de Utilidade Pública Federal - Portaria no. 3935
de Utilidade Pública Estadual (RJ) - nº2464
de Utilidade Pública Municipal (RJ) - nº3048
detentora do Prêmio Estácio de Sá 2002

 

Beatriz Roquette-Pinto Bojunga

 

Entrevista para o programa especial sobre Roquette-Pinto, gravada em maio de 1990.
Transcrição: Gisele Pimentel
entrevista em quatro partes

 

Primeira parte:

Renato Rocha – D. Beatriz Roquette-Pinto Bojunga, a senhora feche os olhos e pense no Roquette-Pinto: qual a primeira coisa que lhe vem à cabeça?

Beatriz Roquette-Pinto Bojunga – O grande brasileiro que ele foi, continuar sendo com tudo o que deixou aí. E não preciso fechar os olhos, não; eu estou sempre com ele na cabeça.

R. – Num artigo da Julieta Drummond, a filha do Carlos Drummond, eu li uma declaração em que a senhora diz que Roquette lhe inculcou três conceitos: respeito à liberdade alheia, compreensão humana e valorização da amizade. Gostaria que a senhora falasse sobre isso.

B. – Bom, a compreensão humana que ele tinha era uma coisa fantástica, porque ele sabia tirar das pessoas inclusive o que as pessoas tinham de melhor. Por exemplo, quando ele fundou o cinema educativo, ele foi, estava com aquilo já estudando há muito tempo com Jonatas Serrano, com o "Grupo de Brasileiros", mas ele era diretor do Museu Nacional e, um dia, aparece um rapaz vendendo aparelhos domésticos e, sabe quem era? Humberto Mauro. E ele começou a descobrir o Humberto Mauro dentro do Humberto Mauro. Então, foi a primeira pessoa no Rio de Janeiro, ele tinha vindo para fazer uns filmes, estava mal de vida porque naquele tempo já era difícil o cinema, e daí ele pegou o Mauro e nunca mais deixou, e ele dizia: "O Mauro é uma das pessoas mais inteligentes e cultas que eu conheço". Quer dizer, ele tirava das pessoas, ele entendia as pessoas porque ele procurava dentro delas o que tinha de melhor, ele tinha essa arte. Eu sou suspeita para falar dele, não é? O outro é...

R. – Respeito à liberdade...

B. – Respeito à liberdade alheia. Bom, isso é uma coisa fantástica. Ele achava, como ele tem vários pensamentos dele, que ele diz sempre que nada no mundo, o pensamento tem que ser livre como a respiração, você não pode fazer nada de grande no mundo sem amor e sem liberdade. Isso é uma coisa primordial. E os amigos, então, essa plêiade de grandes amigos que me fazem muita falta: é o Carlos Drummond, é o Anísio Teixeira, é o Lourenço Filho, é o Venâncio Filho, era o Tude de Souza, era o Murilo Miranda na parte da Rádio, e tantos, como o Mateus Zulab, é uma plêiade. Se eu começar a falar eu vou acabar chorando... de saudade.

R. – Tinha o Garrenaud, não é?

B. – Ah, o Garrenaud, também, muito amigo dele, e o grande amigo Capanema, também. O Capanema foi uma coisa impressionante porque nunca, aliás, no tempo, engraçado, no tempo de uma ditadura, isso é uma coisa que precisava até ser dita, meu pai nunca foi político, não dava para a Política, ele era uma pessoa que vivia da Educação, vivia da Antropologia, viva da Fisiologia. Ele era um homem eclético, não é, ele era um homem.... Muita gente até conhecia pouco e dizia, no começo da vida, dizia: "Ah, mas ele não pára em coisa alguma, ele faz tudo ao mesmo tempo". Absolutamente! Ele começou a vida como médico. Ele se formou em Medicina porque ele foi criado pelo avô na Fazenda Bela Fama, uma fazenda linda perto de Juiz de Fora, e ele até estava pensando em entrar para a Marinha, uma coisa de rapaz mineiro, dezessete anos, e ele veio buscar o Chico de Castro, pai do Aloísio de Castro, que era professor, para tratar do avô dele, que foi quem o criou, o velho João "Roquêtte" (como dizem em Minas) Carneiro de Mendonça, porque a nossa família é Carneiro de Mendonça. O "Roquette-Pinto" só tem ele, ele fez o "Roquette-Pinto", naturalmente meu irmão, agora os sobrinhos já, mas era... Ele tirou porque o avô era conhecido por "Dr. Roquette", e ele era o "Dr. Edgard", era estudante de Medicina. Quando ele se formou, ele sempre contava isso, a minha bisavó, a avó dele que o criou, chamou todos os escravos (naquele tempo havia escravos na fazenda), pôs todos alinhados e disse: "De agora em diante não existe mais Dr. Edgard aqui, existe Dr. Roquette. É o nome do avô".
Ele então, em homenagem ao avô, tirou o Carneiro de Mendonça e ficou Roquette-Pinto. E o interessante é que ele ficou tão conhecido por "Dr. Roquette" que, até no momento em que ele morreu, os, os repórteres perguntavam: "Como é o nome dele?" E eu me lembro que eu gritei: "Edgard!".
E ninguém sabia, era "Dr. Roquette", "Dr. Roquette". Ficou o nome dele. Ele tinha paixão por esse avô, não é, quem o criou. E daí ele foi, casou-se com a minha mãe. O meu avô, pai da minha mãe, era médico, parteiro, e ele foi trabalhar com meu avô. Começo de vida, trabalhou na Santa Casa (que chamava na sala do banco) ele sempre contava isso, não é do meu tempo, mas ele contava.

R. – Ele casou com a sua mãe em que ano?

B. – Bom, aí eu posso fazer o cálculo pelo meu irmão. É duro ter que declarar isso, mas eu declaro, fagueira, eu não me importo, não. Nasci em 1911, e... quer dizer, uns quatro anos antes, faço cálculo, mais ou menos, não é? Ele deve ter casado em 06, 07, por aí. Mas depois ele foi trabalhar, fundou o Laboratório , foi fantástico! A vida dele é uma coisa, é uma epopéia! Ele foi trabalhar como laboratorista, e fazia sucesso, ganhava dinheiro, quer dizer, sucesso do ponto de vista do dinheiro, que é uma coisa que a nossa família, inclusive aprendemos com ele, nunca se interessou muito. Aí largou, aí ele fez um concurso para Professor do Museu Nacional, para Antropologia. Daí ele ficou com aquela paixão pela Antropologia. E, nesse intervalo, ele conheceu Rondon. E aí, apaixonado pelo estudo da Antropologia, o Rondon, em 1911, parece-me que em 11, foi o ano em que eu nasci, ele foi para Londres, no Congresso das Raças, representando o Brasil. Ele tinha vinte e sete anos. Eu fui com seis meses. Tinha vinte e sete anos, representando o Brasil no Congresso das Raças em Londres. Depois ele voltou, em 1912 ele foi com o Rondon para Mato Grosso, estudar os índios em Ambiquaras e Boros, na Serra do Norte. E, na volta, ele fez uma sala de exposições toda "Roquette-Pinto", toda com material. Daí é que ele trouxe os fonogramas com as músicas "Nozanina Aurecuá Couaá Casaetê", as dos índios Bororos, da Serra do Norte, em Ambiquaras, que o Villa-Lobos aproveitou para orquestrar, não é? E, depois dessa parte, ele foi Diretor do Museu Nacional. Aí, ele ficou muito tempo no Museu Nacional. Ele estudou antropologicamente, profundamente, o Homem brasileiro. E ele tem uma comparação muito interessante: ele chegou à conclusão que você não pode dizer que as raças têm "uma raça melhor do que a outra". Ele apresenta a raça humana como "espectro solar", não sei se isso está no livro dele. As raças têm as mesmas coisas que o espectro solar; você não pode pedir a uma que dê calor, quando ela dá luz. À que dá luz, você não pode pedir calor. É assim que ele compara as raças. Cada uma tem as suas qualidades, a que dá calor não pode dar luz. Em 1916 ele fez um curso para Professor da Escola Normal, naquele tempo Escola Normal, agora Instituto de Educação.

R. – Professor de quê?

B. – Professor de História Natural. E ele escreveu até um livro lindo, que é "História Natural dos Pequeninos", para as crianças, que até no outro dia eu li no artigo de Drummond, ele falou sobre esse livro. Uma História Natural, para os pequenos, para as crianças.

R. – Paraguai...

B. – Bom, aí ele, como tinha trabalhado com os dois irmãos, Álvaro e Miguel Osório, grandes amigos dele, porque eu considero como tios. E com os dois ele trabalhou, fez uma experiência de Fisiologia e se encantou, e tudo aquilo que o encantava ele estudava profundamente, e acabava um professor na matéria. Então, ele foi mandado pelo Governo brasileiro para ser criador da Cadeira de Fisiologia na Universidade do Paraguai, porque não havia ainda essa Cátedra, ele que fundou essa Cátedra. Tanto que, muitos anos depois, ele ainda recebia, ele me telefonava: "Minha filha, você quer receber o Ministro da Educação do Paraguai, que foi meu aluno ?" (risos)
Muitas vezes eu recebi vário Ministros que foram alunos dele nessa ocasião. Ele foi Professor de lá e tem uma... O Paraguai tinha uma paixão, o Roquette-Pinto lá era qualquer coisa!

R. – 22:

B. – Ah, é a Rádio! 1922 ele na... Os grandes festejos, se trata do Brasil naquela coisa toda, e eu estava lhe contando, que até isso Amaral Peixoto contou no, no Centenário de papai, que ele era "mignonzinho" e que estava com o pai, e que ouviu um caixote assim, numa parede, de onde saía música, e umas vozes dizendo uns versos, de vez em quando. Se eu não me engano, um dos versos era do Luiz Alberto Torres, que dizia "...lá na Praia Vermelha", e que ele perguntou o que era aquilo, e que o pai dele disse: "Ah, isso são as experiências que um grande brasileiro, um sábio, Roquette-Pinto, está fazendo!"
O primeiro rádio. E engraçado que, três anos depois do rádio ter aparecido nos Estados Unidos. E quem deu o nome a ele de "Pai do Rádio do Brasil" não foi o Brasil, não; foi lá, dos Estados Unidos. Quando ele chegou a primeira vez lá, depois de ter instalado o Rádio aqui, veio nos jornais: "Chegou aqui o 'Pai do Rádio Brasileiro' ". Ele sempre dizia isso: "Eles lá é que me deram o nome, Pai do Rádio".
Aí, em 1923, a paixão dele começou, então porque ele via, ele dizia mesmo "Cada vez que eu ouvia aquelas ondas sonoras do telégrafo, eu dizia, 'que força, que poder tem para a educação da nossa gente!' Porque o nosso povo, é um Brasil imenso. Onde entra livro? Não sabem ler! Agora, entrando pelos ouvidos, a Educação vai entrando". E eu até queria lhe contar, não sei se eu vou me estender muito, o meu filho, Cláudio, ele tinha uns sete anos, mais ou menos, seis anos, estava fazendo um dever de colégio, e me perguntou: "Mamãe, qual é a diferença entre Educação e Instrução?" O senhor sabe, eu sei, todos nós sabemos. Mas dizer em cinco minutos a uma senhora, uma moça que estava se vestindo para um "cocktail" numa Embaixada. Eu disse: "Ah, vou tocar para papai." E o meu marido dizia "Você pensa que seu pai sabe tudo?", e eu digo "Não, mas é que com ele eu não fico sem resposta."
O importante era a resposta. Porque ele ia, às vezes ele dizia: "Procura aí no dicionário, vou procurar aqui no Veftel, você procura no..." Eu não procurava, não é? Daqui há pouco ele tocava (ele me chamava de "Tizinha"): "Tizinha, achou?" E eu dizia "Não, papai, não achei." "Preguiçosa! Na página tal está assim, assim, assim..."
E ele dava a resposta. Então nesse dia ele me disse: "É muito fácil, minha filha: você, quando obriga o seu filho, Cláudio, a lavar os dentes todos os dias, você está educando. Quando você explica que, se não lavar o dente, vem a cárie, a infecção, a moléstia, você está instruindo. Então, educar é criar hábitos de significação social. No nosso país há muita gente instruída, que sabe que tem que lavar e não lava, não está habituado."
Nesse dia, eu fui para a Embaixada do Chile; um grande professor de Tisiologia, desses especialistas do pulmão, do físico, era homenagem a ele lá no Chile, na Embaixada do Chile, e eu vejo ele comendo com a colher que ele estava pondo na boca, e diz: "Señora, este es delicioso!"
E, com a mesma colher que ele pôs na boca, ele pôs no prato. Eu disse: "instruidíssimo, um dos maiores professores, mas não é educado". Eu sou educada, nunca faria uma coisa dessas. Ele sabe que não podia fazer, mas esqueceu! Aí, ele começou então a trabalhar, e tenho até uns casos interessantes, que ele fazia aquelas experiências. Eu o vi, muitas vezes, com radiozinho de galena, ele fez para mim, eu digo lá de minha casa, eu via o Tito Skipa cantar, eu punha aqueles fones, ficava procurando ali até ouvir. Daí ele, então, chamou um grupo de brasileiros, e ele foi procurar na Academia de Ciências o Dr. Morize. Por isso é que eu digo, o nosso Rádio começou muito alto, ele não pode se... desculpe o termo, se prostituir, não pode! Ele começou muito alto! E daí ele juntou esse grupo de brasileiros e ele contagiava as pessoas. Então, todos entraram para sócios, e eu me lembro que todos faziam tudo de graça, porque não tinha dinheiro. Então, as irradiações, por exemplo, eu fiquei contando o quarto de hora infantil, eu dirigia a parte artística, o Sérgio Vasconcelos ia lá falar de música, o Mesquita era o secretário, toda semana tinha a Confederação Brasileira de Radiodifusão, sabe o que era? Na Rua da Carioca, 45, onde a Rádio funcionava, uma mesa enorme, papai sempre andava com aquele avental de professor, não é, de médico, sempre usou, aquele branco. Ele chegava e dizia: "Ô Mesquita, avisou todas as Rádios? Todos?" E o Mesquita: "Avisei, Dr. Roquette."
O único que ia de vez em quando era o Elber Dias, da Rádio Clube. Mais ninguém aparecia. Então ele chegava, sentava na cabeceira, ficava ali quinze minutos esperando, ninguém aparecia, daí encerrava a sessão. Aquilo era para ver os problemas do Rádio no Brasil!

R. – Por que que o Rádio começou muito alto?

B. – Começou na Academia de Ciência! Não pode ser, não pode ser lugar melhor para um país começar! Eu acho que foi o único país no mundo em que esse Rádio começou tão alto, na Academia de Ciência! Alto, que eu digo, na parte cultural. Bem entendido, não é? Porque, a parte financeira foi sempre muito alijada, pode-se dizer pelo Roquette. E eu, até, estava lhe contando isso. É que, quando acabavam as irradiações, que aliás, eu não sei, é uma pena que não tenham continuado, a Rádio Ministério da Educação e Cultura, os diretores mudavam, eu sempre dizia "Por que não acabam...", ele sempre acabava assim: "Acabaram de ouvir a PRA2, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, que acabou de irradiar, pela cultura dos que vivem em nossa terra, pelo progresso do Brasil."
Tocava o Hino Nacional e acabava. Vamos dizer que tirem o Hino Nacional; mas a frase, ele não botou para os brasileiros, não, olha como isso é extenso: "Pela cultura dos que vivem em nossa terra, pelo progresso do Brasil". E ele, antes disso, ele dizia: "Cooperam para o fundo da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro Irineu Santos e Cia., Rua Chile, 23, fulano de tal, Rua da Carioca..."
Aí entrava um anúncio daqueles que mandavam válvula para ele de presente, coisas que ele não pagava, não é? Então, a Rádio começou por isso. Era um ideal. Começou e acabou como um ideal, quer dizer, acabou não, porque ela não acabou. A Rádio Ministério da Educação continua tendo o mesmo espírito da Rádio Sociedade. Tem que continuar! Se não continua, ela tem que continuar! Agora, essa Rádio, eu queria muito... Eu posso falar agora sobre a doação?

 


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