de Utilidade Pública Federal - Portaria no. 3935
de Utilidade Pública Estadual (RJ) - nº2464
de Utilidade Pública Municipal (RJ) - nº3048
detentora do Prêmio Estácio de Sá 2002

 

Allan Lima e Ieda Oliveira

Entrevista com dois ícones do rádio-teatro e da radiodifusão brasileira, Ieda Oliveira e Allan Lima, no dia vinte e seis de junho de 2002.

 

Amigo Ouvinte - Como e quando vocês vieram para a Rádio MEC?

Ieda Oliveira - Vim com 13 anos, em 1947. Vinha de um programa infantil, na Rádio Guanabara, o "Campeonato Infantil Toddy". Era feito por um locutor esportivo, o Helio Paiva. De lá saíram muitas cantoras: Claudete Soares, Dóris Monteiro… Havia uma sessão de instrumentistas, uma de cantores, e um "sketch" - antigamente se falava "esquete", né? Eu cantava, mas, um dia, faltou alguém para o esquete, e diretora me disse: "Tem muitos cantores aí. Hoje você vai fazer esquete". E eu fiz. Depois ela disse: "Você não vai mais cantar. Agora vai fazer só esquete". Eu reagi: "Mas eu quero ser cantora." "Não! Você vai fazer esquete." E eu fiquei.
Por domingo, saía sempre um vencedor de cada categoria, e , no esquete, eu ganhei todos os prêmios. Quando terminou o patrocínio da Toddy, o Hélio Paiva me chamou e disse: "Você é muito talentosa, não pode ficar aqui, não, porque isto aqui é uma estação comercial, mas eu vou te mandar para o René Cavé na Rádio Ministério". Eu ainda estava no Ginásio. Cheguei aqui, no terceiro andar, e a primeira pessoa que encontrei, foi o René Cavé. Aí, contei a minha história, e ele: "Você quer ficar onde? No rádioteatro infantil, ou no da mocidade?" Eu preferi o infantil, e ele disse: "Então você vai entrar naquela sala, e procurar a Geny Marcondes." Essa mulher fantástica, que é a responsável por toda a minha vida artística, Geny Marcondes. E eu então entrei, me apresentei, e fiquei todo o tempo em que ela escreveu e dirigiu o programa. Depois ela foi substituída por Sílvia Regina.
Eu fiquei aqui de 1947 até 85, quando fui transferida para a Universidade Federal Fluminense, aonde fui levada pelo Pedro Paulo Collin Gil. Ele era professor de lá, e nós montamos uma estação de rádio com técnicos aqui da Rádio MEC. Mas, depois de montada, a gente não sabe qual foi a política que aconteceu: nós não pudemos assumir e eu fui ficando lá, até minha aposentadoria, em 1990.

o A Geny Marcondes chegou um pouco antes de você?

I.O. - Ela chegou em 1945 ou 1946. Ela era professora de música, e à época estava casada com o maestro Kolreuter. Dona Geni foi contratada para fazer um programa musical infantil. Àquela época, os programas iam ao ar ao vivo, das 17:30h às 18h. Às16:30h começávamos a ensaiar, não só o texto - sempre era uma historinha -, como também as músicas. E as crianças eram ótimas!
Eu lembro que uma vez ela disse pro Orlando Prado, um grande ator: "Ô, Orlando, imagine que você é um peixe debaixo d'água, e fale com voz de peixe." Como o imaginário da criança é fantástico e como a não-censura ajuda! E ele falou com uma voz de peixe, uma voz borbulhante... Ninguém sabe como é que ele conseguiu fazer aquilo sem estar com um copo d'água! Mas ele ficou olhando, pensou, e conseguiu fazer. Dona Geny era uma mulher de uma cultura muito grande, uma cultura musical muito grande. Desse programa saíram grandes atores. Fernanda Montenegro trabalhou conosco...

o Ela trabalhou com Geny Marcondes, também?

I.O. - Trabalhou! Nós fazíamos uma série, "O Rei Pimpão". Ela era a Rainha Finoca, o Magalhães Graça era o Rei Pimpão e eu era a filhinha deles, a Princesinha Não-me-toques. Também tinha música, e o Graça cantava maravilhosamente bem, e ela também. E trabalhamos também com a Teresinha Amayo, que igualmente passou pelo programa.
Quando o Jaime Barcelos teve que deixar a Rádio para se dedicar ao Teatro, Dona Geni chamou o Magalhães Graça para fazer o Rei Pimpão. Diga-se de passagem, que o Graça nunca tinha ouvido o trabalho do Jaime. Dona Geni deu o script para o Graça e mandou que lesse. Ele pegou o texto e, à primeira vista, você jurava que era o Jaime Barcelos! Como os dois sentiram o personagem exatamente igual! Nós ficamos boquiabertos, não é?

Allan Lima - Ainda me lembro da apresentação que era assim (cantando): "Eu sou o Rei Pimpão, atchim! Pimpão, atchim! Pimpão! Também sou bonachão, chão chão, chão chão! E faço um figurão, rão rão, rão rão! Porque sou bonitão, tão tão, tão tão!" Era a música do Rei Pimpão, que tinha o contracanto fininho da Rainha Finoca, que era a Fernanda.

o A Ieda de Oliveira já possuía prática de rádioteatro, por conta do seu trabalho na Rádio Guanabara. E o Orlando Prado e os outros atores? Qual era a formação deles?


A.L. - Isso eu posso contar. O Orlando Prado, inclusive, é o culpado por eu ter ocupado o microfone pela primeira vez. Nós éramos estudantes do Colégio Pedro II e o Colégio mantinha, na Rádio Roquette-Pinto, um programa estudantil. E o Orlando Prado era um dos astros. Eram dois os intérpretes principais: o Orlando Prado e o Habib Haias. E eu ficava lá, com o nariz colado ao vidro, doido para fazer qualquer coisa, doido para o Professor Libânio Guedes, que era o responsável pelo programa, me dar uma oportunidade qualquer. E um dia, exatamente, num dia em que o Orlando Prado iria fazer um dos seus muitos protagonistas, ele faltou, e não havia mais ninguém ali por perto. O Professor Libânio Guedes pegou o script e pôs na minha mão. Oba! - era a minha grande oportunidade... de ser o grande fracasso que foi. Foi horrível! Foi mal lido, não digo nem mal interpretado, foi mal lido!
O Professor Libânio Guedes botou a mão no meu ombro e disse: "Olha, você tem muito jeito para escrever, procura entrar por esse caminho... Não pensa em microfone, não, porque não é o teu campo de batalha." Aí eu fui para casa, tristinho da vida, e continuei escrevendo - que eu já escrevia para esse programa -, até que uma semana lá o Professor Libânio me chamou e disse: "Allan, você hoje vai para o microfone. Tem um papel perfeito para você. Nós vamos fazer a estória de 'Mensagem a Garcia', e você vai fazer aquele que leva a mensagem a Garcia."
Eu não dormi, não é? Pensei: "É a grande chance!" Fiquei em casa, bolando como seria, qual seria a inflexão... Bom, meu papel se resumia a esta frase: "Mas... onde está o General Garcia?" Esso era toda a minha participação. Mas o Professor fazia questão da pausa certa nas reticências!!!
Eu estou contando isso para falar sobre o Orlando Prado, e também de Theresa Amayo, Inácio Singer, Félix Cohen, Ivan Meira, Aryon Romita - todos somos oriundos desse mesmo embrião. Depois, o programa saiu da Roquette-Pinto e veio para cá, chamando-se "A Juventude Cria", e deu muita cria, aqui, para a Rádio MEC - a nossa antiga Rádio Ministério da Educação e Saúde..

o Yedda, o que você aprendeu no radioteatro daqui?

I.O. - Eu vim com treze anos, e com essa idade a gente não tem dimensão de nada. Muitos anos depois, foi que eu tive a dimensão de como foi a minha formação aqui dentro. Todos os atores que eu conheci, de Rádioteatro, eram pelo talento. Primeiro tinha que se ter uma voz bonita, e depois o talento - que é uma coisa que nasce com a gente. Ninguém me ensinou, não; eu nasci assim. E nós pegamos muitos bons diretores. Então, o diretor é quem vai te lapidar. Nós tivemos o Edmundo Lys, tivemos o Mário Jorge, tivemos Sadi Cabral, Sérgio Viotti, Paulo Salgado, Luiza Barreto Leite e Magalhães Graça, com quem eu fiquei muito tempo - eu devo tudo ao Magalhães Graça...
O Sadi Cabral gostava muito do Gil Vicente! O teatro português! E foi a coisa mais difícil que nós tivemos, justamente pela forma, pela grafia da língua portuguesa, que era aquele português arcaico, não é? Aí a gente lia e tinha que reler tudo outra vez, porque era "ph", "sh", então ficava difícil! E quando a gente começava a falar, automaticamente, já ficava com um tom português. Mesmo que a gente não quisesse já falava sobre os dentes... Foi a coisa mais difícil, o teatro mais difícil.
E nós fizemos, também, todo o Teatro Grego... Foi com o Magalhães Graça. Outro ensaiador muito bom foi o Martinho Severo! Um declamador português que era ensaiador dos programas de poesia. Era ao vivo, sábado à noite, de 22 às 23.

A.L. - Tudo era ao vivo! Não havia gravação.

I.O. - Interessante, depois que passou para a fita, como a gente errava! Antes a gente não errava nada, não é, Allan? Ninguém errava! Passou para a fita, a gente errava à beça!

o Allan, vamos retomar do mesmo ponto. O que você encontrou quando chegou?

A.L. - Eu vim com o programa do Pedro II, que era "A Juventude Cria" e integrava um dia da semana do "Reino da Alegria". Eu comecei escrevendo. "A Juventude Cria" era um programa formado de seções, e cada estudante fazia uma seção. Exatamente nessa época, em 49, Dona Geny tinha viajado para a Europa; estava Dona Neuza Feital... Então, eu passei a escrever para o "Reino da Alegria", a convite da Dona Neuza, e dali comecei também a fazer umas coisas para eu próprio ler - não vou nem dizer "interpretar". Nisso, Dona Geny Marcondes volta, já me encontra integrado ao "Reino da Alegria", mantém a minha posição e começa a me dar papéis, e aí eu sou chamado para o "Rádioteatro da Noite".

o Quem eram as pessoas?

A.L. - Eu tenho aqui uma lista de nomes de pessoas que participavam, que não está obedecendo a nenhuma cronologia: são nomes retirados de scripts de antigos programas, nomes, como, por exemplo: Jair Miranda, Gonzaga Filho, Zélia Guimarães, Arlete Pinheiro...
I.O. - ...que é a Fernanda Montenegro…

A.L. - Sim, e é até muito interessante porque... Era assim: "Programa de Fernanda Montenegro, narrado por Arlete Pinheiro", ou vice-versa, "Programa de Arlete Pinheiro narrado por Fernanda Montenegro". E às vezes ela entrava - eu tenho até um script em casa, é muito interessante - , ela entrava em dois papéis no mesmo programa. Então, na relação "tomaram parte no programa de hoje fulana de tal, fulana de tal, Arlete Pinheiro, Fernanda Montenegro, e tal...", como se fossem duas pessoas diferentes.
Mas então, voltando: J. Nogueira, Jayme Barcellos, Francisco Nunes, Paulo Renato, Augusto Araújo, Afonso Soares, Karlos Couto - famoso Karlos Couto "com K" -, Batista Rodrigues, Antônio Carlos, o humorista, José Ricardo, Carlos de Souza, Célio Rodrigues, Martins Filho, Carmem Fernandes, Aldo César, Francisco José, Dália Garcia, Aristeu Bergher, Iracema Lopes - não sei quais dessas pessoas integravam o "Rádioteatro da Mocidade", que o Edmundo Lys dirigia.
Sob a direção de Edmundo Lys, eu fiz uns dois ou três programas. Era muito bom diretor. Ele era severo e muito cioso do que o programa tinha que ser, da maneira como teria que sair o programa, a ponto de, se a coisa não fosse como ele queria, ele jogava o script e ia embora. Jogava o script em cima da bancada onde ele estava assistindo, ao lado do operador, e ia embora. Textualmente, ia embora! Ensaiava-se, ensaiava-se mesmo! Não era ensaio "para inglês ver", nem leitura de programa. Ensaiva-se. O diretor dizia o que queria e como queria que fosse feito.
Aí, voltando à minha trajetória, quando o Edmundo Lys sai da direção, vem o Mário Jorge. E, com o Mário Jorge, eu fui ficando e fui aumentando a participação nos papéis. O programa do Pedro II terminou, eu continuei no "Reino da Alegria", já como fixo, e o tempo foi rolando, e daquele "Mas... onde está o General Garcia?", eu terminei sendo diretor de Rádioteatro da casa.

o Como a coisa era feita. Como os atores ensaiavam? Como era a contraregra e a sonoplastia?

A.L. -Os atores chegavam e já encontravam quase sempre, em cima do piano do estúdio, os vários scripts com o nome de cada um. Cada um pegava o seu script e já sabia o que ia fazer; já começava a marcar o seu papel do jeito que costuma marcar - uns sublinhando só o nome do personagem, outros passando uma linha embaixo do nome e da fala que vai dizer.

o Os scripts vinham de onde?

A.L. - De uma seção chamada "Setor de Preparo de Irradiação" - SPI. O autor do programa entregava o original, esse original ia para a Datilografia, a Datilografia batia em estêncil - aquele que tem a letra roxa - que era rodado naquele mimeógrafo a álcool em cima de papel-jornal, meio amarelado. Isso era posto ali, cada um dava sua "passadinha de olhos" e esperava o ensaio. O diretor chegava e: "Vamos lá!". Quem tinha que começar a falar começava. Ele interrompia quando precisava interromper, dava a linha, quando achava que era necessário, e o ensaio se desenrolava sem maiores problemas, como é um ensaio de leitura de teatro.

o E a contra-regra e a sonoplastia?

A L - Dentro do estúdio havia um microfone para o contra-regra e um tablado, com um pouco de areia, um pouco de cascalho; uma porta de cerca de um metro de altura... Essa porta, com fechadura, trinco e tal, para fazer todos os ruídos. Fora isso, havia o material necessário. Dois cocos para fazer o cavalo, na terra, ou no cascalho; papel celofane, para fazer incêndio; o papel comprimido no lápis para fazer a porta que range; uma folha de flandres; uma folha de zinco, para fazer a trovoada. Tudo isso é da criatividade do contra-regra.
E a contra-regra era muito fruto também da imaginação, porque às vezes vinham uns pedidos absolutamente loucos! Vou contar uma que aconteceu na Rádio Nacional. Num programa, lá, pediram o ruído de um corpo sendo devorado por formigas, e o Edmo do Valle - que era o contra-regra lá e que depois veio para cá -, deve ter "queimado muito as pestanas" para chegar à conclusão de que um comprimido efervescente, na água, posto ao lado do microfone, dava o ruído que se queria.


o Não havia o efeito gravado?

A.L. - O efeito gravado existia, mas entrar no momento exato, ao vivo, era muito difícil. A sonoplastia, era com discos de 78 rotações, um pouco maiores, de 12 polegadas, que eram todos marcados com lápis vermelho em cima do próprio sulco, com vários círculos. E cada círculo, correspondia a um trecho mais suave, menos suave... Me lembro bem que o sonoplasta que fez a maioria dos programas era o Paulo Santos. Ele adorava uma peça chamada "André de Leão e o Demônio de Cabelo Vermelho", do Hekel Tavares. Então, os vários discos do "André de Leão" eram todos marcados, e ele punha no script para o operador: "Disco tal, lado A, sétima faixa". Mas não era faixa - a face era contínua -, era a sétima marcação que ele havia feito com lápis vermelho. Aí, sim, ele marcava o ponto no script onde deveria começar a música e vinha com aquele risco por cima da fala, até o ponto em que deveria sair, onde ele dava dois traços oblíquos. Alí, o operador sabia que a música deveria já ter sumido.

o Voltando á lista, quem mais você citaria?

A L - O Brandão Reis, sem dúvida. Quando eu cheguei ele era o grande astro da narração. Era um senhor que fumava um cachimbo britânico e um ótimo narrador! E o Mário Jorge, que era um excelente rádio-ator, que foi depois diretor, ensaiador, E também o Júlio Cezar Costeira.
O Júlio Cezar era o galã da época. Fazia os programas com a Fernanda Montenegro como primeira dama. Isso também eu assisti, não me contaram. Os dois estavam interpretando uma cena de amor e acabaram dando a maior demonstração de profissionalismo que eu já vi, no Rádio. Júlio Cezar e Fernanda estavam, cada um, de um lado do microfone. A cena era a mais melosa que se possa imaginar. De repente, devido ao fato de o parafuso de fixação da girafa estar frouxo, o microfone começa a baixar lentamente. Os dois, sem esboçar a menor hesitação, foram se acocorando - sem parar de interpretar -, foram abaixando e terminaram quase de gatinhas no chão, mas fizeram a cena inteira.

I.O. - Tem também o Álvaro Costa e a Dona Cora Costa.

AL - Foram duas figuras maravilhosas, vindas do teatro, casados os dois, ele com sotaque de português, um sotaque fortíssimo... E ele era baiano! Por quê? Porque o teatro, na época em que eles faziam, privilegiava o sotaque português. Tem o Paulo Alberto, que foi locutor da casa, foi narrador e ator também de vários dos meus programas, e fez muita transmissão ao vivo do Theatro Municipal, do "Concertos Para a Juventude"- este Paulo Alberto é o atual Senador Arthur da Távola.
Deixa eu ver quem mais, aqui... Antônio Vicente da Costa Júnior, que foi nosso rádio-ator também, foi diretor da Faculdade de Direito aqui do lado, e acho que ele é Desembargador, atualmente. Mais: Agnes Fontoura, Elza Martins… e o Jefferson Duarte, que merece um capítulo especial.
O Jefferson era operador e eu diretor de Rádioteatro. Ele tinha muita vontade de interpretar, e me pediu. Aí, foi fazendo papéis pequenos, foi indo, foi indo e foi a pessoa que eu convidei para trabalhar comigo quando fui para o Consulado Britânico. Ele foi meu "braço direito", lá, durante 14 anos. Era uma figura espetacular, uma voz linda. E revelou-se um excelente intérprete, além de continuar sendo operador. Tanto é que, no Consulado Britânico, ele era narrador e operador.

o E o Chico Anysio?

I.O. - Eu não me lembro do Chico Anysio aqui, não...

A L - Eu, também não. Sei que houve um concurso de rádioteatro, na Rádio Guanabara - feito pelo Afredo Souto de Almeida que era da Guanabara, também - e o Chico Anysio foi segundo colocado. Se ele trabalhou aqui - o que pode ter acontecido, porque muita gente desse rádioteatro veio pra cá -, eu não tive a oportunidade de trabalhar com ele..

o E o José Vasconcelos?

A.L. - José Vasconcelos era locutor, e teve participações eventuais nos programas de radioteatro. Tinha um programa aqui, produzido pelo doutor Darcy Evangelista, que foi uma figura famosíssima, na época - ele era caricaturista num jornal, escrevia sobre puericultura em outras publicações e, aqui, ele tinha um programa dedicado as mães, com músicas de Geny Marcondes, como não podia deixar de ser... E os participantes eram o próprio Dr. Darcy Evangelista, o Zé Acrisio, que era um locutor daqui - eu também participei varias vezes - e o José Vasconcelos, que fazia varias vozes num programa só, que é a peculiaridade dele. Era capaz de dizer um poema, como era capaz de fazer um garotinho jogando futebol com a turma, e também ser um locutor sério.

I.O. - E ele imitava outros locutores também. O Jatobá… Dentro do horário dele, ele imitava outros locutores, Dava na cabeça dele, e ele imitava outras pessoas também…

AO - Yeda, você falou que, no Reino da Alegria, vocês haviam feito todo o Monteiro Lobato. Tudo com a Geny Marcondes conduzindo?

I.O. - Não, eu acho que essa fase já foi da Silvia Regina. Fizemos as Reinações de Narizinho, ...O Poço do Visconde; Os Doze Trabalhos de Hercules, A Reforma da Natureza,... e por ai vai... tudo, toda a série infantil do Monteiro Lobato foi feita aqui na rádio.

o Todo dia tinha rádio-teatro?

I.O. - Não, o Reino da Alegria era de segunda a sexta de 5:30 às 6:00 da tarde, ao vivo.

o Havia dramatizações para as efemérides: 7 de setembro, Natal, etc.?.

I.O. - Sim, todas essas datas eram comemoradas na Rádio MEC. Muitos desses acontecimentos eram dramatizados, como rádioteatro..

o E quem escrevia?

A L- Dona Geny escrevia bastante. Silvia Regina escrevia, também.

I.O. - Ela era jornalista e professora. Tinha uma enorme facilidade, e um grande um poder de síntese. Uma peça que levava 2 horas ela condensava em 30 minutos e não perdia nada.

o E o Magalhães Graça?

I.O. - O Graça veio pra substituir o Jaime Barcelos. Ele era um grande ator.

A L - Embora ele tenha chegado um pouco depois da minha época, a influência dele na maneira de interpretar foi geral. Ele veio dirigir o rádio-teatro à noite e depois ele dirigiu um pouco do Reino da Alegria Diga-se de passagem que, além de ser um ator maravilhoso, o Graça era pianista. E não era pianista só, não - era pianista concertista. Então, a sensibilidade dele como artista era enorme. Ele foi aluno dileto da Madalena Tagliaferro.


o Luiza Barreto Leite?

A L - Ela teve uma passagem rápida, como diretora. Mas foi uma figura de teatro de bastante importância, que a gente deve considerar como integrante dos quadros da antiga Rádio Ministério, assim como Sadi Cabral, e como o Sérgio Viotti. Eu relacionei aqui os diretores que a minha memória registrou, desde Edmundo Lys: Mario Jorge, Sadi Cabral, Telmo de Avelar, Paulo Salgado, e Dilmo Elias. Na época do Governo JK, houve uma invasão de mineiros, aqui, desde o diretor, Celso Brant, que trouxe consigo o "Minastério". E aqui veio parar um diretor de rádio teatro...

I.O. - F. Andrade Eu ia falar dele agora…

AL - Nessa época, eu era diretor de rádioteatro e fui deslocado, voltei pra função de interprete, e o F. Andrade, sem conhecer o elenco, passou a ser o diretor de rádioteatro. Por isso eu prefiro que você fale, porque o que eu disser talvez possa soar como uma certa magoa que, realmente, não existe.

I.O. - O Sr. F. Andrade era uma pessoa muito tímida e quando ele pegou o elenco - um elenco muito bom, porque estávamos juntos a muitos anos, né? - , ele ficou deslocado. Mas ele não se colocou arrogantemente, não. Foi bem humilde. Ele veio da rádio lá de Minas, e tinha um programinha chamava-se "Conversa puxa Conversa" - sempre era um assunto atual e era muito rapidinho, tinha uma boa dinâmica. Mas ele conseguiu levar bem o tempo todo.

o E o Pascoal Longo?

AL - Pascoal Longo, quando eu cheguei aqui, era o principal produtor de programas da Rádio. Uma pessoa com uma facilidade enorme de escrever, de criar, e que fez, na minha opinião, a série de programas mais importante que já houve aqui. Chamava-se "Clube dos 13", e deve ter sido por volta de 56...57. Ele reuniu 13 escritores famosos, da época. Eu me lembro de Dináh Silveira de Queiroz; José Condé, que depois ficou escrevendo aqui pra Rádio; Marques Rebello, que também depois escreveu outros programas… enfim, foram 13 autores, 13 escritores. E cada uma história especial, para o nosso rádioteatro. E havia uma expectativa de quem seria o 13º programa. E o programa dava um livro de presente, porque a Rádio tinha muito disso. "O Reino da Alegria" dava sempre livros aos ouvintes - sorteava entre as cartas que recebíamos…

I.O. - Os programas de poesia do Geir também davam livros.

o Otto Maria Carpeaux?

AL - Otto Maria Carpeaux tinha uma crônica diária, aqui. Era uma figura facilmente encontrável nos corredores. Era um pouco difícil falar com ele, porque ele tinha um problema de articulação - independentemente de ser um estrangeiro - e falava com muita dificuldade.

o Miécio Hônkis?

A L - Esse, pra mim, também merece um pedestal aqui na Rádio. Miécio Araújo Jorge Hônkis. Era médico - quando jovem fez uma viagem à Amazônia - e, nunca tendo feito nada no rádio, achou que aquilo dava uma história. Chegou aqui com os textos em baixo do braço, e o René Cavé, que tinha uma visão espetacular - ele pressentia as coisas que poderiam dar certo -, concordou, e ele começou a escrever o programa, que se chamava "Viagem Maravilhosa" - as aventuras de um jovem médico na Amazônia descendo, não me lembro se era o Amazonas ou o rio Negro, acompanhado de caboclos, e contando histórias realmente maravilhosas. A partir daí, ele se tornou produtor radiofônico de primeira linha, ele fez "Esse mundo Maravilhoso"...

I.O. - Fez "Novos Horizontes", também, e no "Tribunal da Historia".

o Como era o formato desses programas?

A L - Rádioteatro. "Tribunal da História" era muito interessante. Era um Tribunal, que contava com um Relator e um Juiz como personagens fixos. O Meirinho iniciava o programa dizendo : "Está aberta a sessão! Em pauta, o julgamento de Maria Antonieta. Tem a palavra o senhor Relator para a leitura do processo." Isso era fixo. Ai, o Relator, que era o narrador, dizia: "De tanto a tanto, aconteceu isso, isso..." Então, num determinado ponto na narrativa, entrava o rádioteatro e voltava depois o narrador. E, quando terminava a exposição da figura ou do caso histórico, o Juiz dizia: "Tem a palavra o Sr. Promotor, para a acusação". Aí, o promotor dizia: " Ela deve ser condenada, por isso, por isso..." - e relatava os pontos de condenação, de acordo com o que havia sido apresentado antes. Depois era dada a palavra ao advogado de defesa que expunha seus argumentos. E os ouvintes, por carta, condenavam ou absolviam - para ganhar um livro. O programa era super-inteligente.

I.O. - E era muito ouvido: o volume de cartas era imenso. Um dia ele falou assim: "Eu me surpreendi ao perceber que a maioria das cartas era enviada por marinheiros que estavam em alto mar e que ouviam a Rádio MEC". E os julgamentos deles eram muito inteligentes, e ele ficou muito feliz com isso. E "Novos Horizontes" é porque ele também gostava muito de ciência, principalmente astronomia. O Miécio foi o fundador do Planetário da Gávea… Ele andava muito no Observatório Nacional e sabia de todas as novidades científicas. Foi ai que ele bolou esse programa "Novos Horizontes".

o E o Sadi Cabral?

A L - Sadi Cabral foi um grande mestre. Foi meu mestre, não só aqui, como no teatro. Havia um espetáculo anual, chamado "Poeira de Estrelas", que reunia gente de todos os elencos, e, num deles, eu tive o privilégio de ser dirigido pelo Sadi e ter contracenado com Oscarito. Depois, foi feita uma montagem do Mambembe, dirigida igualmente por Sadi Cabral, em benefício da Casa dos Artistas. Eu estava no elenco, também. De modo que, quando ele veio para cá dirigir o rádioteatro, nós já nos conhecíamos. Ele modificou, na época, o ritmo do rádioteatro daqui, porque ele era um pouco mais acelerado, e o rádioteatro nosso era um pouco mais descansado. Para mim, ele foi um mestre sensacional.

I.O. - Ele foi o mestre de todos nós. Quando entrou aqui, ele deu uma alavancada no pessoal. Ele gostava muito do teatro português. Nós fizemos quase tudo do Gil Vicente. Foi uma pedreira, mas saiu muito bem, e ele ficou muito satisfeito.

o Essas peças do Gil Vicente, também eram condensadas?

I.O. - Claro, eram condensadas em 30 minutos, direto, sem intervalos, e ao vivo. Ninguém errava.

o E a Aymê?

I.O. - Aymê foi do rádioteatro daqui, também. Ela fazia teatro de comédia, daquelas bem apimentadas, não é?, com aquele sotaque de baiana. Eu sou muito amiga dela e, quando ela veio pra cá, eu fui uma das pessoas que ajudaram a Aymê, porque ela, com aquele sotaque e vindo do teatro… O rádio é muito diferente do teatro. Mas ela se achou num programa de poesia que nós tínhamos.

o Dilmo Elias?

I.O. -- Dilmo Elias foi um dos últimos. Mas ele teve sorte, porque pegou um elenco fabuloso e não teve trabalho nenhum. Ele atuava muito pouco como diretor, porque só havia estrelas aqui e era muito difícil ele ensaiar aquelas estrelas todas. Nós fazíamos tudo, e ele quase não dizia nada. Agora no final, muitas pessoas foram saindo, umas foram para a dublagem, e entraram pessoas novas. Aí, sim, ele pode usar os conhecimentos dele como ensaiador e diretor de teatro. Mas ele foi um bom diretor e é uma boa pessoa.

o E o Telmo Avelar?

AL - Telmo D. Avelar. Ele vazia questão desse "D". Um intérprete de enorme talento, que veio do rádio comercial e foi um diretor que honrou sua presença.aqui. Aliás, foi com a saída dele que eu assumi a direção do Rádioteatro. Quando foi embora, ele escreveu um bilhete pra botar na tabela onde nós deixávamos as comunicações. Um bilhete super-simpático - que guardo com muito carinho - dizendo que deixava nas minhas mãos o rádioteatro, depois de uma série de adjetivos bondosos. O Telmo foi um diretor que passou por aqui deixando sua marca brilhante.

o Allan, fale do teu trabalho como diretor.

A. L - Quando passei a dirigir o rádioteatro, eu já redigia programas. É interessante dizer que, quando eu redigia o programa, a voz da pessoa para quem eu estava escrevendo, o tempo de leitura, a respiração da pessoa, estava tudo na minha cabeça. Você trabalha tanto tempo com as pessoas que passa a saber como elas respiram, com que ritmo elas falam, qual interpretação que vão dar. Então dirigir era muito fácil - o elenco era maravilhoso, Não houve uma vez que eu dissesse: "Puxa, escalei mal".

o O Estúdio A era conhecido como estúdio de rádioteatro. Houve algum plano, em alguma época, de fazer ali um estúdio mais completo?

A L - Não, acho que nunca passou na cabeça de ninguém fazer qualquer reforma ali. Para nós ele era um verdadeiro estúdio de rádioteatro. Servia perfeitamente pra finalidade. Tinha duas girafas, cada uma com um microfone bilateral - isso no começo, depois era um microfone omni-direcional, que capta o som de todos os lados -, um cantinho da contra-regra, cadeiras para os atores se sentarem enquanto esperavam, em suma, um ambiente perfeito para rádioteatro, com visão plena da técnica e contato visual com diretor e operador - quando o diretor ficava do lado de fora.

o A rádio produziu alguma novela?

A L - Novela, não. Mas teve coisas seqüenciadas. Por exemplo, eu fiz "Fogo Morto", seqüenciado, mas não posso chamar isso de novela. Era uma história que continuava no dia seguinte, mas não terminava num ponto de suspense, como é normal em novela.

I.O. - Eu queria lembrar o Garcia Xavier, porque ele é que era o narrador do Fogo Morto. Garcia Xavier, também foi um ator, na época, marido da Agnes Fontora. Ele me disse que foi você, Allan, que trouxe ele pra cá. Depois ele ficou no lugar do Paulo Santos, transmitindo os concertos do Teatro Municipal.

o Eu queria que você falasse, Allan, sobre a contribuição do rádioteatro nos programas educativos.

AL - É evidente que alguma coisa apresentada a várias vozes e dramatizada tem muito mais encanto que um programa feito a uma só voz ou a duas. Existe o que nós chamamos de "programa do sabido", onde o locutor sabe e todos os ouvintes não sabem. Estou me referindo a programas educativos, tipo depoimento ou palestra. O segundo formato primário de programa é "o burro e o sabido". São duas personagens: um entrevistador e um entrevistado - o entrevistador é o "burro" e o entrevistado, o "sabido"; o entrevistador é aquele que não sabe (posição que se acredita ser a do ouvinte), e o entrevistado é aquele que sabe, e vai transmitir seus conhecimentos ao entrevistador e a todos aqueles que ouvem. Existe uma forma muito mais suave de transformar aquilo que tem que ser passado aos ouvintes, aquilo que tem que ser mensagem positiva de ensinamento, de educação, no sentido amplo da palavra, e que é muito mais encantadora, muito mais suave e muito mais gostosa de se ouvir: quando há várias vozes e, principalmente, quando é dramatizado. Portanto, a utilização do rádioteatro em programas educativos é da maior importância - é a maneira mais suave e interessante de se passar para o ouvinte aquilo que se deseja que ele aprenda. Não vejo outra forma, melhor, no rádio.

I.O. - Tanto a obra cientifica, como a literária, em rádioteatro acho que a gente assimila muito mais rápido.

A L - E deixamos de tocar no que eu considero o ponto mais importante: o apelo à imaginação - aquilo que o rádio tem de mais poderoso e que deixa a televisão a centenas de anos luz. A televisão dá tudo como pronto - quem assiste à televisão não tem margem pra criar, na sua imaginação, o que é o ambiente, o que é a figura, o que é o comportamento da figura, o que é a maneira de falar. Ouvindo pelo rádio, você cria na sua imaginação a figura que quiser - a mulher bonita do rádio é a mulher bonita que você quer, é a mulher que você imagina bonita; um ambiente pobre no rádio, é um ambiente pobre que você sabe que é um ambiente pobre, e não aquele ambiente pobre que um cenógrafo idealizou. Eu acho que o mais forte do rádio é onde, infelizmente, ele não está sendo aproveitado: o apelo à imaginação. As crianças de hoje recebem tudo pronto e não têm esse apelo. A imaginação, o poder de criatividade dessas novas gerações estão sendo tolhidos. Não sei como serão os escritores do futuro.

o Há pouco vocês falaram que quando as peças começaram a ser gravadas, vocês erravam, e antes, não. Por quê?

I.O. - A gente errava por isso, porque, muitas vezes, você não concorda com o que você fala. Antes, a gente acabava de falar e: "puxa podia ter dito isso melhor" - mas era ao vivo e ia assim mesmo, e dava certo. O nosso nível de exigência fica maior quando você tem uma fita. Eu lembro que o Allan, quando vieram as fitas, ele mandava a gente ouvir. "Você concorda com o que você disse?", e muitas vezes a gente não concordava, não..

o Ao que parece, de todo o rádioteatro feito aqui na Rádio MEC, o que sobrou foram cerca de 60 peças radiofônicas, adaptadas, traduzidas ou mesmo escritas pelo Sérgio Viotti. Eu queria que você falasse do Viotti e desse trabalho.

I.O. - Quando eu comecei, quem estava no radioteatro eram pessoas que não eram de teatro: eram de rádio, mesmo. A dinâmica do teatro é muito diferente da dinâmica do rádio, e o Sérgio Viotti, eu sinto que ele se adaptou muito bem ao rádioteatro. Ele é um homem com muita cultura, com muita sensibilidade, e sabia extrair do ator o máximo que ele podia dar. O elenco de suporte daquela época não era muito grande, mas éramos muito bons e muito amigos.

o Como era a mecânica do trabalho?

I.O. - Como bom diretor de teatro, ele explicava e dava a linha do personagem. Veja bem, a pessoa tem uma formação de rádioteatro e ele vem com uma personagem de um teatro francês, por exemplo, que eram peças ligeiras, e que tem que ter um ritmo também rapidinho. Então, ele falava sobre a peça, falava sobre o autor, falava sobre a época em que aquela foi escrita, como era a linguagem da época, como era a época e inseria a peça. Claro que na época dava a linha de cada um e muitos tinham dificuldades, ai ele dava mais informações pra ajudar. Mas era como se fosse um teatro.

o Rememorando, então, os textos que foram feitos aqui: tem "Fogo Morto"; tem todo o Monteiro Lobato; tem as peças do Miécio Hônkis, tem "O Clube dos 13", e o Teatro Sérgio Viotti. O que mais?

A L - Tem o "Ouvindo, Lendo e Contando", que era o programa que eu herdei da Fernanda Montenegro. A Fernanda tinha um programa chamado "Lendo e Contando". Ela se afastou da Rádio e eu continuei. Fiz alguns com o mesmo título, e depois passei para "Ouvindo, Lendo e Contando", que também eram radiofonizações de contos. Esse programa ficou no ar 5 anos.

o Foi gravado?

A L - Claro que não foi gravado, nada foi gravado. Quer dizer, houve gravações, sim, em discos de acetato de 16 polegadas. O técnico de gravação era o senhor Antônio Tognetti, o "seu" Tognetti, como o chamávamos. O equipamento que ele manejava tinha um microscópio. A agulha tinha que ser colocada no ponto certo, para começar a riscar os sulcos. A gravação começava e, de repente, alguém errava. Era como se pisassem num calo do "seu" Tognetti: com uma chave de fenda, ele riscava os sulcos já feitos e iniciava um novo sulco mais adiante. Se acontecia outro erro, ele jogava aquele acetato fora e pegava outro disco virgem. Mas isso tudo se perdeu. O que o Sérgio Viotti gravou agora, é resultado de uma tecnologia mais avançada, que permitiu que tudo fosse gravado com facilidade. Nós, Yedda e eu pegamos a gravação em fio, em arame, que, de repente, embolava e todo o trabalho era jogado fora, porque não servia mais pra nada. Depois, veio a fita, mas o acetato foi anterior a tudo isso. Mas era uma dificuldade gravar um acetato. Os programas eram sempre feitos ao vivo e, quando o ator tomava conhecimento de que, naquele dia, ia ser gravado, ficava mais apavorado do que os atores de hoje em dia ( cujos trabalhos são todos gravados e só são exibidos depois de devidamente editados, equalizados, etc.), ao receberem a notícia de que terão de fazer uma apresentação "ao vivo". Eles vão tremer do mesmo jeito que nós tremíamos, quando diziam, "vai ser gravado". É estranho, mas é verdadeiro.

I.O. - Verdade. Sobre o trabalho de poesia, nós tivemos a Íris de Carvalho, que tinha um programa muito bonito chamado "Presença da Poesia". E outro dela, também, é "Mulheres Inesquecíveis", todas as mulheres da história ela enfocou, utilizando o rádioteatro. Geir Campos tinha o "Poesia Viva", ele fazia um concurso em que os poetas novos traziam seus trabalhos e, ao final, o primeiro colocado tinha as poesias editadas e os demais colocados recebiam um livro de poesia. Foi uma figura muito importante na Rádio MEC, o poeta Geir Campos.

AL - Seria bom deixar registrado, fosse no rádioteatro, fosse na música, fosse na locução, fosse no que fosse, o nome de René Cave, a quem essa rádio, se não deve tudo, deve quase tudo.

I.O. - Uma pessoa, um diretor de rádioteatro que a gente esqueceu foi José Valuzi. José Valuzi ainda está na ativa e foi uma pessoa que também teve uma passagem brilhante pela Rádio MEC.

o Allan, você acha possível que haja uma revitalização do radioteatro, no Brasil?

A L - A cabeça dos nossos dirigentes é como a pena do juiz: você nunca sabe o que vai sair dali. Há pouco tempo, um governante brasileiro teve uma idéia feliz de tentar revitalizar o rádioteatro, lá no extremo norte, lá no Amapá. Num primeiro momento, fui convidado a orientar um grupo de intérpretes locais. Fui e me apaixonei. É uma gente séria, talentosa, que pode surpreender, se houver interesse dos governantes em proporcionar as mínimas facilidades necessárias, o que estou aguardando até agora. Aquilo fez sacudir o meu coração. Vai sair dali um gen que pode se desenvolver por esse Brasil a fora. Porque a não existência do rádio de broadcasting, do rádioteatro, a triste constatação de que o rádio transformou-se nesse monocórdico vitrolão, é triste pra nós que conhecemos uma outra importância do rádio, o rádio servindo a um outro propósito. Agora, tudo mais que se poderia dizer entra no terreno da utopia, aquilo que nós gostaríamos que fosse e que não é. Um dia, ainda haveremos de ter um dirigente, alguém com força suficiente pra dizer: "Vamos renascer o rádioteatro" e ai todos vão saber, essas novas gerações, qual a importância desse gênero de arte.

 



© Copyright SOARMEC 1999 -2005. Todos os direitos reservados.