de Utilidade Pública Federal - Portaria no. 3935
de Utilidade Pública Estadual (RJ) - nº2464
de Utilidade Pública Municipal (RJ) - nº3048
detentora do Prêmio Estácio de Sá 2002


Amigo Ouvinte - Como foram os seus primeiros passos na Rádio?

BETINHO - Eu fiz vestibular para Engenharia Eletrônica, mas passei para o 2º semestre. Ia ficar parado 6 meses, e perguntei a uma tia que trabalhava no MEC se ela me conseguia algum estágio - "Ah, tenho um amigo que trabalha na Rádio MEC, você procura ele". Que era o Heitor Salles. Eu nunca tinha ouvido falar na Rádio MEC, nunca tinha entrado em uma Rádio. E eu vim, em 1978, e conversei com o Dr. Heitor, que me ofereceu um estágio na Manutenção. Na época, na técnica era o Luís Glielmo, o pai da Lia Glielmo (ex-funcionária), que era o superintendente; o José Oscar, o pai do Cacá e da Lídia (Oscar Santiago e Lídia Costa, funcionários da Rádio), chefe da Manutenção ; e o Sr. Hamilton Reis, de suspensório, paletó e gravata, que era o meu chefe, que eu amei só de ver o cara. E na manutenção tinha o Vítor 'Português' e o Sr. Dirceu. Funcionava no 5º andar, onde hoje é o ar condicionado, e a chefia era na salinha onde era a antiga frisa do Sinfônico. Aí, o Sr. Hamilton falou: "Vamos conhecer a Rádio." E, basicamente, era o 4º andar. Tinha ensaio da Orquestra, no Sinfônico, e o Sr. Hamilton me mostrando tudo. No estúdio B, quem estava era o Serginho Langoni, uma flor de pessoa, filho do grande Langoni, um técnico famoso aí, na Rádio Nacional, que era colega nosso, aqui. E nesse dia eu entrei na transmissão e conheci o Lindolfo (Lindolfo Moreira Alves), o locutor - era a voz da Rádio Tupi - que era o primeiro locutor que eu conhecia. Aí, o Lindolfo falou e eu reconheci a voz. Eu cheguei em casa e: "Mãe, sabe aquele cara que fala na Rádio Tupi? Ele apertou a minha mão e falou comigo." Eu tinha 17 anos, e fiquei todo bobo. O Lindolfo era brincalhão. Nessa época era o maior time de locutores: William Mendonça, Maravilha Rodrigues, o Lindolfo, Estelita Lins, Anita Taranto, Linda Alves, Antônio Ivan - que era até chefe de operações na Tupi -, o Zanloni Nunes. E tinha o Sérgio Chapellin, o Cid Moreira, o Lauro Fabiano - ele lendo os textos do Ópera Completa era emocionante, a narrativa dele é demais - e ainda tinha o Paulo Santos. Era só fera. E, detalhe, nessa época, de mais novo, só tinha eu, o Ribamar e o Serginho Muniz: dos outros, o mais novo operador devia ter 57, 60 anos. O Eduardo Caetano trabalhava no radioteatro. Nessa época, o time era o seguinte: Mário Lúcio, Nélio Costa, que foi depois para a Escola Nacional de Música - ele e o Vítor da manutenção. Na transmissão era o Carlos Cardoso, o Sérgio Langoni, e, de noite, Walter Gildo. No Sinfônico, era o José Aparecido Monteverde. Tinha o Jorge Baraúna, que ficava na copiadora; e o Hilton Lousa, que era sonoplasta; e tinha o Macieira - nessa época, ele era o coordenador e o road da Orquestra. Onde hoje é o cinco e meio, é que ficavam guardadas as partituras e um monte de instrumentos. Mas, em 78, era uma sala com telhados de amianto, e no final tinha uma sala fechada, era uma grande varanda lá no fundo que era do "Esporte para Todos". E tinha uma salinha de audição com umas duas ou três máquinas, que era para as professoras avaliarem os programas. Nesse dia, eu vi também o elenco de radioteatro gravando "O Contador de Histórias". E o Sr. Hamilton me mostrando e, aí, ele foi chamado e eu fiquei lá. Estava o Floriano Faissal dirigindo o Dilmo Elias e o Edmo fazendo contra-regra. Eu nunca tinha ouvido novela em rádio, aquilo já não se fazia em lugar nenhum, e eu pensei... "Poxa, não é possível, como é que eu nunca ouvi essa Rádio?" Foi incrível, foi muita sorte que eu dei, nesse primeiro dia..

AO - Como era o trabalho na manutenção?

BETINHO - Eu ia para a manutenção, mas não conseguia parar lá. De vez em quando, tinha uma máquina para arrumar, mas ficar plantado naquela salinha era chato Tinha o Ivo, que era o auxiliar de manutenção do Sr. Dirceu e do Vítor 'Português'. Então ele andava com algodão e um vidrinho de álcool, e todo dia ele ficava rodando nos estúdios, e limpava as cabeças de gravação. A bem da verdade, as máquinas antigamente davam muito pouco defeito. Eram aquelas Ampex, aquelas Studder, até Scud - às vezes queimava um display, cabeça gasta, mas era uma coisa muito difícil, porque era full-track, e só quando a cabeça 'abria', mesmo, é que não tinha mais condição de você tocar nada nela. E também as máquinas de audição das professoras, que eram essas Akai, antigas, na salinha de audição no cinco e meio. E o Ivo também ajudava nas externas, que, nessa época, eram só Sala Cecília Meirelles e no Theatro Municipal.

AO - Como é que era esse equipamento de externa?

BETINHO - Eu fiz muita externa, e era uma desgraça, porque a mesa era aquela Langer, que tinha a alimentação por pilha - eram 16 pilhas grandes, tinha uma alça nela e você botava um monte de pilhas grandes ali. Mas a gente usava com a fonte, que era uma caixa de ferro, separada. Aí você tinha: a mesa, que pesava uns 20 quilos e mais um monte de pilhas, ou então a fonte, que era do tamanho de uma caixa de sapato, pesada pra burro, aí você interligava a fonte e levava a máquina, uma daquelas Ampex, que já pesava, só ela, outros 20 quilos, e montava numa caixa de madeira grossa, com uma alça, que devia pesar mais uns 10 quilos - só essas duas 'coisinhas', e os pedestais, aqueles RCAs antigos, grande e pesado, e um monte de cabo, e ia embora. Aí o Ivo ia com a gente. E sempre a gente ia gravar concertos, que iam ser usados em programas. Quando tinha externa, o produtor marcava - o Lauro Gomes, o Maurício Quadrio e o Antônio Hernandez - e todos iam. O Zito Baptista não ia, não. Quando a gente gravava alguma ópera ia algum assistente - às vezes ia o Macieira... O Macieira, coitado, "jogava nas onze": ele trabalhava como road da Orquestra, e como assistente de produção. Ele fazia essa parte da Orquestra e fazia essa coisa de abastecer a transmissão de fitas, e recolher as fitas que já tinham ido ao ar, essas coisas todas.

AO - Você continuava na manutenção?

BETINHO - Não, nessa época da externa não. O meu estágio não era remunerado , mas o José Aparecido Monteverde, que trabalhava no Sinfônico, de manhã, foi tirar licença-prêmio, e o Sr. Hamilton, como eu já sabia operar, falou: " Sr.Roberto, o senhor não quer ganhar um cachê -na época era cachê - para cobrir a licença-prêmio do sr.Monteverde?" Poxa, era tudo o que eu queria.

AO - Como você aprendeu a operar?

BETINHO - Eu chegava antes do meu horário para poder ver a gravação, e tinha o Danielzinho, que era assistente de produção. Eu ficava vendo o Daniel operar. E, quando tinha um intervalo entre uma gravação e outra, eu pedia para gravar alguma coisa, e começava a mexer no equipamento e acabei aprendendo. E o Sr. Hamilton já sabia que eu estava muito mais interessado em sentar na mesa do que ficar na manutenção. Foi uma maravilha. Nisso, eu já estava começando as aulas, e o horário batia certinho. Eu estudava na Gama Filho, saía daqui e já pegava o trem na Central, era uma beleza. E rolava muita coisa engraçada. O William Mendonça, por exemplo, era muito engraçado. Ele chegava às 7 da manhã, às vezes estava arrasado, aí o Danielzinho - o Daniel Mendes, esse cara era demais - ele era assistente de produção: ele trazia as fitas e os textos que tal locutor ia gravar. E o William era o que chegava mais cedo - porque ele saía daqui e ia para a JB. Ele vinha com um copinho descartável de café, e chegava, sempre reclamando, aí: "Vamos contar uma piada para relaxar, eu não gosto de começar o dia assim." E contava a piada, a mesma piada, e a gente tinha que rir, era muito gostoso; aí ele sentava, e 'dava conta do recado', rapidinho.

AO - Nessa altura você já estava gravando?

BETINHO - Já, eu já estava cobrindo a licença-prêmio do Monteverde. Mas aí, quando estava para acabar o estágio, apareceu uma verba do "Esporte para Todos", eu não sei qual era a história, e me contrataram - eu entrei e outras pessoas também. Aí eu fiquei contratado como operador de áudio. Mas, nessa época, era complicado esse negócio de cachê, porque o pagamento atrasava. Você trabalhava dois, três meses, e aí saía o pagamento lá do primeiro mês. Mas eu não estava nem aí, eu estava curtindo - isso aqui era bom demais.
Eu lembro do dia que o Sr. Hamilton saiu. O Sr. Hamilton como chefe, eu vou te contar: eu nunca vi uma coisa assim. Ele fazia tudo, e de paletó, gravata, suspensório - parecia um lorde inglês. Chegava, tirava o paletó, arregaçava as mangas e ia editar fita, ou ia gravar alguma coisa - era demais, o Sr. Hamilton. E de uma educação! Uma vez, eu não sei o que é que eu fiz, eu atrasei ou fiz alguma coisa errada, e o Sr. Hamilton veio me dar a bronca: "Sr. Roberto, esse negócio que o senhor fez não ficou bem, vamos ver se a gente presta mais atenção, para não acontecer isso de novo." Eu fiquei tão envergonhado dele falar assim comigo, que eu nunca mais fiz uma besteira. Para você ver como é que são as coisas: uma bronca do Sr. Hamilton era uma coisa assim, era um carinho, e eu aprendia, eu aprendi muito com o Sr. Hamilton. Eu chorei no dia em que ele saiu da Rádio.

AO - O quê você aprendeu, com ele?

BETINHO - Aprendi a lidar com as pessoas, a respeitar, a tratar todo mundo de igual para igual - isso é uma coisa que ele tem. Ele sempre tratou todo mundo com educação, sem afobação, sem pisar em cima de ninguém - era um cara fantástico. Eu lembro que, quando ele estave para sair, eu falei: "Mãe, o meu chefe vai embora, eu queria dar um presente para ele." E eu fui com o meu pai e comprei uma gravata, que era o que eu podia comprar, e dei em nome de todos os colegas, para não ficar sem graça de entregar. Eu chorei ali na porta do Estúdio B. Ele veio se despedir de todo mundo, cumprimentou um a um - é uma pessoa de bem.

AO - Nisso, você já estava há quanto tempo na Rádio?

BETINHO - Uns três anos. Eu já estava gravando regularmente, e fiquei na Transmissão. Antigamente tinha uma tabela: tinha uma turma que trabalhava de segunda a sexta, e outra que trabalhava só - o horário era maior - sábado, domingo e feriados. E eu fiquei um ano, mais ou menos, nesse horário de sábado. E, um dia, ligou o Sr. Hamilton para mim, num domingo: "Olha, Sr. Roberto - ele chamava todo mundo de Sr. - o Sr. Cardoso - que era o que abria a Rádio - está doente. Daria para o Sr. vir amanhã, para abrir a Rádio?" Eu disse que sim - tudo o que ele pedisse eu faria com o maior prazer - e fui dormir, preocupado. Eu cheguei cinco e meia da manhã, e bati no portão. Aí surgiu uma cabeça, lá atrás, e sumiu. Aí eu falei: "Ué, não vai abrir o portão, não?" Bati de novo, o cara botou a cabeça outra vez, e voltou. Parece piada. E eu: "Ei, dá para abrir aqui?!" Aí ele levantou, veio mais perto, era o Sr. Barbosa, e eu falei: "Dá para o senhor abrir o portão? Eu vou fazer o horário do Sr. Cardoso, o Sr. Hamilton me pediu". E êle: "Eu não tenho ordem de deixar ninguém entrar, não." E ele entrou de novo. Aí eu olhei no relógio da Central a hora passando: "Pelo amor de Deus, moço! Não vai dar tempo de botar a Rádio no ar." Ele não me conhecia porque eu fiquei trabalhando só fim-de-semana, e ele não trabalhava no fim-de-semana. Eu falei: "Moço, pelo amor de Deus, liga para a casa do Sr. Hamilton!" E ele: "Eu não vou incomodar o Sr. Hamilton uma hora dessas." E eu, desesperado. Nessa época não tinha orelhão, então eu corri para o hospital Souza Aguiar e liguei: "Sr. Hamilton, está acontecendo isso, assim, assim..." E já eram dez para as seis. "Vai ligando lá para a Rádio, que eu vou correndo daqui!" E ele: "Pode deixar Betinho". Aí eu saio correndo, chego na porta e o cara lá, trancado. Eu gritei: "Pelo amor de Deus, abre o portão. O Sr. Hamilton não ligou para você aí?" E o cara: "Ligou, mas quem garante que era o Sr. Hamilton?" E ele estava certo: no telefone, quem garante que era o Sr. Hamilton? E eu já queria pular aquele negócio, arrombar o portão, mas logo chegou o Sr. Hamilton, de carro. Ele morava na Tijuca e em quinze minutos ele chegou, me apresentou ao Barbosinha, e a Rádio entrou atrasada, às seis e quinze da manhã. Foi uma comédia.

AO - A Rádio funcionava em que horário?

BETINHO - De seis à meia-noite. O meu horário era de tarde, mas eu gostava de fazer a Voz do Brasil, porque logo depois você falava com a Rádio Nacional, com a Rádio Globo, para fechar as linhas de transmissão da Portaria 568. Era uma coisa que eu gostava mais, porque a programação era tudo 'fitão', de 2.500 pés, com programa de uma hora. Então, praticamente, era de hora em hora que você trabalhava, na transmissão - não tinha nem cartucheira, nessa época.

AO - Havia programas ao vivo?

BETINHO - Alguns, mas era muito pouco. Eu gostava muito mais da gravação movimentada do radioteatro - Magalhães Graça, Estelita, Leonardo José. E o Edmo, eu ficava maravilhado com o Edmo do Vale, fazendo a contra-regra.

AO - Como era o material de efeitos do Edmo?

BETINHO - Era uma portinha, uma escadinha, aquela caixa de brita - que até pouco tempo estava por aí - e tinha telefone, para fazer barulho de discagem. Então na hora de gravar, usava-se o ..... , e o microfone bidirecional. Os atores ficavam se revezando, cada um vinha por um lado, à medida que fosse entrando a cena. O Floriano, nessa época, já ficava lá sentadinho, cochilando, e quem dirigia, mesmo, era o Dilmo Elias. Mas eu ainda peguei o Floriano antigo, eu não peguei o Floriano só sentado na cadeira, não. Mas aquele pessoal não precisava de direção, era um time de primeira. Magalhães Graça, Leonardo José, Estelita Lins, Aymmê, e aquele menino baixinho, que fazia a voz do Robin, esqueci o nome dele, que era bom demais.

AO - Nessa época tinha o Projeto Minerva, não é?

BETINHO - Tinha. Eu peguei o Minerva e depois virou Portaria 568. Era ótimo: a gente preparava as três máquinas porque eram três programas diferentes. Distribuía um programa para a Rádio Nacional, que distribuía para algumas emissoras; para a Rádio Globo ia um outro programa. Vamos dizer: um era aula de Matemática; outro, de Português; e o outro, de Estudos Sociais, e a Rádio MEC transmitia. Algumas rádios 'linkavam' com a gente. Então eu tinha que fechar os pets, e na caixa da fita vinha o número da LP(Linha Privada), que a gente ia usar, endereçando: esse programa vai para a Rádio Globo; esse, para a Rádio Nacional… Era muito organizado. Eu gostava porque rodava aquela manivelinha do magneto e lá, na Rádio Globo, atendiam. Foi quando eu conheci o Cafuringa: "Ah, é o Cafuringa? É o Betinho, da Rádio MEC. Está chegando o áudio direitinho?" Eu adorava. Isso aqui era bom demais.

AO - E você sentia alguma espécie de segregação entre o pessoal do Projeto Minerva e o pessoal da Rádio?

BETINHO - Existia sim, porque o Projeto Minerva tinha dinheiro. Tinha recursos para as professoras irem para os estados. O "Esporte para Todos" tinha, mas a programação da AM não tinha, entendeu? Eu recebia cachê através do "Esporte para Todos", porque a Rádio mesmo não tinha dinheiro para contratar. A verba do pessoal, dos atores, saía por um outro negócio qualquer. Se uma produção da casa quisesse montar um elenco e usar, não tinha recursos. A discriminação existia, mas não entre os colegas. E existia também o pessoal que era do SRE (Serviço de Rádio Educativo), e teve uma época que fizeram uma opção. Mas, nessa época, houve uma distribuição: um monte de gente saiu da Rádio. Foi em 82, na época do Luiz Brunini, que foi quando começou a estragar a Rádio.

AO - Que foi quando a OSN saiu da Rádio.

BETINHO - Exatamente: acabou a Orquestra. Foi muito triste, foi quando saiu o Sr. Hamilton. Convidaram ele para ficar, mas eu acho que ele ficou tão desgostoso que acabou saindo, foi em 82.

AO - Como é que era o ambiente, antes?

BETINHO - O ambiente era maravilhoso, com essas professoras maravilhosas: Dona Benirá, a Yedda, a Lourdinha, a Amelinha, a Yara, a Virginia Palermo, era tanta gente...

AO - E a antiga turma da produção: Maurício Quádrio, o Paulo Tapajós, Paulo Santos, Haroldo Costa?

BETINHO - Os programas deles eram gravados, regularmente, mas as gravações aconteciam, normalmente, na parte da manhã. Eu fiquei muito tempo na transmissão, e depois muito tempo nas externas. Então, eu encontrava com eles, mas não aqui - eu gravava para programas deles, fora da Rádio. O radioteatro que eu vi, foi de ir lá 'bisbilhotar', mesmo, antes ou depois do meu horário - eu era um ouvinte dentro da Rádio.

AO - Fale sobre o período do Luiz Brunini.

BETINHO - O período do Brunini, inclusive, foi uma época em que eu fui mandado embora, mas fui em fevereiro e voltei em maio. Foi em 83. Ele entrou em 82, e fez essa devassa toda, acabou com a Orquestra e o radioteatro ficou prejudicado, porque cortaram a verba para pagar o cachê dos radioatores. Tinha alguns projetos da Portaria 568 que funcionavam, mas tinha alguns programas, que eram da produção da Educação, e não tinham verba, porque não eram da 568. O "Contador de Histórias", por exemplo, era da Portaria 568, do Projeto Minerva, mas tinha programas que eram da Educação e tinha radioteatro, também, e cortaram esses - na época do Brunini cortou-se essa coisa toda. E o processo de saída da Orquestra, também foi demorado, não saiu logo em 82: ficou uns seis meses ainda para sair. Teve uma discussão, se ficava ou se não ficava, porque os músicos teriam que optar. Teve muita gente que saiu fora. O problema maior, daquela época, foi o seguinte: ia se criar a Fundação Roquette-Pinto. Então, quem quisesse ficar na Fundação, teria de abrir mão do tempo, dos direitos do SRE, e passava a ganhar um salário melhor. Eu era 'cachê' - para mim não servia nada -, mas teve colegas, locutores, que optaram, porque não ia ter como ficar cedido, como hoje os servidores estão cedidos à ACERP. Também ofereciam - e quando criaram ACERP, também ofereceram - que o servidor pedisse licença sem remuneração, ou então se desligasse pra ser contratado como celetista. Assim, colocaram o cara na parede: "Pedir demissão do serviço público para passar a ganhar salário aqui, como celetista?" Ninguém quis, e a Orquestra acabou por causa disso. Na verdade, foi colocado isso para 'acabar' com a Orquestra, sem dizer que foram eles que acabaram. Alguns queriam, porque na verdade o salário ia ser um pouquinho melhor. Outros foram aqui para a Faculdade de Direito: foi aquela Dulce; até hoje está ali o Miguelzinho, na portaria; o Pedro, que era da portaria aqui e também está na portaria da Faculdade. Houve um esvaziamento muito grande da Rádio, como é o caso de hoje. Muita gente, muito servidor pediu transferência - foi exatamente a mesma coisa que aconteceu nessa época: foi uma desgraça.

AO - A Orquestra saiu, mas ficaram alguns músicos por aqui, durante certo tempo?

BETINHO - Tinha um negócio do Coral, que a Gulnara participava, um Coral pequeno; tinha um Conjunto de Música Antiga, que eu não sei se acabou indo para lá também. Mas não durou muito, não... E outra coisa, eu sei que não tinha dinheiro para contratar todo mundo como celetista, ou seja, a opção deles foi ir para lá mesmo, A Orquestra acabou se desmanchando porque a maioria do pessoal era idoso. Aí entrou a história de só poder contratar por concurso, entrou o negócio de só poder comprar equipamento nacional, foi uma época de desgraça da Rádio, mesmo. Então, nós, acostumados a trabalhar com máquina Ampex - que não cobrava nem manutenção, só limpar a cabeça-, e Studer, começamos a trabalhar com máquina Akai, que desafinava no ar. Foi na época do José Alberto, da manutenção, que se comprou equipamento, mas só máquina nacional, de rolo, essas máquinas Akai 4000 DS, que era a única fabricada no Brasil. A mesa que tinha que comprar era Áudio Line, e a gente trabalhava com mesa Gate - era antiga mas era uma baita duma mesa. E passou a usar microfone Leson - foi uma desgraça. Foi de 82 até 86 esse inferno. Ou seja, foi o sucateamento completo da Rádio, em termos de qualidade, os programas desafinavam no ar, o tempo todo reclamação de ouvinte - aquele gravador Akai, quando chega, vamos dizer, a fita tem 30 minutos, quando chega nos 25 minutos já começa a desafinar, e você ficava na transmissão segurando fitinha com o dedo: era uma desgraça.

AO - Isso coincide com a entrada da FM?

BETINHO - Coincide. Montaram o estúdio da FM, novinho, tudo com material nacional. Era lá no cinco e meio: logo que descia a escada, no cantinho à direita. Em maio de 83, o Argemiro, que entrou no lugar do Sr. Hamilton, como tinha uma ficha minha lá, feita pelo Sr. Hamilton, me elogiando, ou seja, pedindo que eu fosse contratado, caso houvesse chance, o Argemiro, que não me conhecia, ligou lá para casa: "Betinho, você quer trabalhar na Rádio?" O Argemiro era um cara... era uma diferença! O Sr. Hamilton não falava um palavrão, todo educado, e o Argemiro era a grossura em pessoa. Mas eu acabei me dando bem com ele. Eu voltei em maio de 83, justamente para inaugurar o estúdio da FM, que estava montado com uma mezinha Áudio Line, três maquinazinhas de rolo, um toca-discos Super Som. E o José Alberto, que era o Superintendente de Engenharia e Operações, tinha essa firma, era dono da Lys - eu não vou levantar falso testemunho, ele pode ter entrado na licitação e se dado bem, ter menor preço, e tal - mas o transmissor era Lys, o excitador de FM, o link, era tudo Lys.

AO - Qual a programação?

BETINHO - A FM funcionava poucas horas por dia. Ela ficava linkada com a AM até uma hora da tarde, e funcionava de uma até a hora da Voz do Brasil. Ás sete linkava com a Voz do Brasil e, a partir daí, seguia até meia-noite com a AM. Mas ela só tocava Paul Mauriat, e não tinha locutor - a gente ficou mais ou menos um ano assim, não tinha anunciar nem desanunciar, era só vitrolão. Ela entrou em maio de 83 e ficou até o fim do ano só tocando em experiência, com umas vinhetinhas dizendo: "Rádio MEC FM, transmitindo em caráter experimental." Aí vinham aquelas bolachonas de Paul Mauriat, botava o disco para tocar, ficava rodando algumas horas e a gente fazendo ajuste no transmissor, e mexendo nas coisas lá. Em 84 é que começaram, mesmo, a fazer uma programação específica para a FM. Aí veio aquela história: "Vamos tirar a música clássica da AM!", e veio aquela discussão de se jogar a música clássica para a FM, de botar na AM a música popular, foi daí que começou, em 84 pra 85, a ter vida própria.

AO - E já estava resolvido o problema de som da FM?

BETINHO - Não, nessa época tinha muito problema de som. Mas o Brunini, na verdade, ficou pouco tempo, mas veio mesmo para acabar. O que todo mundo dizia na época é que ele entrou para acabar com o Serviço de Rádio Educativo do MEC, o SRE. Foi ele quem colocou o José Alberto como Superintendente de Operações.

AO - Foi na época do Brunini que se pensou em fracionar o Estúdio Sinfônico?

BETINHO - Foi na época do José Alberto - não sei se era com o Brunini, ainda. Antes de se fazer o cinco e meio - tinha recursos do FNDE, acho -, ele queria montar várias ilhazinhas de edição e de montagem, como é o cinco e meio, para vender equipamento. A firma dele fabricava equipamentos, e ele ficou doido para desmanchar o Sinfônico, para montar vários estudiozinhos. Graças a Deus, alguém falou que não, e inventaram o cinco e meio. Mas enfim, deu tudo certo, ele montou e colocou equipamento dele ali, 'de cabo a rabo', no cinco e meio inteiro. Graças a Deus o Sinfônico foi poupado.

AO - Mas voltando aos primórdios da MEC FM.

BETINHO - A programação da FM, começou já com o Luiz Paulo Porto, mas o José Alberto continuou, e ficou muitos anos essa coisa de equipamento nacional, e foi uma época triste para a Rádio. Ainda tinha algumas Ampex, algumas Studer, mas era muito ruim. As mesas viviam dando problema, mau contato, vazamento, inversão de fase, o transmissor era uma porcaria - como sempre foi, até a compra desse novo transmissor, já na gestão da Regina Salles.

AO - E o Flávio Moricone?

BETINHO - A condição da Rádio só foi melhorar quando entrou o Moricone, que era durão, carrancudo, mas foi um baita de um superintendente. Ou seja, desde a época que eu estou , como Superintendente de Operações, eu passei pelo Luiz Glielmo, o José Alberto, o Flávio Moricone, o Roberto Lira, depois o Armando 'Beleza'Menezes, aí veio o André 'Tachinha', depois o 'Formiga' e agora o Renato Dias. O 'Formiga' também foi um excelente superintendente, mas, na totalidade, o Flávio Moricone foi o que mais deu ouvido às bases. Eu me lembro, porque, antes do Moricone, fizeram um projeto para refrigerar o 4º andar, o Sinfônico e o cinco e meio. Aí tem uma máquina no 4º andar, uma no 5º e uma no 6º. A máquina do 6º alimenta o cinco e meio, a máquina do 5º andar alimenta o Sinfônico - só a cabine do Sinfônico - e a máquina do 4º andar alimenta os estúdios do 4º andar, inclusive a técnica do Sinfônico. Eu fiz Engenharia Mecânica e fiz Refrigeração, aí eu fui, todo animado, fazer um projeto - porque eles tinham feito um projeto e eu não concordava - que teria resolvido o problema de barulho do estúdio e tudo. Aí eu quis participar, mas você não podia participar, era tudo meio escondido, com o José Alberto. E foi a época que eu comecei a me meter, a me interessar, saber o que é que estava acontecendo, e tentar, de uma forma meio idiota, evitar algumas coisas desagradáveis, que prejudicassem a Rádio. Mas foi uma confusão tão grande, porque eram três firmas para fazer os três projetos, cada uma montando uma máquina. Por que é que não foi uma firma só? Aí, enfim, quando entrou o Flávio Moricone e acabou esse decreto aí, ele comprou equipamento decente, comprou as máquinas Studer, as máquinas Revox.

"O meu sonho, daqui a vinte, trinta anos, o meu filho vir aqui e ver uma plaquetinha, qualquer coisa: 'Porta Roberto Monteiro'. "

AO - Acabando o decreto que inviabilizava a compra de material estrangeiro, o que é que foi comprado?

BETINHO - O decreto acabou antes, mas continuou o José Alberto, então, enquanto ele esteve aqui, a gente ficou com essas máquinas Akai, e tal. Eu acho que foi em 85 ou 86, já era a gestão do Heitor Salles, de novo. O Flávio comprou essas máquinas Revox que a gente tem até hoje, essas PR-99, ou Studer, aquela 810, que são máquinas excelentes - e você vê que com o cara não teve falcatrua nenhuma, que o cara morreu duro, e andava de carro velho, e você vê que foi um cara honesto. Era durão, chamado de 'Peito de Aço', um cara grosso. Microfones ele comprou os Senheiser, tinha comprado vários microfones Bayer, monitor ele comprou JBL, essas caixas JBL que tem, essas Control 12, que tem no Auditório. A maioria do equipamento que se tem hoje, com exceção dos MDs e daquele toca-discos Technics, é tudo da época do Flávio Moricone. As mesas Studer, aquelas DDA, do Auditório, do Estúdio B, foi tudo comprado na gestão do Flávio Moricone, que, na minha opinião, foi o melhor Superintendente que a casa já teve. O 'Formiga' também foi outro, que chegou e 'vestiu a camisa'- a saída dele foi meio estranha, eu não entendi direito.

AO - Vamos chegar lá. A época do Moricone coincide com a saída da Embrafilme (ex-INC) daqui. Fale a respeito da montagem do Auditório.

BETINHO - Até o 2º andar, tudo isso aqui era do INC, e eu tinha entrado uma vez só no Auditório. Fisicamente a sala não mudou. Aquele palco já existia, a cabine de projeção ficou - eles botaram um eucatex lá, que eu pedi para botar, quando eu era chefe de operações, porque a parede era toda nua e reverberava muito. Não tinha refrigeração na cabine, depois colocaram ar condicionado. Fizeram um projeto - a administração fazia e não consultava a técnica - e não botaram saída de ar condicionado para o auditório. Foi feita a montagem, da época do Flávio, da mesa DDA, que existe até hoje lá, com aquele rack, com as máquinas Revox. De obras não foi feito nada, apesar de que coincidiu também com a época do Roberto Parreira como Presidente da Fundação, que foi uma ótima gestão para a casa, porque foi feita nessa época a obra da parte externa do prédio, que era cheio de fio pendurado, uma bagunça, uma janela de cada tamanho. No gabinete tinha uma janela que dava lá para a rua. Então o prédio era todo cheio de puxadinhos, pelo lado de fora, canos de esgoto saindo para lá, virava para cá, pingava dali, e o Parreira, nesse ponto, foi bom para a
Rádio, pois houve essa padronização das janelas e essa recuperação da fachada toda, externa, do prédio. E coincidiu também com essa compra de equipamento, só não foi trocado o transmissor da FM, que continuou o mesmo - esse Lys continuou durante muitos anos, até a gestão da Regina Salles, quando conseguiu-se verba para comprar o transmissor atual da FM. Mas a parte interna de equipamento foi tudo trocado na gestão do Moricone.

AO - A informatização também?

BETINHO - A informática já veio bem depois, na época do Armando Menezes.

AO - Fale a respeito das apresentações ao vivo, aqui na Rádio.

BETINHO - Olha, eu vi uma vez a transmissão ao vivo da Orquestra, com o Alceo Bocchino regendo. Foi lá no Sinfônico, e a gente botou microfone e esticou cabo pelo corredor até a transmissão - que era ali no quarto andar. Tinha muito programa ao vivo, mas pequenos, com locutor apresentando. Programa musical a gente não tinha muito, mesmo depois, com o Auditório. Aí teve, bem mais tarde, o programa "Marlene Total", com a Marina e a Maura Mello, produtora e assistente. Era ao vivo, no Auditório, e enchia. Vinha a turma da Marlene, da Emilinha, veio o Braguinha, veio todo mundo - era bom demais. E tinha também os programas do Paulo Tapajós.

AO - Como eram os programas dele?

BETINHO - Eram fora do meu horário, mas eu também nunca ouvi, no rádio. Eu ouvia mesmo os programas que ele fazia para a 568, que eu trabalhei muito tempo colocando no ar o Projeto Minerva, mas esse programa era narrativo. Os musicais, que ele fazia lá onde é o Estúdio B hoje, eu não participava, não era o meu horário.

AO - E a aparelhagem de externa?

BETINHO - O Moricone modernizou isso, também. Na época em que eu fazia externa com aquele equipamento pesado, a gente gravava e colocava no ar depois, porque era o maior risco de se fazer ao vivo, porque as linhas viviam caindo, os telefones, chegava lá e não tinha as LPs. Já na época do Flávio, não - a gente fez muita coisa direto da Sala Cecília Meirelles. E bem mais recente, já bem mais próximo da Regina Salles, a gente fez muita coisa boa ao vivo - aquela cobertura que a gente fez no teatro João Caetano, já na época do Paulo Henrique. Uma vez a gente fez uma transmissão no Carlos Gomes, na época do Festival da Rádio - que época maravilhosa! - e fechamos um link, o Tachinha já era o coordenador, e eu falei: "Tacha, como é que a gente vai poder fazer para botar ponto nos repórteres?" Porque iam ter vários repórteres espalhados durante o Festival. Aí, o Tacha: "Vamos arrumar walk-mans, a gente monta o link dentro do teatro e transmite na mesma freqüência da Rádio - a gente faz uma rádio-pirata dentro do teatro, para poder ter coordenação." A gente bolou uma parafernalia - eu o Tacha e o Alcimar - e tudo funcionava. Então o cara ficava ouvindo o radinho sintonizado na Rádio MEC, dentro do teatro, um estava no camarim, o outro lá na porta, outro lá não sei onde, e pela mesa a gente tinha como ouvir eles, que a gente estava com microfone sem-fio, e saía na mesa. A gente tinha como chegar: o cara estava entrevistando alguém lá na porta, e a gente através do link que a gente montou, montamos uma antena plano-terra, para fazer uma rádio-pirata dentro do teatro, então transmitia, só que só transmitia ali dentro do teatro mesmo, então o som do ar, o cara estava o tempo todo ouvindo o som do ar, com walk-man, e aquela coisa de brasileiro mesmo: cada um trouxe o seu , o walk-man era particular de cada um, e ouvindo o retorno da Rádio e ouvia a nossa comunicação. Então, o repórter está entrevistando alguém aqui e, ao mesmo tempo, a gente avisava: "Olha, chama fulano, que fulano vai falar com o Chico Buarque, agora." Isso o cara entrevistando o outro e ouvindo. E o cara já chegava - nem a TV Globo faz isso - e falava: "Vamos agora falar com o repórter fulano de tal, que está no camarim com o Chico Buarque."

AO - E a gestão do Luiz Porto, então?

BETINHO - Eu acho que ele era irmão de um Ministro do Exército. Era uma pessoa muito educada, muito gentil, inclusive eu fiquei amigo do filho dele, nem sabia que era filho dele. Gostei dele, mas não fez nada, foi inexpressivo. Ele ficou pouco tempo, também. Tampou um buraco da saída do Luiz Brunini. Depois veio a Thaís, que já fez alguma coisa - ela já tinha um objetivo qualquer, político, eu não sei o que é que ela tinha, eu sei que ela já começou a mexer. Eu não sei nem se foi na gestão da Thaís ou se foi na volta do Heitor Salles, que veio o Moricone - esse detalhe eu não lembro, não.

AO - Voltando ao Moricone, que reequipou a Rádio.

BETINHO - Aí, de repente, ele morreu. Ficou o Roberto Lira, que era chefe da manutenção e passou para a Coordenadoria, e deu continuidade, mais ou menos, ao trabalho do Moricone.

AO - Nessa época, a Rádio passou a ter um problema de som crônico, e o Lira dizia que não era problema da técnica, mas da produção dos programas, que era precária.

BETINHO - Bom, o Lira sempre foi um 'vaselina'. Agora, a verdade é o seguinte: o nosso transmissor, que é um baita transmissor, da AM, um Harris de 100 quilowatts, só que antigo - de 1978, do ano que eu entrei na Rádio -, e o problema é que ele está montado lá em Itaóca, naquela antena triplexada, que era a Rádio Ipanema, a Rádio Nacional e a Rádio MEC.

AO - Quem operava o transmissor?

BETINHO - O nosso transmissor nunca foi operado por ninguém da Rádio MEC - quem fazia a manutenção, quem fazia as coisas era o pessoal da Rádio Nacional. Eu nunca consegui imaginar isso. Como é que uma Emissora funciona com um transmissor na mão de terceiros? É lógico: o cara, se pifarem os dois transmissores, ele vai correr atrás do transmissor que é da Rádio dele. Eu nunca entendi porque é que a Rádio MEC nunca teve, e continua não tendo ninguém no transmissor.
Antigamente, na época do MEC, a Rádio pagava uma gratificação, um adicional de 30 %, aos técnicos - eles eram contratados da Rádio Nacional. Mas aí, em 82, veio essa história de não poder pagar, que eu também não sei ao certo como era, e ficou essa guerra: o pessoal, com razão, o cara ganhava uma gratificação, o cara está lá, a Rádio dele é a Rádio Nacional, e a Rádio MEC nunca teve um operador de transmissor lá, e nem ninguém, nem um faxineiro lá.

AO - O pessoal canibalizava o equipamento da Rádio MEC?

BETINHO - Isso são histórias que contam, mas eu não duvido, porque já fui lá, várias vezes, e você vê que o pessoal vinha de má vontade, e no fundo eles tinham razão. Eles não tinham obrigação de ter que ficar, isso era um interesse da Rádio MEC, eu acho, de chegar e resolver essa questão. Contratava um técnico de manutenção e botava para cumprir horário lá, direto, tomando conta do transmissor e fazendo manutenção preventiva.

AO - E como se conseguiu recuperar o transmissor?

BETINHO - Foi na época da Regina, que se conseguiu dinheiro para reformar o transmissor. O Lira reformou, e teve uma época em que ficou muito bom o som da AM. Mas é aquela história: precisava era comprar um transmissor novo e desvincular da Rádio Nacional, a não ser que se tenha um técnico permanentemente lá. E um dos motivos da saída do Formiga foi essa confusão que teve no transmissor, de 'rixazinha' da técnica de lá com o pessoal daqui, eu não sei o que aconteceu, e até hoje não temos nenhum pessoal lá, e tem que ter.

AO - Ganhando um salário.

BETINHO - Exatamente. Não dá pra ficar dependendo dos funcionários da Rádio que realmente vestiam a camisa, ou seja, que se davam por inteiro para fazer essas coisas - o Formiga foi um que entrou há pouco tempo, o cara se deu, mesmo, para a Rádio, mas não conseguiu. A vinda do Renato Dias, agora, eu acho que foi uma tentativa de contornar isso, porque o Renato Dias era da manutenção da Rádio Nacional, e ele tem um diálogo com essas pessoas. Mas eu não acho que seja uma solução.

AO - Qual seria a solução?

BETINHO - Eu achava que tinha que enfrentar esse problema de frente, mesmo. O transmissor é um bom transmissor. Se ele estiver com a manutenção em dia, tiver peças de reposição, ele vai funcionar, como funcionou um bom período, na gestão da Regina Salles. Mas por quê? Conseguiu-se dinheiro, se trocaram várias peças, o Lira fez a manutenção - que ele é um bom técnico de transmissor - e funcionou. Agora, de lá para cá, não se tem ninguém lá, realmente é muito difícil. O Formiga tentou, suou a camisa para tentar resolver a questão do transmissor e não conseguiu, e eu acho que foi um dos motivos porque ele quis sair daqui, também.

AO - E o 'apagão" das fitas, você lembra desse período e você sabe por que é que isso aconteceu?

BETINHO - Olha, eu não lembro que gestão que era. Eu sei que ficamos mais de dois anos - era aquela questão da falta de fitas, isso foi uma tristeza. Eu copiei muita coisa para fita K-7, e o que me deixava mais triste era o seguinte, eu falava: "Tem que copiar esse negócio, já que tem que copiar, eu vou copiar com o maior carinho!" Eu media, editava o áudio, copiava para K-7, aí eu pegava e alinhava o K-7 direitinho, para tentar pelo menos, ajustava direitinho, eu fazia isso, para no mínimo, já que vai copiar para K-7, vou copiar bem... Botava flat, com o maior cuidado, via o tipo de fita, se era normal, se era cromo, para pelo menos guardar da melhor forma possível. Mas a maioria dos colegas - que já não eram mais aqueles da Mayrink Veiga, da Rádio Nacional - pegavam, e como era cópia, era a 'hora do café', dava 'play-rec', soltava, o nível que viesse vinha, se o canal direito está mais alto que o esquerdo ou se a fita é de cromo e está para normal, já foi. Então foi uma coisa, assim, que me deu muita tristeza, eu via que a gente estava perdendo um monte de coisas. E, com certeza, a hora em que for pegar essas fitas, vai ter muita coisa que vai estar desafinando, vai ter muita coisa que vai estar sem nível - eu acredito que uns oitenta por cento... Foi uma ignorância. Uma empresa não pode funcionar sem ouvir o que é que os técnicos têm a dizer. Uma direção não pode chegar e tomar uma decisão dessas sem consultar. Será que valeu a pena? Era preferivel ficar sem gravar, até a gente ter dinheiro para comprar fitas. Nem que ficasse seis meses tocando 'vitrolão', era preferível do que fazer uma coisa dessas.

AO - Você tem idéia de quantas fitas foram nessa?

BETINHO - Olha, é muito. Porque foram mais de dois anos copiando, todo dia tinha pilhas de fitas rolo e de K-7 para copiar - sempre que tinha horário vago de estúdio tinha cópia para fazer. Mas foi muito, mesmo. E tinha estúdio que era só para fazer isso, tinha operador que vinha à Rádio, vamos dizer, que não trabalhava nem no Estúdio A nem no B, ficavam naquelas montagens, lá em cima, seis horas por dia só copiando fita. Uns dois operadores, em dois horários, só de copiagem de fitas, todo dia, mais de dois anos, faz as contas. Em seis horas você copia cinco programas de uma hora; em dois períodos, seriam dez programas de uma hora por dia, por mês já seriam trezentos programas, bota isso vezes dez meses seriam três mil programas - é muita coisa.

AO - Depois do Luiz Porto, veio a Dona Thaís, não é?

BETINHO - A Thaís, eu sinceramente, eu não tenho mais o que falar dela, não. Ficou pouco tempo e passou. Acho que ela mexeu na programação, foi quando entrou, eu acho, o João Henrique.

AO - Quando o Heitor entrou, a superintendência e a Direção de Programação era do Allan Lima. Depois, com a saída do Allan - numa história que eu não entendo até hoje - entrou o João Henrique, escolhido pelo Roberto Parreira.

BETINHO - Eu acho que a grande mudança que teve mesmo de programação, de formato da FM, foi o que aconteceu na época do João Henrique. Que, falem o que quiserem, mas ele mexeu mesmo nessa coisa. O João Henrique era um assistente de produção da casa, que entrou pisando numa porção de gente, mas eu acho que foi a partir dele, da gestão do Parreira até a gestão da Regina, que a Rádio viveu um dos melhores momentos, em termos de produção. Aquela coisa que tinha praticamente acabado, de radioteatro, voltou muita coisa. E, mais tarde, o FESCAN, o Festival da Rádio, tanto da AM quanto da FM, a contribuição que a Gizélia Fernandes também deu, na produção do Concurso Talentos Rádio MEC.

AO - E o Paulo Salgado?

BETINHO - Eu fiquei conhecendo, mesmo, o Paulo Salgado, por causa da Nízia Nóbrega. Tem uma história gozadíssima, com ela. Eu estava na transmissão, ainda, e a Nízia Nóbrega era irmã do Ministro da Aeronáutica, e ela era grossa, mesmo. E eu estava no fim de semana, fazendo a transmissão, e colocava as fitas: tinha um roteiro da programação e as fitas, empilhadinhas. Eu tinha acabado de fazer 18 anos. Eu pegava as fitas, colocava no ponto, tinha três máquinas, e eu fazia assim: ficava lendo jornal ou estudando e, de hora em hora, disparava as máquinas. Só que eu vacilei e na hora de colocar na máquina, eu troquei o programa dela por um outro lá, e botei no ponto errado. Quando deu duas horas, eu tinha que soltar um outro programa, e eu disparei o programa dela. E quando foi duas e dez, duas e quinze, toca o telefone: "Ah, o programa está errado! Tira esse programa do ar agora!" Aí, eu falei: "A senhora me desculpe, eu soltei errado, mas eu não vou poder tirar agora." Porque o próximo programa tinha uma hora de duração e o outro tinha uma hora, se eu interrompesse aquele para trocar ia atrasar a programação em 20 minutos. E ela: "Eu ordeno que tire! Eu ordeno!" Aí eu falei: "A senhora vai me desculpar, mas eu não posso fazer isso!" E ela: "Eu vou falar com o meu irmão, que é ministro e você vai para a rua!!" Aí desligou. E eu fiquei triste porque errei, foi uma boçalidade minha mesmo.
Aí eu aprendi, essa é uma das coisas que eu aprendi na Rádio MEC. Na época, o Superintendente de Programação era o Paulo Salgado, que era homosexual, e eu era o estereótipo do machão, moleque, um boçal. E olha só o que é que a Rádio fez comigo: eu peguei - eu faço questão de falar isso por causa do Paulo Salgado - eu peguei o livro de ocorrências e botei que por culpa única e exclusivamente minha, o programa que deveria ir ao ar tal hora, coloquei invertido e tal, e assinei. Aí, vim trabalhar arrasado, segunda-feira, e todo mundo: "Ih, Betinho, você tá ferrado!", desde a portaria até lá em cima. E eu cheguei na portaria: "O Paulo Salgado quer falar com você." Aí eu fui lá. Quando eu estou entrando no corredor, eu vi a Nízia Nóbrega passando, e eu pensei: "Ela deve ter ido falar com o Paulo Salgado!" E, quando eu entrei, ele estava sentado na mesa e eu vi o livro de ocorrências em cima da mesa. Ele se vira e: "Você é que é o Roberto? Você sabe quem é essa senhora que saiu daqui? Ela chegou e pediu seu nome e eu mandei pegar o livro de ocorrências. Mas depois que eu li o que estava escrito, eu resolvi não dar". E ele se levantou, apertou a minha mão, e falou assim: "Eu tenho prazer de estar apertando a mão de uma pessoa honesta! Espero que você seja assim a vida inteira!" E graças a Deus, eu acho que eu consegui ser honesto, e continuo sendo honesto assim, graças ao Paulo Salgado. Eu me despi de todo e qualquer preconceito a partir daquele dia. Foi preciso uma pessoa que eu colocava à margem da sociedade, por uma opção sexual dele, ele e todos os outros, ou seja, foi preciso um cara desses me ensinar, me dar uma lição de vida, que eu não vou esquecer. Eu queria até saber onde ele anda agora?

AO - Faleceu há uns 10 anos.

BETINHO - Pois foi uma das grandes figuras da Rádio MEC. Foi um grande homem. Ele, o Mário Dias. O Mário Dias foi um exemplo de funcionário público. Quem conhece um homem desses não pode chamar funcionário público de vagabundo. Poxa, o Mário Dias, o cara era um sábio. Uma das pessoas que eu mais admirei aqui dentro da Rádio.

AO - Quais foram elas?

BETINHO - O Sr. Hamilton Reis, que eu nunca vou esquecer. Eu acho que a minha personalidade, acho que o que eu sou eu devo a Hamilton Reis, ao Paulo Salgado e ao Sr. Mário Dias. O Mário Dias me fez ter orgulho de ser funcionário público. Eu tinha orgulho de ser funcionário público e de não faltar ao serviço. Eu não sei se você sabe, até a criação da ACERP, eu nunca faltei um dia à Rádio, eu já vim trabalhar aqui com febre, caído de moto, entrevado, todo arrebentado, com o pé enfaixado - nunca faltei em 20 anos de Rádio, até a criação da ACERP. É verdade. Eu me orgulhava disso até o Fernando Henrique virar e falar que funcionário público é vagabundo. Sinceramente, eu estava moldando a minha personalidade. E graças a Deus eu me cerquei, tinha onde me espelhar, tinha o Hamilton Reis, tinha o Paulo Salgado, que me deu uma lição assim... e o Mário Dias, que era demais - que homem organizado, que funcionário! Eu tenho muita saudade dessas pessoas, é difícil você encontrar gente de bem, gente do bem e para o bem. Eu acho que é isso que faz a gente viver, faz a gente agüentar essa violência, esse mundo desgraçado que tem por aí . Era gente de bem, que gostava da Rádio, que sabia te respeitar, eu aprendi muito. Você é um. O que você fez e faz ainda pela Rádio, para tentar salvar, manter viva a chama do Roquette-Pinto aqui dentro, não tem preço. Você se dispor a passar por isso tudo que você passa, se desgastar pela Rádio. Você, Paulo Salgado, o Sr.Hamilton, Mário Dias, esse pessoal, são os meus espelhos. Eu já estou mais da metade da minha vida aqui dentro da Rádio, eu vou fazer 25 anos aqui dentro, e, o que eu sou hoje, se as pessoas me respeitam, se as pessoas me tratam bem, eu acho que tinham que agradecer a esse pessoal, a vocês. Isso aqui era uma família, como isso aqui era bom, é uma pena. Agora está todo mundo passageiro demais, antigamente eu conhecia todo mundo na Rádio, do faxineiro ao presidente da Fundação eu me dava com todos. Hoje, tem um monte de gente que eu não conheço.

AO - E o jornalismo?

BETINHO - O Jornalismo na Rádio era inexistente. Tinha o Santana e tinha um coronel da reserva. Era um jornalzinho de fazer notinha cultural - era triste. Foi na época da Lurdinha que o Jornalismo realmente cresceu. Na entrada dela, foi criado aqui no 2º andar o Jornalismo, que ganhou uma mesa da Embaixada americana, que até foi a SOARMEC que conseguiu. Foi uma mesa Gate e uma série de equipamentos, e montou-se um estúdio muito bom, ocupando o espaço que o Acervo ocupa, hoje. Foi a primeira vez que se teve Jornalismo na Rádio, funcionando efetivamente. E fizemos coberturas, o Sanz era também editor do jornal, foi a primeira vez que vieram trabalhar grandes jornalistas aqui -pelo menos que eu tenha visto. Isso aí é uma coisa importante de ser falada, esse surgimento do Jornalismo. Não era para ter acabado. O Jornalismo cresceu muito... e deu vida à Rádio, não sei o que é que aconteceu que agora acabou.

AO - E a educação?

BETINHO - A programação da Educação começou a cair porque ficou voltada para as Ondas Curtas, e o próprio rádio de Ondas Curtas foi acabando, tinha um destino já, predestinado a morrer, porque a partir daí começaram a surgir um monte de meios: veio Internet, veio televisão a cabo, veio antena parabólica. E a Maricéia (Drumond, última chefe do Setor Educativo) queria comprar um transmissor de Ondas Curtas - coisa que, na verdade, atenderia muito pouca gente. Eu não sei, mas a Educação acabou mais ou menos por conta disso, poderiam ter se escolhidos outros caminhos. Eu achava que se devia trabalhar em cima mesmo da AM e da FM - as Ondas Curtas, naquela época, eu já achava que era uma luta perdida.

AO - Fale dos produtores que você viu trabalhar aqui.

BETINHO - Ah, tinha a Noemi Flores, que era uma pessoa incrível, ainda é; a Helena Theodoro, que é demais, eu gosto muitodela; a Gizélia Fernandes - são pessoas que a gente sente saudades. E a Lílian Zaremba, que sempre foi a pioneira, e sempre foi sub-utilizada. A Líliam é uma pessoa inteligentíssima, é impressionante como é que nenhuma direção que passou por aqui soube explorar essa coisa que a Líliam tem: ela experimenta. Eu acho que a Líliam é uma pessoa capaz de criar uma nova linguagem para o rádio, de repente, para ressuscitar o rádio, tirar o rádio - não só a Rádio MEC, mas o meio de comunicação - da inércia que ele vive hoje. Mas é aquela história, hoje em dia as rádios não têm mais recursos para bancar bons profissionais, que resolvam essa questão do rádio como veículo. E a Líliam é uma, você também é outro, o Lauro Gomes, o Zito Baptista. Reúne e fala assim: "Gente, descobre uma fórmula mágica, uma nova linguagem para o rádio, uma forma da gente se comunicar, da gente passar cultura, informação!" Ou seja, uma outra linguagem que desperte o interesse da população para o rádio. O jornal existe há 'milhões de anos' - quer coisa mais chata do que ficar sujando o dedo, virando página, com aquele negócio enorme? - e todo mundo lê jornal. Por que é que ninguém pode continuar ouvindo o rádio?

AO - Você relacionaria outros produtores marcantes?

BETINHO - Ah, o Paulo Santos, com os programas de jazz, que também foi outra figura inesquecível. O Paulo Tapajós, o Paulo Alberto - eu montei muito programa dele. E tinha o Miguel Proença, o Ricardo Cravo Albin, o Isaac Karabtchewsky. O Karabtchewsky vinha uma vez por mês, e o pessoal falava: "É fantasma..." Mas fazia um programa de música clássica que era demais. Eu sempre tive contato com música clássica, mas eu nunca tive educação musical - até a minha mãe tentou, mas eu não quis saber . Então, o Isaac tinha um programa, que eu montava com ele - ele gravava uma vez por mês, mas gravava 12 programas, para o mês inteiro. E ele chegava e explicava, vamos dizer, a coda, e ele tocava, explicava o que é que era uma coda, e chegava e tocava um pedaço e, enquanto abaixava em BG, ele falava: "A partir desse momento começa a coda, o momento em que o maestro faz isso e faz aquilo, os músicos fazem aquilo." Aí explicava o porquê dos movimentos - era um programa educativo, e não era maçante. Muita coisa que eu aprendi foi com essas pessoas. Tinha o Antônio Hernandez, que tinha uns programas bons, mas eu gostava mesmo era dos textos da ópera, do Zito, lidos pelo Lauro Fabiano - aquilo era muito bom...

AO - Do final do período do Heitor, até o Luiz Sanz, tivemos várias direções-tampão: passando pelo Fajardo, que nem assumiu direito, depois Marcia e Maria Angélica. Nesse período, se informatiza a Rádio e se compra equipamento para o Sinfônico, não é?

BETINHO - Nesse período você tinha muito mais acesso ao gabinete do que na época do Heitor. Foi a época que eu comecei a participar mais dessas questões - eu me metia na compra de equipamento, eu me metia em negócio de refrigeração, eu já questionava. O Moricone dava essa abertura, e com a Márcia, com a Maria Angélica, a gente teve um pouco mais de abertura - começou a se abrir o gabinete. Era uma coisa muito fechada o gabinete. Era aquela coisa de repartição pública, mesmo, ficava o paletó lá - quando você queria falar com alguém você ficava duas horas sentado na cadeira. E a Rádio deixou, mais ou menos, de ser assim. E mesmo hoje, você não pode dizer que o gabinete não seja aberto aos outros funcionários.

AO - Fale sobre o novo equipamento.

BETINHO - A questão da compra da mesa e do equipamento do Sinfônico já foi na época do Sanz. Parece que foi uma verba do FNDE e, nessa época, o Diretor de Engenharia da TV era o Orestes. Chamaram o Sólon do Vale para fazer um projeto de acústica dentro da técnica do Sinfônico; se questionou de novo aquela história de avançar dois metros para dentro do estúdio. Depois teve uma coisa de puxar o estúdio, avançar dois metros - o Sólon também veio com essa idéia, que eu também fui contra. Aí, na época do Sanz, era o Roberto Lira o coordenador, e o Sanz - que na minha opinião fez uma gestão muito aquém do que eu esperava - detonou o Roberto Lira, e trouxe o Armando Menezes para a Rádio MEC. Nessa época, eu já tinha uma aproximação maior com o Sanz, e questionava mesmo, ia e discutia. Nós tínhamos um monte de equipamento comprado na época do Flávio Moricone, e um monte de equipamento encostado, e o Armando veio com um papo de querer padronizar tudo com máquina Otari. E o Sanz ficou até meio melindrado, porque eu batia de frente com o Armando. O Sanz foi colega de trabalho nosso, aqui no Jornalismo, e eu tinha intimidade para chegar e falar, e eu achei que foi feito muita coisa errada. E uma das coisas erradas foi a compra da mesa Sony - que na verdade não é uma mesa ruim, mas é uma mesa que é impraticável para o tamanho da técnica que se tem no estúdio. E acabaram comprando escondido de mim, porque eu via todos os processos que o Armando passava de compra - porque nessa época eu era Chefe de Operações - e dava palpites, e embarreirava. E eu consegui embarreirar de vez a compra desses Otari - fiz uma justificativa imensa, dizendo que a gente tinha que partir para a era digital, e era um absurdo se comprar 36 máquinas analógicas Otari, numa época, isso foi em 94, com todo mundo partindo para o digital . Naquela época havia dinheiro - foi quando se reformou o 7º andar. O Armando não deixava de ser um bom administrador, porque ele chegou e fez, executou a obra, vamos dizer, informatizou a casa, resolveu o problema de telefonia da casa - isso aí você tem que dar crédito ao cara - os telefones na casa eram um caos, era um inferno isso aqui. Agora, essa questão da mesa do Sinfônico é questionável. Levou não sei quantos anos para chegar, e ficou um ano parada, lá em baixo. Também compramos MDs, mas ficaram guardado, também. Ele queria só comprar, comprar, e deixar guardado. Foi preciso eu pegar um MD, eu falei: "Mas, Armando, eu vou pegar um MD desses que eu quero testar, quero botar ele para funcionar!" E ele: "Não, eu não quero instalar isso agora". Poxa, o aparelho já estava há um ano encaixotado, e a garantia do equipamento? E como é que você ia fazer? Ensinar os meninos a trabalhar com isso? Eu fui lá no almoxarifado, na marra, peguei um MD daquele, botei na minha sala e comecei a futucar o equipamento, para poder aprender a operar com ele e ensinar os meninos. E foi aí que apresentou um monte de problemas, foi até bom, porque eu não sei se ficou parado muito tempo, deu um monte de falhas, dava erro de disco, aquelas confusões todas que deram no começo, e voltaram a dar agora - também já tem mais de dez anos que as máquinas estão rodando, e foi isso. E essa máquina digital, que ele comprou também, essa PCM, da Sony, é uma baita máquina, mas é uma máquina de trezentos mil reais - você pode gravar muito mais barato em outras mídias, ou seja, foi uma coisa feita para se gastar dinheiro. Tanto é que a máquina está dando um monte de problemas, hoje. A Sony não tem tradição em áudio, a Sony é detentora de tecnologia em vídeo. A compra que a TVE fez com a Sony foi grande, eu não sei qual foi a contrapartida disso.

AO - Qual é o estado atual dessa máquina?

BETINHO - A máquina grava muito bem: é muito boa. Se ela estivesse funcionando ela poderia ficar gravando mais uns dez anos, sem problemas, só que ela está com um defeito intermitente, que é arriscado você gravar e arrebentar a fita no trabalho de um músico. Que eu tenha conhecimento só tem uma outra máquina dessas, que é uma no Estúdio Mega, só que são 48 canais - e o Pedro, da Sony, que é o único técnico, que eu saiba, no Brasil, que fez o curso específico para essa máquina, não conseguiu resolver. Ou seja, a máquina está fadada a ficar sem conserto e ser aposentada como aconteceu com aquela máquina de 24 canais analógica. Eu acho que tinha que botar a jurídica para trabalhar nisso, de se fazer uma forma de se vender essa máquina e voltar o dinheiro para a Rádio. Porque é jogar dinheiro público fora - eu acho um absurdo estar com uma máquina de 24 canais, em perfeito estado, que ainda interessa a alguns estúdios - é uma máquina que se eu for dar baixa nela, ela vai para a Penha (onde fica o depósito), vai enferrujar, e eu prefiro deixar ela guardada aqui. Eu achava que tinha que ter uma forma, com a jurídica trabalhando em cima, para chegar e tentar não se jogar fora um patrimônio público, que é o que vai acabar acontecendo com esse equipamento..

AO - E a mesa em si, o estado da mesa?

BETINHO - A mesa está ótima, está tudo direitinho. Os pequenos problemas que têm são normais, mau contato num canal, uma coisa qualquer. O único problema dela é que ela é grande demais, só isso.

AO - Fala do Sr. Paulo Henrique Cardoso.

BETINHO - O Paulo me surpreendeu. Na verdade, ele é um garotão, um playboy, mas que soube respeitar os funcionários da casa. Ele ouvia todo mundo, era uma pessoa muito expansiva, fez coisas erradas, como todo mundo faz, mas ele soube respeitar quem era antigo aqui - coisa que não tem acontecido. Eu acho que a gestão dele foi boa, não porque me beneficiou, porque me colocou como chefe da operação. Foi uma pena, no finalzinho, com aquela confusão daquele Presidente que entrou, o Paulo Branco, teve aquela 'rixinha' política lá, e o Paulo Henrique acabou largando a Direção da Rádio. Eu achei que ele errou nisso, de ter abandonado a Rádio por questões políticas. Depois, os funcionários se uniram, se juntaram, fizemos aquele Encontro de Funcionários, que foi ótimo, a SOARMEC participou efetivamente disso, e a partir da gestão da Regina, foi maravilhoso.

AO - E a gestão da Regina?

BETINHO - Foi inquestionável: mais transparente impossível. Eu acho assim: eu não conheci as outras gestões antes da do Heitor, mas eu acho que nunca teve uma gestão melhor na Rádio, e acho que dificilmente vai haver. A Regina era uma funcionária de carreira da casa, talvez por isso que tenha sido tão gostoso. Era uma pessoa honesta, querida, transparente em tudo, e foi eleita pelos funcionários - que coisa inédita, fantástica! Isso foi uma coisa, uma herança que o Paulo Henrique deixou. Foi lindo, maravilhoso, melhor não podia ser! Todo mundo era ouvido, ela fazia reunião com todo mundo, todas as áreas eram respeitadas, era demais da conta!, e tudo foi surgindo naturalmente, com a participação dos funcionários. Virou uma grande 'família', mesmo. E o engraçado foi que na gestão da Regina, que teoricamente não era uma pessoa indicada politicamente, foi a época em que se teve mais condição de se fazer tudo - tinha dinheiro para se fazer tudo. Como é que pode? Uma pessoa que não veio de Brasília, que não era 'empistolada' de ninguém, que era funcionária de carreira da casa, eleita, colocada lá pela pressão que os funcionários fizeram sobre o Paulo Branco. Faz muita falta, e como a Rádio cresceu.

AO - Na verdade, houve uma votação em que a Regina ficou na frente do Sanz, mas o Sanz entrou por indicação do Chico Teixeira. E ao sair, o Sanz teve a coerência de indicar a Regina .

BETINHO - Ele se afastou para voltar para a UFF. E aí veio o FESCAN, veio o Festival de Talentos… A participação da Gizélia Fernandes, nesse ponto - como era trabalhadora, como gostava da Rádio. Essas pessoas, elas marcam, eram pessoas que você sente que gostavam da Rádio, e era um clima muito bom. Com a Liara (Liara Avelar, superintendente na época) eu não tenho o que falar de errado, de ruim. Todas as áreas foram ouvidas, foram respeitadas, se conseguiu fazer tudo, fundou-se a CAO (Central de Atendimento ao Ouvinte) nessa época, e funcionou maravilhosamente bem, fizemos muita coisa ao vivo, da Sala Cecília Meirelles, do Theatro Municipal, de um monte de lugares. E a Rádio trabalhava em parceria com a SOARMEC - foi a época que a SOARMEC cresceu, que a Rádio cresceu junto com isso. Mesmo com a mudança do Presidente, do Paulo Branco para o Escostegui e depois o Paulo Ribeiro, continuaram a apoiar a Regina, souberam respeitar. E depois do Paulo Ribeiro veio o Jorge Guilherme na Presidência, e manteve a Regina, mas só acabou mesmo quando entrou a ACERP, que se extinguiu o quadro, e foi uma pena a Regina ter saído, mas não tinha outro jeito. E com ela saiu um monte de gente.

AO - E como você sente a Rádio, hoje?

BETINHO - Eu vejo assim: são poucas pessoas, as pessoas trabalham aqui por trabalhar, por inércia, sem alternativa para poder sobreviver - com o salário congelado esse tempo todo. E as outras estão só de passagem, porque se paga tão mal, não dá tempo de você amar isso, gostar disso, de viver o que eu vivi. Eu me considero um felizardo - entrei aqui num momento em que só tinha profissional da Mayrink Veiga e da Rádio Nacional, que eram as potências do rádio. Eu estou com 42 anos, hoje, eu não vivi a Era do Rádio, mas eu acabei vivendo porque os profissionais que trabalhavam aqui, todos vieram dessa Era do Rádio, todos eram oriundos daquilo ali, e eu consegui voltar no tempo e pegar uma carona nessa história - eu cresci muito, eu aprendi muito. Às vezes eu fico pensando, eu perdi o meu tempo, eu me apaixonei, é aquela coisa de você se apaixonar, e mais tarde você ficar meio arrependido. Eu nunca tive ídolos, eu nunca fui fã de Beatles, de nada, eu gostava mas nunca tive ídolos, os meus ídolos eram o Sr. Hamilton, era o Paulo Salgado, era o Sr. Mário Dias, eram essas pessoas de bem que a vida me deu a oportunidade de ir esbarrando com elas. Eu sempre que eu esbarro com uma pessoa assim eu tento tirar o que eu posso, e aprender, e é isso que me fez o que eu sou hoje.


AO - A Rádio MEC, ela é uma Rádio Educativa 'da antena para fora', mas ela também é uma Rádio Educativa, no sentido de que ela treina e profissionaliza pessoas. Não é só você: o Ary André, o Dinho, o Ribamar, essas pessoas todas aprenderam aqui dentro. Porque o Ary André, numa entrevista, disse: "Eu formei algumas pessoas, mas ultimamente eu lamento não poder ter feito pelos técnicos o que fizeram por mim!" Você formou pessoas aqui dentro?

BETINHO - O próprio Ary André foi um deles. E foi legal isso, porque ele era meu estagiário quando tinha um estudiozinho lá em cima, no 6º andar. Quando eu entrei na Rádio, era tudo mono - eram aquelas máquinas Ampex, e tal. Esse pessoal que tinha vindo da Nacional e da Mayrink Veiga que era onde tinha a maior tecnologia de rádio - que na verdade eram a 'TV Globo' da época. Lá, os programas eram ao vivo; aqui, eles já faziam gravado, mas eles eram bons profissionais. Então, eu dei a sorte de entrar na Rádio num momento em que estavam essas pessoas disponíveis. Por onde quer que eu olhasse, só tinha gente boa trabalhando, não tinha ninguém fraco. Então eu tive muita sorte, eu sempre fui muito curioso, eu sempre questionei. E muita coisa eu aprendi fora da Rádio, fazendo externa pela Rádio. Eu aprendi muito com o Frank Justus - aquele americano que gravou muito disco por aí. Eu ia para a externa e encontrava o Frank - ele era uma pessoa fantástica. Eu ia lá para gravar um programa de rádio, e ele estava lá gravando um disco qualquer, eu perguntava a ele. E eu sentava com o Monteverde e perguntava: "Por que é que tem que alinhar isso aqui?" - "É porque você tem que fazer a leitura da reprodução, para ver se o seu nível de áudio está entrando direito." Todos eles sabiam me responder isso, hoje em dia a maioria não sabe responder. E eu gosto de ensinar, eu acho que eu daria um bom professor, talvez, de qualquer coisa, porque eu gosto de ensinar. Esses meninos que eu treinei, o Ary André, o Dinho, o Kley, eu gosto de sentar e explicar, e dar oportunidade de fazer, porque eu tive essa oportunidade de aprender e eu não gosto de guardar nada, eu gosto de passar isso adiante. Eu dei sorte. Tudo que aprendi de 'microfonação' foi principalmente com o Frank - na parte de orquestra, eu não conhecia nada, para mim um violino e uma viola eram a mesma coisa, um violoncelo e um contrabaixo eram a mesma coisa, e o Frank que foi me ensinando isso, me mostrando o porquê daquela microfonação, e me explicando. E eu comecei a experimentar. Ia fazer uma gravação, numa Sala Cecília Meirelles ou no Theatro Municipal, eu experimentava, partindo do princípio que 'microfone nenhum é surdo, desde que esteja funcionando', qualquer lugar que você colocar o microfone ele vai sonorizar aquele saxofone, aquele trompete, mas com o tempo você vai experimentando e vendo onde você pega menos vento num instrumento de sopro, onde você pega mais grave num instrumento de cordas, mais agudo, e essa coisa o Frank me ensinou muito, nessa parte musical, que hoje eu uso muito no Sinfônico, por conta principalmente do Frank. E na parte de rádio, muita coisa eu aprendi com esses profissionais, que já falei, e o Flávio Moricone, que tentou implantar de se gravar nas fitas sempre um tom de referência, que foi uma coisa que não vingou, mas ele estava certo, o que já teria facilitado muito na época dessa copiagem de fita. Eu aprendi dessa forma.

AO - Tem alguma coisa a mais que você gostaria de contar ainda, que a gente não falou?

BETINHO - Eu queria, mas eu acho que não vai acontecer mais. Mas eu sempre sonho, eu sempre espero que a Rádio volte a ser o que era, eu tinha muita vontade, mas cada vez mais eu acho que a gente está distante disso. Dificilmente uma pessoa vai se apaixonar, como eu me apaixonei quando eu entrei aqui pela primeira vez, porque hoje em dia a gente vive uma estagnação muito grande. Eu não acredito que a pessoa vá se deslumbrar, como eu fiquei deslumbrado, de entrar aqui no primeiro dia e ver a orquestra ensaiando, o radioteatro gravando, eu não sei de que forma a pessoa vai se interessar mais pelo que está acontecendo. A gente não tem mais jornalismo, não tem mais nada. Eu queria que voltasse, mas cada vez mais eu acho que não vai mais ser, não vai mais acontecer, eu queria, mas eu estou feliz, de uma forma ou de outra, de ter participado um pouco da história da Rádio, de ter vivido essa história. Não me arrependo em nenhum momento de tudo o que eu fiz, de tudo o que eu me dediquei aqui dentro da Rádio, eu tenho maior orgulho disso.
Eu acho que o meu sonho era morrer e ter uma placa na porta de um estúdio: "Estúdio Roberto Monteiro". Eu acho que seria a alegria da minha vida - eu gostaria de ser lembrado, quer dizer, associado ao nome do Roquette, associado ao nome de tanta gente boa que passou aqui, e Floriano, e Paulo Tapajós, e Paulo Salgado e Hamilton Reis, e você e todo mundo. É uma coisa que é o meu sonho, daqui a vinte, trinta anos, o meu filho vir aqui e ver uma plaquetinha, qualquer coisa: "Porta Roberto Monteiro".

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