brasil e em Portugal, que lhe valeram o título de maior especialista dessa disciplina no Brasil, Dona Cleo, que, desde abril, ocupa a cadeira nº 8 da Academia Brasileira de Letras, também trabalhou na Rádio MEC, durante quase 20 anos, produzindo um programa semanal. Dona Cleo, em vez de nos receber em sua casa, fez questão de visitar a Rádio, para matar as saudades e conceder esta entrevista.

Como se deu a sua vinda para a Rádio MEC?
Quem me trouxe para cá foi um amigo querido: o grande poeta Manuel Bandeira. Conversando com ele, um dia, disse-lhe que descobrira uma falha na programação da Rádio MEC – a única que ouço, desde longo tempo, por ser uma admiradora constante dos seus programas musicais e, naquele tempo, literários. Eu sabia que ele era muito amigo de Murilo Miranda, então diretor da estação, e resolvi aproveitar o encontro para lhe dizer, sem cerimônia: “Manuel, estou estranhando que a Rádio MEC tenha um belíssimo programa sobre Dante, feito por Adolfo Celli, outro sobre Shakespeare, e não tenha nenhum sobre Camões. Não acha isso mau?” Ele respondeu-me, rápido: “Você o faria?” Respondi-lhe, sem hesitar: “Claro!” “Então, aguarde”. No dia seguinte, ligou para me dizer: “Cleonice, amanhã vamos à Rádio MEC, porque o Murilo nos vai receber.”
Fiquei muito contente. Lá, à minha pergunta sobre se de fato estava sendo convidada, o diretor respondeu: “Sem dúvida. A senhora entra logo que quiser.” “O mais depressa possível” respondi.
Nosso primeiro programa foi sui generis. Fizemo-lo Manuel Bandeira e eu. Foi dele a idéia de chamar ao programa Camões, poeta de todos os tempos. Adorei o título. Durante os três primeiros meses, só falei do poeta máximo.
Numa de suas crônicas para o jornal A Manhã, mais tarde publicada no volume intitulado Colóquio unilateralmente sentimental, Manuel, parodiando-se a si mesmo, dirigia-se aos meus possíveis ouvintes, dizendo-lhes: “Meus amigos, meus inimigos. Aos sábados, às 15 horas, liguem seus rádios na onda da Rádio Ministério da Educação e Cultura, para ouvir, na voz bonita de Cleonice Berardinelli, Camões, poeta de todos os tempos”. Isso foi no ano de 1962, quando ainda não havia televisão, nem tínhamos computadores, dacti­lografando os programas em nossas velhas máquinas de escrever.
Preparei, então, o primeiro programa, seguindo a ideia de Manuel: “Cleonice, que tal se começás­semos a série com uma conversa entre nós?” Achei ótimo. Não ensaiamos nada e viemos os dois para cá, sem grande preparação. Ele começou por fazer-me a pergunta: “Cleonice, você se dispõe mesmo a fazer vários programas sobre Camões?”, e eu lhe respondi “Naturalmente, com a maior satisfação: falar sobre Camões para mim é sempre uma alegria imensa.” E aqui, na Rádio, descobriram um prefixo musical lindíssimo, que infelizmente esqueci – com ele os programas passariam a ser apresentados. Conversamos ainda mais, e ele: “Você vai começar pelo épico ou pelo lírico?” “Pelo lírico.” “Muito bem.” Aquilo me intrigou. “Por que muito bem?” “Porque, em geral, se privilegiam Os Lusíadas e esquece-se toda a poesia lírica de Camões.” “Foi por isso mesmo que eu quis começar com o lirismo, porque sei que há bastante gente que tem pelo menos noções d’ Os Lusíadas, que terá, talvez, lido um soneto ou dois de Camões, mas que nunca leu as lindíssimas canções, as elegias, as bucólicas, toda a sua poesia da medida velha, ainda com sabor de Idade Média. Depois de Camões, vieram muitos outros autores, abrangendo oito séculos de uma literatura rica e variada. Não me lembro agora quantos programas fiz, mas, se pensarmos que, durante quase 20 anos, de 62 a 82, fiz um programa por semana, tendo cada ano 52 semanas, terei apresentado, seguramente, cerca de mil. Perdi, infelizmente, os originais.


A senhora tinha experiência anterior com rádio?
Nunca. Isto é, quando tinha uns 8 anos de idade a diretora do colégio entrou na sala e perguntou: “Quantas de vocês gostariam de ler um poema na rádio?” Claro que fui a primeira a levantar a mão, porque eu dizia versos em casa, e adorava expe­riências. Quando chegou o dia, fomos, as meninas e a diretora, à única rádio que havia em São Paulo – vejam bem, isso foi em 1924 ou 25, no máximo. Era ainda a infância da radiofonia brasileira, pois a Rádio Sociedade é de 1923. Ficava situada no Pavilhão das Indústrias, numa torre que ainda lá está. Cada uma de nós disse um poema. O meu era de A. E. Zaluar, poeta hoje quase completamente esquecido. Era a história triste de um pobre passarinho que, quando pela primeira vez viu um homem, foi por ele morto com um tiro. Lembro-me ainda dos seus versos finais: “Ai, o filho das florestas / teve um bem fatal destino, / no homem que viu primeiro, / viu o primeiro assassino.” Vejam, ainda me vem à lembrança este último quarteto do pequeno e dorido poema, que me deve ter marcado a sensibilidade infantil.


Como era o formato do programa?
Era para durar meia hora: um dia na semana, às 3 da tarde, o programa ia ao ar. Eu fiz o texto e o li em voz alta, para calcular o tempo, não es­que­cendo que haveria intervalos musicais rápidos, intervalando os meus períodos; fiz marcas onde seria bom fazer as pausas, e fui gravar. Quando acabei, fiquei feliz de ver que tudo coubera dentro do tempo reservado. O técnico que fizera a gravação, Sr. Amílcar, muito simpático, perguntou-me: “A Senhora quer ouvir-se?” – eu queria, naturalmente. Eu, em geral, gravava de manhã e o programa era apresentado depois, à tarde, nos sábados.


E quantas edições o programa teve?
O camoniano? Eu tenho a impressão de que uns três meses, no mínimo. Depois, achei que seria oportuno passar a outros autores, poetas ou não. Sabia que o público da Rádio MEC tem um bom nível intelectual – o fato de escolherem a Rádio MEC já sinaliza a escolha de música de alto nível, o que se devia estender à literatura. Falei sobre prosadores, poetas e dramaturgos, em séries de extensão variada, mas a nenhum dediquei tanto espaço como a Camões; que eu me lembre, só a Eça de Queirós, muitos anos depois, e Fernando Pessoa.
Os programas eram sempre sobre poetas e escritores de língua portuguesa?
De Portugal. De vez em quando eu punha um brasileiro – Manuel Bandeira, Drummond, Cabral, é claro; e prosadores como Machado de Assis e José de Alencar.
Esses programas também geraram séries?
Sobre o Eça de Queirós, uma série de 3 meses. E fiz uma tentativa, uma espécie de provocação ao público: falei durante 3 meses sobre a Demanda do Santo Graal – novela medieval, cheia de aventuras, profundamente religiosa. O Santo Graal é a taça preciosa na qual José de Arimatéia, que fora ao enterro de Cristo, guardara gotas do seu Sangue. Depois, ela desaparecera e os cavaleiros se disputa­vam a glória de encontrá-la e levá-la a um lugar onde seria reverenciada pelos católicos, naquele tempo de devoção, não sei se mais profunda, mas pelo menos mais publicamente manifestada.
O texto original, escrito em língua arcaica, não era de fácil apreensão. Desejosa de torná-lo acessível aos ouvintes, eu lia parte de um capítulo, explicando-o miudamente, depois fazia um resumo e o explicava em língua moderna, atual, comen-tando, ao mesmo tempo, os termos arcaicos, valo-rizando-os. Eu não queria apenas contar a histo-rinha, porque só contá-la não lhe atribuiria nenhum valor literário e não ressaltaria para o ouvinte a categoria do seu possível autor. Quando cheguei ao fim, li, para encerrá-lo, a expressão latina com que se dão graças a Deus e com a qual o autor fechava a sua longa história: Deo gratias. Não havia mais nada a ler. Calei-me por segundos, e acrescentei: “É o que estarão dizendo os meus ouvintes, depois de 3 meses de Demanda do Santo Graal. Graças a Deus terminou essa Demanda...”
Acredito que alguns terão rido da minha brin-cadeira. Se já estivéssemos no tempo da comuni-cação eletrônica, talvez me tivessem chegado al-guns e-mails, mas ouvi, de alunos meus que ouviam a Rádio MEC, que tinham realmente achado graça, e talvez, entre si, tenham dito: “Deo gratias!”
Agora vou-lhes contar duas pequenas histórias, bem diversas, resultantes da recepção do programa por duas pessoas bem diferentes: uma, desconhecida; outra, um amigo muito fiel.
Meu marido tinha comprado para nós um apartamento em Copacabana, num prédio dos mais antigos. O apartamento necessitava de reparos mais ou menos sérios, entre os quais mudanças na parte elétrica. Fomos a uma pequena casa recém-inaugurada, em busca de interruptores. Lá estavam três pessoas: um homem bastante jovem – possivelmente o dono, que atendia a uma senhora – e um rapazola, que era o empregado. Enquanto este nos atendia, o mais velho olhava insistentemente na nossa direção. Fiquei cismada:“De onde ele me conhecerá?, talvez tenha sido meu aluno” – eu tinha àquela altura 36 nos de magistério e já era freqüente encontrar, por toda parte, alguém que se identi­fi­cava como meu ex-aluno.
Depois que acabou de atender, ele veio para junto de nós e disse: “Bom dia, professora Cleonice Berardinelli.” Eu perguntei-lhe: “Você me conhece, de onde?” “Estou vendo a senhora pela primeira vez, mas reconheci a sua voz da Rádio MEC.” E passou a atender-nos com imensa simpatia.
Paulo Autran dizia que ficou famoso com as crônicas que lia diariamente no programa Quadrante, pois era reconhecido, em todos os lugares, pela voz. Maria Muniz também contava coisas parecidas.
Lembro-me bem dos programas de ambos. Eram excelentes e muito valorizados por suas vozes e interpretações. A outra historinha é mais bonita e mesmo tocante. Um meu ex-aluno da Faculdade, agora colega, muito mais jovem que eu, sempre se mostrou muito meu amigo. Um dia, chegou-se para mim e disse: “Dona Cléo, queria agradecer-lhe muito.” “Agradecer o quê, Júlio?” “Queria agradecer-lhe o que a Senhora fez pela minha mãe.” Intrigada, perguntei-lhe: “Espere, Julinho, sua mãe? Mas eu não a conheço.” “Pois é, vou-lhe explicar.
A minha mãe passou a escutar os seus programas todas as semanas; foi assim que eu consegui mantê-la interessada na vida. Ela estava doente, sem poder sair da cama, tinha perdido o meu pai, sentia-se muito só. Um dia eu tive a idéia de ligar o rádio para ela na hora do seu programa. Ela nunca mais o esqueceu e toda semana ficava esperando o dia de ouvi-la. De modo que a Senhora fez o trabalho de enfermeira da minha mãe, de médica até.” Pena que eu não tenha conhecido a sua mãe, mas gostaria de tê-la visitado, porque foi uma pessoa à qual estive muito ligada, mesmo sem o saber.
Além do Eça e do Camões, que outros escritores a senhora abordou no seu programa?
Falei de Camões, de Fernando Pessoa, de Miguel Torga, com certeza; de Camilo Castelo Branco, de Júlio Diniz, também; de Antero de Quental, é claro; devo ter falado de Antonio Ferreira, contemporâneo de Camões e autor da única tragédia que se escreveu em Portugal, em língua portuguesa, Castro, cujo tema é o fim desastrado de Inês de Castro. É belíssimo o texto. Sem esquecer Fernando Pessoa, não é?
E, claro, falando de Fernando Pessoa, fala-se naturalmente em Sá-Carneiro, seu contemporâneo e amigo dileto, que se matou com apenas 26 anos. Sua obra é relativamente pequena, mas originalíssima. Além de poeta foi um ficcionista muito especial, com excelentes contos de tendência ao fantástico, dos mais instigantes da época.
Busquei a nata da Literatura Portuguesa e a trouxe para o microfone. Entre os brasileiros, falei de Manuel Bandeira mais de uma vez. Ao completar os 80 anos, ele teve uma verdadeira glorificação. Uma procissão de amigos e admiradores foi saudá-lo na José Olympio, onde fizeram uma espécie de um nicho ao alto, um espaço com uma escadinha por onde ele subiu, para receber os abraços dos amigos que a subiam também para lhe dizer coisas amigas e dar-lhe parabéns. Achei que ele estava com um ar de cansado, e lhe perguntei: “Manuel, você está cansado, não está?” Ele me respondeu: “Estou.” “Mas está feliz?.” “Muito.” “Então, está tudo bem.” Foi uma das ultimas vezes em que o vi. No ano seguinte, no mesmo dia, ele estava no hospital. Quando fui visitá-lo, encontrei-o sozinho. Apro­ximei-me do leito e disse-lhe: “Vim dar-lhe um beijo de parabéns e matar as saudades.” Contei-lhe que fizera um programa para ir ao ar no dia do seu 81º aniversário.” Ele acrescentou: “Que bom! Neste ano quase ninguém se lembrou de mim.” Insisti: “Mas eu não vou esquecê-lo nunca. Vai ouvir meu programa aqui.” E ele: “Cleonice, eu não tenho rádio.” “Mas vai ter.” Eu tinha um radiozinho azul, pequeno, bom de se ouvir na cama; levei-o para o hospital. Ele ficou radiante com a minha simples homenagem: um programa cheio de afeto e de admiração pelo poeta que ele era e é. Porque é um grande poeta, cujos poemas percorrem vastas escalas, em vários tons, que vão do mais dorido pianíssimo ao mais eletrizante fortíssimo; capaz de trazer-nos lágrimas aos olhos e, no momento seguinte, fazer-nos rir numa zombaria bem humorada dos poetas parnasianos – ele que redigiu alguns dos mais belos sonetos parnasianos da nossa literatura. Foi chamado o S. João Batista do modernismo. Mas também do modernismo fez, por vezes, troça. Seu riso, porém, não era corrosivo. No convívio com os amigos era espirituoso, um grande companheiro de longas conversas.


Dona Cleo, quem mais, naquela época, fazia programas de literatura? Cecília Meireles?
Não me lembro de programas de Cecília.... Sabe de quem me lembro com frequência? De Artur da Távola. Gravávamos muitas vezes em horários seguidos, e assim nos encontrávamos aqui. Era uma pessoa simpática, agradável, delicada; não me esqueço de seus excelentes programas.
E o Carlos Drummond de Andrade?
Com Drummond eu tive algum convívio, mas não na Rádio: nunca o vi aqui. Teríamos possivelmente horários desencontrados, pois nunca nos encontramos nesta casa, mas eu o via fora da Rádio.
E a Maria Muniz, a senhora conheceu?
Conheci-a mais através do rádio do que pessoalmente. Não sei se saberia reconhecer um retrato seu. Uma colega que conheci foi a francesa Jacqueline Laurence. Assisti ao ensaio de alguma peça de radioteatro que estavam montando, e me lembro de vê-la representando, e muito bem!
E o Adolfo Celli ?
Mais de nome e de voz do que de pessoa. Ouvir aquele italiano dele, lindíssimo, falando da Divina Comédia, era uma beleza.
Como é que era a Rádio nesse tempo?
Era sempre muito movimentada, o elevador fre­qüen­temente estava cheio. Mas eu subia para o quarto andar, mergulhava na sala de gravação, fica­va lá uns 40 minutos – era o tempo de preparação e gravação –, e despedia-me dos dois simpaticíssimos técnicos, dos quais só me lembro do nome do Amílcar. Mas era um movimento grande, corredores cheios de gente. Vínhamos assinar o ponto no dia da entrega do programa.
Todas essas séries sobre literatura portuguesa foram durante a gestão do Murilo Miranda?
Não, depois houve mais. A Maria Yedda manteve os mesmos critérios, e nós continuamos naquele bom meio em que estávamos sempre trabalhando. Eu, pelo menos, me senti sempre muito bem. Só quando mudou para um certo professor que, infelizmente, era meu colega da Faculdade Nacional de Filosofia, de que foi, desgraçadamente, diretor, é que as coisas ficaram desagradáveis e eu tirei uma licença sem vencimentos, pois era difícil convivermos no mesmo espaço.
Estamos falando do Eremildo Viana, não é?
Exatamente. Não era uma pessoa com quem se pudesse conviver, pelo menos eu ...
Mas houve alguma atitude censória aos seus programas? O que houve?
Logo de inicio, os programas, que tinham sido sempre lidos por mim, passaram a ser lidos por um locutor que, frequentemente os deturpava; depois, eu tinha que trazer o texto escrito para submetê-lo a alguém que eu nem identificava; além disso, fui forçada a substituir os meus programas sobre literatura, que poderiam enriquecer a cultura de quem os ouvisse, por outros sobre regiões de Portugal, como se eu fosse uma guia turística. Tentei fazê-los o mais possível interessantes e comecei pelo sul de Portugal, por uma viagem ao Algarve. Achei que isso talvez atraísse os ouvintes: o fato de ser uma região de praias, pedras e turistas, talvez fosse um chamariz.
Lembro-me de me ter referido também às lindas chaminés, decoradas com capricho e dizia que “as chaminés algarvias eram um dos encantos que eu tinha encontrado no Algarve.” O meu locutor leu sempre as “chaminés algárvias”, fazendo proparoxítona a palavra que eu escrevia, como era natural, sem acento na segunda sílaba. Tal leitura, que me punha absolutamente arrepiada, cada vez que era repetida, destruía toda a graça da paisagem. A essas decisões que diziam respeito ao nosso trabalho, acresceram outras ainda mais graves, tais como perseguições a funcionários de vários escalões. Tomei a decisão – já que eu tinha feito algumas reclamações, não atendidas, não cumpri­mentava o diretor ao cruzar com ele, podendo ser processada por desrespeito ao chefe dentro da repartição em que eu trabalhava –, resolvi pedir uma licença sem vencimentos e só voltei depois que o ambiente ficou saneado.
Aí a senhora retorna e retoma os programas?
Retomei os meus programas, dentro dos mesmos padrões, lidos por mim, como sempre fiz e gostava de fazer. Porque eu fazia o programa em tom um pouco coloquial com meu ouvinte e chamava a atenção para pontos de um texto, principalmente em verso, e mais, quando o poeta era difícil, como no caso de Fernando Pessoa. Nunca recebi corres­pondência, mas encontrei várias pessoas que reconheciam a minha voz e vinham conversar comigo a propósito de alguma coisa que me diziam ter aprendido ao ouvir-me ou, por vezes, para debater algum ponto por mim salientado, com o qual não concordaram inteiramente. Retomávamos assim o tom coloquial que eu desejava manter.
O formato do programa foi sempre igual, com a senhora lendo o seu próprio texto? A senhora nun­ca pensou em fazer uma mesa redonda pra discutir Camões ou outros poetas, ou usar depoi­men­tos e entrevistas de outros escritores ou de populares?
Era sempre assim, porque tudo isso que você sugeriu como possibilidades, e que teriam sido interessantes, nunca me tinha sido facilitado. Achei que era melhor ficar fazendo o melhor possível aquilo que me tinha sido proposto. E fiz assim o tempo todo.
Que fim levaram esses textos?
Vou contar-lhe uma coisa terrível. Eu tinha os programas todos guardado. Um dia, desesperei-me por não ter mais espaço para guardar nada. Peguei todos os programas, abri a lixeira e joguei-os todos nela. Foi uma decisão iconoclasta, auto-iconoclasta. Logo depois, morri de arrependimento, mas era tarde.
No Acervo da Rádio encontramos 31 dos seus programas, da série Literatura portuguesa hoje, e alguns deles sobre escritores de Moçambique.
É porque, a partir de certo momento, a literatura em língua portuguesa – lusófona, como se passou a dizer – foi sendo incrementada na África, sobretudo em Moçambique, Angola e Cabo Verde. De Cabo Verde foram os primeiros livros que adotou o Prof. Thiers Martins Moreira, na nossa Faculdade: o primeiro deles, Chiquinho, de Baltasar Lopes, eu o trouxe para meus ouvintes da Rádio, dando-lhes a oportunidade de entrar em contato com uma literatura emergente, mas já senhora de si. Não garanto, mas acho que também os fiz ouvir uma ótima cantora, Cesária Évora, natural da ilha e dotada de uma voz magnífica, que canta no crioulo de Cabo Verde, uma língua graciosa, muito bonita. Esclareço-lhes que se chama crioulo qualquer uma das línguas mistas nascidas do contato de um idioma europeu com línguas nativas, ou importadas, e que se tornaram línguas maternas de certas comu­nidades socioculturais: entre os crioulos oriundos do português, está o crioulo de Cabo Verde.

Tivemos, recentemente, a formação da comunidade de países de língua portuguesa, baseada em acordos internacionais, e passamos a conhecer, um pouco mais, literaturas que mal se conheciam. E a senhora, na década de 80, já estava trazendo isso pra nós. A senhora sabe de outros lugares onde essas literaturas são divulgadas?
Creio que, em Portugal, se encontram disciplinas de Literaturas Lusófonas em qualquer universidade onde haja cursos de Letras. No Brasil, estas disciplinas são cada vez mais estudadas. Só no Rio de Janeiro, na UFRJ, na UFF, na UERJ e na PUC-Rio, você encontra com muito mais facilidade cursos de literatura contem­porânea do que da literatura mais antiga. Acho ótimo que se fale da contemporaneidade, é essencial, mas não que professores não dêem cursos sobre autores anteriores ao século XIX.
A senhora conheceu o fundador da cadeira que hoje ocupa na ABL, não é? Eu vi no seu discurso de posse aquele poema, uma graça de poema que ele fez para a senhora, a Senhora tinha 9 anos, só faria os 10 em agosto, não é verdade?
É a pura verdade. E dou-lhe mais um acréscimo de informação: quando eu estava escrevendo o discurso, ouvi-me dizendo em voz alta: “Meu Deus, um discurso desses acaba por ser maçante: primeiro, você fala do patrono da cadeira, Cláudio Manoel da Costa; a seguir, do fundador Alberto de Oliveira; passo a quem lhe sucedeu, Oliveira Viana, um historiador que eu conhecia muito pouco; depois vinha Austregésilo de Ataíde, Antonio Calado, e, por fim, Antonio Olinto, em cuja vaga entrei. E com muita pena repeti o que já dissera outras vezes: afligia-me pensar que, para entrar na Academia, era preciso que alguém morresse: é a pura verdade. Mas lá estou e, como já disse, não me arrependo. Sinto-me bem entre os meus pares.
Como foram os seus últimos anos aqui, na rádio?
Foram inteiramente iguais aos primeiros, porque aquele intervalo, aquele hiato – e a palavra hiato me lembra, agora, ‘hiante’, aquela coisa que engole, que devora como uma goela –, aquilo passou, graças a Deus!, e voltaram os tempos amenos. Agora, depois que me aposentei, perdi os contatos diretos: meu contato com a Rádio agora é de ouvinte.
E, como ouvinte, o que a senhora acha da programação da Rádio, hoje?
Eu sinto nela revitalização de programas. Gosto de um modo geral de todos os programas, dos falados e dos musicais: são todos muito bem escolhidos. Acho que poderia haver mais programas literários.

 

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