de Utilidade Pública Federal - Portaria no. 3935
de Utilidade Pública Estadual (RJ) - nº2464
de Utilidade Pública Municipal (RJ) - nº3048
detentora do Prêmio Estácio de Sá 2002
   
   

Artur da Távola

 
Com a mesma idade que a Rádio MEC tem e trabalhando nela desde quando era estudante, há 50 anos, e se chamava Paulo Alberto Monteiro, ele é o mais antigo radialista em atividade na emissora, e tem muito para contar.
 
Entrevista realizada em novembro de 2005 por Adriana Ribeiro. Transcrição Renata Mello
 

 

AO – Como foi o seu começo na rádio?
Eu estudava Direito na UFRJ. De repente me veio a idéia de fazer um programa Universitário, com a música, a literatura, e as idéias dos universitários, enfim. Tomei coragem e fui procurar o Diretor da Rádio, o sr. Fernando Tude de Souza. Ele me recebeu muito bem, achou a idéia boa, e disse: "Agora você procura o René Cavé que é o organizador da programação". Eu fui, e o René, que também foi muito amável, disse : "Eu só peço a você que tenha continuidade, porque já fizemos vários programas com estudantes, e eles brigam entre si e o programa acaba". E assim eu comecei, no final de 1955, a fazer o Programa Universitário, todas as quartas-feiras, às cinco da tarde. Tinha um colega que me ajudava, depois fiquei praticamente sozinho. Fiz o programa quatro anos. Aí eu me formei e passei o programa para um amigo meu, chamado João Paulo Santos Gomes, que hoje é psicanalista e levou o programa adiante por mais algum tempo.

AO – E quando o sr. se tornou profissional?
Eu era filho de viúva, e buscava trabalhar para sustentar os meus gastos. Casa e comida minha mãe dava, porque ela era funcionária pública. Então apareceu uma vaga de locutor na Rádio, que, naquele tempo, não tinha mais de 30 pessoas. Todos se conheciam, todos se queriam bem. Até hoje há esse espírito na Rádio. A Fernanda Montenegro passou por lá, a Joana Fomm também. Trabalhava também a Edna Savaget e tantos outros. Enfim, uma porção de pessoas que depois se tornaram famosas, e algumas que já tinham nome, como o Alfredo Sotto de Almeida, o Paschoal Longo e a Baby de Oliveira. Era um período muito brilhante, em que os ideais do Roquette-Pinto estavam muito recentes. Porque, se você examinar, são 20 anos depois da passagem da Rádio para o Ministério.
Nós sabíamos que a Rádio não era uma Rádio de audiência. Naquele tempo era o império da Rádio Nacional. Mas todo mundo trabalhava com um interesse muito grande. O René Cavé era muito suave, mas muito exigente. Era uma espécie de diretor artístico da Rádio. E o Fernando Tude de Souza, que era ligado à Fullbrigth Comition, era um homem muito suave e encantador, de muita cultura, e muito querido por todos. Havia na Rádio um 'esprit de corp' , um espírito de corpo muito presente.

AO – Mas o sr. se tornou locutor em que época?
Foi no governo Juscelino Kubitschek, e o diretor era um cidadão chamado Celso Brant, que também era chefe de gabinete do Ministro da Educação. Enquanto o Fernando Tude de Souza era um universalista, o Celso Brant era um homem mais ligado à música. Também muito idealista, mas, como era chefe de gabinete, ia pouco à Rádio. Mas ia todas as noites. Trouxe muita gente de Minas Gerais, mas manteve o René Cave, que era a alma da programação. O Celso Brant era um intelectual; depois ele se transformou em político, um político profético em muitas coisas. Ele olhava o Brasil com uma perspectiva futura, e ficou muito solitário na questão política, porém marcou a sua passagem com muita honradez.
Então, no tempo do Celso Brant, abriu-se uma vaga de locutor e houve uma conspiração do bem para que eu entrasse. A parte administrativa da Rádio ficava aos cuidados de um senhor chamado Nelson – só tinha ele no setor administrativo.
Como eu estudava Direito na faculdade, em 1956, eu tinha 20 anos, me foi dado o horário da noite na Rádio, e algumas transmissões externas nas quais eu era o reserva do locutor oficial: o Paulo Santos.

AO – Havia treinamento para os locutores?
Porque o Paulo Santos deu aulas na Rádio...deu cursos de locutagem, de Jazz... Eu fiz um breve curso de impostação de voz, mas foi fora da Rádio, nem me lembro aonde. Nessa época, nem se falava em fonoaudiólogo, havia apenas a Esther Leão, que era uma grande especialista em colocação de voz, mas eu não tinha dinheiro para pagá-la.

AO – E como era o trabalho ?
Em geral, eu ficava de 19 às 22 horas. Às vezes ficava até 23 horas. Um pouco depois desse período, a programação começou a acabar, como grande conquista, meia noite. Porque os transmissores na época eram de válvula e era preciso apagar as válvulas para não haver um excesso e queimá-las. Eu saía da Rádio e ia até a Central do Brasil, onde havia um angú que ficou famoso e depois desapareceu: o Angú do Gomes. O Angú do Gomes era um carrinho que vendia um angú, com aquelas carnes, quentinho, e eu saía com fome... aí eu pegava o ônibus 12, o Estrada de Ferro - Ipanema, e vinha para casa. Morava em Ipanema, em uma outra Ipanema também.

AO – E quando o sr. começou a escrever programas?
Quando eu estava no quarto ano da Faculdade, trabalhei em um escritório de advocacia, para treinar. Então eu pedi à Rádio para que eu passasse de locutor para redator. Não tinha nada a ver com o salário, nada disso, e eu comecei a redigir textos de alguns programas de música, porque já havia acumulado algum conhecimento musical. A rádio foi muito importante na minha formação musical: ela foi minha escola de música. Mesmo como reserva do Paulo Santos, nas transmissões externas eu treinava o improviso. Me deu oportunidade de assistir àquela época – a rádio transmitia muito do Municipal – grandes regentes, o primeiro Concurso internacional de piano, tudo isso eu transmiti. Uma vez me enviaram para transmitir um balé, o que foi um erro grave, porque o barulho das sapatilhas... era a Rapsódia espanhola de Rimsky-Korsakov, e era um tal de pular, e do barulho das sapatilhas...
Eu tive também uma situação muito embaraçosa com o André Segóvia, o grande violonista. A gente transmitia perto do palco, atrás de uma cortina. Com a orquestra aquilo não tinha problema. Sempre foi pecado em rádio deixar espaços em aberto: os ouvintes poderiam pensar que tinha saído do ar, etc. O André Segóvia exigia o silêncio absoluto, e ele era um mestre maior do violão. Para não atrapalhá-lo, eu comecei a falar baixo na coxia. Ele esperou todo mundo parar de se mexer e, quando ele ia começar, eu disse "então ouviremos agora..." – e ele me ouvia e parava. Aí, eu não podia falar com os ouvintes o que estava acontecendo, e parava também. Aí de novo ele ameaçava começar, eu falava e ele parava. Isso umas três ou quatro vezes – eu fiquei num embaraço danado, porque ele olhava zangado para mim, na coxia, com o microfone na mão. Na quarta vez, eu saí com o fio, que não ia muito longe, e expliquei aos ouvintes o que estava acontecendo. Eu lembrei disso porque são exercícios de improviso que a vida radiofônica pode ensinar.
Uma outra vez, estavam apresentado a ópera Aída, de Verdi. Tem a cena em que o Radamés volta do Egito trazendo a escrava Aída, por quem ele era apaixonado, e há um desfile para o rei com todos os escravos que eles fizeram no Egito. E o tenor que fazia esse papel era um tenor gordo, que entrava carregado por quatro "escravos" segurando nos ombros a parte do tablado onde ele ficava. E quando ele estava no auge da ária, chamada Ritorna Vincitor (Volta vencedor), começando a dialogar com o Rei, o fundo do palanque onde ele estava rompe pelo peso dele. Alfredo Colósimo era o tenor, e ele cai, aquele homem enorme, com as pernas para cima. Ele era um homem de tão bom humor que foi para o fundo da cena e riu até não mais poder. Depois, fez sinal para o maestro e continuou, sob os aplausos do povo. E eu fui obrigado a explicar aos ouvintes o que estava acontecendo, porque eles só tinham ouvindo o barulhão da queda. Aí falei "senhores ouvintes, aconteceu o inusitado... se demorar muito voltaremos a nossos estúdios". Porque tínhamos esse hábito também, qualquer coisa voltávamos para os estúdios. Então havia essas situações que foram muitas na vida.

AO – E o Paulo Santos?
O Paulo Santos a esta altura já estava meio cansado, nem sempre ele ia, etc. Tinha lá seus descontentamentos. Era uma pessoa de temperamento diferente. Embora locutor com uma voz lindíssima, uma das vozes mais bonitas que eu conheci no Rádio, e um boa praça na conversa, um homem muito agradável.
Ademais o Paulo Santos fazia as sonoplastias do rádio-teatro da Rádio MEC – ele conhecia bastante música. Foi na época da passagem do 78 pro disco de vinil. Os programas iam ao ar ao vivo e a sonoplastia era marcada no texto escrito, com lápis azul e vermelho, dizendo até que ponto ela ia. Com esses mesmos lápis o Paulo Santos marcava a passagem do disco onde entrava o trecho que era compatível com a cena que estava se desenrolando. Então era muito difícil. Era um grande trabalho para o operador, e um enorme trabalhão para o sonoplasta. Então vinha aquela pilha de discos e o operador tinha que estar acompanhando o texto, colocando os discos... e ele já botava na marquinha de cor que o Paulo Santos fazia. E assim se fazia a sonoplastia da Rádio.

AO – E como era o radioteatro, na época?
A rádio tinha um corpo de radioatores, onde se destacava um rapaz que até hoje é meu amigo, tenho a maior admiração por ele, embora eu o veja muito menos do que devia: o Allan Lima. O Allan Lima tinha vindo do Colégio Pedro II, como eu vim da faculdade. Só que ele chegou antes de mim. Pouco depois ele foi nomeado diretor do radioteatro. Além disso, ele fazia toda semana uma radiofonização muito interessante de um conto da história universal. O Allan fazia os scripts e dirigia o radioteatro. Eu tinha uma voz mais aguda à época, e ele me especializou na narração. Porque a adaptação radiofônica sempre caminhou, fora da radionovela, para a narrativa dramatizada – há uma dramatização mas vários passos da história são sintetizados pela narrativa. Até hoje há esse modelo na BBC. É um modelo que não deveria desaparecer do rádio, nunca. Porque o rádio é literatura, literatura com música. O rádio não é considerado como tal, porque depois ele caiu num populismo desenfreado, e deixou a fala literária, que não é uma fala elitista, pela fala coloquial. E é o que predomina hoje, não na Rádio MEC FM, mas na grande maioria das emissoras. A MEC AM usa uma fala coloquial. A fala coloquial também não é um erro, o excesso da fala coloquial é que é empobrecedor, porque limita o universo do entendimento, de vocabulário das pessoas. Mas tem a vantagem de pegar expressões populares... enfim é um bom tema para discussões.

AO – Quer dizer que o sr. também foi narrador?
Fui narrador e ganhei muita experiência nesse período. Eu gostava muito de trabalhar na rádio, com todo o meu idealismo de mocidade. E gostava muito mais do que trabalhar em um escritório de advocacia, tanto que acabei não sendo advogado. Eu bebia aqueles ensinamentos, aprendia rápido como uma criança e tinha muita alegria de fazer os programas. A rádio tinha muitos recitais: pianistas, violoncelistas, cantoras... Tinha cantora chata, simpática, bonita, feia, tinha de tudo. E tinha umas estrelas, umas divas. Me lembro de uma que cismou que não queria o piano no lugar onde ele estava. Só tinham duas pessoas da rádio, eu e o operador. O operador disse " eu não estou aqui para empurrar pianos". Aí eu fui conciliador. Como o piano tinha roda, e eu tinha 21 anos, eu consegui empurrar o piano para um outro lugar. Não ganhei nenhum muito obrigado da cantora, mas assim ela fez o programa, e eu apresentei.

AO – O sr. tem cópias desses programas?
Nessa época ainda não se gravava regularmente, a não ser algumas pessoas que gravavam em acetato. Até há um conto de Natal meu que foi gravado assim e eu não sei onde está. Durante muito anos eu tive esse conto, que foi gravado em 33 rotações pelo Manoel Cardoso. Eu diria a você que esse período vai até um problema jurídico na Rádio Nacional. Porque a Rádio Nacional tinha uma estrutura de empresa privada sendo do governo, e por 'n' razões, justas, os antigos funcionários da Rádio Nacional reivindicavam uma estabilidade. Então, como não podia dar estabilidade na própria Rádio Nacional - e ali começou a decadência da Rádio Nacional, por causa desse problema – eles foram passados para a rádio do governo. Foram nomes importantíssimos da Rádio: Floriano Faissal, Guiarone, vários radioatores... A Orquestra se transformou nessa época na Sinfônica Nacional, porque já havia a Sinfônica Brasileira. E foi aí que eu convivi um pouco, também com muita alegria, com o maestro Alceo Bocchino e com outras pessoas muito interessantes: Mário Tavares, Guerra-Peixe, cantores...

AO – Então, em 1961 o sr. já estava trabalhando como redator da rádio...
De vez em quando eu fazia locutagem, quando era necessário. Nunca cheguei a fazer nada com o Floriano Faissal, porque eu não era radioator, e ele tinha um time de rádioatores vindos da Nacional. E um contra-regra formidável, o Otacílio Tatá, que foi uma pessoa também muito querida na Rádio e altamente competente. Ele fazia todos os barulhinhos maravilhosos que se ouviam nas rádio novelas, com recursos como o coco, pra fazer o andar de cavalo; queimar papel, pra fazer barulho de incêndio; e vários outros.
A Rádio, depois que acabou o período Juscelino, em 60, passou por uma transformação. Saiu o Celso Brant e entrou o Mozart Araújo. O Mozart Araújo, a princípio, me pareceu uma pessoa muito antipática, porque ele era muito duro, muito autoritário, e ele tirava a força do René Cavé, que ele contrariava violentamente, nem dialogava. O tempo porém ensinou-me a admirar Mozart Araújo, pelo fato de ser um defensor intransigente do que havia de profundo – ele tem até um livro escrito sobre isso – na música popular brasileira. Ele tinha percepção do valor e da importância da música brasileira folclórica e popular. E o René Cavé era já mais um homem do mundo, filho de franceses, que tinha uma visão universalista da música, então os dois se "esbarravam" muito. Porém nessa época, no final de 60, eu fui eleito Deputado Constituinte do Estado da Guanabara – essa foi uma história da vida que me marcou.

AO – Por que os anos 60 foram tão marcantes?
Em 1960, a capital foi pra Brasília. O que fazer com o Rio de Janeiro, que era o Distrito Federal? Foi criada uma lei que determinou que o Rio de Janeiro passaria a ser cidade-Estado, a capital iria pra Brasília, que seria o Distrito Federal, e seriam escolhidos 30 deputados para fazer a constituição do Estado da Guanabara. E eu sempre fui uma pessoa dividida entre a consciência social, a idéia de participação social e uma sensibilidade artística que impulsiona para outros caminhos. Tanto que eu escrevo minhas crônicas, meus poemas. E sempre vivi muito fortemente esse conflito. Mas nessa época eu estava saindo do movimento estudantil, tinha dirigido um jornal chamado Metropolitano, em 1959, e, entre os 30 que foram eleitos pra fazer a constituinte, eu era o mais jovem, na época eu era o mais jovem do Brasil. Fui eleito com 24 anos, era um garoto bobo, tinha me formado naquele ano e entrei logo numa vida política que foi também um aprendizado. Engraçado: tudo que eu fiz na minha vida eu tive que aprender no processo. Aprendi política, veja como entrei na Rádio, como depois fui para o exílio. São todas experiências novas que eu fui aprendendo no processo. É muito curioso esse tipo de formação, uma formação de autodidata.

AO – E deu para conciliar o político com o radialista?
Eu fui ser deputado, e tive que me licenciar da Rádio - não abandonei, porque eu gostava, ia lá conversar, mas me licenciei. E foi o período então do Murilo Miranda, que foi quem levou o Quadrante pra Rádio, levou muitos intelectuais. O Murilo Miranda era um promoter – nessa época não existia essa palavra – , um promoter cultural muito bom, além de ser, ele também, um intelectual. Na época ele era da UDN, e nós éramos contra a UDN, que seria um partido mais para a direita, um partido muito forte, muito significativo e que participou diretamente do golpe militar. Mas o Murilo era um homem muito bom, muito interessante, eu acho que ele ainda manteve o René Cavé. O René Cavé foi até o finalzinho dirigindo. Então nessa época eu me afastei da Rádio. Em 64 eu fui caçado, tive que me exilar numa embaixada porque havia perseguições políticas, eu então me exilei na embaixada da Bolívia. E de lá eu fui pra Bolívia, e de lá eu fui para o Chile, onde fiquei 4 anos. E trabalhei em rádio lá e também em televisão.

AO - E o curso de educação, no exílio?
Fiz um curso de especialista em educação na Unesco. Consegui uma bolsa da universidade. Mas eu precisava trabalhar. Tinha 28 anos quando fui para o exílio, foi outra experiência que eu tive que aprender na prática. Não existe escola de exílio. Mas eu tinha tanto amor pela rádio que, quando eu saí, fiz uma carta, dizendo que "por razões acima da minha vontade fui obrigado a me exilar numa embaixada", e eu pedia à Rádio que me colocasse em licença até que o país voltasse à normalidade, porque o meu desejo era continuar a trabalhar. Não sei se a carta chegou ou não. O fato é que eles se esqueceram de mim e nada fizeram comigo, ou seja, não me demitiram, nem me deram a licença. Eu virei um absurdo administrativo. E aí foi pra Rádio o Eremildo Viana, que foi um verdadeiro terror, substituindo a Maria Yedda Linhares de quem ele tinha muito ciúme – porque a Maria Yedda era a professora de história mais querida e ele o mais detestado. Era um homem extremamente arbitrário. O Élio Gaspari, que foi aluno dele, criou a figura de 'Eremildo o Idiota' por causa do Eremildo. Porque ele denunciou todo mundo, denunciou alunos, ele teve aquele papel horroroso. Eu tinha sido aluno dele no colégio Andrews, no secundário. Mas o Élio Gaspari era mau: durante vários anos, várias vezes, ele ligava de madrugada para a casa do Eremildo com notícias alarmantes: "Seu filho foi atropelado, eu estou ligando aqui da 9ª delegacia..."; dizia que a Rádio estava pegando fogo, enfim fez o diabo. O Gaspari era muito engraçado. Depois criou o 'Eremildo, o Idiota', com ele ainda vivo.

AO – A professora Maria Yedda foi presidente da SOARMEC – o senhor mesmo participou de uma reunião com ela– , e quando ela assumiu, o Elio Gáspari deu uma nota bastante explícita na sua coluna dominical. De fato, parece que o Eremildo foi uma unanimidade.

Absolutamente autoritário... Eu estava exilado. Foi um momento terrível da Rádio. Não podia tocar música russa, umas barbaridades dessa ordem... Ele tomou conta manu militar da Rádio. Como ele era bem visto pelo sistema, o sistema deixou. O que ele queria era ir em cima da Maria Yedda, tirar a Maria Yedda, punir. E a Maria Yedda é uma pessoa muito cordata, é uma pessoa de diálogo. Ela é muito firme nas idéias dela, ela tem muita clareza do que ela pensa. Então, na Rádio, ela não teve nem tempo de desenvolver o trabalho dela. Ela ficou pouco tempo, porque o Eremildo foi em cima dela. E um cronista chamado Henrique Pongetti, que durante muitos anos escreveu no O Globo, era implacável com a Maria Yedda. Disse mentiras a respeito dela, uma coisa muito dolorosa, ela sofreu muito com isso. Nesse período todo eu estive fora da rádio. E aí eu voltei, se não me engano, em 85. Era diretor uma pessoa que foi muito correta comigo, o Heitor Salles. O Heitor facilitou a minha volta – ainda era ditadura, e ele podia ter ficado com medo porque eu era 'cassado'. Quando eu voltei para o Brasil, no princípio de 68, o presidente Costa e Silva tinha dado uma relativa abertura e proclamado aos brasileiros que estavam exilados que voltassem. Mal sabia ele que logo depois viria sobre ele o AI-5, e a ditadura ia ficar muito pior. Mas, nessa época, só duas pessoas voltaram: o Samuel Wainer, que queria recuperar o jornal Última Hora ; e eu, mais ninguém. Eu, porque já estava com 3 filhos – 2 nascidos no Chile, o mais velho já falando castelhano – e não queria desenraizar o meus filhos do Brasil. E eu também estava enraizado na vida chilena. Eu já era professor da Universidade, tinha produção de um canal de TV, fazia um programa de rádio. Mas minha saudade era muito grande.
Voltei e fui procurar o Eremildo – "Olha eu vim aqui porque eu sou funcionário". Aí, o Eremildo o que faz? Me demite, e comete a barbaridade de me demitir em 1968, com data retroativa a 1964. E eu tenho pena de que eu até hoje não entrei nessa comissão de anistia porque eu tenho direitos aí que foram inteiramente violados. Mas enfim, em 85, eu voltei. Trabalhava n'O Globo e comecei a fazer uns programas lá na Rádio. Ocorre que em 86 eu fui eleito Deputado Federal – e trabalhando como constituinte eu não poderia trabalhar na Rádio, ou seja, eu não poderia receber por duas fontes. Com isso me licenciei da Rádio, novamente. Acontece que eu fiquei um período de 16 anos no parlamento em Brasília. Mas numa certa altura eu não agüentei mais de saudade e propus voltar, sem ganhar nada, fazendo um programa. E assim foi: abriram os caminhos tanto na AM como na FM, e eu fazia os programas que eu estou fazendo agora, e mais uma crônica, que foi cortada pela nova administração. E fiquei fazendo a Rádio vários anos sem receber. Fazia pelo prazer, faço até hoje. Quando eu perdi a eleição e deixei o meu mandato, eu tratei de conseguir voltar para a ACERP, de ir pra rádio, e não para a televisão. Eu gosto de rádio. E assim foi. E aí veio a nova gestão, que foi muito correta comigo, nunca interferiu, ao contrário.


AO – Como jornalista o senhor defendeu a rádio pública, o rádio educativo, o rádio infantil, a Rádio MEC – inclusive, a permanência da Rádio no Rio de Janeiro – , e como político?
Eu lutei 2 vezes contra tentativa dos desvios da rádio de suas funções. A primeira delas foi ainda antes de 64, quando o Deputado Adauto Luiz Cardoso, da UDN, partido do centro direita com grandes talentos da oposição, quis que a Rádio passasse a transmitir os debates da Câmara dos Deputados. Aí com a filha do Roquette-Pinto, dona Beatriz, que era uma mulher lindíssima, nessa época, fizemos campanhas aqui no Rio de Janeiro inteiro. Não só eu e ela, várias pessoas: fizemos aquela chamada 'onda'. E um outro período em que eu agi como político. Assim também como eu por 3 vezes impedi a privatização da Rádio Nacional. Isso é uma coisa minha pessoal, fui eu quem fez. Fui eu quem fui ao Itamar Franco, quando houve uma tentativa, e no governo Fernando Henrique duas tentativas. E eu fui ao Fernando Henrique e obtive dele a não privatização da Rádio Nacional. Por que? Não é por ser contra o rádio privado. Mas o espectro radiofônico brasileiro já é mais de 90% privado, e o caráter público da rádio é um caráter que o país nunca compreendeu bem. Eu creio que o Brasil ainda não acordou pra importância do rádio. Os patrocinadores não acordaram, os governantes não acordaram e o grande predomínio da privatização e mais a entrega de concessão a muitos políticos, ainda recentemente, para ganhar votação lá na Câmara, constituíram uma verdadeira tragédia no âmbito radiofônico. Que é um âmbito completamente abandonado também do ponto de vista da fiscalização e da legislação.

AO – A concessão da maneira como é feita resulta em uma forma perversa de privatização (veja matéria na página 6). O senhor que estava lá dentro do Congresso, o que acha?
Muitas pessoas conseguem uma concessão de uma rádio, não exploram e alugam a rádio: botam o dinheiro no bolso sem fazer nada. A concessão não é dada para você alugar, para você explorar. Ela é dada pra você prestar um serviço público. Então eu penso que o setor de rádio no Brasil precisa de mudanças profundas e drásticas que nenhum governo até hoje teve coragem de fazer. Nem o governo do meu partido. E eu creio que algumas emissoras públicas deveriam ter canais dados pelo Estado que cobrissem o Brasil inteiro. Como muitas emissoras privadas já estão fazendo, até burlando um pouco a legislação. Você imagina a Rádio MEC podendo ser ouvida em todo o país. Uma emissora, uma só, não vai atrapalhar o espectro. Porque tem dezenas de emissoras a repetir, porque não dizer, um lixo musical. Então eu creio que o rádio é parte integrante de uma revolução cultural que nunca foi percebida no Brasil. Porque o rádio pode fazer uma revolução cultural maior até do que a da televisão. Porque, pela natureza da comunicação radiofônica, ela é mais profunda do que a da TV. Primeiro, que a maioria dos aparelhos receptores hoje é também de uso individual, o que individualiza a recepção; Segundo, que o rádio trabalha no ouvido com a imaginação solta, e o ouvido é um sentido mais profundo do que o olho. O olho é muito volúvel, ele precisa normalmente de variação – você não consegue ficar meia hora olhando pro mesmo lugar. E isso faz com que a natureza profunda da comunicação radiofônica seja de uma penetração maior no ouvinte. Por isso ele é um instrumento cultural. O Aiatolá Khomeini retomou o governo da Pérsia quando exilado em Paris, com fitas cassete que ele mandava, que circulavam secretamente, defendendo a volta do Irã às suas raízes muçulmanas. Eu não estou discutindo se o Aiatolá é radical, eu estou falando do valor do auditivo. Então eu acho que o Rádio é literatura oral com a possibilidade da música, e nesse sentido o caminho dele está completamente ignorado no Brasil. O que transforma uma rádio como a Rádio MEC numa rádio de resistência. E existem outras, a Rádio Cultura de São Paulo, existe uma rádio universitária no Rio Grande do Sul, existe outra em Pernambuco, existe até uma entidade que une essas rádios, mas elas não conseguem força política porque esse espectro está dominado por essas igrejas mercantis, ou pelas concessões para políticos conforme a simpatia dos governos. Eu tive a oportunidade de ter uma concessão de uma rádio quando era político, nunca quis, exatamente para não usar de um modo que me parece equivocado. As pessoas não compreenderam. Os intelectuais não ouvem, é um meio sem prestigio, e não existe uma política de governo pra isso. Esse atual governo ensaiou uma política de governo, deu uma condição melhor para a TVE, para a Rádio MEC, para a Rádio Nacional, mas parou por aí também. Eu lembro que uma vez uma verba que eu consegui quando era da ACERP para comprar discos foi prometida, autorizada e nunca chegou. Em suma, é isso, eu acho o Rádio um instrumento que precisa ser redescoberto pelos intelectuais, pelo governo, pelos políticos, pelas pessoas de bom senso.

AO – O senhor acha que o papel da Rádio MEC nesse cenário seria um papel de resistência?
Um papel de resistência cultural. A Rádio cultural resistiu até a ditadura, até a esse diretor maluco que não podia tocar música russa ela resistiu. Através de um trabalho de formiga dos seus funcionários, mantendo viva aquela chama de rádio cultural, ora de uma maneira mais bem feita, ora menos bem feita. Ela está vivendo um momento bom agora, um momento de interesse das pessoas, uma tentativa de aglutinação no funcionalismo e isso tudo ajuda muito.

AO – Tem alguma coisa mais a respeito da Rádio, que o senhor gostaria de falar e que não perguntamos?
Poderíamos ficar horas falando... Mas essa é a história de 50 anos, abreviada, e que eu sintetizaria nisso: a rádio foi uma paixão e ainda é. A rádio foi uma lição pra mim. Eu me aperfeiçoei muito no conhecimento musical com a obrigação dos programas, porque eu sou autodidata. A rádio me ensinou muito, eu devo muito à Rádio. E ano que vem fará 50 anos que eu comecei. Eu sou o funcionário mais antigo de lá. Sendo que eu faço 70 anos junto com a Rádio. É claro que a rádio começou em 23, mas em 36 ela foi passada. Então, isso quer dizer o seguinte: eu vivi como partícipe e como ouvinte - nas fases em que eu estava fora, nunca deixei de ouvir a rádio. Eu vivi a rádio - como eu a conhecia por dentro eu mesmo olhando de fora percebia. Fui membro do Conselho da ACERP quando era Senador. Para mim foi uma aventura a Rádio MEC, sempre foi uma aventura .

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