de Utilidade Pública Federal - Portaria no. 3935
de Utilidade Pública Estadual (RJ) - nº2464
de Utilidade Pública Municipal (RJ) - nº3048
detentora do Prêmio Estácio de Sá 2002
A Soarmec Links

 

Ouvinte Permanente

por Carlos Acselrad


Datas redondas, tempos bicudos

As palavras re­me­­­morar e co­me­­­­morar deveriam ter signi­­ficados praticamente iguais. No entanto, quem rememora está lembrando repetidamente; já quem comemora também lem­bra, só que conjun­tamente. Ocorre que o uso terminou por atribuir conteúdos afetivos quase opostos: rememora-se eventos lamentáveis e come-mora-se os festivos. Derrotas são rememoradas, vitórias comemoradas. Ambos obedecem a critérios periódicos variados mas o preferido, sem dúvida, é o das chamadas datas redondas. Assim, este ano rememorou o centenário de uma das maiores catástrofes da história – o naufrágio do navio Titanic. Se recuarmos redondamente mais cem anos vamos estacionar no ano de 1812. Em matéria de catástrofe também estaríamos bem servidos: Napoleão, empenhado em conquistas, remeteu seu exército de 600mil soldados para a Rússia. Distribuídos entre conge-lamento e tifo, morreram 400 mil homens. O czar mandou considerar o desastre francês uma vitória militar (não sem aproveitar para provar ao povo que Deus era russo), passando-se desde então a comemorar o 1812 sempre que isto fosse do interesse de algum poderoso. Foi assim que, em 1882, uma Vossa Alteza lá chamou Tchaicovski e encomendou: “Faz 70 anos que derrotamos os franceses em 1812, uma data que anda ficando meio esquecida: escreve aí uma coisa bem sinfônica, tipo assim heróica, sabe como é?”
Num salto de 200 anos adiante no tempo, e num percurso Moscou-Campo de Santana no espaço, eis que nos deparamos, neste 2012, com a SOARMEC come-morando 20 anos de fundação e este Amigo Ouvinte a publicar seu número 50. As batalhas que a SOARMEC e seu jornal enfrentaram foram vitórias, como comprova a sua simples sobrevivência. Em meio à crônica falta de recursos, os Amigos Ouvintes não chegaram a lutar contra o inverno russo, mas passaram muito frio na espinha; não tiveram tifo, mas muita virose febril. A própria música mal sobrevive na cidade, sempre com febres e calafrios: os dois grandes ícones do concerto (Sala Cecília Meireles e Municipal) são enigmas feitos de obras intermináveis, semi-reinaugurações e adiamentos ao som de desaba-mentos no vizinho. Estranhamente, ao mesmo tempo, o terceiro ícone da música clássica – a Rádio MEC – recolher-se-á também para obras, o que implicará não
apenas em cadeiras viradas sobre as mesas (preocupa-nos, por exemplo, o destino do patrimônio material e, muito especialmente, o destino do valiosíssimo acervo de gravações históricas).
É óbvio que, assim como tentamos nos esquivar dos tempos bicudos, sofremos incontornável atração pelas datas redondas. Assim, a rádio registrou (no programa “Som de letra”) o centenário de John Cage (n. 1912). Ele aparece lendo obra sua, para voz acompanhada, claro, por um violino, um cachorro e um caminhão de entulho. O texto é o famoso Finnegan’s wake, de James Joyce (que raros críticos se atreveram a dizer que entenderam). Cage destroçou de tal maneira o conceito de música que Pierre Boulez o chamou de “macaco performático”. De qualquer modo, é impossível não vincular a Cage os pioneiros da música “concreta” com a subversão dos instrumentos tradicionais e uso de objetos não propriamente musicais – cabe aqui breve retorno ao 1812: teria sido Tchaikovski, com seus tiros de canhão na partitura, o primeiro concreto da história? E os contemporâneos eletroacústicos? Não deverão nada a Cage? Ouvindo-o a declamar o Finnegan’s wake não nos envergonha boquiabrirmo-nos: esta perfor-mance (Boulez não estava brincando), acontecia há 60 e tantos anos atrás e se dizia uma composição musical (ao mesmo tempo em que Bartok e Shostakovitch inventavam música – é verdade que também eram contemporâneos Messiaen e Stockhausen). Só nos resta considerar estas décadas como tempos bicudos que invalidam qualquer data redonda que nos seduza comemorar. Pois bem – conside-remos comemorados os eventos redondos, mas é imprati-cável ignorar os bicudos. É inevitável lembrar da eletroacústica, que hoje convive alegremente com a músi-ca apenas acústica dentro das principais universidades (as européias aceitam bolsistas de todo o mundo, dos quais os brasileiros constituem boa parte). É preciso ouvi-los e entendê-los, embora sua linguagem seja impenetrável para quem ignora o que seja, digamos, estender consoantes oclusivas num tempofone digital de um reprodutor com quatro cabeças processadas num sampler analógico capaz de levar a materialidade verbal da fonte sonora original à mais absoluta ininteligibilidade. São comuns no universo eletroacústico aqueles compositores provenientes de cursos de engenharia ou física. As trajetórias são variáveis – e às vezes surpreendentes: ouvimos de um compositor brasi-leiro radicado no exterior, textualmente: “Bom, eu comecei com guitarra na banda de rock, aí fiz um pouquinho de composição na UFRJ, fiz aula em outra faculdade e ganhei bolsa pra trabalhar com pesquisa na Espanha”.
O discurso dos nossos – vá lá – compositores eletroacústicos varia, portanto, entre esta comovente inge-nuidade e uma ameaçadora complexidade. A própria complexidade é variável. O discurso simplesmente eletroacústico é compreensível apenas pelos iniciados: é preciso conhecer um sampler, seu número e data de fabricação, bem como sistemas de amplificação pelas marcas e nacionalidades, além de geniais técnicos de som da rádio de Colônia ou professores franceses que tiveram Boulez como aluno – só nos resta recolhermo-nos a nossa insignificância e conferir na memória se tomada é mesmo aquela coisinha com dois pinos que se enfia na parede. Por outro lado há que reconhecer, na complexidade que nos alcança em raras entrevistas, uma séria intimidade com outras áreas intelectuais, como a música propriamente dita, a literatura e até a política. Assim, é possível ouvir uma versão eletroacústica da tragédia grega Medeia, a qual, ao contrário de um esperado gênero ópera, dispensa o libreto; cabe deduzir, por exemplo, que aquele ruído de ressaca na costa do Havaí representa a personagem principal. Pudemos, também, conhecer uma obra que leva o subtítulo Hommage a Trotski (o próprio autor, que comenta superficialmente a peça numa linguagem francamente literária e exibindo respeitável cultura, se declara trotskista) Aqui também o ruído que abre a composição (violenta freiada de carreta seguida do espatifar-se de um piano de cauda no asfalto) deve ser referência à picaretada no crânio que matou Trotski. Tendo ouvido umas 20 ou 30 obras do gênero, torna-se indisfarçável a grande semelhança geral, se não na forma, no material usado como fontes sonoras. Embora já alocado em universidades muito procuradas por candidatos a compositores do gênero, e mesmo crendo num depoimento também de compositor brasileiro – “a receptividade do público lá fora é muito grande” –, é forçoso reconhecer que a coisa permanece envolta num clima de comédia inconseqüente que conti-nua mantendo o suposto ouvinte de música à distância , revelando uma expressão de incredulidade ou deboche. Esta semelhança nos permite imaginar que exista uma espécie de banco de dados – de estoque ainda restrito – onde os músicos vão buscar suas fontes sonoras. Alguém chegaria a forjar um diálogo no balcão: “Eu queria uns dois minutos e quinze segundos de pia entupida” – “Pois não; o sr. pode escolher: vazia, meio cheia ou transabordando?” – “Transbordando, obrigado. E demolição, vocês têm aí?” – “Temos várias... inclusive uma implosão de viaduto, acabou de chegar” – “Não, não, nada de modernidades; quero a tradicional – marretas, britadeiras, portões ran-gendo as molas enferrujadas antes de desabar...” – “Mais alguma coisa?” – “Sim, animais – qual é a dispo-nibilidade?” – “Todos: desde mamíferos ferozes a canários belgas ou peixinhos borbulhando no aquário” – “Girafa... tem?” – “Girafa... olhe, realmente tem, mas desculpe, o ­­sr. certamente sabe que... a girafa é muda” – “É claro que sei e é justamente do que preciso: a obra vai incluir uns dez minutos de girafa no trecho que transfigura o silêncio numa elaboração poética de si mesmo... entende?”.
O centenário de nascimento de John Cage mereceria significativas comemorações (embora grande parte do mundo da música preferisse rememorar). É dos raros relativamente conhecidos, muito provavelmente por sua obra para piano em que o pianista senta-se ao instrumento, abre a parte na estante e fica imóvel e em silêncio durante 4 minutos e 33 segundos. Foi pouco.


e-mails contra a coluna: acsel39@gmail.com

 

Copyright SOARMEC 1999 -2012. Todos os direitos reservados.