de Utilidade Pública Federal - Portaria no. 3935
de Utilidade Pública Estadual (RJ) - nº2464
de Utilidade Pública Municipal (RJ) - nº3048
detentora do Prêmio Estácio de Sá 2002

 

Beatriz Roquette-Pinto Bojunga

 

Entrevista para o programa especial sobre Roquette-Pinto, gravada em maio de 1990.
Transcrição: Gisele Pimentel
entrevista em quatro partes

 

Quarta parte:

R. – Eu gostaria que a senhora explicasse de que maneira esses cantos indígenas, que o Villa-Lobos, que o Roquette-Pinto recolheu, naqueles cilindros, de que maneira eles foram aproveitados pelo Villa-Lobos.

B. – Ah, bom, ele ia lá, passava os fonogramas, que era como se fosse um disco, trava a música em si, não é, e depois orquestrava. A música – até papai, esse "Nozanina" é conhecido na família, os netos todos dele cantam. Os bisnetos, agora: "Nozanina aurecuá couaá casaetê eteê nozanina aurecuá...", quer dizer: "Vamos comer mingau, vamos todos comer mingau...". Papai é que traduziu, e ele então fez vários. Fez o "Canto Pajé", eu tenho os fonogramas que, aliás, o Villa-Lobos pôs na dedicatória "...essas músicas que são todas suas, Roquette, o dono dessas músicas...", não é, que ele pôs.

R. – Ele tinha preferência por alguma obra específica do Villa-Lobos?

B. – Não, eu acho que não. Bom, "As Bachianas" todo mundo adora. Acho que tem tanta coisa bonita do Villa-Lobos que é difícil a gente escolher uma, assim.

R. – A senhora possui algum documento sonoro dele?

B. – Tenho. Tenho gravações pequenas de entrevistazinhas. Tem uma da minha cunhada, da Lia, que ela fez uma entrevista dele que ele fala muito bonitinho, eu fui convidada, também, mas eu não ia, não; era um grupo de amigos nossos que instituiu um "Mardi Musical" (ficou chamando "Mardi", Terça-feira): uma vez por semana eles se reúnem, ouvem essas músicas, e tal. E a minha cunhada levou um dos diretores do "Mardi Musical" para o papai falar sobre o "Mardi Musical". Então ele falou, eu tenho aqui, tem umas duas ou três aqui que eu posso depois ver para lhe emprestar. E tinha uma voz linda! Uma dicção maravilhosa.

R. – Agora, Beatriz, me conta como eram aqueles pique-niques na Barra da Tijuca:

B. – Bom aquilo era uma coisa deliciosa! Até vou contar – não sei se o Sérgio contou o caso do meu irmão, que encontrou um amigo na... Não contou não? Nós tínhamos assim: meu pai, todo domingo, vinha almoçar comigo. E eu vou lhe dizer, realmente, nós tínhamos um relacionamento muito grande, eu e ele, porque eu sempre caçoava com ele: todo homem tem que ter uma mulher na vida. O meu pai, a mãe tinha morrido; era separado da mulher; e ele não tinha encontrado companheira – ou se encontrou, não ficou. Então, era a filha! Então nós tínhamos um relacionamento, nos entendíamos muito bem! Por exemplo, até hoje fico pensando, ele ia fazer, por exemplo, uma palestra qualquer num Instituto Histórico Geográfico. Eu ia sempre com ele, ele não dizia: "Vem comigo", não: "Tizinha, você quer me levar ao Instituto Histórico?" Eu estava sempre pronta, não é? Aí ele dizia: "Olha, minha filha, eu vou ler para você um trecho. Vê se está bom:...". Quer dizer, é impressionante, ele lia para mim, e estava sempre bom, porque ele escrevia muito bem, o que ele dizia era muito simples, porque papai falava "simples". O Cláudio tem isso, saiu ao avô, sabe? Ele escreve "fácil", "simples". Porque esse negócio rebuscado, não pode. E os pique-niques, voltando ao pique-nique, ele vinha todo domingo almoçar comigo, aqui. E, afinal, o meu filhinho, o Cláudio, tinha nascido, era pequenininho, eu já não podia mais estar fazendo almoço aqui, e ele comprou um terreno na Barra. Naquele tempo, era vazio, não tinha nada lá, para lá de São Conrado um pouco não tinha coisa alguma. E ele disse: "Ah, eu comprei um terreno, vamos fazer um pique-nique lá." Eu digo: "Vamos!" Então era minha filha, meus sobrinhos, minha cunhada, meu irmão. O Sérgio foi parece que uma vez ou duas, não era muito, não. Mas o Mateus, aquele famoso Mateus era tudo, para nós. Meu irmão e nós íamos. Então, ele levava os sanduíches (ele fazia uns sanduíches que até hoje eu me lembro), porque papai era um grande cozinheiro, e fazia uma sopa de camarão, nunca mais tomei! Uma salada temperada por ele, ninguém tempera igual! Ninguém! Então, ele fazia os sanduíches, me lembro, de agrião (risos), foi a primeira vez que eu comi sanduíche de agrião. E ele levava aquela coisa toda e nós íamos, então. Ele mandou fazer uma (como é que chama, de palha), como se fosse um caramanchão, grande, redondo, de palha. E lá ele deu, a cada um de nós, ele deu um nome indígena. Eu era "Acoema" – era o "nascer", o "nascimento agora". O Cláudio, meu filho, eu me lembro que era "Pindá" – o "anzol". Cada um tinha um nome. Ele era "Uiraçu", quer dizer, "o de penacho", "o Chefe de penacho". Era só isso. E ele tinha, mandou fazer até umas faixas, botava no chapéu, "Uiraçu", aquela coisa toda. E nós íamos para lá. E o Humberto Mauro com a mulher, com a filharada toda, o Zequinha, e nós íamos para lá, ficávamos o dia inteiro! O que fazem hoje, aqui na praia, nós ficávamos lá. E papai. Ficávamos ali ouvindo rádio, conversando, aquela coisa toda; quando chegava quatro horas, assim, nós vínhamos embora. Um dia, o meu irmão encontra na Avenida um amigo lá, de papai, que não via há muito tempo, e diz: "Ô Paulo, vem cá: me contaram uma coisa, que o Roquette não está bom da cabeça, que ele vai lá para Barra, se veste de índio, canta e dança. " (risos). Era um pique-nique, um pique-nique à toa, só que tinha nome de indígena, de índio.

R. – Beatriz Roquette-Pinto Bojunga, contando o famoso caso da "história da gravata"!

B. – Bom, eu conheço duas. Uma, eu trabalhava com meu pai no Museu Nacional, e nós chegávamos de manhã cedo para o trabalho, e o Seu João, o porteiro, estava nesse dia discutindo com um rapazinho. O rapazinho devia ter seus dezessete, dezoito anos. E o papai chegou, e o Seu João com aquele respeito todo: "Professor!", o papai disse: "O que é que há, Seu João?", "Professor, o rapaz quer entrar, mas não pode! O regulamento, não pode entrar sem gravata!". O papai disse: "O regulamento fala alguma coisa do Diretor do Museu entrar sem gravata?", e o João disse: "Não, não fala." Papai tirou a gravata dele: "Então ponha o senhor a gravata", e o papai entrou sem gravata (risos). E a outra, que eu acho muito engraçada, ele foi para um Congresso de Raças em Gotemburgo, na Suécia, e levou a casaca e, na hora de se vestir ele viu que não tinha levado a gravata branca, e chamou a mocinha, não é, a "femme de chambre" que estava ali, e perguntou se não podia comprar uma gravata. Ela disse: "Ah, não, tudo fechado, tudo fechado"; papai disse: "Meu Deus, como é que vai ser...". Nisso, diz que a moça volta assim, ele olha e vê o aventalzinho dela branco, amarrado com um lacinho que era uma beleza (risos); ele pediu a ela para cortar. Só o papai, mesmo! E lá foi ele, com a casaca, com o lacinho da empregada do hotel! (risos) Mandou ela coser, foi direitinho.

R. – E a máquina de gelo?

B. – Ah, bom, essas, essas experienciazinhas pequenas, nós às vezes amargávamos um pouco com ele. Lá no nosso "sambaqui", lá na Barra, nos famosos pique-niques, ele um dia inventou, fez lá uma maquinazinha de fazer gelo. Então (risos), não era complicado, não. Era redondinho, não é, uma coisa de metal e tinha, não sei o que que ele tinha posto, eu sei que tinha álcool. Então o vento vinha, aquilo girava, então, girava, fazia o vento, e fazia o gelo! Então, você esperava três horas! Na hora da gente voltar para casa: "Vê se não está gelado, Tizinha!", ele ficava contente. "Não, está fresco, papai."; "É, não dá certo, não. Esse negócio não dá certo! Vamos para outra." Eu acho que ele se distraía, sabe, se divertia. Por exemplo, uma das coisas que ele mais... foi o gasogênio, no tempo da Guerra – eu andei muito de gasogênio! "Mateus, baixa o chada!", o Mateus descia – porque o gasogênio tinha aquela parte da frente, não é, o carvão e tal. E então ninguém tinha automóvel, eu era uma grã-fina, eu ia para o Itamaraty, para os jantares e tudo, e ia no carro de papai com gasogênio, um carrinho velho, gasogênio. E ele adorava. Nós íamos para Petrópolis, tudo de gasogênio! Ele gostava. Por exemplo, eu não sei se sabem, a mesa em que ele transmitia as primeiras imagens de televisão do Brasil, foi ele que transmitiu da Rua da Carioca para Santa Teresa! Quem recebia era o Flávio, marido da Elisinha. E ficava, eu ou o Mateus: "a,a,a,a,a,e,e..." – era ABI, não é – "b,b,b,b,i..."; aí eu cansava: "Vem, Mateus!", Mateus vinha pra "a,a,a...", ficava aquilo a tarde toda. E, um dia eu cheguei lá na Rua da Carioca, e ele disse: "Minha filha, eu preciso de você hoje; você vai com o Mateus até a Polícia porque você vai pedir na Polícia uma licença para eu continuar com as minhas experiências de televisão. Porque, senão, é proibido." (risos) Então, em qualquer lugar do mundo, tinha dinheiro para continuar as experiências. Aqui, eu fui com o Mateus para a Polícia, na Praça Tiradentes. Então mandou botar no quadro, botar num quadro em cima da mesa dele, estava lá: "Licença para o Professor Roquette-Pinto fazer experiências de televisão", e a mesa está hoje no Museu Histórico; quem levou foi o Gustavo Barroso, que é avô da minha atual nora, mulher do Cláudio.

R. – Tem mais algum "causo" assim que esclareça sobre a figura humana dele, que a senhora se lembre?

B. – Não, tem umas coisas mais particulares, mais íntimas assim. Ele era uma pessoa muito humana.

R. – Sobre o patriotismo do Roquette-Pinto:

B. – Ah, o patriotismo dele era uma coisa muito profunda! Era uma coisa muito séria! Porque o patriotismo dele vinha com a obrigação de fazer qualquer coisa para o seu país. Era isso que precisavam incutir na cabeça das crianças nas escolas. O que é... isso não é dele, não, isso é meu, sabe? Eu não sei se é certo ou se é errado, mas eu herdei dele isso: a idéia que ele me deixou do patriotismo é que "o bom patriota é aquele que faz qualquer coisa para a sua pátria". E não diz que não vai para frente, não bota para baixo, não! Agora, não quer dizer também que é o país melhor do mundo, não! Tem que ver, tem que ajudar, tem que fazer! Como você tem sua casa, eu tenho a minha, não é a melhor do mundo. A gente vive arrumando, não é, se vive ajeitando uma coisa. Você herda isso do seu avô, herda aquilo do outro avô, herda aquilo da sua bisavó, se você não tomar cuidado, você fica sem nada! Então, o patriotismo dele para mim era isso: era fazer qualquer coisa para o seu povo e sua gente. E no dia do enterro do Getúlio Vargas, eu morava onde meu filho mora hoje, porque aqui eu fiquei quando a minha mãe morreu, e meu filho ficou onde eu morava, aqui na praia, também, ali ao lado do Hotel Regente. Aquele é que é o meu, comprado com o meu dinheiro; esse aqui é da minha mãe. Era do meu avô – esse avô que eu falei, positivista, morava aqui. Quando o Getúlio Vargas foi enterrado, no dia do enterro dele, eu estava em casa e ele passou – papai morava na Avenida Beira-Mar, aqui perto do Aeroporto. Eu toquei para o papai, e eu digo: "Papai, mas como é que está aí o enterro, e tal, como é que é?" Ele só disse isso: "Ah, minha filha! A ignorância do nosso povo é de enternecer..." Vê que coisa bonita, parece que fala de filho. Você fala de filho: "A ignorância de meu filho é de enternecer"; você não diz: "Ah, que ignorância! Que gente que não sabe nada, gente que não quer aprender". Não! Disse: "A ignorância do nosso povo, minha filha, é de enternecer". Eu nunca mais esqueci isso. Porque ele via aquela coisa toda, não é, aquilo tudo. Quando o Getúlio, você vê, aquela fase do Getúlio começou, ele foi ao Palácio. Ele foi, e ele pediu ao Getúlio demissão do cargo – ele era Diretor Museu Nacional – e que ele não podia continuar; era contra as idéias dele, não podia continuar. Aí o Getúlio teve uma atitude muito bonita, disse para ele: "Nós, Professor Roquette-Pinto, nós não fizemos a Revolução para afastar homens como o senhor; eu peço que o senhor continue no cargo." E nunca! Mas nunca, durante todo esse tempo, o Professor Roquette-Pinto – eu sou testemunha que trabalhava com ele na mesa assim, ao lado dele – nunca ele pediu nada que ele imediatamente não desse! Foi o Presidente da República que foi quatro ou cinco vezes lá. Eu tenho uma fotografia – noutro dia, uma amiga nossa que trabalha ainda lá, está fazendo uma exposição em São Paulo, disse: "Sabe qual é a fotografia que eu pus lá na página, na frente? É aquela em que a senhora está apertando a mão do Getúlio, e o Dr. Roquette do lado!" (risos) Eu digo: "Você ainda tem aquele retrato?" Ele impunha pelo respeito. Por isso é que eu digo, sabe, aliás eu dizia: educar é dar o exemplo. É dar o exemplo. Se você disser ao seu filho: "Não coma com a mão!", se você comer, ele vai comer. Não adianta. Agora, se você não disser nada, e você começar a olhar de um certo jeito e comer, ele vai comer como você está comendo. Não digo que seja sempre, mas a maior parte é assim. É a força, é a força do exemplo. É a força... do respeito!

R. – Beatriz, ainda há pouco a senhora falou que chorava duplamente seu pai. Eu queria que (não estávamos gravando) "...eu sempre digo que choro duplamente o papai..." Queira me repetir essa fala, por favor?

B. – Qual é a fala? Eu não...

R. – Fala que chorava duplamente seu pai.

B. – Ah, choro, duplamente! Sempre que eu penso nele, sempre que eu penso no Roquette-Pinto, eu choro duplamente! Eu choro meu pai, o companheiro, trabalhei com ele, a vida inteira ao lado e choro muito a falta do brasileiro, muito! Porque eu acho que precisava ter muitos Roquettes agora, no Brasil. Sempre! Com aquele espírito que ele tinha, aquele amor pela gente dele, mas é um amor consciente, amor de pai para filho, que vê que o filho tem seus defeitos e que tem que educar! E não é aquele pai que diz: "Meu filho é o melhor do mundo, meu filho é inteligente.", ou encher o filho. Não, nada disso, não! É trabalhar para poder educar o seu filho bem! E dar o exemplo, é o amor! Esse amor que ele tinha, é uma coisa impressionante! O amor que ele tinha por essa gente e, engraçado: ele não era povo. Eu gosto de dizer isso, eu gosto muito de dizer isso. Porque ele nasceu – eu vou dizer, parece uma coisa – mas ele nasceu numa certa aristocracia. O meu pai nasceu, ele era aquela coisa de fazenda, neto de fazendeiro, tinha meios. Depois minha avó perdeu, vendia doces para fora, ficou pobre. Mas, quer dizer, do ponto de vista de educação. Então, ele não era povo, mas ele sentia mais o povo do que muita gente que mora na favela, que é povo! Ele sentia o povo dele! E eu acho isso algo muito bonito. E muito raro! Era isso que eu queria ser...

R. – Tem mais alguma coisa que a senhora gostaria de falar?

B. – Não, nada. Foi uma tarde muito bonita...


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