de Utilidade Pública Federal - Portaria no. 3935
de Utilidade Pública Estadual (RJ) - nº2464
de Utilidade Pública Municipal (RJ) - nº3048
detentora do Prêmio Estácio de Sá 2002

 

Beatriz Roquette-Pinto Bojunga

 

Entrevista para o programa especial sobre Roquette-Pinto, gravada em maio de 1990.
Transcrição: Gisele Pimentel
entrevista em quatro partes

 

Terceira parte:

R. – A senhora falou, ainda há pouco, que Roquette-Pinto não tinha temperamento político. Mas ele foi um dos fundadores...

B. – Foi. Foi, eu vou explicar porque que eu digo isso: ele foi convidado pelo Partido Socialista, e ele aceitou. Bom, porque ele era um homem de esquerda, quer dizer, um homem de esquerda no sentido humano da coisa, que todos nós somos. Mas ele não tinha o senso, o sentido político, e eu vou te explicar porquê. Ele aceitou ser candidato. Mas o meu irmão até caçoava, meu irmão dizia assim: "Papai não é político, não é? Papai vem assim, com cinco cédulas na mão, e diz assim: 'Olha, toma aqui; quantas você quer? Três, quatro?". Papai não tinha dinheiro para ser político, papai não tinha espírito político, papai não sabia o que era a Política. Quer dizer, não sabia, papai sabia tudo no sentido, quem sou eu para dizer isso! Mas, quer dizer, era uma política diferente. Sabe o que ele me dizia? Ele me dizia assim: "Minha filha, o meu ideal de político seria este: eu estou deitado, na minha rede, estudando ou lendo; vem um grupo de brasileiros dizendo: 'Dr. Roquette, o senhor foi escolhido para ser eleito Deputado'. Aí, eu ia ver se aceitava ou não".
O senhor acha que este homem era político na nossa terra? Sinceramente, não? Seria um grande político, entende? Ele é que sabia como era o político, como deveria ser a Política.

R. – Mas, segundo me consta, ele foi um dos fundadores do Partido Socialista.

B. – O nome. Quer dizer, eu não digo só. Papai não era homem de dar só nome. Ele tinha afeto! Talvez ele acreditasse naquilo, entende? Mas o que eu digo... Eu lhe contei a história que eu acho que não era político, entendeu? No sentido da coisa em si. Ele tinha idéias políticas! Ele era um homem que não podia viver sem idéias políticas, sem pensar. Pois um homem que dá uma Rádio para um povo, para gente ter, quer um homem mais político que esse? Não pode ser! Ele era político, humanamente político! Mas não era (eu digo) uma outra espécie de político, entendeu? Eu não quero fazer ao meu pai um agravo, quando eu achava que meu pai... Não é que ele fosse perfeito, ninguém é perfeito, nem ele era perfeito, mas ele foi um grande brasileiro! E digo mais: talvez um dos maiores brasileiros, do ponto de vista de educador, porque ele sempre dizia isso: "Minha filha, eu não sou nada disso de grande que dizem. Eu sempre fui, e serei, um simples e modesto professor". E ele parava e dizia assim: "Na nossa terra, é título de honra". Quer dizer, ele é um homem que nasceu para isso. Então, ele não tinha essa faceta, digamos assim. Não vamos dizer que ele não fosse político; ele não tinha a faceta do político normal. O Jornal do Brasil, aqueles artigos que ele escrevia sobre o Jornal do Brasil, que houve uma ocasião. Essa coluna, que hoje é do Josué Montelo, ele herdou de papai. Quando papai morreu, ele estava justamente na máquina – não sei se o senhor sabe como ele morreu – na máquina, escrevendo esse artigo sobre educação, e a última frase que ele escreveu foi essa: "Ensinem os que sabem o que sabem aos que não sabem". Aí ele caiu com o derrame, que me telefonou, ainda falou comigo no telefone, apesar de estar com o derrame. Mas era a coluna do Jornal do Brasil, que ele escrevia diariamente. Eu tenho a coleção toda aqui, isso eu posso lhe ver, depois. Eu tenho uns, depois eu lhe mostro o que eu tenho, o material.

R. – Já que a senhora falou da morte, continuando a falar, e o funeral de Roquette-Pinto?

B. – Bom, ele foi enterrado em Petrópolis, porque... coitado do meu pai. Ele dizia sempre que queria ficar em Petrópolis, que a mãe dele está enterrada lá. E ele dizia: "Aliás, vocês não vão se preocupar, eu quero me enterrar em Petrópolis porque a Academia paga tudo, porque senão eu ficava aqui mesmo, vocês não pagavam". Mal sabia ele que a Academia não paga fora do Rio! (risos) Mas ele morreu de repente, escrevendo essa frase sobre Educação, ficou na Academia de Letras, ficou desde as 11 h da manhã até as 11 h da manhã do outro dia, e tenho os discursos todos que fizeram, que agora é que eu posso ler – até então eu não lia – do Carlinhos Chagas, do Pedro Gouveia, todos os acadêmicos (quase), o Peregrino Júnior, muito emocionados, muito bonitos. Depois – isso é interessante contar – nós saímos daqui e fomos para Petrópolis, foi aquela caravana, família, os acadêmicos. Quando nós entramos no cemitério de Petrópolis, não sei se o senhor conhece, é um cemitério muito bonito e parece um jardim, tinha tanta gente, chovia e tinha tanta gente, tanta gente... Eu olhei assim – eu me lembro que eu estava com o Elmano Cardim, ele estava de braço assim, comigo – eu disse: "Elmano, por que tem tanta gente aí? O que é isso?" Ele disse: "É seu pai, minha filhinha (ele disse), é seu pai!". Eu achei bonito porque o povo, em geral, se comove muito com esses populares. É verdade que ele, naquele momento, era o "Homem do Rádio", todo mundo estava falando do "Homem do Rádio". Mas ele teve a sua consagração como brasileiro!

R. – Eu gostaria que a senhora falasse agora sobre as preferências do Roquette-Pinto, as preferências artísticas e outras, principalmente na área musical.

B. – Ah, bom! Na área musical ele gostava muito de ópera, gostava muito de concertos, tudo o que era muito bonito ele gostava muito. E ele foi – não sei se sabem – ele foi, como é que chama? Ele dirigiu durante uma certa época, o Theatro Municipal, aqui no Rio de Janeiro. Eu não me lembro mais quem era o Secretário de Educação. E era uma coisa com que ele se preocupava muito, com a juventude, com a mocidade. E ele quando dirigiu o Teatro Municipal, era uma Companhia, me lembro, Companhia Francesa. Como eu estudei na Europa muitos anos, na França, eu conhecia até os atores que vinham – Jean Lebert, Jean Archeant, quando era mocinha lá em Paris, aquela coisa toda, e eu ia às peças todas – e papai disse: "Não, umas três peças eu vou fazer de graça", que ele tinha uma verdadeira... quase obstinação por educação do povo, sabe? Ele disse: "Eu vou fazer de graça para os estudantes brasileiros." Muita gente dizia "Ah, mas eles não vão", aquela história que "brasileiro não entende", não é, que "brasileiro não gosta", porque não dão! O povo não entende porque não dão! Porque é a tal história: você pode não entender francês, mas você vai a uma boa peça, bem representada, em que tem um livreto traduzido, você fica conhecendo Cornail, você fica conhecendo El Cid, você fica conhecendo pelo menos quem é o Shakespeare. Agora, você não dá. Você, você está vendo agora a quantidade de gente que vai para a Quinta da Boa Vista, a quantidade de gente que vai levar livro. Eu acho uma maravilha isso, aliás. Levam um livro e entram de graça no Theatro Municipal. Eu acho uma maravilha, porque para mim "livro é gente". É, é uma coisa fantástica! Eu gosto tanto de livro, eu gosto de andar sempre com um livro na mão. Eu dizia a meu pai: "Eu tenho, eu tenho a deformação de professora sem ser", (risos) se pode se chamar "deformação" ser professora. De maneira que ele botava de graça, ele tinha aquela coisa. Eu nunca vi meu pai dizer "Esse Brasil não vai pra frente". Nunca vi meu pai dizer: "Qual, esse pessoal não vale nada!". Nunca! Nunca! Quem é – nesse ponto eu acho, eu estou com o Paulo Carneiro – quem é bom brasileiro pega um livro do Roquette, mas não é assim – porque eu posso dizer, você pode dizer mas nós, desculpe, mas nós não temos capacidade de antropólogo, e ele estudou. Você sabe que a única classificação do Homem brasileiro que existe hoje é a do Roquette-Pinto, Chatodermos (...), e ele chegou à conclusão que o mestiço é ótimo, é formidável! Eduque esse Homem! Eduque, ensine a ele para ver onde ele vai, longe! Aliás, vou lhe contar, eu tenho um caso que se deu conosco, que eu me lembrei muito dele: a minha mãe foi casada duas vezes, e meu padrasto, que eu chamo de "segundo pai", foi o Almirante Dalzo Martins, foi Ministro da Marinha; foi um homem maravilhoso, um outro pai – eu fui uma pessoa muito feliz, tive dois grandes pais – muito bom, mesmo! Uma pessoa humana, uma pessoa fantástica! E ele foi numa viagem aos Estados Unidos, e nós fomos nessa viagem e tinha, acompanhando, um chofer, um daqueles "mariners" americanos, bonito, forte, sadio. E nós íamos para um almoço, não sei onde, e iam os Ministros, aquela coisa toda, e o meu marido e eu, nós íamos atrás. De repente, entramos lá e o rapaz, o marinheiro que ia guiando, disse: "Ih, não sei, nos perdemos!". Digo: "Mas como, perdemos? O senhor não sabe para onde nós íamos?" "Ah, não! A minha ordem é seguir o carro da frente!". Nunca que o mulatinho brasileiro seguia o carro da frente sem saber para onde vai! Nunca! Me lembrei de meu pai. Nunca. Pode ser uma coisa fantástica, mas não vai "no escuro" (risos), ele não vai "no escuro".

R. – Mas, Beatriz, ainda no capítulo das preferências, que tipo de música popular ele gostava?

B. – Ah, ele gostava muito de, de música popular, ele gostava, naturalmente – eu acredito que a música moderna atual de Rock ele não gostasse – mas ele gostava muito de canção. Ele gostava muito desse gênero de – dessa época, não é, da Elisinha Coelho – gostava muito dos sambinhas do Noel Rosa, gostava muito, é uma pessoa muito... Sabe, de tudo o que era bonito ele gostava! Agora, bonito e bem feito.

R. – Mas ele não tem, assim como Juscelino tem, ou tinha, adoração pelo "Peixe Vivo", ele não teria...

B. – Ah, não, ele tinha por várias músicas! Você sabe que ele era poeta?

R. – Sei, sei. É importante para mim para que eu, eu insira no programa...

B. – As músicas?

R. – Sim.

B. – Mas você pode inserir, pode pôr canções, pode pôr um sambinha bonito. Pode pôr, misturado com Mozart, que ele adorava! Pode pôr até um Wagner, porque realmente a figura dele era tanto humana como musicalmente, era muito ampla. Ele tinha uma concepção de vida muito grande. Olha, é uma das pessoas... Ele nasceu realmente com o dom de explicar as coisas, nisso ele tinha razão de ser professor. Por exemplo, uma ocasião, tinha uma amiga nossa que tinha uma filhinha pequena, e nós íamos almoçar com papai. E ela perguntou para o pai, que estava ao nosso lado: "Papai, o que é sorte?"; o pai disse: "Ih, nós vamos visitar o Dr. Roquette, você vai perguntar a ele o que é sorte." Aí nós chegamos, aquela coisa toda, e eu disse: "Pergunta!", e ela perguntou o que era sorte. Ele disse: "Me dá uma moeda" – naquele tempo tinha aquela moeda – "Cara ou Coroa, Cara ou Coroa? Você ganhou; então, sorte é a quem o azar protege." Quer dizer, ele tinha o dom, então ele falava com as crianças. Por exemplo, ele morava na Rua Vila Rica, aqui perto do túnel, e ele tinha aquela "sensitiva", não é, aquela plantinha. Os meninos iam lá, adoravam! Porque o papai pegava uma folha e contava uma história, sabe? Ele não contava assim uma. Aliás, eu peguei isso com ele, estou contando à minha neta agora a história dos castelos da França, do "Chambor" – ela não sabe o que é "Chambor", nem nada disso - mas ela sabe que o castelo tem um terraço, que o Rei ia caçar, porque eu acho que, é como ele dizia: "Toda dona-de-casa tem que ser uma professora na sua casa". Tem que ensinar; você não pode chegar para uma pessoa e dizer, não é: "Faça! Não faça!"; tem que explicar por quê. Você fazendo assim, você é muito mais bem servido em tudo, na vida.

R. – Eu, na minha pesquisa, eu encontrei uma parceria curiosa do Roquette-Pinto, em que ele escreveu a música sobre um poema do Vicente de Carvalho. A música chama: "Folhas Soltas".

B. – Eu tenho aqui! Eu tenho esse poema, quer dizer, eu tenho a música escrita.

R. – Eu queria!

B. – Eu vou procurar (risos). Eu tenho.

R. – Eu queria para tentar produzir.

B. – É, eu vou ver onde é que eu tenho.

R. – Gravação não tem, não é?

B. - Não, gravação não tem.

R. – Roquette-Pinto e Villa-Lobos:

B. – Ah, Roquette-Pinto e Villa-Lobos, eles eram muito amigos! Quando o Villa-Lobos veio – porque o Villa-Lobos morou muitos anos em Paris. Eu até o conheci em Paris, ele morava num apartamento e nós, os brasileiros, íamos lá uma vez por semana, ele chamava "Club de Sardine", o "Clube das Sardinhas", porque a gente sentava no chão, aquela coisa. Depois, ele veio para o Rio, e ele estava com aquela idéia de fazer os orfeões, não é, de organizar o orfeão. Daí que ele começou. Que é uma coisa muito boa, é uma coisa que o Roquette sempre dizia, "O nosso povo tem que ser educado é pelo futebol, é pela música, é pelo orfeão, é a disciplina". Tanto que existe a profissão de fé do orfeão, foi feita por papai: "Eu (se não me engano) assim prometo..." não sei; eu sei que acaba assim: "...usar a disciplina cantando." Eu posso até lhe ver o juramento do orfeão, foi feito por papai, que o Villa-Lobos pediu. E o Villa era muito amigo dele. Quando o Humberto Mauro fez "Descobrimento do Brasil", papai falou com Villa-Lobos para fazer a música, para escrever a música. E é muito engraçado, este caso que eu vou lhe contar, porque ele compunha lá na Praça da República, nós trabalhávamos em cima, no Cinema Educativo, Humberto Mauro, o Roquette, eu, todos nós, e embaixo tinha um estúdio grande. Então, papai cedeu e fazia, o Villa ficava compondo. E quando ele fazia uma coisa assim, mais bonita, ele subia: "Vem cá, Roquette, vem ver!" Papai descia, e os dois ficavam ouvindo aquela música do Villa, aquela coisa. Um dia, ele subiu e disse: "Ah, Roquette, vem ver que beleza! Vem, Tizinha, vamos, vamos!"; descemos. Descemos, uma beleza de música! Não sei qual foi o trecho, era "O Pássaro"! Não era o uirapuru, não, era um outro pássaro, não me lembro agora o nome. E ele botou a música, e "tam, tam", fortíssima! Uma beleza de música! Quando acabou: "Então, Roquette, que tal?" Papai disse: "Uma beleza! Só tem uma coisa, sabe, Villa? É que esse pássaro, ele canta... fininho, baixinho. Mas não muda, não, que ninguém sabe." (risos) Está lá, no "Descobrimento do Brasil"! Eles foram feitos para se entender, não é?


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