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Ouvinte Permanente

por Carlos Acselrad


Música (na cadeira) elétrica

No final dos anos 1960, os alunos do curso de composição da Escola de Música da UFRJ reuniram-se para a sessão semanal do seu Grupo de Estudos. Entre outros objetivos, pretendia-se discutir música contemporânea (o que, a rigor, nunca chegou a acontecer), ouvir palestras de compositores e realizar audições críticas das próprias obras. Naquela reunião era aguardada a apresentação da composição de um dos colegas alunos a qual ele anunciara como Concerto para mi bequadro, fita magnética e Radio Ministério da Educação. Ao chegarmos ao auditório, o autor já lá estava envolvido em fios e aparelhos entre os quais eram reconhecíveis um rádio e um gravador de fita. A reunião se realizava após as aulas, entre 6 e meia e 7 da noite. Este detalhe foi determinante na estréia do Concerto: após breve explicação sobre o modo de produção do mi "bequadro", da pré-gravação da fita e da utilização do rádio, o autor ligou botões e fios e, para surpresa geral, desligou imediatamente. Com expressão desolada explicou: a obra não podia ser executada naquele horário: todas as estações estavam transmitindo A Voz do Brasil, e a partitura não fora escrita para Voz do Brasil, mas para Rádio MEC.
O compositor do Concerto... revelou-se, ao longo da carreira, capaz de compor música de conteúdo artístico evidente e de exigida competência Por outro lado, graças ao programa Eletroacústicos (MECFM, quartas, meia-noite) ficamos sabendo (e pudemos ouvir) que o mi bequadro já fora solista de outra obra anterior ao frustrado Concerto (era uma peça para mi bequadro e harmônico)).
Caber-nos-á discutir hoje - e aqui - o que significou um precursor como Stockhausen? Da mesma forma o que se assa nos micro-ondas do Laboratório de Música e Tecnologia da UFRJ? A única impressão possível é a de que se trata de algo transcendente à música dos mortais, e que paira nas nebulosidades da filosofia. Recolhamo-nos pois à modesta condição de acusmatas (aqueles alunos de Pitágoras a quem se permitia apenas ouvir, atrás de cortinados, as discussões dos matematas). Isto se torna possível graças, por exemplo, ao já aqui citado programa Supertônica que a MEC FM retransmite, também cuidadosamente, depois da meia-noite. Há nele tempo reservado à chamada "investigação do gosto" em que se submete trechos
de música clássica à opinião do povo, sem seleção de classe (curiosamente, quando ouve clássicos, barrocos ou românticos, o adjetivo quase unânime é "relaxante"). Quando defrontado com eletroacústicos, o povo se recusa a acreditar que é música e faz comparações com instâncias produtoras de ruído (de bateria de escola de samba a desastre de avião). O resto do tempo se destina a algum músico brasileiro, de qualquer função.
Um programa recente deu espaço a uma incrível entrevista: compositor (sic) brasileiro radicado nos USA, formado pela Julliard School (!), professor, uma obra comissionada pela Filarmônica de NY (!!). Em meio a um discurso taquilálico - claramente destinado a não ser entendido - ouve-se o seguinte: "...então, eu tenho trabalhado muito, ultimamente, com essa coisa ... assim... da modulação micrométrica... porque atualmente inclusive assim..." - Desculpe, um momentinho: o que é isso de modulação micrométrica?". " - ...então, é essa questão assim... de 9 em tempo de 7, 10 em tempo de 5... entende?". " - Sim, acho que se trata de quiálteras, um ritmo irregular... mas por que modulação?". " - Então, pois é... nós temos trabalhado nessa questão inclusive com meus alunos..." etc e tal e coisa, ou seja: o professor não sabe do que está falando.
Ao que nós, plebe, saibamos, nenhum dos nossos mais importantes compositores aderiu à eletricidade ou ao borbulhar de peixinhos no aquário ou ao paralama de Chevette 74 como instrumentos musicais. Como os Pendereckis e Lutoslavskius e Boulez, continuam satisfeitos com o piano ou a velha orquestra sinfônica. Não fora a evidência deste fato forçoso seria reconhecer: realmente não é mais possível usar sons para produzir música - resta-nos o ruído. Essa constatação nos remeteria à questão do velho e do novo. O conhecido mecanismo da associação de idéias leva o conceito de velho para junto do feio, desgastado, sujo, inútil: o novo é beleza, potência, renascimento. A busca do novo - tanto em arte como até em política - é unamimemente vista com simpatia e até entusiasmo; preservar o velho... nem tanto.
Conta-se que Villa Lobos, já com certa fama na Europa, seguiu conselhos e foi ao Instituto Nacional de Música inscrever-se no curso regular de composição. Na entrevista com o diretor, o famoso Francisco Braga, manifestou sua intenção mas já foi demolindo o Instituto, seu currículo, professores, métodos de ensino, reduzindo tudo a pó soterrado sob um qualificativo: ultrapassado. O diretor teria ironizado: "mas, pelo menos, o senhor pretende usar as mesmas sete notas que nós?".



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